Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Olá, sejam bem-vindos a mais um episódio de "Pela Sua Saúde", o podcast que põe a saúde em primeiro lugar e que procura analisar o estado da saúde em Portugal. Hoje falamos sobre transição digital e inteligência artificial na saúde. Tenho comigo Ricardo Baptista Leite, médico, antigo deputado e atualmente CEO na Health AI, uma organização internacional dedicada à promoção do uso de inteligência artificial de forma responsável no setor da saúde. Já vamos ver de que forma isso é aplicado. Ricardo, muito bem-vindo e obrigado por ter aceitado este nosso convite. Como tem sido liderar este projeto da Health AI a nível internacional? É a primeira pergunta.
Agradeço muito o convite, é sempre um gosto. Liderar a Agência Global para Inteligência Artificial Responsável para a Saúde tem sido um privilégio ao longo destes quase dois anos, desde que me desloquei para Genebra, onde temos a nossa sede. Como entidade sem fins lucrativos, mas que foi constituída com o apoio institucional da Organização Mundial de Saúde, a nossa missão é muito clara: é a de apoiar os países, enquanto parceiros técnicos que somos, no sentido de constituírem a sua capacidade de governança e regulamentação da inteligência artificial responsável para a saúde. Por que isso é necessário? Porque o setor da saúde é um setor tipicamente conservador, no sentido em que os governos, os responsáveis, os administradores hospitalares e do sistema de saúde, os próprios profissionais e os cidadãos levam a questão da saúde muito a sério.
Podemos dizer até um pouco céticos?
Céticos ou preocupados com os potenciais riscos que estas tecnologias podem ter, no sentido em que o dano que pode ser causado por estas tecnologias, os riscos associados a estas tecnologias, têm um impacto direto na vida das pessoas. Não é a mesma coisa que utilizar uma inteligência artificial numa app para nos dirigir no trânsito ou para nos ajudar a escrever um texto do que para liderar uma cirurgia robótica. Eu costumo perguntar aos inovadores, quando nos apresentam tecnologia, se eles estão dispostos a usar aquela tecnologia nos pais deles, porque eu acho que é fundamental que tenhamos esse nível de confiança na qualidade, na segurança e na efetividade da tecnologia. Por outro lado, já estamos a ver várias empresas de inteligência artificial falirem na área da saúde, porque focaram-se tanto no desenvolvimento da tecnologia que se esqueceram de garantir a entrada no mercado.
Que também é importante.
É fundamental para acelerar a adoção das tecnologias. E esta é a nossa preocupação: como é que nós aceleramos a utilização da inteligência artificial para melhorar os resultados em saúde, ou seja, melhorar a vida das pessoas. E para isso é preciso um modelo de governança. No fundo, é isso que eu tenho feito. Tenho viajado por todo o mundo, penso que mais de 50 ou 60 países no último ano e meio, a lidar com os governos, precisamente desde os países mais ricos como Cingapura e Canadá, até países da África Subsaariana, da América Latina e do Sudeste Asiático. No fundo, envolvê-los e estabelecer parcerias precisamente para acelerarmos esta revolução de inteligência, para transformarmos o sistema de saúde, para servirmos melhor os doentes e os cidadãos.
E Ricardo Baptista Leite, quais são as áreas em que o uso da inteligência artificial mais está a crescer neste setor da saúde? E tem visto muitas aplicações, podemos dizer, surpreendentes?
Sim, podemos ir logo às questões sexys daqui a pouco.
Sim.
Na realidade, onde está a ser mais usado é nas questões mais mundanas. Na gestão administrativa, financeira. Aliás, nem se compreende que não se utilize mais, porque aí não há grandes barreiras do ponto de vista regulamentar. E portanto, gestão de listas de espera, por exemplo, modelos preditivos para saber que camas serão necessárias em determinado momento. Mesmo a questão de gestão de recursos financeiros e humanos, tudo isso pode ser muito ajudado com a força da inteligência artificial e com enormes ganhos de eficiência. Mas depois, quando entramos na componente clínica, aí é que se torna de fato incrivel.
É o maior desafio.
E já estamos a ver, não é uma coisa do futuro. Já está presente. Na área de investigação e desenvolvimento de novos fármacos, de novas tecnologias para serem cada vez mais personalizados, terapias genéticas, desenvolvimento de vacinas. Nós estamos a ver isso acontecer em toda a linha de produção, mudando radicalmente a forma como as tecnologias em saúde são desenvolvidas. Mas depois, na área de diagnóstico, é provavelmente a área mais desenvolvida, sobretudo aqueles diagnósticos que envolvem imagem. Sejam ressonâncias, TACs, que são aquelas que as pessoas pensam logo. Mas na área da gastroenterologia, na área da dermatologia, tudo o que envolve imagens, de fato, estamos a ver saltos quânticos na realidade. Dou-lhe só um exemplo de como a capacidade de detectar um câncer da mama. Há casos em que há tecnologias que conseguem detectar três a cinco anos mais cedo do que com o olhar humano.
E pode ser determinante.
Estamos a falar em salvar vidas, em melhorar a qualidade de vida, em garantir longevidade com qualidade de vida e também poupanças, na realidade, porque estamos a evitar custos no futuro. E depois, quando olhamos na área terapêutica, na área de acompanhamento das pessoas, tecnologias fantásticas num país tão envelhecido como o nosso, pessoas em casa, muitas vezes sozinhas. Tecnologias que detectam sinais de quedas, se a pessoa cair e imediatamente ativar os sistemas de apoio ao doente, ao cidadão Enfim, em toda a linha estamos a ver tecnologia hoje a funcionar e quando olhamos para o futuro, de fato, é espantoso o que está a ser desenvolvido, desde os nanorrobôs à engenharia genética.
E na área da saúde não podemos ter poupanças, de maneira nenhuma. Na área do medicamento, queria lhe perguntar que mais valias pode ter esta nova era tecnológica, também aqui a questão da inteligência artificial, quer na investigação e desenvolvimento, quer também na área de ensaios, e se no fundo a inteligência artificial nos pode ajudar a descobrir também curas para mais doenças.
Só se me permite.
Sim.
Disse que não há poupanças, tem que haver poupanças. E o problema é que se nós não mudarmos o sistema de saúde como está hoje.
Não, referia-me às poupanças, mas no tempo de diagnóstico.
Ah, isso sim.
Que estão que falava há bocadinho e que a inteligência artificial pode ajudar nesse sentido a encurtar esses tempos.
É, porque esta questão do custo é algo que me preocupa muito, porque quando nós olhamos para a inteligência artificial e para esta revolução no sistema de saúde, se nós não mudarmos o sistema de saúde. O sistema de saúde hoje, se continuar como está, vai falir. E, portanto, a revolução do sistema de saúde é fundamental e a tecnologia tem um papel instrumental para mudarmos a filosofia de reagirmos à doença para uma filosofia de promoção da saúde. Se nós não reduzimos a carga da doença em Portugal, corremos o risco de não ter mais verbas para pagar a inovação. E nós temos de garantir o acesso à inovação. As pessoas têm que ter acesso à melhor terapêutica para a sua condição de saúde. E perguntava-me então aplicações em determinadas áreas.
A questão do medicamento, sim. E da investigação também.
Na área da investigação do medicamento, posso lhe garantir que estamos a ver uma transformação. Aquilo que antes demorava 10 anos a desenvolver uma nova molécula, pode ser reduzido a menos de um ano, neste momento. Isto, naturalmente, traz enormes desafios. É como é que nós compartimentamos isto do ponto de vista de custos, do ponto de vista da própria adaptação do sistema de saúde. A própria indústria de desenvolvimento de fármacos, medicamentos e tecnologias vai ter que se adaptar a esta nova realidade. É uma nova corrida que está em curso. Mas, por exemplo, na área dos ensaios clínicos que mencionou, tem enormes oportunidades também aqui. Portugal, país pequeno, com 10 milhões de habitantes, com Serviço Nacional de Saúde, poderia aproveitar esta oportunidade de garantir que o acesso aos dados de saúde fosse uma realidade, e não a fragmentação que é hoje, e com a inteligência artificial, selecionarmos doentes, candidatos a ensaios clínicos muito mais rapidamente, dando-lhes acesso precoce a terapêuticas inovadoras, garantindo, através da inteligência artificial, a adaptação dos modelos dos ensaios clínicos em tempo real. No fundo, há um mundo de oportunidades que estão ao alcance não apenas dos países mais ricos, países da nossa dimensão têm essa oportunidade à distância da decisão política ou de gestão, mas as oportunidades estão aí.
Falava da questão de encurtar o espaço de tempo na descoberta de algo novo, que pode passar, por exemplo, tinha dado o exemplo, penso eu, de quatro para um ano, podia acontecer. Para quem está a lidar com este novo mercado da inteligência artificial, não pode haver aqui uma questão da confiabilidade. Por que de quatro passamos para um ano? Como é que também damos a volta a este argumento de que realmente é seguro e pode ser realmente aplicado? É um desafio.
Sim, e é uma questão que se levantou, por exemplo, se recordar na pandemia, em que também, tipicamente, para desenvolver uma nova vacina, era um processo muito longo, tipicamente seis, sete, oito, 10 anos.
E se calhar ninguém acreditava que num espaço tão curto íamos ter uma vacina.
Eu participei em muitos debates em que questionavam que fosse possível em menos de um ano desenvolver uma vacina, mas já na altura se utilizou a inteligência artificial no desenvolvimento das novas vacinas que se vieram a se tornar disponíveis no mercado. É importante as pessoas compreenderem que o mundo mudou e há um esforço que tem que ser feito, e esse também é o trabalho da Health AI, de conquistar um nível de confiança na tecnologia, como hoje temos noutros setores da saúde. Por exemplo, quando hoje nós temos uma dor de cabeça ou uma febre, o que é que fazemos? Tomamos paracetamol, não pensamos duas vezes sobre isso.
Sim.
E quem toma isso, e damos isso aos nossos filhos, até bebês, não pensamos na questão da segurança. E por quê? Porque temos um Infarmed, temos uma entidade reguladora que sabemos que olha para a segurança, olha para a qualidade daquelas tecnologias. Sabemos que se alguma coisa correr mal, mesmo com um lote do medicamento, imediatamente esse lote é retirado do mercado. Há um sistema, há um modelo de governança que nos dá essa confiança. Ora, para a inteligência artificial, para escalarmos a inteligência artificial em todo o sistema de saúde, para que todos possam beneficiar, precisamos de ganhar esse nível de confiança também. É um pouco esse o nosso trabalho com a Health AI, que é trabalhando com os governos que querem fazer parte. Portugal ainda não faz parte desse grupo de países, esperemos que venha a fazer. Mas é fundamental que os países percebam que têm que investir em construir nessa relação de confiança e para isso têm que investir na capacidade de governança e regulamentar, porque caso contrário, vamos acabar com muitos pilotos, mas sem a alteração sistémica que é necessária para transformar o sistema de saúde.
Falávamos aqui da questão da confiança e Ricardo Batista Leite, parecem surgir novidades todos os dias. Como é que as empresas e também as organizações vão conseguir fazer esta transição digital, podemos lhe chamar assim, de uma forma sustentável e com investimentos que não correm o risco de ficar, podemos dizer, obsoletos?
Essa é uma pergunta muito importante e nem sempre fácil de responder. É fundamental pensarmos mais do que em transição digital, diria mesmo transformação digital.
São conceitos diferentes.
Sim, porque aquilo que estamos a ver muitas vezes, e não é só em Portugal, é que as pessoas veem a transição digital como passar o processo do papel para o computador. Ora, na maioria dos casos, isso até leva à perda de eficiência, em vez de ganhos. Aquilo que nós temos que ambicionar é a introdução da inteligência artificial nos leva a pensar como é que podemos fazer diferente. Não é utilizar a inteligência artificial para continuarmos a fazer mal aquilo que fazíamos antes, mas mais rápido. Porque se aplicarmos a inteligência artificial a modelos antigos Vamos apenas fazer mais rápido aquilo que fazíamos já mal antes. Aquilo que nós precisamos é que a inteligência artificial nos obrigue a pensar como é que podemos fazer diferente. Isso exige, do ponto de vista das lideranças, uma capacidade reformista e de juntar todas as áreas de saberes, incluindo os doentes, no processo de discussão de como é que podemos utilizar estas tecnologias para fazer essa transformação. Em Portugal, há uma necessidade de resolver a questão dos dados absolutamente urgente. E nós temos uma agência digital da saúde, que é a SPMS, no Ministério da Saúde, que pode liderar esse processo e envolver o setor privado e social. Não é normal que eu possa usar o meu cartão de crédito em Portugal, na Malásia, no Brasil, mas em Portugal eu tenho os meus dados de saúde num hospital e depois atravesso a rua e vou para um grupo público ou privado e já não tenho acesso a esses dados e tenho que repetir todos os exames. As ineficiências que advêm disso, para além da incapacidade de aproveitarmos aqueles dados para poder alimentar as ferramentas de inteligência artificial, é um desperdício. Eu acredito muito que uma das grandes reformas que a saúde poderia beneficiar seria passarmos a ter um modelo em que nós conseguíssemos ver os dados de saúde de cada cidadão e que estivesse absolutamente disponível por todo o sistema de saúde, independentemente do setor público, privado ou social, e os próprios cidadãos terem acesso direto aos seus dados. Isto seria um salto para a responsabilização do cidadão, garantindo estes direitos do cidadão, mas também para acelerar a revolução tecnológica, que ainda não está à velocidade que eu acho que seria possível em Portugal.
Entretanto, encaminhamo-nos aqui para outra pergunta que tinha para lhe fazer sobre o panorama que encontra no setor da saúde em Portugal. Ia lhe perguntar precisamente isso, se estamos a conseguir dar o salto, se estamos nesse processo.
Já me antecipei à realidade e creio que há passos que estão a ser dados. Portugal tem, até no âmbito do programa de recuperação e resiliência, importantes verbas que pode investir nestas matérias. Os hospitais, naturalmente, têm dificuldades infraestruturais que estão a tentar resolver. É fundamental que haja uma visão de topo para essa transformação. Acho que a reforma das unidades locais de saúde pode ser uma oportunidade para essa mudança. Eu acredito que esta transformação digital deveria vir com uma transformação do modelo de gestão e com uma transformação do modelo de financiamento. Ou seja, o Ministério da Saúde deveria contratualizar com as unidades locais de saúde, não em função dos atos praticados, do número de cirurgias ou consultas, mas em função dos resultados efetivos que consegue para a sua região. Se uma unidade local de saúde tem consistentemente visto um aumento do número de pessoas com diabetes e hipertensão arterial, eu deveria contratualizar com aqueles gestores uma redução do número de casos de hipertensão e diabetes. O prêmio para os profissionais de saúde naquela região deveria ser em função desse tipo de resultados. Ora, gerir dados a esta dimensão exige inteligência artificial, não há outra forma. Tal é a dimensão e a complexidade do sistema. E eu penso que é precisamente este tipo de reforma que ainda não está em curso, mas que a inteligência artificial abre portas para que possa ocorrer. E há cada vez mais consenso, desde das associações de doentes, desde os profissionais de saúde, os próprios gestores hospitalares, as próprias indústrias já estão a falar cada vez mais que querem que o financiamento seja feito em função do valor que aportam ao sistema. Ora, é preciso dar esse passo e temos a tecnologia para nos ajudar a chegar lá.
Vamos falar agora de uma palavra que pode ser difícil para um ouvinte comum, que não da área da saúde, nos está a ouvir agora: interoperabilidade. Até para mim é difícil dizer. De sistemas de informação na saúde e perguntar-lhe, Ricardo Batista Leite, se isto é uma miragem ou se no fundo pode ser uma realidade conhecida em breve.
Se calhar é melhor desconstruir a palavra.
Vamos. Se calhar é melhor.
Para quem está em casa a ouvir ou no carro. Na realidade, a interoperabilidade quer dizer a capacidade dos sistemas falarem entre si. E aquilo que são os dados que entram de um lado, num hospital, e um sistema informático de um hospital poder comunicar com outros. Ora, infelizmente, nós na saúde fomos fazendo as coisas um pouco fragmentadamente e temos aquilo que chamamos de silos, cada um fechado no seu mundo. Como é que então estabelecemos estas ligações? Historicamente, faziam-se grandes investimentos de infraestrutura para conseguir essas interoperabilidades. Hoje em dia, com a inteligência artificial, temos uma oportunidade de não ter que fazer isso. Ou seja, nós utilizarmos os chamados sistemas nas nuvens, em que nós podemos otimizar aquilo que são as informações que existem, os sistemas que existem, e desenharmos um sistema por cima do existente, que seja operado com base na inteligência artificial, para garantir que os sistemas possam funcionar de forma mais fluida, sem precisar de esse tipo de infraestruturas clássicas. Mais uma vez, é preciso aqui algum grau de criatividade e inovação, mas também lhe digo que um dos grandes desafios, e qualquer pessoa que trabalhe num hospital confirmará, é que as próprias equipes informáticas dos hospitais não estão, na maioria das vezes, capacitadas, nem com recursos humanos, nem técnicos, nem financeiros, para poder dar respostas a isto. As equipes informáticas dos hospitais antigamente eram para garantir que os computadores funcionavam, que as impressoras imprimiam e por aí fora. Hoje, as exigências técnicas são outras. Se queremos fazer uma reforma como deve ser. E, portanto, a capacitação deste pessoal, dar os meios necessários, compreender que o sistema de saúde do futuro não é um sistema de tijolos e cimento, mas é um sistema de saúde que será em grande parte digital. Bom, então não podemos investir sempre só em tijolos e cimentos, é preciso investir nessa transformação digital também.
Ainda sobre este tema, quando é que o doente ficará dono dos seus dados?
Isso é uma pergunta que eu não consigo responder no contexto português, mas é uma aspiração que todos temos que ter. É fundamental. Se não fizermos isso, nunca iremos conseguir que os doentes tenham papel de liderança na sua própria saúde de forma plena. E é uma forma também de garantir a literacia em saúde que tantas vezes fala, que as pessoas tenham noção.
E que é muito importante.
Sem isso, é muito difícil esperar que as pessoas tomem as decisões corretas para a sua saúde. Sabe que eu, como médico, quando tenho um doente à minha frente, na realidade, estou a olhar para 10% daquilo que afeta a sua saúde, que são os fatores clínicos. 30% daquilo que afeta a nossa saúde são os fatores genéticos, que são mais difíceis de mudar. 60% daquilo que afeta a saúde de cada português que nos está a ouvir são os fatores exógenos, como chamamos, ou seja, as decisões que tomamos todos os dias. Se comemos a salada ou se comemos aquele hambúrguer com batatas fritas ao lado, onde vivemos, o ambiente onde vivemos, a qualidade do ar do sítio onde dormimos, o ambiente que encontramos no local de trabalho. Todos estes chamados determinantes da saúde condicionam em grande parte aquilo que é o nosso estado de saúde. O Serviço Nacional de Saúde, os sistemas de saúde de um modo geral, não capturam essas nuances, que são vitais se queremos melhorar a qualidade de vida da população. Aí a tecnologia pode ajudar a dar esse salto. E quando vemos que Portugal é um país onde somos dos piores na Europa, sobretudo nos últimos anos de vida, em termos de qualidade de vida, eu acho que temos que assumir que algo tem que mudar. Nós não queremos envelhecer para viver os últimos anos de vida em sofrimento. Queremos, sobretudo nesses últimos anos de vida, viver uma vida plena. E não é impossível. É possível dar esse salto. E a tecnologia, mais uma vez, não é a solução, mas é a ferramenta que nos pode ajudar a dar esse salto se houver uma visão correta nessa direção.
É imprescindível. Ricardo Baptista Leite, é CEO da Health AI, como dissemos logo no início desta conversa. Queria lhe perguntar que projetos é que segue com mais atenção neste momento.
Eu sou um grande entusiasta, naturalmente, do que seja envolvendo com a inteligência artificial. Olhando, por exemplo, para aquilo que é o ponto de intersecção entre a biologia sintética, a genética e a inteligência artificial, é uma área que eu acho fascinante. Em alguns casos, chegamos a ver tecnologias que estão a ser desenvolvidas quase no campo da ficção científica. A imagem de nanorrobôs, que de forma autónoma são injetados nas nossas correntes sanguíneas para ir limpando as células que têm defeitos genéticos antes que possam criar cancros, por exemplo. Estamos a falar de tecnologias que já estão em fase de estudo. E quando olhamos para isso é de facto impressionante. Mas também olho com muito interesse para a evolução da ciência regulamentar, porque é preciso pagar por estas tecnologias. O futuro da medicina vai ser altamente personalizado. A ideia de que um comprimido com uma dose tem o mesmo efeito em mim como tem no meu vizinho, nós sabemos que não é verdade, cada corpo é diferente. O futuro da saúde será com uma adaptação personalizada ao nível da nossa realidade genética, biológica, física e social até. E por isso, ver como este mundo está a evoluir e como é que vamos conseguir pagar por isto, é algo que me preocupa e estou a acompanhar. Uma última coisa que acompanho com muito interesse, até porque eu lidero o projeto em Berlim, no ponto de vista académico, é o Global Health Policy Lab. É um laboratório que é uma parceria que eu lidero entre Charité e Harvard, em que nós estamos a utilizar modelos de linguagem de grande dimensão, de inteligência artificial generativa, para ajudar a gerar e a avaliar políticas de saúde, ou seja, a ajudar os legisladores a produzirem melhor legislação. Confesso que é algo que também é inspirado na minha vida passada e que eu acho que é fundamental, porque vemos em todo o mundo, muitas vezes não se usa a ciência como se devia no processo legislativo. Muitas vezes repetem-se processos legislativos quando outros países já passaram por esse processo e não estamos a aprender. E também na parte das políticas públicas, a inteligência artificial pode ter um papel também na saúde. Sou entusiasta em toda a linha.
Ricardo Baptista Leite foi recentemente nomeado pela Fundação Obama como um dos 35 líderes globais que estão a ajudar a moldar o futuro e também o facto de ser tão entusiasta ajuda, claramente. Antes de mais, muitos parabéns por isso. Sem irmos muito longe, que futuro é que imagina para daqui a 10 anos neste setor da saúde? Ou 10 anos é muito tempo?
Para as grandes reformas, se calhar 10 anos é uma boa distância e se calhar é uma distância em que ainda conseguimos imaginar como é que o futuro irá aparecer. Se bem que eu recordo-me bem que antes de novembro de 2022, quando o ChatGPT foi tornado público, o pensamento das pessoas sobre a inteligência artificial era muito diferente do que é hoje. O mundo mudou radicalmente quase de um dia para o outro. E corremos sempre algum risco neste modelo de previsão, sobretudo quando olhamos para a velocidade a que a tecnologia está a evoluir. Mas quero acreditar, em termos genéricos, que a tecnologia nos vai ajudar a dar o salto para um sistema de saúde que esteja mais orientado para reduzir a carga da doença, que tenhamos um sistema de saúde mais focado em promover a saúde e o bem-estar, que haja um menor foco naquilo que é o trabalho hospitalar e um maior foco no trabalho da comunidade, nos cuidados primários. E até mais do que isso, que os cuidados de saúde não sejam vistos como algo tão institucional, mas que as pessoas compreendam que, por via da tecnologia, podem ter um apoio à sua saúde e até na prevenção das doenças, por via da tecnologia fora dos hospitais e centros de saúde, nas suas casas, na sua vida, no seu dia a dia, e que numa população que estará envelhecida, e infelizmente daqui a 10 anos ainda mais, que essa população acima dos 60, 70, 80 anos possa ambicionar viver uma vida com qualidade de vida, que possam continuar a ser membros ativos da sociedade. Bem precisamos que a experiência de quem é mais velho na nossa sociedade possa contribuir para continuarmos todos a crescer, porque, na realidade, aquilo que temos visto muitas vezes é que a sociedade vai esquecendo aqueles que são mais velhos e que tanto têm dado ao nosso país. E acredito que a tecnologia também nos pode ajudar a dar este salto também moral e ético, que é tão necessário no nosso país.
Ricardo Baptista Leite, é CEO na Health AI. Continue a ser muito entusiasta, precisamos de si para continuarmos a termos estas melhorias e continuarmos a falar muito mais sobre este tema. Muito obrigado por ter estado aqui conosco no podcast pela Sua Saúde. Nós voltamos em breve para continuar a falar precisamente sobre saúde. Até lá.