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Olá e sejam bem-vindos a mais um episódio de "Pela Sua Saúde", o podcast que põe a saúde em primeiro lugar e que procura analisar o estado da saúde em Portugal. Hoje falamos sobre a importância da vacinação e sobre o Programa Nacional de Vacinação, uma das políticas públicas de saúde mais marcantes das últimas décadas. Tenho comigo Nuno Jacinto, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar. Bem-vindo, Nuno. Obrigado por ter aceitado o convite.
Olá, obrigado pelo convite. É um prazer estar aqui nesta sessão sobre vacinação e sobre o nosso Programa Nacional de Vacinação.
Nuno, o Programa Nacional de Vacinação português completa 60 anos em 2025. Foi decisivo para os ganhos em saúde da população portuguesa?
Foi, sem dúvida. Foi talvez a medida de saúde pública que teve maior impacto na população em Portugal. É um programa que, como dizia, já tem várias décadas, 60 anos, e durante estes 60 anos, é óbvio que as doenças abrangidas por este programa de vacinação tiveram uma alteração profunda da sua incidência e da sua prevalência. Muitas delas não existem praticamente em Portugal e, portanto, sim, o impacto é inegável, é muito grande e mudou completamente aquilo que é o paradigma da saúde em Portugal.
Nos mais idosos, na população mais velha, ainda existem marcas de infâncias sem vacinas?
Existem algumas. Começa a ser cada vez mais ténue, porque as pessoas que não foram vacinadas vão avançando na idade e muitas delas vão falecendo e já não estão entre nós. E de facto, nem todas elas também tiveram estas doenças, que são cobertas agora pelo Programa Nacional de Vacinação. Mas ainda encontramos alguns casos, sobretudo de sarampo, de outras doenças para as quais não havia vacinas há algumas décadas, e encontramos pessoas que as tiveram e que têm algumas sequelas, mas começa a ser cada vez mais raro e felizmente que assim é.
E no atendimento, o médico de família consegue ver claramente o antes e o depois do Programa Nacional de Vacinação?
Consegue-se perceber, mas cada vez essa diferença é mais ténue. Vamos tendo contacto com cada vez menos pessoas e pessoas com sequelas é cada vez mais raro, porque já vamos seis décadas de PNV e, portanto, com estas seis décadas é natural que na nossa consulta apareça um número cada vez menor de pessoas que ainda tenha tido o impacto destas doenças.
Nuno, quais são hoje as principais preocupações dos pais na hora de vacinar os filhos?
Eu acho que hoje são muito semelhantes àquilo que eram ontem ou anteontem. Primeiro, se as vacinas são eficazes, que efeitos secundários é que podem dar, para que servem, por que temos que fazer as vacinas. Mas, felizmente, em Portugal, a questão da vacinação é algo que está muito bem enraizada na nossa população, sobretudo na idade pediátrica e, portanto, a esmagadora maioria dos pais reconhece logo à partida os benefícios da vacinação. E muitas vezes as questões são mais pontuais, do: "O meu filho está doente neste momento, pode fazer a vacina agora ou não? Vai poder ir à escola? Vou ter que fazer alguma coisa a seguir? Que vacinas é que existem fora do programa que eu possa ter que comprar?" Não é tanto uma questão de desconfiança, felizmente, são muitas vezes questões mais práticas de índole pragmática da vida de uma família naquele momento.
O Programa Nacional de Vacinação tem vindo gradualmente a ser alargado, mas há sempre novas vacinas extra plano. Como é que se encontra o equilíbrio nas políticas públicas entre o que faz sentido comparticipar ou não para toda a população, Nuno?
Basicamente, a lógica é perceber, tendo em conta o custo de cada vacina e o custo que ela vai ter aplicado de uma forma geral à população, qual será o benefício que vai ocorrer se isso acontecer. E, portanto, é sempre pesar esta balança, este custo e o benefício, e quando esta relação é favorável, ou seja, quando os benefícios suplementam os custos, as vacinas vão sendo progressivamente introduzidas no Programa Nacional de Vacinação. Foi isso que aconteceu com todas as vacinas que temos no PNV. Com as mais recentes, então, isso é óbvio. Estas introduções são alvo de uma análise profunda por parte da DGS, das tutelas, de quem está naquele momento no governo, para garantir que o investimento que todos nós fazemos numa vacina que entra no PNV vai obviamente ter retorno. E esse retorno vê-se um pouco como aquilo que estávamos a falar logo no início, com os benefícios em saúde, com a ausência de doença ou pelo menos com a atenuação das suas consequências. É esta a razão para se introduzir uma vacina no PNV ou não.
Considera que devem ser introduzidas outras vacinas no Programa Nacional e que neste momento não estão contempladas?
Eu acho que devemos estar sempre atentos e devemos manter uma atitude aberta. Obviamente que a questão orçamental é importante e temos que gerir o orçamento do país com cuidado e com critério, como é óbvio, mas temos que manter a atitude aberta para aquilo que é a evidência científica e para aquilo que é o avanço da própria ciência na área das vacinas. E, portanto, há sempre vacinas novas que vão aparecendo e sempre que surge uma nova vacina, coloca-se esta questão e essa análise vai sendo feita. Não há razões para estarmos pessimistas ou para desconfiarmos das nossas autoridades. Sempre que houve evidência de que uma vacina era benéfica em termos populacionais e não apenas a um nível individual, as vacinas foram sendo introduzidas e, portanto, estamos certos que assim continuará a ser no futuro, no curto e no médio prazo.
Muito bem. Sente que há necessidade, e hoje em dia fala-se muito disso, da literacia em saúde dos cidadãos, sente que há necessidade de promover a literacia nesta área das vacinas? Ou não.
Sim, apesar do que eu disse anteriormente, que há genericamente uma grande adesão da população portuguesa às vacinas, é sempre um tema que tem que continuar a ser trabalhado precisamente para não sairmos deste patamar de excelência onde estamos. Atualmente há muita desinformação, há muitas notícias falsas. Há em vários países focos grandes de campanhas antivacinação.
Estão a crescer os movimentos antivacinação, não é?
Vão crescendo pela Europa, notamos isso mesmo na América, nos Estados Unidos, e vamos ouvindo notícias até de casos de doenças que são importadas por pessoas provenientes desses países e que aparecem em Portugal. E portanto, temos que ter atenção. Não podemos baixar a guarda, digamos assim, temos que manter esta atitude de promoção da importância das vacinas e de manter a confiança da população nas vacinas que estão disponíveis através do PNV e também outras que possam existir sem ser do PNV.
A desinformação sobre esta questão das vacinas é um tema que preocupa os médicos de família?
Sim, claro, preocupa todos os médicos que lidam com utentes que são alvo de vacinas. Compete-nos a nós, enquanto profissionais de saúde, e aos outros membros das nossas equipas, claro, transmitir a informação mais correta, mais atualizada, contribuir para desmistificar algumas ideias erradas e obviamente esclarecer as dúvidas e voltar a frisar isto mesmo: as vacinas são seguras, são eficazes, tiveram um gigante impacto na saúde pública e se precisássemos de melhor exemplo, tivemos a pandemia recentemente, onde isso ficou mais do que patente.
E já agora, qual foi o impacto da Covid-19 na perceção pública da importância da vacinação?
Provavelmente houve aqui um impacto paradoxal. Por um lado, se nos lembrarmos do início da pandemia, todos nós ansiávamos pela vacina e quando ela surgiu, foi algo que nos deu imensa esperança, e de forma justificada, porque de facto a vacina da Covid-19 mudou o curso da pandemia e, portanto, houve ali uma adesão enorme em Portugal à questão da vacinação Covid-19.
Em certa medida, terá também mudado um pouco o curso da investigação, porque nunca se tinha produzido uma vacina num tempo tão curto, não é?
Sem dúvida, e com a capacidade que houve de adaptar a vacina às várias vagas da pandemia que foram existindo, e isso também é muito importante. Agora, claro que com tantas doses, com tanta necessidade de realizar vacinas de forma seriada, há aqui um fenómeno de fadiga vacinal, ou seja, as pessoas vão se cansando, digamos assim, da questão das vacinas. E isto depois acaba por ter algum impacto no médio prazo, ou seja, o que nós vamos vendo é que depois é mais difícil que as pessoas hoje em dia se vacinem contra a Covid-19. E isso pode levar por arrasto algumas outras vacinas, nomeadamente aquelas da idade adulta. A vacina da gripe é um bom exemplo, que muitas vezes é feita em simultâneo, ou outras que sejam feitas nos adultos. Nas crianças, isto não se nota tanto. A adesão ao PNV na idade pediátrica é muitíssimo grande, continua a ser, e continua sempre a ser uma das grandes prioridades dos pais. Na idade adulta, podemos ter este fenómeno de fadiga vacinal. E, portanto, cabe-nos também, mais uma vez, passar a informação correta e referir que sim, é verdade, temos mais vacinas agora, passamos por uns anos em que fizemos muitas vacinas, mas continua a ser necessário olhar para a sua importância, acreditar nelas e acreditar não por uma questão de fé, mas por uma questão de evidência científica que existe e que é muito sólida.
E o que é que nos reserva o futuro em termos de investigação na área das vacinas, Nunes Jacinto?
O futuro eu diria que nesta área é sempre promissor. Há sempre muitas patologias que estão a ser investigadas. Temos uma área que já vai existindo hoje em dia, que são as vacinas para as alergias. Obviamente, continuamos com vacinas para as doenças infecciosas. Trabalha-se muito na vacina da tuberculose, na vacina da malária, na vacina do HIV, que é uma eterna promessa. E, portanto, continuamos a ter muita coisa em desenvolvimento, também para alguns vírus da área respiratória e gastrointestinal. Felizmente, nós na Europa e em Portugal vivemos numa bolha privilegiada, em que as doenças infecciosas, muitas delas estão controladas, mas não é assim em todo o mundo e portanto, temos doenças com impacto grande a nível mundial. E também para garantir que não temos os tais casos importados e os tais surtos repentinos devida essa razão, é importante que estejamos atentos a estas novas vacinas que por aí vêm. Não pensar que isto é uma coisa só para os outros, mas certamente teremos aí muitas e boas novidades nos próximos anos.
Falava dos surtos que vêm de fora. Existem cada vez mais ciclos migratórios. Faz sentido, quando chegam a Portugal, por exemplo, os imigrantes fazerem uma avaliação do seu estado de saúde para perceber até qual é o seu plano vacinal?
Sim, faz sentido que quando chegam a Portugal, estas populações, estes indivíduos, tenham acesso aos cuidados de saúde, sobretudo isto, e que consigamos dar resposta. Ao assumirmos enquanto país que acolhemos estas pessoas, seja qual for o motivo, é importante que sejamos capazes de lhes prestar cuidados de saúde por eles e por todos nós. E isso é um ponto fundamental. E novamente, os cuidados de saúde primários e os médicos de família vão estar na linha da frente, apesar das dificuldades que nós sabemos que existem nesta área em Portugal. Mas é fundamental que sim, para já, para que estas pessoas também se sintam integradas e para que nós também saibamos qual é a sua eventual carga de doença, quais são as patologias que têm, se têm ou não sequelas de alguma doença prévia relacionada com esta questão da vacinação. E sim, o que é que temos que fazer a nível vacinal para garantir a cobertura da nossa população e garantir que também estas pessoas que estão cá conosco estão protegidas de todas estas doenças.
Muitos destes imigrantes chegam já à idade adulta. Deveria existir um calendário específico para adultos no Programa Nacional de Vacinação? E já agora, se ele deveria também ser focado nos adultos e não apenas nas crianças?
Esta é uma coisa que se fala cada vez mais, a vacinação em idade adulta. Na realidade, o Programa Nacional de Vacinação já tem algumas vacinas em idade adulta. Por exemplo, a vacina do tétano é feita de forma periódica, a vacina da gripe é feita em idade adulta em grupos específicos, em idades específicas, a vacina da pneumonia, por aí fora. Mas sim, é importante que quando pensamos nisto, não nos foquemos apenas na idade pediátrica. Se calhar, aqui é também uma questão mais de marketing, de divulgar que o Programa Nacional de Vacinação já tem o próprio um calendário para adultos. Obviamente que é um calendário mais curto, há menos vacinas feitas na idade adulta do que na idade pediátrica, mas este cenário vai mudando ao longo dos anos e há cada vez mais vacinas a serem desenvolvidas e com potencial de entrarem no nosso PNV. E, portanto, sim, esta é uma mensagem importante. As vacinas não são só para os bebês, não são só para as crianças, também os adultos têm várias vacinas que podem e devem fazer. Os adultos jovens, por exemplo, a vacina do HPV, os adultos mais velhos, quando falamos destas vacinas da área respiratória, por exemplo.
Há a crença de que as vacinas são apenas para as crianças, não é? Ou essa ideia já morreu?
Sim.
Ainda persiste?
Ainda persiste. Nós fazemos muitas vacinas às nossas crianças, é verdade. Há esquemas de várias doses das mesmas vacinas e aqueles primeiros anos de vida têm uma carga mais intensa, isso é inegável, mas ainda bem que assim é, é necessário que assim seja. Não nos podemos esquecer é que ao longo da nossa vida continuam a existir algumas vacinas recomendadas, até integradas no Programa Nacional de Vacinação, e que todos devemos cumprir e que todos devemos fazer, para garantirmos a nossa proteção individual e a proteção da comunidade em que nos inserimos.
Diria que esse é o maior desafio quando se fala da vacinação ao longo da vida, ou seja, combater esse, entre aspas, esquecimento?
Claramente, sim. E um esquecimento por parte de todos. Por parte da comunidade científica, por parte dos profissionais de saúde e por parte de cada um de nós enquanto utente. Volto a insistir, temos que nos lembrar que as vacinas nos protegem ao longo de toda a vida, que algumas são feitas na idade adulta, muitas delas são feitas até na idade mais avançada e, portanto, não é por acharmos: "bem, eu agora tenho 40 ou 50 anos, não preciso me preocupar com vacinas durante as próximas décadas". Não é assim, até porque, como referi anteriormente, o Programa Nacional de Vacinação está em constante atualização e o que hoje é verdade, amanhã pode não ser e de repente pode haver aqui uma indicação para uma outra vacina. E se olharmos para as últimas décadas, de facto, isto mudou muito. Mas não precisamos de ir muito longe, basta pensar no que já falámos, na vacina da Covid, na vacina da gripe, que vai tendo cada vez uma indicação mais alargada. Ainda agora, nos últimos anos alargámos a idade para a qual fazemos de forma gratuita a vacinação antigripal em cada época de gripe. E por isso, sim, temos que estar atentos e temos que ter esta ideia na nossa cabeça. Não são só as crianças que se devem vacinar, elas devem vacinar-se para aquilo que é necessário, mas nós adultos precisamos também de estar atentos e nos informar junto das nossas unidades de saúde.
É um facto que nas últimas seis décadas de Programa Nacional de Vacinação, o país teve ganhos incríveis no que diz respeito à mortalidade e à morbilidade infantil e também no que diz respeito à esperança de vida. Que conquistas gostava de ver, Nuno Jacinto, nos próximos anos e que áreas de investigação são mais necessárias apostar nos próximos anos e décadas?
Na questão das conquistas, provavelmente era mais garantir que mantemos o tal nível elevado de adesão na idade pediátrica e continuamos neste patamar de excelência. Seria muito bom que daqui a 10, 20, 30 anos continuássemos a olhar para as crianças e para os jovens em Portugal e continuássemos a ver que eles têm uma taxa de cobertura próxima dos 100% em muitos casos. A outra conquista seria conseguirmos estes números, este patamar, também na idade adulta, tal e qual como falámos antes, e garantir que os nossos adultos e a nossa população mais sensível está protegida contra as doenças que hoje em dia conseguimos proteger e que temos tudo feito de acordo com a melhor evidência científica. E as áreas de investigação passariam muito por aquilo que referi antes e por aquilo que está a ser feito, na realidade. A questão das doenças infecciosas é importantíssima e se nós já conseguimos debelar muitas destas doenças, é importante não perder o foco e continuar a aposta nesta área e garantir que aqui a nível mundial, porque estamos todos interligados, conseguimos lutar contra este tipo de doenças e depois perceber se há aqui algum tipo de vacinas mais dirigidas, vacinas na área genética, contra o câncer, por exemplo, que possam ser desenvolvidas e que também já estão a ser trabalhadas e que possam, mais uma vez, vir a mudar o paradigma da saúde e daquilo que é o impacto destas doenças na nossa população. Se as seis décadas que passaram tiveram esta importância fundamental, certamente que trabalhando nestas áreas, daqui a 60 anos, quem estiver aqui a fazer um programa semelhante vai estar a olhar e a dizer que as últimas 12 décadas tiveram um impacto gigantesco em todas estas áreas da saúde.
Seria bom. Nuno Jacinto, agradeço-lhe. Muito obrigado.
Muito obrigado pela oportunidade.
Voltamos em breve para continuar a falar de saúde. Até lá.