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Junta-se a nós, como é habitual neste dia da semana, o médico veterinário Nuno Paixão. Olá, Nuno.
Olá, boa noite.
Olá, viva Nuno.
Obrigado.
Nuno, os animais também sentem saudades? É este o nosso tema de hoje.
Nós gostamos um pouco de colocar sentimentos humanos nos animais, principalmente saudade, porque saudade implica transmitir que tenho saudade, sinto falta de algo. E eles não conseguem transmitir. Temos alguma dúvida se eles têm saudades? Provavelmente têm. Eu não tenho muitas dúvidas que eles têm, mas chamar de saudades força um bocadinho. Cientificamente, não o posso fazer. Agora, uma coisa é certa: quando nós chegamos à casa e eles nos veem-
Começam aos saltos.
Aos saltos, felizes da vida, porque a gente chegou à casa.
Ou então continuam no seu sono.
Isso são mais os gatos, não é?
Isso aí diz mais do dono do que propriamente do cão.
Se calhar não estavam com grandes saudades.
"O que estás aqui a fazer outra vez? Vê lá se vais passar o fim de semana fora". Mas essas saudades, às vezes a gente não tem muita paciência pra eles, coitados, porque eles passaram o dia todo fechados em casa sem fazer nada, nem veem televisão e muitos deles não conseguem ouvir rádio porque as pessoas esquecem-se de deixar a rádio ligada.
Isso é uma boa dica, deixar a rádio observador ligada em casa.
Eu acho fundamental, porque pelo menos estão entretidos.
Rádio observador, esse pormenor.
Exatamente.
E eles vão ficar muito mais informados e muito mais prontos pra discutirem depois à noite, quando os donos chegarem. Mas, na realidade, eles não têm nada pra fazer. E isso faz com que eles fiquem eternamente à nossa espera. Agora, nós temos aqui duas coisas diferentes. Temos aqueles cães que realmente ficam, e gatos também, muito contentes porque nós chegamos à casa e porque querem interagir conosco, já estão há várias horas sem interagir com ninguém e querem interagir com quem gostam. E nessa altura, nós devemos estar um pouco com eles e devemos brincar com eles. Não estimular comportamentos demasiado exagerados, porque senão a gente nem sequer consegue entrar em casa. Assim que chegamos à casa, eles podem estar contentes, mas só devemos fazer festa e brincar com eles quando eles se sentam.
Um tempo depois.
Exatamente.
Deixar passar a limpo.
A não ser que a gente já não tenha roupa para voltar a sair, porque aquela roupa vai ficar um bocado maltratada. Mas fora isso, devemos esperar que eles se acalmem um bocadinho ou pelo menos recompensá-los quando eles estão mais calmos. Agora, há outras coisas que as pessoas às vezes confundem, que é a ansiedade de separação. Ansiedade de separação são aqueles cães que destroem a casa toda quando ficam sozinhos. A ansiedade de separação é um problema comportamental que muita gente sofre, porque os seus cães não podem ficar sozinhos em casa, ou destroem a casa, roem as coisas que as pessoas mais gostam, fazem barulho, ladram, fazem as necessidades em casa, por todo lado. E isso pode ser um transtorno. Normalmente, são cães que já sofreram alguma separação mais violenta.
Que já foram abandonados.
Abandonados, trocaram de dono, de responsável.
E nesses casos, Nuno, o que os donos devem fazer?
Primeiro, tentar perceber se são situações controláveis só por eles. Muitas das vezes, há cães que têm ansiedade de separação só ao fim de semana, por exemplo. Até as pessoas costumam dizer assim: "Ele fica chateado porque eu fui passear e como não o levei, ficou chateado e foi-me destruir as minhas coisas. Mas durante a semana, quando vou pro trabalho, porta-se bem". Ele não está a punir as pessoas porque foram passear em vez de ir pro trabalho. O cão não vai fazer uma coisa dessas, mas realmente houve uma mudança na rotina. Se eles estão habituados a que: "Ok, o meu dono sai às 08:00 e chega às 19:00. Tudo bem, não há problema. Eu não tenho ansiedade porque eu já estou à espera dessa rotina". Naquele fim de semana, não estava preparado, não é normal saírem e naquele fim de semana eles foram sair num horário fora do normal. E de repente, eles dizem assim: "Para onde é que eles vão? Eles estão a sair agora, nunca mais voltam e eu vou ficar sozinho o resto da vida outra vez". E é esse pânico que muitos deles sentem e que nós devemos contrariar. Há cães que a gente sabe que estamos em casa, saímos, voltamos passado meia hora e já estão felizes da vida outra vez, como se não nos vissem há 15 dias. Isso demonstra que há uma ansiedade muito grande. São cães, às vezes até a gente chama de cães velcro, são aqueles cães que não nos largam, estão sempre colados, a gente se afasta, vamos até à casa de banho e eles vêm atrás. Temos que fechar a porta pra não sermos observados enquanto estamos na casa de banho. E isso pode ser uma situação mais ligeira, porque nós podemos treinar com saídas inesperadas, ir só até às escadas do prédio e voltar a entrar, recompensar por eles ficarem quietinhos, deitados na cama. Nós temos muita tendência de: "Ele tá dormindo, deixa eu ficar". Não, a gente deve recompensá-lo por ele estar relaxado.
Compensá-los.
Com brincadeiras, com festinhas, com biscoitos, o que seja.
O que for.
Tem é que ser algo que ele perceba: "Se eu ficar quietinho, eu sou recompensado".
Portanto, estou me a portar bem, é ficar assim durante mais tempo.
Exatamente. E é prolongar, é aumentarmos isso. E sim, há cães que antecipam a saída dos donos. Assim que os donos começam a vestir o casaco, começam a pegar nas chaves, fazem aquele barulho e eles começam logo a entrar em pânico. Temos que começar a pegar nas chaves, mesmo sem sair.
Aqueles cães que conseguem perceber qual é o barulho do motor do carro a quilômetros de distância e começam logo a dar sinal.
Espantoso. Mas esses cães, eu diria mais que é saudade. Contradiando a minha tendência de não usar sentimentos antropomórficos, eu diria mais que é saudade, por quê? Porque eles estão quietos, estão relaxados, mas assim que ouvem o motor: "Vem lá, vou já pra porta", vai a correr e a agitação toda começa naquele momento. E isso é um bom sinal de que há uma boa relação. Pra mim, não é uma coisa má. O que é mau é quando, porque nós temos esta dificuldade, nós não conseguimos ainda conversar com os nossos cães com palavras muito completas, ou melhor, frases completas E isso faz com que a gente não consiga explicar tudo. A gente tem que demonstrar, mas não dá para explicar.
Mas a dica que há pouco davas, Nuno, de pegar na chave mais vezes, não só na hora da saída da casa.
Vestir o casaco sem sair, ir até lá fora e voltar, e depois ir até ao café e voltar. Ou seja, tentarmos ter ritmos de saídas não esperados, não programados, para que eles percebam que sim, o meu dono vai voltar. Porque senão ele vai entrar em pânico por achar que vai ficar sozinho outra vez o resto da vida.
Nuno, e outra dúvida que eu tenho aqui, não sei se há grandes estudos sobre isso. Sabes exatamente o que faz a maioria dos cães e dos gatos quando os donos não estão em casa? Ou seja, colocando uma câmera num canto da parede pode dar para perceber mais ou menos, mas para quem nunca experimentou, o que acontece na maior parte dos casos?
Depende. Há cães que pura e simplesmente estão atentos ao que se passa lá fora, vão ver, vão espreitar a janela, têm alguma atividade. Há outros que pura e simplesmente dormem, comem, voltam para a cama, voltam a dormir, voltam a comer.
É a minha vida de sonho, no fundo.
Experimenta ficar mais de oito dias fechados em casa só a dormir. Eu sei. A gente tem essa ideia, mas também chega um ponto em que ficamos um bocado fartos de estar quietos, sem fazer nada, nem ver televisão, nem ouvir rádio.
Portanto, no caso de ansiedade, cada caso é um caso, deve ser avaliado.
Deve ser avaliado. Há casos de ansiedades complicados, que devem ser seguidos por médicos veterinários, porque na realidade são complicados, podem chegar à necessidade de medicação, inclusivamente.
E pode até incomodar os vizinhos também, há esses problemas.
É uma das grandes razões de frustração de cães hoje em dia na cidade, é o incômodo dos vizinhos. E quem gosta de cães não quer que eles incomodem outras pessoas. Mesmo que os outros gostem ou não gostem, nós queremos que o nosso cão seja um bom cidadão.
Portanto, cada caso deve ser avaliado e depois há questões de treino que vão também dar uma ajuda. Sexta-feira é dia de Pet Radio. Estamos sempre à conversa com o médico veterinário Nuno Paixão. Obrigada, Nuno. Até para a semana.
Obrigada, Nuno. Até para a semana.
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