Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
São apenas sete segundos. É o tempo que passa entre o piloto carregar num botão e a rampa com as escadas na cauda do aparelho tocar finalmente a pista. Rui esteve semanas a preparar a operação. Tinha identificado com uma caneta de tinta azul as várias saídas do Boeing 727 num folheto promocional da TAP, mas esta não estava lá assinalada. Sete segundos foi quanto bastou para o plano começar a descarrilar.
Metou-se quem era amador, porque quando é o comando diz: fila 20, fila 19, vai controlando as saídas. A gente disse aquilo e houve uma revoada de gente a sair do avião, inclusivamente um senhor pegou no filho de um outro casal, que tinha dois filhos, e saiu deixou a mulher no avião.
Sim, ouviram bem. Na confusão da saída, um homem pegou no filho de outro casal e fugiu porta fora, deixando a própria mulher dentro do avião. No cockpit, o Piratinha do Ar não tem boa visibilidade para o que se passa lá atrás.
Ele estava a uma distância grande. O avião é um tubo e lá ao fim do tubo, ele de cima, da parte ao pé do cockpit, vê mal, principalmente quando as pessoas estão no corredor.
Rui olha pela janela do cockpit, apercebe-se da fuga descontrolada de reféns. Aquilo não foi nada do que ele tinha autorizado. Para se impor, levanta novamente a arma.
O controle foi mal feito e juntamente com as mulheres e crianças, saíram alguns homens também. Ele quando viu aquela cena, a partir do cockpit, de pessoas a correrem, que não eram aquelas que ele esperava, mandou imediatamente fechar a porta e ainda lá ficaram uns quantos. Saíram uns quantos, mas lá ficaram outros.
O comandante volta a carregar no botão e recolhe as escadas. Só que metade dos passageiros tinham acabado de sair do avião. Nem tudo estava ainda perdido para o Piratinha, mas aquele foi o início do fim. Rui escolheu o voo 131 da TAP para Faro, porque sabia que mesmo que não fosse cheio, um voo ao final do dia transportava muitos passageiros. Quantos mais reféns fizesse, mais hipóteses teria de conseguir que as suas exigências fossem aceites: 10 milhões de dólares e um salvo-conduto para a Suíça. Mas chegou o momento de enfrentar as primeiras contrariedades. O governo português não quer pagar o resgate e os reféns, que pretendia usar como moeda de troca, são agora menos. As coisas não estão a ir conforme o plano. Rui tem de pensar rápido, pôr ordem no sequestro. E a primeira coisa a fazer é mostrar aos passageiros que restam que quem manda é ele. O tempo continua a passar. Na pistola ainda estão as mesmas oito balas que tinha quando entrou a bordo do avião. No final da noite, vai sobrar apenas uma. Este é o "Piratinha do Ar", uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Margarida Vila Nova, e a banda sonora original é de David Fonseca. Episódio quatro: a última bala. Esta é uma história real e é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Rui decide reorganizar os passageiros. Quer todos sentados nas filas traseiras para garantir uma distância de segurança. Até este momento, Pedro Ferrão tinha-se dado por contente por estar mais atrás, longe do cockpit, mas agora, depois da confusão, acaba por ficar num lugar mesmo à frente do sequestrador armado.
Estava na primeira fila, do lado direito do avião. Eu mudei do lado esquerdo para o lado direito e ele estava ali, a uns cinco ou seis metros, sei lá. Era muito perto.
O Piratinha não consegue parar de pensar de que forma vai resolver este problema. Agora não desvia o olhar dos passageiros e não baixa a arma, mas nota-se que começa a ficar cansado.
Já não conseguia com a arma, ele tinha a mão esquerda a segurar a mão direita com a pistola. Ele não era intimidante, a figura dele, uma figurinha de um miúdo. Mas sabe que há miúdos que perdem a cabeça
Pedro Ferran mantém-se imóvel, olhos fixos na pistola que está apontada na sua direção. Basta um dedo nervoso descontrolar-se no gatilho para tudo acabar ali. Os outros passageiros que conseguiram fugir do Boeing 727 são agora conduzidos para uma zona segura. Recebem apoio das autoridades espanholas e da equipe da Embaixada Portuguesa, que está no aeroporto a mediar o impasse. E fazem aquilo que, num primeiro momento, não se espera de pessoas que acabaram de estar reféns: defendem o sequestrador.
Quando os passageiros saem, dizem: "Não o façam mal, é um miúdo". E dizem abertamente aquilo que o comandante já nos tinha transmitido por meios palavras. "Não lhe façam mal, é um miúdo cheio de problemas, coitadinho". Porque eu acho que toda a gente percebeu, dentro do avião, a natureza da pessoa que estava a fazer aquele disparate. Mas obviamente, do ponto de vista espanhol, é um ato terrorista e tem que ser imediatamente contido.
Os espanhóis não ficam convencidos com o testemunho de quem acabou de sair do avião. Seja quem for que esteja lá dentro, está armado e continua a ter dezenas de reféns. Ou as negociações chegam a algum lado, ou a única solução é recorrer à força. Em Portugal, a RTP continua a noticiar o que se passa em Madrid, já com a certeza de que se trata de um jovem e de que é do Feijó. Na sala de casa do Rui, estão todos com os olhos na televisão. Os pais ainda estão incrédulos. Renato Ventosa, um dos amigos do Clube dos Ovnis, contou finalmente tudo o que sabia. O Rui tinha lhe revelado o plano dias antes, mas Renato não acreditou e não disse nada a ninguém.
Não, porque mesmo que nós tivéssemos contado, nada daquilo fazia sentido. Se nós tivéssemos contado aos nossos pais: "Olha, o Rui vai sequestrar". "Está bem". É daquelas notícias, conhecendo as pessoas, nós não estamos a falar de um delinquente, não estamos a falar de um criminoso, estamos a falar de um amigo nosso que convivia diariamente conosco e que nós conhecíamos bastante bem. Nada daquilo fazia sentido. Portanto, mesmo que essa história fosse contada a alguém, ninguém iria dar qualquer importância mínima a essa história.
Os pais procuram respostas, não percebem o que se está a passar. Nem suspeitam de que tudo o que está a acontecer é por causa deles. No gabinete de crise, o primeiro-ministro mantém-se intransigente. O governo não vai negociar. Francisco Sá Carneiro está fechado com os ministros dos Transportes e dos Negócios Estrangeiros. Conceição Monteiro está do outro lado da porta, na sala mesmo ao lado. A secretária não sabe ao certo o que discutem, mas não tem mãos a medir com tantos telefonemas.
O trabalho essa noite foi atender telefones. Virei telefonista, porque quando se começou a saber, as rádios é que começaram a dizer, só havia a RTP, não havia outras televisões. E começaram a dar a notícia e as pessoas, até os outros ministros, imensa gente falou, mas sobretudo os jornalistas a quererem saber onde é que estávamos e porque é que estávamos, e o que é que se passava.
Dentro do avião, Rui mantém os olhos nos passageiros. Pedro Ferran vê o pirata de frente. Estão a cinco metros um do outro.
Tive medo. Muito medo. Eu era pai de dois filhos, casado, e a minha vida estável. E agora estava a me acontecer uma coisa daquelas num voo de rotina, sem problema nenhum, a ir parar para onde? Eu nem sabia onde é que estávamos a aterrar. A gente aterrou em Madrid sem saber que estava para aterrar em Madrid.
O cockpit mantém via aberta com a torre de controle. O embaixador tenta aliciar o pirata com uma promessa que sabe que não pode cumprir. Garante-lhe que não lhe vai acontecer nada se acabar agora com o sequestro. Rui fica a pensar. Precisa de encontrar uma solução para a encruzilhada em que se meteu, mas não confia em ninguém do lado de fora. Dentro do avião, os dois pilotos mantêm a calma, mesmo com uma arma por perto.
Aquilo parecia um bailado. O miúdo, o piratinha, todo ali, já cansado de segurar a arma, e o copiloto passava junto ao braço que ele tinha com a mão na arma, junto a ele, e andava para trás e para frente. Eu digo: "Para onde é que ele vai? Atirar-se a ele, para lhe tirar a arma da mão". Mas não. Aquilo foi um jogo de paciência. Mais parecia um jogo de xadrez, daqueles do Kasparov ou do Karpov, ou não sei quem. Da paciência, de inteligência.
O comportamento da tripulação acalma os passageiros, mas Pedro Ferran não consegue tirar os olhos da pistola.
Eu, quando estava com a arma apontada, o piloto estava com um cachimbo. Ele passava por ele
Entre o cockpit e a fila que as pessoas utilizam para se mudar de lugar, ele passava quase por baixo do braço dele, que ele tinha a arma, com um ar pachorrento. Eu pensei: se o cara tenta tirar a arma dele, ele dispara e eu ainda apanho um balaço aqui na cabeça, eu estou aqui bem na frente.
Vítor Azevedo está algumas filas mais atrás. No meio de toda aquela tensão, recorda-se de algumas situações caricatas.
Um senhor que tirou os sapatos da bagageira e calçou os sapatos dizendo que ia estragar os sapatos antes de morrer. Depois, posteriormente, ele deu a autorização para saírem pessoas idosas e houve uma senhora sueca que devia ter, se calhar, a idade que eu tenho agora, 70 e tal. E ficou. E alguém perguntou daquele grupo, não acho onde é que estava em seguida, se ela falava inglês, ela disse que sim. Perguntou: "Mas percebeu o que ele disse?" "Percebi." "Então por que não se foi embora? Com essa idade, quem é que resistiria isto até ao fim?"
Estamos já na madrugada de 7 de maio e os passageiros estão cada vez mais ansiosos.
O processo negocial entre ele, o embaixador em Madrid, o comandante, levou horas. E ele mantinha os reféns lá dentro do avião.
Há um passageiro que pede para falar com o pirata. Apresenta-se como vice-cônsul da Suécia em Faro. A bordo do avião segue também um grupo numeroso de suecos e o diplomata quer saber se pode ajudar com as exigências do sequestrador. Conversa com o Rui durante alguns minutos e no final manda chamar o embaixador da Suécia em Madrid para a torre de controle. Por esta altura, José Correia Guedes já tinha posto em marcha o seu próprio plano. O copiloto confia que a chave para resolver o desvio do avião pode estar em continuar a aproximar-se do sequestrador e insiste numa pergunta.
Durante a negociação, eu fui lhe perguntando por quê. Por que estás a fazer isto? Por que queres ir para a Suíça?
Sim, por quê? Por que razão estamos dentro de um avião há horas com um jovem de 16 anos armado, nervoso, a pedir um resgate milionário e uma fuga para a Suíça? O que se passou para que o Rui, que todos descrevem como um bom rapaz, esteja de repente a fazer dezenas de reféns? Cansado e sem ver uma saída para o impasse em que se meteu, abre finalmente o jogo com o copiloto.
Ele então contou-me problemas de ordem familiar, com os pais, que obviamente eu aqui não vou revelar. O ambiente familiar não seria fantástico, pelo contrário. Mas era aquilo que eu dizia: "Ó Rui, se todos os miúdos que têm problemas com os pais, de relacionamento, no ambiente familiar, desatam a assaltar aviões, isto é uma loucura. O país fica um inferno, ninguém consegue viver aqui. Não pode ser, isso acontece em milhares de casas, não acontece na tua."
Confirma-se. Este pirata é mesmo diferente de todos os outros. O que o move não é política ou terrorismo. No Feijó, ninguém suspeita das motivações. Renato Ventosa sempre passou muito tempo em casa do amigo e conhece bem os pais dele, Alexandre e Adelina Rodrigues.
A mãe muito simpática. Gostava muito de nós quando estávamos lá em casa, era uma pessoa muito simples e simpática. O pai dele parecia que estava sempre zangado, mas eu acho que isso tinha um bocado a ver. Uma pessoa simpática também, mas parecia que estava sempre zangado, porque é uma pessoa que trabalhava 12 horas no trânsito de Lisboa diariamente. Coitado, não devia ter paciência nenhuma.
De todas as vezes em que esteve com os pais do amigo, Renato nunca se apercebeu de nada grave.
Que eu me tivesse apercebido, não se davam mal. Às vezes ouvia reclamar, mas nunca me apercebi de nada. Mas soube mais tarde que ele se queixava que os pais se davam mal e que no fundo tinha feito aquilo para chamar a atenção dos pais. Repare, eu quando estava na casa dele, normalmente o pai não estava lá, porque o pai já chegava tarde. E das vezes que lá estava, eu apercebia-me que ele era uma pessoa um bocado refilona, zangada. Comigo nunca foi arrogante nem nada disso, mas sentia a forma de falar que era capaz de ser um bocado rude, efetivamente, com o Rui e com a mãe, talvez, mas nunca me apercebi, nem nunca ele me disse que os pais se davam mal. Isso nunca senti.
Dentro do cockpit, José Correia Guedes continua a conversar com o Rui, mas o piratinha está cada vez mais nervoso. O copiloto sabe disso, mas sabe também que, neste momento, o sequestrador está em desvantagem.
Tínhamos chegado a um impasse em termos de negociação e eu decidi jogar tudo o que tinha, todos os argumentos que tinha, porque não via outra solução possível. Argumentos de ordem psicológica e de ordem, vamos chamar de portuguesa, por que não, lusitana. Ou seja, nós somos o que somos, para o bem e para o mal, e vamos tentar uma solução à portuguesa. Foi nisso que eu pensei. Tal como acontece sempre quando uma pessoa se sente encurralada, se lhe abrirem uma porta, uma possibilidade de negociação, quando um sequestrador, um atacante está encurralado, qualquer porta que se lhe abra, ele pelo menos tenta aproveitar. Eu decidi jogar essa cartada.
José Correia Guedes tem um plano na cabeça e está pronto para o apresentar ao Rui.
"Olha, quero conversar contigo. Vamos ter que conversar, vamos ter que resolver isto. Tenho aqui algumas propostas para te fazer." Ele disse: "Então apresente as tuas propostas".
Do lado de fora, as forças especiais espanholas estão com o dedo no gatilho. Os separatistas da ETA nunca desviaram aviões, mas vários grupos terroristas na Europa já o tinham feito. Por isso, em todos os países se treinava este tipo de situações e em Espanha o grupo especial de operações não era uma exceção. Existem pelo menos três formas de entrar neste avião e eliminar o sequestrador. Uma delas passa por um acesso através do trem de aterragem do aparelho. Ainda hoje, Pedro Feijão está convencido que era isso que estava prestes a acontecer.
Eles já sabiam que iam ter um avião que ia aterrar, sequestrado, e prepararam-se para entrar através do trem de aterragem no avião.
O segundo método consiste em colocar estrategicamente explosivos de forma a rebentar com as portas de entrada. E a terceira possibilidade passa por explorar os ângulos mortos do sequestrador, que dentro do avião tem um raio de visão limitado para fora. O plano seria subir até ao topo do aparelho, descer através de cordas até ao para-brisas do cockpit, partir os vidros e entrar de rompante. Qualquer que fosse o método usado, se as forças espanholas recebessem ordem para agir, a história iria ter um fim muito provável: a morte do Piratinha. José Correia Guedes sabe que corre contra o tempo para evitar uma tragédia e vai jogar tudo o que consegue para garantir o fim deste sequestro. O plano do copiloto tem quatro partes e nenhuma pode falhar para ser bem-sucedido. A primeira passa por oferecer ajuda através do pai, uma figura importante na justiça portuguesa.
Então eu disse-lhe: "Olha, eu sou filho de um juiz. É verdade. Juiz conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, é verdade. E eu prometo que quando isto acabar, eu vou falar com ele e ele vai fazer o melhor possível para que as consequências disto não sejam dramáticas para a tua vida". Era uma negociação possível. Eles já estavam a usar o meu pai sem autorização e colocá-lo até numa situação, que se fosse hoje, seria bastante discutível, mas eram os argumentos que eu tinha. Não tinha mais nenhum para tentar convencê-lo.
Rui escuta-o com atenção. José Correia Guedes passa para a segunda parte da proposta: testemunhar a favor do sequestrador.
Vais beneficiar de outra coisa se não fizeres mal a ninguém. Pode ter a certeza que o padre da tua terra ou os teus professores vão falar bem de ti, eu vou falar bem de ti. Isto vai, até certo ponto, minimizar as consequências deste disparate que estás a fazer. Vamos tratar isto de uma forma digna. Mas sim, pois talvez, não estava muito convencido.
A conversa leva alguns minutos. O Piratinha está hesitante, mas continua a ouvir. Correia Guedes não perde tempo e avança para a terceira parte do plano. É preciso deixar sair os restantes passageiros. Todos. Só com esse gesto de boa vontade é possível convencer os espanhóis de que o Rui é um adolescente confuso e não um terrorista perigoso, disposto a matar os reféns. O desvio do avião dura há várias horas. O governo português recusou as exigências do sequestrador. As forças especiais espanholas estão fartas de esperar. Não é possível aguentar mais um segundo. Rui sabe que não tem outra saída. Aceita finalmente a proposta, mas o passageiro mais influente de todos vai criar-lhe um problema inesperado. Desta vez, é preciso fazer as coisas com calma. A tripulação comunica aos passageiros que podem sair, mas de forma ordeira, por fases. Primeiro, os mais velhos, as mulheres e crianças que restam A saída vai acontecendo devagar, sem a confusão da primeira vez. Depois, saem os passageiros que estão nas filas de trás, mais perto da plataforma com as escadas situada na cauda do avião. E assim sucessivamente, até que todos estejam fora do aparelho. Pedro Feiran, que assistiu a tudo da primeira fila, fica ainda mais espantado com a ação do comandante.
Se tivéssemos ali um comandante campeão: "Epá, estes miúdos eu vou dar cabo deles, quem é que julgam que é?". Foi um xeque-mate. O comandante deu um xeque-mate.
Pedro Feiran abandona o Boeing 727 da TAP. Sai praticamente ao mesmo tempo que Vítor Azevedo. Os passageiros são recebidos pelas autoridades espanholas, pela equipa da Embaixada Portuguesa em Madrid e também por alguns jornalistas.
Antes eu até sido entrevistado por três ou quatro repórteres espanhóis, mas eu falei um português portunhol, que eu penso que ainda hoje eles andem a tentar traduzir aquilo que eu disse. Depois fomos para o aeroporto, estivemos lá algum tempo, serviram-nos lá uns cafés, umas bebidas, uns snacks.
As autoridades são mais uma vez surpreendidas com o que ouvem. Tal como os primeiros passageiros que foram libertados, também estes pedem que não haja uma intervenção violenta para resolver este caso. O secretário da Embaixada Portuguesa, Luís Filipe Castro Mendes, ouviu o mesmo de praticamente todas as pessoas que deixaram o avião.
O que foi curioso, foi ver como os passageiros do avião estavam indignados e tomavam o partido do rapaz. Diziam: "Coitadinho do rapazinho, não o prendam, não lhe façam mal". Quer dizer, havia uma espécie de solidariedade de todos os passageiros com o miúdo.
Em Faro, as famílias dos passageiros chegaram a pensar que estava a acontecer um atentado terrorista. Finalmente em liberdade, Vítor Azevedo consegue ligar para casa e tranquilizar os familiares.
Deram-nos a autorização para telefonar, porque na altura não havia telemóveis, para a família, porque, por exemplo, em Faro, onde o avião depois de ter aterrado por volta das 10 da noite, diziam que tinha sido as Brigadas Vermelhas, isso na altura. Depois falei para casa, fomos para o hotel.
Pedro Feiran, já fora do avião, também liga para casa. A mulher estava preocupada há várias horas.
A minha mulher começou a achar estranho eu não dizer nada. Ou melhor, o controlador de serviço ligou para ela a dizer o que estava a acontecer. "Olha, o Feiran foi para Madrid, o avião foi desviado" e a minha mulher ficou em pânico. É evidente. A minha mulher ficou em pânico. Eu já tinha dois filhos, normal, e depois eu só falei com ela quando cheguei ao aeroporto. Nessa altura, se calhar no hotel, talvez, porque não havia telemóveis. Nessa altura não havia telemóveis.
Os reféns libertados são encaminhados para um hotel junto ao aeroporto, mas há um que se recusa a sair do avião. E não é um passageiro qualquer. É aquele que pode deitar tudo a perder. O último passageiro é o vice-cônsul da Suécia e as forças especiais espanholas não vão permitir, por muito tempo, que um diplomata estrangeiro esteja em risco de vida dentro de um avião sequestrado. O vice-cônsul sueco resiste a abandonar o avião. Está à espera que o seu embaixador chegue ao aeroporto e exige falar com ele. Minutos depois, a torre de controle entra em contacto com o avião. O embaixador está ali pronto para falar com o vice-cônsul. Rui permite que ele entre no cockpit e os dois diplomatas conversam em sueco durante alguns minutos através do rádio. O piloto, o copiloto e o sequestrador ouvem tudo, mas não conseguem perceber o que se está a passar. Quando a comunicação termina, o vice-cônsul aceita deixar o avião. Já não há nenhum passageiro a bordo. Resta apenas a tripulação, que não quer abandonar os comandantes. José Correia Guedes não desiste de tentar convencer o Piratinha. O copiloto já prometeu ao Rui a ajuda do pai, que é juiz, já garantiu que vai testemunhar a favor do sequestrador em tribunal e já conseguiu a libertação dos passageiros. Falta apenas a última parte do plano: a arma.
Depois eu disse: "Mas há aqui uma coisa que eu preciso de resolver já". "Então o que é?" "Eu preciso da tua pistola, preciso que me dês a pistola e as balas e eu prometo que à chegada a Lisboa, digo à polícia que a arma estava descarregada". Não estava, estava carregada. Pensando eu, ingenuamente, não sei nada de leis, que isso seria uma atenuante para o crime
Sequestrar um avião com recurso a uma arma é um crime que não perde peso se a pistola estiver descarregada. Não há esse tipo de atenuante. José Correia Guedes não sabe disso, mas nesta altura pouco importa, porque o Rui também não sabe.
Tivemos um pedaço de tempo para negociar a história da arma, porque a entrega da arma seria o fim do sequestro, seria o fim de tudo. E eu comprometi-me da forma que conseguia comprometer. Eu disse: "Olha, eu vou falar com meu pai, eu digo à polícia que a arma estava descarregada, isto vai se resolver".
O Rui tem apenas 16 anos. Correia Guedes, pouco mais de 30. Era como se um irmão mais velho lhe estivesse a dizer que ia correr tudo bem.
Houve um momento que estávamos os dois a chorar lado a lado no cockpit, com uma lágrima no olho. Eu também comovido com a forma como aquilo estava a correr e a compreender o problema dele, mas também era uma descarga emocional. Eu próprio também já estava a ceder.
Até aqui, Rui fez tudo o que Correia Guedes lhe pediu. Aceitou falar, manteve a calma e deixou sair os passageiros. Falta cumprir uma última promessa para terminar o sequestro: entregar a arma. Por um segundo, o copiloto chegou a pensar que era mesmo isso que ia acontecer. Mas não é isso que o Piratinha faz. Fica com a pistola e dá sete balas ao copiloto. José Correia Guedes repara que falta a oitava bala e pergunta onde é que ela está.
"Está aqui, eu vou acabar aqui. Vais acabar aqui, que eu vou-me suicidar".
Rui já decidiu. A última bala é para ele. No próximo episódio, Correia Guedes tenta convencer Rui a entregar a última bala.
Aí começo eu a chorar também. "Tu estás maluco, miúdo bonito, inteligente, com a vida inteira pela frente, estás a fazer um disparate, mas isto resolve-se. Tu estás de tretas, dá-me cá a porcaria da bala".
O copiloto consegue chegar à fala com a mãe do Piratinha.
E atendeu-me a senhora do lado de lá. Isto é uma conversa de loucos, alta madrugada. "Olhe, o meu nome é José Guedes, sou piloto da TAP e o seu filho acaba de me assaltar o avião".
E um novo personagem vai aparecer para mudar o rumo desta história.
Digamos que eu tinha um certo faro, se me é permitida a palavra, para as oportunidades, e eu vi ali essa possibilidade.
"O Piratinha do Ar" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Margarida Vila Nova, e tem banda sonora original de David Fonseca. O guião e as entrevistas são de Miguel Cordeiro. A edição é de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Beatriz Martelo Garcia, a coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.
