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Olá e sejam bem-vindos a mais um episódio de "Pela Sua Saúde", o podcast que põe a saúde em primeiro lugar e que procura analisar o estado da saúde em Portugal. Hoje falamos sobre valorização ambiental e gestão de resíduos no setor do medicamento, uma área em que existe uma preocupação crescente. Tenho comigo Luís Figueiredo, diretor-geral da Valormed, a sociedade responsável pela recolha de embalagens de medicamentos fora de uso e de prazo nas farmácias portuguesas. Bem-vindo, Luís, e obrigado por ter aceitado este convite.

Muito obrigado, eu é que agradeço, de facto, este convite.

Luís Figueiredo, a Valormed foi criada em 1999, quando as campanhas de reciclagem estavam a dar um salto em muitos países. O setor do medicamento foi dos primeiros a mobilizar-se?

Confirmo. De facto, o setor do medicamento, e quando digo o setor do medicamento, teve a sua gênese na indústria farmacêutica, desde logo suscitou a necessidade de criação de uma entidade gestora que pudesse recolher a fileira dos medicamentos de origem doméstica. E nesse sentido, mobilizou-se de imediato, até porque o setor é bastante regulado, para criar esta entidade gestora que rapidamente teve o apoio não só das farmácias, o setor retalhista representado pelas farmácias, mas também pelos distribuidores farmacêuticos. E assim, de facto, em 1999, mais precisamente no dia 25 de outubro, foi criada a Valormed com o apoio, vá lá, de todo o setor e envolvendo todo o setor farmacêutico.

Consegue dar uma dimensão ou dizer-me qual é a dimensão da vossa atividade, como é que começaram e quantas toneladas de resíduos são tratadas hoje pela Valormed?

Com certeza que sim. Em 1999 foi criada a sociedade, em 2000 começaram as recolhas. Nessa altura, em 2000, foram recolhidas 98 toneladas e cerca de 15 mil contentores. Em 2024, isto são números recentes, recolhidos durante esta semana, nós recolhemos 1350 toneladas, um aumento percentual de alguns milhares, em termos percentuais, e cerca de 350 mil contentores. Portanto, isto dá, de facto, uma ideia e uma noção daquilo que tem sido a evolução desta entidade gestora específica para este setor.

E qual é o destino dos medicamentos e embalagens?

Nós temos, também desde 2009, porque de facto, até então, entre 2000 e 2009, a Valormed, tudo aquilo que recolhia era encaminhado diretamente pra incineração. Mas, por exigência das autoridades da tutela, concretamente da Agência Portuguesa do Ambiente, a Valormed teve que criar um centro de triagem para a separação e classificação dos resíduos. E, portanto, desde 2009, que a Valormed separa e classifica os resíduos. O que isto significa? Significa que tudo aquilo que pode ser reentrado na economia circular é separado para que possa, de facto, ser reaproveitado e reciclado. Portanto, tudo aquilo que os cidadãos depositam nos contentores da Valormed, quando chega ao nosso centro de triagem, é separado: papel, cartão, plástico, vidro. Tudo o resto, incluindo os restos de medicamentos, são enviados para incineração com valorização energética, portanto, com a produção de energia.

E as embalagens dos medicamentos, elas já são feitas de material reciclado?

Não, ainda não. Há, de facto, estudos nesse sentido. Também posso dizer que há uns anos a Valormed desenvolveu com a universidade um estudo, uma investigação e desenvolvimento no sentido de produzir ou de poder vir a produzir blisters biodegradáveis, mas de facto é um processo que vai lá no início. Até porque é preciso ter muita atenção com a necessidade de não prejudicar aquilo que é o medicamento que depois os cidadãos vão tomar. Portanto, há que fazer estudos de estabilidade que confirmem, de facto, que aquele material de acondicionamento e de embalagem que é utilizado pode ser seguro e pode, de facto, prolongar a vida do medicamento que o contém.

Como é que Portugal se compara com outros países nesta área da reciclagem de material médico?

Portugal está à frente.

Ou farmacêutico, material farmacêutico.

Portugal está à frente a nível mundial. A nível europeu, há quatro entidades gestoras de âmbito nacional: Portugal, Espanha, França e Hungria. Apesar de haver diretivas comunitárias que de facto suscitam a criação destas entidades, são apenas estes os quatro países que existem de âmbito nacional. Há organizações regionais que fazem essa recolha na Alemanha, em Itália, no Reino Unido, que não fazendo parte da Comunidade Europeia, está inserida na Europa. A nível mundial, existe a Colômbia e o México, que também têm as suas entidades gestoras, e a Austrália também tem um sistema muito semelhante àquele que é, que são estes que eu referi. Portanto, há muito trabalho ainda por fazer relativamente a isto, e deveria ser uma preocupação a colocar em cima da mesa, em termos de prioridade, pelas autoridades que regulam a introdução dos medicamentos no mercado. E as autoridades de saúde, obviamente, porque isto também é uma questão de saúde pública.

Vou querer ouvi-lo sobre o futuro, mas deixe-me perguntar-lhe, já falou aqui da regulação, nós estamos a falar de um setor que é fortemente regulado. Foi fácil ter autorização pra montar um sistema de recolha de embalagens nas farmácias em Portugal?

Foi muito fácil. Repare, eu julgo que até o setor farmacêutico, nesse aspecto, quando pretende e quer implementar um projeto, ele avalia-o de uma forma muito introspectiva, também de uma forma que possa ser, acima de tudo, direta e de benefício para o cidadão. E de facto, em 1999, já havia essa preocupação por parte da indústria, e isso aconteceu rapidamente. Tendo o apoio não só do setor retalhista, como também dos distribuidores farmacêuticos, a própria tutela, neste caso Ambiente e Saúde, deram logo o seu ok, a sua aprovação para que este sistema fosse implementado.

E passados 25 anos, quais são os principais desafios, nomeadamente com a nova licença da Valormed?

Sim, a nova licença traz desafios muito grandes e muito importantes. De facto, nós neste momento estamos em processo, eu diria, quase de negociação com a tutela, no sentido de negociar as metas, os objetivos de recolha e metas de reciclagem que nos são impostos. De facto, não podemos considerar a Valormed como uma entidade generalista, qualquer. É um sistema especial. Os espanhóis, por exemplo, fizeram. O legislador espanhol criou objetivos e metas diferentes para as restantes entidades gestoras. E portanto, nós temos a expectativa também desse diálogo que estamos a ter, que vamos ter e vamos continuar a ter com a nossa tutela, que possamos, de facto, ajustar aquilo que nos é imposto. Esse é o grande desafio para a Valormed, que obviamente precisa dos cidadãos para que os possa cumprir. Se de facto os cidadãos portugueses, e não só, porque agora temos uma franja significativa da população que é imigrante, não depositarem os seus resíduos de embalagens e medicamentos nos pontos de recolha, de facto, nós não conseguimos atingir objetivos. Nós não podemos ir à casa das pessoas e obrigá-las a fazer a recolha seletiva de resíduos.

Mas ainda há muitos medicamentos que vão parar ao lixo comum?

Eu temo que sim, e tenho quase a certeza que sim. Não temos uma dimensão da quantidade, mas estou certo que há muitíssimos medicamentos que as pessoas por desleixo, por preguiça, porque muitas vezes podiam fazer a separação em casa e porque toda a gente vai, feliz ou infelizmente, à farmácia, comprar os seus medicamentos, podia depositar os restos de medicamentos. Ainda não existe esse hábito, mas também os números que eu há pouco lhe referi, provam que tem havido uma adesão crescente da população ao sistema Valormed e nós queremos que, obviamente, continue. Para isso precisamos do apoio e da intervenção dos cidadãos e também dos pontos de recolha, no sentido de sensibilizar as pessoas para que façam essa entrega.

E quais são os riscos ambientais e até para a saúde humana, de não colocar os medicamentos nos depósitos que são criados e que existem precisamente para esse tipo de substâncias. Podemos dizer que o aumento das bactérias resistentes a microbianos, por exemplo, pode ser ligado aos medicamentos que vão para o lixo e para o mar?

Claro que sim. Uma das preocupações mundiais da OMS é a resistência antimicrobiana. E portanto, se não for feito, e eu estou a falar concretamente em relação aos antimicrobianos, mas se não for feita essa deposição nos sítios corretos, obviamente que eles vão parar onde? Às águas, o ciclo da água é um ciclo, portanto retorta. Vão aos solos também, porque nós ingerimos e tomamos os nossos medicamentos, mas também quando os descartamos, descartamos inadequadamente. Ainda há pessoas que vazam os resíduos dos seus medicamentos, por exemplo, na pia da banca ou da cozinha, ou através dos esgotos da casa de banho.

Achando que estão a fazer bem e não estão, não é?

Eu acho que não é achar que estão bem. Volto a dizer, é alguma preguiça. Olham para aquela embalagem sendo pequena e dizem: "Não é isto que vai..." A importância que dão àquela pequena embalagem, diz: "Não é isto que vai ter influência naquilo que pode vir a causar ao ambiente". E de facto, é um erro, porque se nós formos à nossa farmácia doméstica de seis em seis meses, nós ficamos admirados com a quantidade de medicamentos fora do prazo e que já não necessitamos, que ali estão. E portanto, o convite fica para que todas as pessoas que nos estão a ouvir, façam essa experiência. Vão à farmácia doméstica, retirem os medicamentos que não usam e que estão fora do prazo e vão ver que vão encher um saco e vão ficar admirados. Portanto, esse contributo é fundamental.

Portanto, são precisas mais campanhas de informação. Isso pode passar também pelas escolas?

Deveria passar pelas escolas. Nós temos feito muitas campanhas com as escolas, mas infelizmente não temos tido aquele retorno que gostaríamos. Nós sabemos que as crianças são o nosso melhor passa palavra. Nós quando vamos a escolas ou a farmácias, porque temos muitas farmácias que também fazem ações de sensibilização junto da sua população, nós sabemos que elas levam aquela mensagem para casa e até obrigam os pais, os familiares, a entregar os resíduos de medicamentos nas farmácias, porque assimilam tudo aquilo que lhes é transmitido no sentido da preservação ambiental, da proteção da saúde pública. E portanto, eu acho que deveria fazer parte dos manuais escolares e curriculares, a introdução desta questão associada aos resíduos, não só de medicamentos, mas também de todos os resíduos que são gerados a nível domiciliar.

Muito bem. Luís Figueiredo, que áreas gostava de aprofundar nos próximos anos na Valormed? Quais são os novos projetos em carteira com a Apifarma?

Olhe, nós temos um projeto muito importante, que já o selecionamos, se é assim que pode dizer, há alguns anos atrás, e nesse sentido apresentamos em janeiro de 2022 um caderno de encargos para a criação de uma fileira para a recolha dos materiais cortoperfurantes utilizados pelos doentes nos seus domicílios. Portanto, os autocuidados de saúde. Estamos a falar concretamente dos, por exemplo, diabéticos, que é mais de 1 milhão em Portugal. E que todos os dias utilizam agulhas Aquele material que utilizam para o controle da sua doença e que neste momento não há destino a dar. Isto é, vai para o lixo comum. Isto tem uma desvantagem em termos de saúde pública, obviamente, muitas vezes são contaminados com sangue, portanto, natureza biológica. E, por outro lado, tem a questão de contaminar aquele resíduo que podia ser enviado para reciclagem como bom. E não é, porque muitas vezes os recicladores não o querem, se é assim que se pode dizer, por quê? Porque está contaminado com material biológico.

Ficam ali numa espécie de terra de ninguém.

Exatamente. No seio da Valormed, é um problema recorrente o aparecimento deste tipo de resíduos misturados com medicamentos. Muitas pessoas associam estes produtos aos produtos de saúde, mas esquecem-se que têm esse risco biológico que importa salientar. E nós, em conjunto com os nossos sócios, a Apifarma, a Associação Nacional de Farmácias, a Groquifarma e a Adifa, foi desenvolvido um projeto para a criação de uma fileira para a recolha destes resíduos. Esse é o nosso maior desafio imediato, mas como disse, desde 2022 que aguardamos uma resposta, ainda que há relativamente pouco tempo tenhamos recebido a informação de que deveríamos ajustar esse caderno de encargos apresentado para a legislação que atualmente está em vigor. Estamos a fazê-lo e a Valormed e, neste caso, os seus sócios estão profundamente interessados em implementar este sistema, porque com certeza vai melhorar a saúde pública do país.

Luís Figueiredo, agradeço-lhe. Muito obrigado por ter estado aqui connosco hoje. Voltamos daqui a 15 dias para continuar a falar de saúde. Até lá.