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Ninguém fazia cerimônia, graças a Deus, em falar, em ligar, fosse a que horas fosse. E então eu, para não ter que me levantar, arranjei um fio com não sei quantos metros, que se prolongava pelo corredor até o meu quarto. E as pessoas habituaram-se que podiam telefonar a qualquer hora.

Na noite de 6 de maio de 1980, Conceição Monteiro já está deitada e acorda com o telefone a tocar. Não sabe o assunto, mas a verdade é que também não estranha. Faz parte do trabalho receber chamadas a qualquer hora. Atende.

Quem me falou foi o doutor Sá Carneiro, que soube através dos seguranças que ele tinha sempre e tinha as informações do Ministério da Administração Interna, etc. E telefonou-me a dizer: "Houve um avião desviado para Madrid, não há notícias nenhumas, vá já para São Bento".

Conceição Monteiro, secretária do Primeiro-Ministro, levanta-se imediatamente e sai de casa a correr. A 600 km dali, os telefones também não param.

Nesse dia, recebe-se um telefonema das autoridades espanholas dizendo que um avião da TAP tinha sido sequestrado por piratas, desconhecia-se. Havia este problema dos desvios de aviões, dos piratas aéreos, do terrorismo. Havia realmente um receio grande.

Luís Castro Mendes, secretário da Embaixada Portuguesa em Madrid, também já está em alerta. Ele e o embaixador vão de urgência para o aeroporto. As forças especiais cercam o avião. Não sabem se há um ou mais sequestradores no interior, muito menos o que exigem, mas estão preparadas para tudo. Fora do avião, ninguém faz ideia de que tudo isto foi desencadeado por um jovem de 16 anos. O copiloto tenta ganhar a confiança do pirata, mas o sequestrador continua armado e não desiste das intenções. Quer 10 milhões de dólares e um salvo-conduto para a Suíça. Rui pensa que preparou tudo ao pormenor, mas há algo com que não contou e está à beira de perder o controlo. Este é o Piratinha do Ar, uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Class do Observador. É narrada por mim, Margarida Vila Nova, com banda sonora original de David Fonseca. Episódio três: Cercado. Esta é uma história real e é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir. Nesta viagem, os Podcast Class do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.

Eu vi pela janela do avião movimentação de jipe militar e, de facto, quando o avião estava a rolar para o estacionamento em Madrid, via-se viaturas com as luzes apagadas a seguir o avião, ao lado do avião.

Parece que estamos num cenário de guerra. Das janelas do avião só se veem homens armados vestidos de negro. O nervosismo aumenta entre os passageiros. Pedro Feran sabe que quem está dentro da cabine é o miúdo que ia sentado ao lado dele quando descolou, mas não faz qualquer ideia de onde é que acabou de aterrar e agora vê o avião cercado. Os passageiros continuam na expectativa, desesperam por informações.

Havia um silêncio total, o comandante vai dizendo coisas e vamos começar a descer. O chefe de cabine diz: "Vamos iniciar a descida e tal". Nada, silêncio sepulcral.

Este silêncio está a tornar-se insuportável. De repente, começa a ouvir-se uma voz nos alto-falantes.

É o próprio sequestrador que pega no microfone e diz aos passageiros: "Estamos em Madrid, o avião está sob sequestro".

Correia Guedes, o copiloto, está ao lado do pirata no cockpit. Pedro Feran ouve tudo no lugar em que está sentado, na parte de trás do avião.

Ele disse: "Eu sou o Rui Rodrigues, peço que mantenham a calma. Isto é um assunto entre mim e o governo português". Uma coisa assim, um discurso ensaiado. Ele tinha ensaiado aquele discurso e então começamos a saber o que estava a acontecer.

82 passageiros e sete tripulantes sabem finalmente no que estão metidos.

É só neste momento que eles percebem que estão sob sequestro. Eles percebem que estão sob sequestro. O avião está fechado, as portas todas fechadas, sem autorização para abrir, e vão começar as negociações.

O embaixador, eu e um outro colega meu que estava lá na embaixada, chamado José Lameiras, fomos imediatamente para a torre de controle do aeroporto.

Luís Castro Mendes, secretário da embaixada, tinha acabado de chegar a Madri e já se via no meio de uma crise internacional. Veio acompanhar o embaixador João de Sá Coutinho, que está em funções desde 24 de abril. Agora, apenas 12 dias depois, já tem em mãos o sequestro de um avião da TAP. Assim que entram na torre de controle, apercebem-se de que os espanhóis não querem ceder um milímetro.

Verificamos que os espanhóis tinham já disposto tudo para uma intervenção dentro do avião, uma intervenção antiterrorista, em que naturalmente iriam liquidar os elementos terroristas que estivessem no avião, procurando salvar os reféns. Estavam preparados para uma operação, portanto extremamente séria, de invasão do avião.

Estamos no início da década de 80. Espanha convivia de perto com atentados terroristas e a ETA era uma ameaça permanente. A organização separatista exigia a independência do País Basco e não hesitava em recorrer à violência.

"Os terroristas iam numa moto negra Ducati, matrícula Madri 6789D".

1980 foi mesmo o ano mais sangrento. 92 pessoas morreram na sequência de ataques atribuídos ao grupo basco.

Espanha estava em consolidação democrática, numa situação bastante agitada. Havia terrorismo da ETA, terrorismo no País Basco. Havia uma grande tensão com as forças franquistas, como se viu aliás no golpe de Estado a que nós também assistimos de 23 de fevereiro de 1981, em que há uma tentativa de golpe de Estado de extrema-direita.

Vivia-se um período de transição e em plena Guerra Fria, o sul da Europa era estratégico. A Península Ibérica era mais um palco de luta política entre o bloco comunista e o Ocidente. Em Portugal, existiam receios sobre o avanço do comunismo depois do 25 de abril. Em junho, Jimmy Carter, presidente dos Estados Unidos, visitou Lisboa e falou pessoalmente com o Presidente da República e o Primeiro-Ministro. Conceição Monteiro, secretária de Francisco Sá Carneiro, recorda como 1980 foi um ano desafiante para o governo. Em agosto, quatro diplomatas russos foram expulsos de Portugal, acusados de espionagem.

O doutor Sá Carneiro nunca se acobardou perante gestos que ele achava que eram justos e necessários. Quer dizer, ele não tinha medo de tomar decisões, mas sei que houve preocupação e que entre o Eurico Melo, que era Ministro da Administração Interna, e o Freitas do Amaral, que era Ministro dos Negócios Estrangeiros e Ministro de Estado, resolveram, claro, que o Primeiro-Ministro teve que intervir.

Ainda antes da expulsão dos diplomatas russos, um outro caso tinha posto o governo à prova. Um grupo de portugueses foi feito refém em África. Quinze pescadores de matosinhos detidos pela Frente Polisário, o movimento armado que defende a independência do território do Saara Ocidental.

Bem, os dias que eles tiveram reféns, muito contato, muita coisa, os da Frente Polisário estavam a ferro e fogo, não os queriam deixar. Acho que eles entraram nas águas territoriais ali, puseram-se a jeito. Diz que é um sítio de pesca muito bom. Eles arriscaram e ficaram todos reféns, imagino que durou uns dias.

1980 foi um ano alucinante. E assim, já conseguem perceber com que razão nesta noite de maio, em Madri, as forças especiais estão preparadas para o pior.

Sempre em prontidão e com vontade de atacar e de ser violento e intransigente. A ideia de um desvio de avião por um sujeito armado, é claro que não há considerações humanistas de coitadinho do jovem que está perturbado. Há uma ideia que se trata de um ato terrorista, seja quem for que o tenha praticado e, portanto, vamos intervir com o conhecimento que eles tinham da intervenção em casos de reféns, de tomadas de reféns. E, portanto, a coisa para eles era muito séria, como para nós era muito séria.

Em Lisboa, o governo procura respostas Conceição Monteiro, depois de receber o telefonema urgente do Primeiro-Ministro, chega ao gabinete. Sá Carneiro sai também de casa rapidamente para gerir a crise, mas desaparece misteriosamente.

Aparecem os dois seguranças dele, esbaforidos, pela escada acima. Eu ouvi tudo a subir a escada e entraram e perguntaram: "O senhor Primeiro-Ministro?" Eu disse: "Sim". "Então, o senhor Primeiro-Ministro telefonou para o chefe", julgo que já era o chefe Costa, "telefonou para a Coisía dizer que tinha que vir para São Bento", porque ele tinha que andar sempre com segurança. E nós chegamos a casa, ele não estava em casa, não estava na rua, não estava na garagem à nossa espera, não sabemos dele.

Imaginem que são seguranças e, de repente, perdem o Primeiro-Ministro de Portugal. Conceição Monteiro tem de os tranquilizar. Está tudo bem. Sá Carneiro tinha apenas pressa e decidiu apanhar uma boleia.

"O Primeiro-Ministro está no gabinete a trabalhar." "Ai, ainda bem, dona Conceição, ainda bem que nos sossega." Eu disse: "Mas o que é que aconteceu?" Depois fui lá dentro e encontrei o tal senhor segurança, aflitíssima: "Porque o senhor doutor desapareceu, não estava em casa." "Ah, pois não, eles estavam a demorar um bocado e passou um carro Nívea." Um carro Nívea era os da polícia, que eram azuis e brancos, e a pomada Nívea era uma caixa azul com letras brancas. E ele disse-me assim: "Passou e eu pedi-lhes boleia. E eles trouxeram-me aqui porque eram da esquadra do Rato", porque ele vivia na D. João V. Eles eram da esquadra do Rato, iam para a esquadra. Eu pedi uma boleia e eles vieram-me trazer. Os seguranças iam-me mordendo. Pediu uma boleia, foi pro meio da rua pedir uma boleia, andamos nós atrás dele, aflitíssimos.

Sá Carneiro está agora reunido com o ministro dos Transportes e Comunicações, José Carlos Viana Baptista, e com Freitas do Amaral, ministro dos Negócios Estrangeiros. Estão em ligação direta com o embaixador português em Madrid. A notícia já está cá fora. O país segue atento pela rádio e pela televisão. Em Madrid, chegou a altura de estabelecer comunicação entre o cockpit e a torre de controle.

O senhor embaixador chega à torre de controle e comunica conosco e nós comunicamos o que é preciso para resolver o problema, as exigências do sequestrador. Ele disse: "Sim, senhor, aguardem um momento".

A conversa é entre o comandante e o embaixador. José Correia Guedes, copiloto, está dentro do cockpit e ouve tudo. Do outro lado da linha, Luís Castro Mendes, secretário da embaixada, está a acompanhar a conversa na torre de controle e recorda um outro detalhe deste primeiro contacto.

O comandante transmitiu-nos a seguinte ideia: isto é um rapazinho, é um rapaz, não é um terrorista organizado, não é verdadeiramente alguém perigoso, irredutível. Como é que ele consegue transmitir isto tendo o pirata ao lado, armado, revela uma grande subtileza, quer do comandante do avião, quer do embaixador, porque eles conseguem, por meio das palavras, e sem ir muito ao fundo da questão, transmitir esta ideia. É um rapazinho, é um miúdo, não vamos pra soluções extremas.

É só neste momento que as autoridades ficam a saber o que está em causa. Sim, há um sequestro. Sim, há exigências, mas não se trata de um grupo organizado com motivações políticas, nem parece tratar-se de terrorismo. É um miúdo de 16 anos. No gabinete de crise, Sá Carneiro e os ministros recebem a mesma informação.

Foi a meio da noite que se começou a realizar que não era nada do que se pensou a princípio. A princípio, pensávamos todos que seria um gesto político ou terrorista ou qualquer coisa.

Conceição Monteiro vê o primeiro-ministro um pouco mais calmo, mas a situação continua a ser muito perigosa. O sequestrador está de arma em punho, com mais de 80 pessoas a bordo e exige um resgate para as libertar.

Boa noite. Continuamos a acompanhar o caso do avião da TAP que foi desviado para Madrid.

Por esta altura, na outra margem do Tejo, Renato Ventosa e os amigos de Rui assistem a tudo pela televisão. Em todo o país, só eles têm verdadeiramente a certeza sobre o que se está a passar. Afinal, o amigo Rui já lhes tinha contado tudo dias antes de embarcar naquele voo. Eles é que não quiseram acreditar.

Aquela história que ele tinha contado, agora estava a bater certo, que era: ele desapareceu de casa, era um avião que ia para Faro, foi desviado pra Madrid, era tudo muita coincidência. Falei logo com meu irmão. Passou-se, o que é que se...? Ligamos logo, percebemos logo que era ele, obviamente. Ligamos para o pai de uma amiga nossa, que na altura era inspetora judiciária A informar logo que a pessoa que estava a fazer aquele trabalho não era nenhum terrorista, nenhum criminoso, era um jovem absolutamente normal, que seguramente estava com problemas psicológicos graves para ter tido aquela atitude.

A Polícia Judiciária começa a investigar. Como é que um miúdo de apenas 16 anos entra armado num avião e faz dezenas de reféns? O presidente da TAP e os responsáveis pela segurança do Aeroporto de Lisboa também não dormem. Esta noite está a ser traumática para uma empresa que faz parte do imaginário dos portugueses. Conceição Monteiro recorda o fascínio pelos aviões que se vivia nesta época.

A TAP era a única. E tinha muito bom nome de segurança. E a TAP era uma joia da coroa, não há dúvida nenhuma, porque a TAP era realmente muito importante, porque era a nossa ligação com o resto do mundo. Eu lembro-me perfeitamente que um dos passeios das famílias era ir ao aeroporto ver aterrar os aviões. O edifício era completamente diferente, tinha um terraço enorme e estava toda a gente naquilo: "Olha, vai aterrar, vai um, vai outro, aquele vai levantar." Era um entusiasmo, porque não era a banalidade que é hoje em dia. Já ninguém diz: "Vou para Paris amanhã, venho de Londres, cheguei do Brasil, fui a Istambul, fui à Tailândia". Tudo se leva, a aviação é encarada de uma maneira completamente diferente.

A TAP era vista como uma das companhias aéreas mais seguras do mundo. E foi apenas poucos anos antes deste sequestro do voo 131 que aconteceu o primeiro grande desastre. Em novembro de 1977, um avião sofreu um acidente no Funchal. Despinhou-se no final da pista do Aeroporto da Madeira. 131 pessoas morreram. Ainda hoje, é o acidente mais grave da história da companhia portuguesa. José Correia Guedes recorda como esse desastre abalou por completo a TAP.

Tivemos aquele choque brutal que nos deixou a todos em estado de choque, não tenho outra expressão para isso. Nós éramos, na altura, vistos como uma das companhias mais seguras do mundo e ainda hoje somos. E de repente, não lhe queria chamar mito, mas o conceito desfaz. Eles também se matam, também têm acidentes, também morrem. Foi uma coisa que nos marcou a todos muito.

O avião que saiu fora de pista na Madeira era também um Boeing 727, praticamente igual ao que agora está sob sequestro, estacionado numa zona remota do aeroporto de Madrid. O tempo está a passar. Em Lisboa, Francisco Sá Carneiro tem de responder às exigências do sequestrador. Está ao telefone com o embaixador português em Madrid. O Primeiro-Ministro é intransigente: US$ 10 milhões e um salvo-conduto para a Suíça, nem pensar. Conceição Monteiro sabe que Sá Carneiro está apreensivo, mas não o vê perder a calma em nenhum momento.

Tudo podia vir a acontecer e podia ter que se juntar, chamar a tropa e chamar isto e aquilo, mas calma. Dentro da grande aflição e apreensão, ele conseguiu sempre, como fazia, manter a calma e gerir as coisas de acordo com aquilo que ele achava que devia ser feito. Não entrava em histeria nunca.

Confiante na decisão, o Primeiro-Ministro responde ao embaixador de Portugal em Madrid. O telefone volta a tocar na torre de controle do aeroporto em Barajas e a partir daí, a mensagem é transmitida para o cockpit do avião.

Lamento muito, mas o senhor Primeiro-Ministro Sá Carneiro diz que não paga, que não há dinheiro e para nós tratarmos de resolver o problema da melhor forma possível. Portanto, está nas vossas mãos agora resolver o problema.

Até àquele momento, tudo estava a correr como o Rui tinha planeado, mas agora a Operação TAP sofre o primeiro revés. Ele nunca tinha pensado num plano B para o caso de as exigências não serem aceites. Nem sequer lhe passou pela cabeça. De repente, não sabe o que fazer. Está num avião cheio de passageiros e cercado por forças especiais. Não tem para onde fugir. O nervosismo cresce entre os passageiros e a tripulação, que esperam ansiosamente por novidades.

Havia um tripulante que estava um bocadinho nervoso, até explodi assim um bocadinho. Perguntou-me uma vez: "Tens uma faca?" Eu digo: "Uma faca para quê?" "Abrir a porta do cockpit." Eu digo: " És maluco? Está lá um fulano com uma arma. Se ele me vir mexer na porta, até penso que pode não ser aqui".

Ninguém chega a entrar no cockpit e enquanto todos aguardam por respostas, Vítor Azevedo faz o que pode para acalmar os ânimos.

Eu gosto muito de contar anedotas. Levei algum tempo a contar algumas anedotas, porque percebi que as pessoas começaram. Eu tinha esta situação de conhecer quem tinha sequestrado o avião, mas as pessoas em geral não. E então começa a criar-se um certo burburinho em relação a isto, problemas. E então comecei a distrair um bocadinho, a contar umas anedotas para animar um bocado a festa. Até que o chefe de cabine me veio dizer: "Riam, mas mais baixo, não façam tanto para ele não desconfiar e pensar que estou a brincar com ele", qualquer coisa assim do gênero.

Dentro do cockpit, o copiloto procura agora convencer o Piratinha a fazer pelo menos uma cedência.

Primeira preocupação: alimentar os passageiros. Temos que arranjar comida, qualquer coisa para alimentar esta gente que temos aqui dentro. Como é que vamos fazer? Vamos mandar vir um contentor com refeições, com sandes. Ele diz: "Não, não quero nada que entre a bordo". Ele estava com medo que juntamente com as sandes viessem microfones, qualquer coisa que denunciasse a sua posição.

Os homens armados, vestidos de negro, continuam a cercar o avião. As forças especiais aguardam apenas por uma ordem para entrar. Na torre de controle, os diplomatas portugueses correm contra o tempo para impedir uma ação violenta.

Convencer as autoridades espanholas que não era de entrar no avião e disparar sobre o miúdo, porque seria realmente um sacrifício, uma chacina. Eles estavam perfeitamente armados e treinados e, portanto, nem se justificava, porque não era uma ação terrorista, evidentemente.

Castro Mendes e o embaixador João de Sá Coutinho tentam explicar que não há motivos para responder de forma violenta ao que se está a passar, mas as forças espanholas têm pressa.

Da parte espanhola, sim, eles estavam muito nervosos. Estavam num contexto de terrorismo, receavam que a posição portuguesa acabasse por ser fraca e alimentar a vontade dos terroristas. Só que nós não estávamos nem perante uma organização terrorista, nem perante um ato politicamente motivado. Estávamos perante um puro ato de insensatez, de um miúdo muito jovem e imaturo, e que era possível dar a volta. Do ponto de vista espanhol, claro, tratava-se de uma situação de terrorismo e uma situação que tinha que ser resolvida sem a menor contemplação ou sem a menor cedência àquelas reivindicações.

É um momento de impasse. Rui não desiste e os espanhóis estão a perder a paciência.

Sabemos já que o sequestrador é um jovem de 16 anos. Neste momento estão a decorrer negociações com o governo português.

No Feijó, os pais são informados do que se passa. Ficam em choque. Estão em lágrimas, de olhos na televisão e a aguardar por novidades. A família assiste a tudo em casa enquanto recebe apoio dos amigos. O jornalista Miguel Cordeiro falou com Renato Ventosa.

Falei com o meu irmão na altura, que são as pessoas mais ligadas que sabiam disto, isto é, sabiam da história que ele tinha contado, e fomos logo pra casa dele avisar os pais. Como é que eles estavam nessa noite? Os pais? Como é que estavam? De rastos. Tanto nessa noite como em todas as noites seguintes. O pai chorava, a mãe chorava, estava de rastos completamente.

Rui está encurralado. O plano que pôs em marcha ao desviar o avião não está a resultar. Ninguém cede às exigências. Correia Guedes procura manter-se calmo dentro do cockpit. Sabe que se cometer algum erro, pode acontecer uma tragédia.

Estamos no chão, estamos no solo, mas as regras continuam a ser as mesmas, ou seja, não vamos tentar qualquer ato de violência contra o sequestrador, porque por um lado iremos colocar-nos a nós próprios em risco. O avião continua carregado de combustível, já gastou algum, mas ainda tem umas toneladas de combustível nas asas. Qualquer fonte de ignição poderá ser trágica e um tiro poderá ser a palavra de ordem que as forças de segurança querem ouvir para entrar no avião.

O copiloto acredita que a chave para resolver o impasse está na relação de confiança que começou a criar com o sequestrador logo no início do desvio. O caminho é por aí. Correia Guedes nunca tinha vivido nada assim, mas estudou outros casos de sequestros e sabe o que tem de fazer. Só há uma hipótese de resolver isto.

Quando um sequestrador começa a ceder, faz a primeira cedência, é o princípio. Vai fazer mais, vai fazer todas. O problema é fazer a primeira. Se ele cede, e nós já sabíamos disso, já tínhamos estudado os outros sequestros, os outros acidentes, aprendemos sempre com aquilo que acontece aos outros, é uma primeira vitória.

O copiloto procura a primeira cedência: libertar alguns passageiros O avião está cheio. São dezenas de pessoas sem comida, ansiosas e sentadas há horas num espaço apertado. Olha o sequestrador nos olhos e arrisca. Pede-lhe que deixe sair mulheres e crianças.

Então manda lá contar quantas mulheres e crianças há e vamos deixar sair as mulheres e as crianças. Bingo! Primeira vitória. Vamos abrir uma porta e há passageiros que vão sair. Primeira cedência.

Estamos dentro de um avião cercado. As portas não abrem há horas. Rui Rodrigues não quer nada nem ninguém entrar. E agora, sem saber ao certo como pode ele próprio livrar-se do cerco em que se meteu, prepara-se para começar a deixar sair passageiros. O Boeing 727 tem um detalhe que permite realizar a operação sem a necessidade de ter pessoas a colocarem uma escada no exterior. Nas traseiras do avião, há uma plataforma que abre em direção ao solo. Rui assiste a tudo do cockpit com a arma na mão. Não quer sair dali e ficar exposto numa situação em que possa ser atacado, mas não demora muito a perceber pela janela que algo de errado se está a passar. Vê homens a fugir. Saem mais passageiros do que era suposto. De repente, sai do cockpit, levanta a pistola e ordena que se fechem novamente as portas. O plano está totalmente fora de controle. No próximo episódio, o copiloto tenta negociar e perceber os motivos do sequestrador.

Durante a negociação, eu fui-lhe perguntando: "Por quê? Por que estás a fazer isto? Por que queres ir pra Suíça?"

Quem fica dentro do avião já pensa no pior cenário.

Memória de um senhor que tirou os sapatos da bagageira e calçou os sapatos dizendo que ia estragar os sapatos antes de morrer.

O Piratinha vai reagir à desobediência dos passageiros.

Se o gajo tenta tirar-lhe a arma, ele dispara e eu ainda apanho com um balaço aqui na cabeça. Eu estou aqui mesmo à frente.

"O Piratinha do Ar" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Margarida Vila Nova, e tem banda sonora original de David Fonseca. O guião e as entrevistas são de Miguel Cordeiro. A edição é de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Beatriz Martel Garcia. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis