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É sexta-feira e, como dizia há pouco, falamos de animais. Já temos conosco, como é habitual neste dia da semana, o médico veterinário Nuno Paixão. Nuno, hoje vamos dar banho ao cão, vamos dar banho ao gato.

E ao pigue-pigue também, vamos dar banho a tudo. Boa noite a todos.

O que for preciso.

Olá, Nuno. Viva.

Nuno, é este o nosso tema de hoje, os banhos. Com que frequência devemos dar banho aos nossos animais?

A frequência é muito simples: sempre que estão sujos.

Pronto .

E como é que conseguimos medir o nível de sujidade?

O nível de sujidade, um parâmetro pode ser o cheiro, por exemplo. A partir do momento em que nós queremos defender que os animais de companhia vivem no meio de nós e que podem entrar nos mesmos locais que nós vivemos, podem ir aos restaurantes e aos cafés que permitem, podem andar nos transportes públicos, se temos esse nível, eu também tenho que ter a obrigação de manter meu cão higiênico o suficiente pra não incomodar os outros, que até gostam de animais, mas não têm que aguentar com o mau cheiro.

Sim.

E aqueles que possam não gostar de animais e que também têm direito a viver no meio destes animais.

Portanto, se já se nota no pelo, claro, dar banho.

Claro, dar banho. Antigamente, nós dizíamos para não dar banho aos cães, porque isso só piora. Se vocês se lembrarem, hoje em dia já não é tanto, porque temos xampus com outra tecnologia e com outra qualidade, mas antigamente nós dávamos banho aos cães e no dia seguinte era um cheiro a cão insuportável. Porque há uma gordura na pele dos cães e dos gatos, mas principalmente nos cães, que serve pra proteger. E quando nós dávamos banho com xampus fortes pra limpar bem e matar as pulgas e essas coisas todas ao mesmo tempo, arrancávamos essa gordura toda. E depois, o desgraçado animal, passado dois dias, ainda andava a produzir nova gordura pra proteger a pele. E essa produção da gordura dava esse cheiro insuportável. Portanto, partindo do princípio que nós usamos produtos de qualidade que não são agressivos pra pele, que não estragam a pele, se tem necessidade de fazer todas as semanas, que seja, não é esse o problema. O problema é o produto que nós usamos. Se nós vamos com eles pro mar, pra praia, vamos com eles pro rio, convém sempre passar por água. O passar por água não tem contraindicações nenhumas, nós devemos ir limpando. Há uma boa higiene, muitas vezes, só escovando, tirando aquele pelo que está morto, tirando aquelas sujidades, os nós no pelo. Se o pelo é mais comprido, se é mais curto, claro que a escovagem é mais importante num cão ou num gato de pelo comprido. E só essa escovagem pode evitar, muitas das vezes, termos que dar banho neles. A partir do momento em que temos boa alimentação, bons cuidados, eles não estão num ambiente sujo, a necessidade de banho torna-se menor. No entanto, se ele tiver algum problema, se ele tem pulgas, se ele tem carraças, se ele tem algum problema de pele, tem que ter xampus específicos.

E quando falamos dos xampus, já agora, Nuno, por exemplo, usar os xampus que são usados pelos humanos está fora de questão ou em certos casos pode se usar?

Eu vou dizer que está fora de questão. Há talvez alguns daqueles xampuzinhos pra bebê, que não são minimamente agressivos, que são extremamente suaves, podem ser usados, mas possivelmente também não vão ter o efeito que nós pretendemos no nosso cão.

Exatamente.

Eu recomendo que sejam produtos específicos pra animais, específicos pra cães ou específicos pra gatos, isso é outro ponto importante. Ter a certeza que o xampu que estamos a usar não é demasiado agressivo para um gato e é bom pra um cão, porque isso pode acontecer.

E não usar o dos cães nos gatos e o dos gatos nos cães.

Sim, normalmente os cães aguentam bem com o xampu do gato. O gato é que já pode não aguentar muito bem. O gato é muito mais fino, o gato é extraterrestre, mas isso a gente conversa num outro dia.

E por falar no gato ser mais fino, eu sempre ouvi dizer que os gatos são mais acidinhos, precisam de tanta frequência nos banhos?

Não, não precisam. Eles realmente tratam muito da sua própria limpeza, eles lambem-se bastante, eles têm uma língua extremamente áspera, o que é ótimo pra escovar o pelo. Isso, por outro lado, tem uma coisa má, que é eles fazerem mais bolas de pelo, engolir pelo, que vai fazer bolas no estômago e nos intestinos, que pode dar outros problemas. Portanto, gatos de pelo comprido, tem que se ter o cuidado que eles se limpam, mas podem ter acumulação de pelo no trato gastrointestinal, portanto, no estômago e nos intestinos. Isso convém terem atenção. Infelizmente, a seleção artificial que nós vamos fazendo dos nossos animais tem feito com que alguns gatos deixem de se preocupar tanto com essa sua própria higiene. E nós temos que assumir essa higiene.

Temos que compensar.

Temos que compensar, sim. Não é raro o relato dos persas, que não gostam muito de se limpar, são demasiado finos, eles estão habituados a que alguém venha e os escovem. Isso não é regra pra todos, mas estamos a falar de uma grande maioria da queixa. Mas sim, também podemos escovar. O gato normalmente não precisa de tanto banho, até porque o gato também não está tanto exposto ao exterior, se a gente pensar. Eles até vão lá fora, mas não se metem em confusão. Se nós formos passear pro mato e houver, desculpem-me a expressão, porcaria no meio do mato, o cão assim que vê, o que ele vai fazer? Vai a correr, rebola-se.

Rebola-se, claro.

Todo milímetro do corpo dele vai querer ter esse cheiro agarrado a ele. Já o gato, não, o gato é muito mais seletivo e não vai fazer uma coisa dessas, daí levar a essas coisas.

Exato.

Agora, também, por outro lado, temos que ter cuidado, porque a experiência do banho não pode ser traumatizante. Essa coisa de vou dar banho ao gato, agarra no gato e mete dentro da banheira, já cheia d'água, não há gato que vá gostar de tomar banho, porque eles podem até vir a gostar disso tudo. A experiência inicial determina tudo nos nossos animais. Eles não vão se esquecer nunca mais na vida. Lá vem o ditado de gato escaldado, d'água fria tem medo, e realmente eles nunca mais esquecem. A experiência tem que ser boa, tem que ser um ambiente com calma, as primeiras vezes que a gente vai dar banho, não vamos poder sair à pressa, temos que determinar algum tempo pra ser relaxado, tentar convencê-los, brincar com eles, que seja uma experiência agradável, quer cão, quer gato. É óbvio que o gato é um ser do deserto. A água e o gato nunca é uma boa combinação. Se bem que a gente pode ver algumas onças a nadarem no pantanal e tigres dentro d'água, mas não é uma boa relação, por isso temos que ter mais cuidado com isso. Usar uma banheira, uma bacia, algo que não escorregue. Imaginem a gente pegar um dog alemão e pô-lo dentro da nossa banheira. Ele vai andar a escorregar o tempo todo. Ninguém vai tretar.

Tem que ser um ambiente que eles considerem relativamente seguros.

Exatamente. Essa coisa de amarrar a um poste e pegar na mangueira, começar a lhe dar com a mangueira, pode ser divertido ao fim de algum tempo, que eles até possam divertir-se no quintal. Agora, se eles estão a fugir, não. A experiência tem que ser controlada. Temos que evitar a cabeça logo de início, essa coisa de lavar a cabeça logo, como muitas vezes as pessoas fazem, lavam primeiro a cabeça e só depois é que lavam o resto pra ficar a fazer efeito. Isso não é uma boa experiência. Eles preferem começar de trás pra frente, limpar bem as patinhas, se bem que há cães que não gostam de tocar nas patinhas, nas almofadas, entre os dedos. A higiene entre os dedos é bom. E no fim, temos que garantir que eles ficam secos. Que é outra experiência traumatizante, porque ou está sol lá fora e nós limpamos com a toalha e deixamos eles secar ao sol. E de pelo curto, tudo bem. Agora, há pelos compridos que é impossível secarem sequer ao sol ou secam por fora e ficam úmidos por dentro. E o que fazemos? Pegamos no secador de cabelo e é outra experiência que pode ser completamente traumatizante pra eles, de repente .

O melhor é cada cão ou cada gato ter a sua toalha e ir com calma.

Sim, e depois com calma, o secador de cabelo tem que se ir aproximando. Agarrar no secador de cabelo e e aquele vendaval quente, de repente vai por ali fora. Os ouvidos estarem protegidos, pôr algo nos ouvidos, não deixar que entre o xampu pros olhos, porque aí garantidamente ele não vai gostar e não vai entender o que está a passar. As experiências iniciais vão determinar o nosso resto da vida com eles. Se nós conseguirmos que isso seja tudo uma questão suave. E vamos ser bem sinceros, ter um animal na nossa vida, um dos grandes objetivos é ter uma relação de qualidade e de felicidade com eles. Se: 'Meu Deus, agora tenho que dar banho ao cão, coisa horrível'. Isso não é o objetivo, nem pra ele, porque o cão não gosta, nem pra nós, que também não gostamos. Temos que tentar desenvolver uma vida de boa relação e de qualidade de vida entre o cão e o animal, ou melhor, também pode ser entre o cão e nós, animais, e nós e eles.

Os animais todos.

Os animais todos. E isto que eu disse, se calhar, foi o meu subconsciente a aparecer. Eles ensinam-nos mais do que nós ensinamos a eles. Eles treinam-nos mais do que nós os treinamos a eles, mas achamos que somos nós que mantemos o domínio.

Portanto, muita calma na hora de dar banho ao cão e ao gato, tudo com calma, serenidade, porque a primeira experiência depois determina tudo.

Exatamente.

O Nuno Paixão está sempre conosco neste dia da semana. Temos encontro marcado então na próxima sexta-feira. Obrigada, Nuno. Até lá.

Obrigada. Até à próxima.

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