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E pensando na década de 80, as memórias que temos e a ideia que temos foi muito formada pela cultura popular, mas em particular pela televisão.

Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", o programa que junta três das melhores memórias que a cultura popular já viu. As de Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Bucher Mendes. Esta semana, todos juntinhos aqui outra vez para falar do presente, regressando ao passado, tudo à conta de "Stranger Things". É uma das séries mais populares dos últimos 10 anos. Começou em 2016 e chega agora, a partir desta quinta-feira em que vamos pro ar, em que este programa passa pela primeira vez. Chegou à última temporada com os primeiros episódios finais já disponíveis na Netflix. Os restantes, fica aqui o aviso, chegam no Natal e depois no Ano Novo. Para quem não sabe do que se trata, do que estamos aqui a falar. "Stranger Things" conta a história de um grupo de crianças. Atenção, vou resumir isto de forma mais-

Mesmo resumida

...sintética possível, mas vejam como é que eu me safo. É a história de um grupo de crianças, que entretanto já são jovens adultos, porque se passaram quase 10 anos, que tentam salvar a cidade onde vivem de um mal que vem de um mundo paralelo. As pessoas que não viram nada já estão super entusiasmadas com isto. O que também é muito interessante, talvez mais interessante pra muita gente, é que a história recorre muito a um exercício de nostalgia, com muitas referências pop de outros tempos. E quando digo referências aqui, são coisas assumidíssimas. São ligações diretas a outros filmes, séries, etc. Maria Ramos Silva, vamos começar por ti. Tu que, como é que eu te posso citar? Viste as quatro temporadas anteriores e dizes tu que já não te lembras de nada.

Não muito. Lembro-me disso que tu acabaste de enunciar.

Até porque a quarta temporada já tem o quê? Uns dois anos.

E a primeira, como tu notaste, começou em julho de 2016.

Eu tenho isto um bocado fresco, porque vi tudo aqui há uns meses.

Tu fizeste bem. E eles agora também não me apanham outra vez, porque agora só vou ver isto-

Mas olha que foi a primeira vez que eu desenvolvi este exercício, que é: esta série vai acabar, então agora vou ver tudo aquilo que nunca vi.

Mas é uma decisão sensata e cada vez mais, de facto.

Viste há pouco tempo, é isso?

Vi no verão.

Ok, verão. V-E-R-Ã-O. É isso?

V-E-R-Ã-O. Talvez com um til.

Certo.

Pra mim, o principal problema, de facto, é este tempo todo que passou. Pra mim não faz sentido, porque acho muito difícil tu garantires essa suspensão dos juízos durante 10 anos, porque, de facto, como tu dizes, é uma série de garotos que já não são assim tão garotos.

Quando dizes uma série de garotos, estás a falar do público ou dos protagonistas?

O elenco. O elenco, portanto, a âncora daquilo, são aventuras de miúdos que obviamente nos fazem transportar para esse momento em que éramos miúdos e ainda tivemos a possibilidade, se calhar, não de andar atrás de seres sobrenaturais, mas de brincar na rua. Sujar os beiços, enfim, essas coisas. Portanto, tem obviamente essa vocação nostálgica. Mas a verdade é que a Eleven já se podia chamar 21. Já passaram muitos anos. Ela está francamente diferente.

Ela casou.

Pronto, pois é isso. É impossível tu estares blindado, tu sabes o que é vida cá fora.

E tu achas que isso mina a nossa relação com a série e com os personagens?

Eu não vou deixar de ver o final da série por causa disso, mas obviamente que é difícil olhar pra aquilo com a mesma inocência e encanto que tu olhavas na temporada de arranque, até porque a temporada de arranque é francamente boa. A primeira é muito boa.

As duas primeiras são as minhas favoritas, de facto, de longe.

E eu senti-

Muito à conta de eles serem garotinhos.

Exatamente.

É verdade.

E o que eu senti é que já na última havia muita tentação de se arrastar aquilo pra lá do aceitável.

Ainda assim, acho que eles recuperaram um bocadinho face à terceira.

Pronto, já não sei. Se calhar, estou a dizer quarta, mas terceira. Eu sinto que a partir de certa altura já é claramente: temos que fazer mais uma temporada para a Netflix, temos que fazer render isto, porque de facto é um sucesso, como é que vamos fazer a coisa. Mas há várias séries que padecem desse problema. Agora, dito isto, é o que eu dizia, eu desta vez não me vou deixar enganar com este lance.

Desta vez não me apanham.

Com estes lançamentos em doses homeopáticas. Eu vou esperar por janeiro de 2026 pra ver esta fase final.

Dia 1 de janeiro, a partir da 1h da manhã, vais ter tudo disponível.

Não quer dizer que veja logo, mas assim que tiverem condições para isso, sim.

Assim que tiverem condições.

Pronto, vida, porque há outras coisas pra fazer na vida.

Depois da selvageria do réveillon, de Maria Ramos Silva.

Não indo por aí.

Exato. Pedro Bucher Mendes, o que eu sei é que tu viste a primeira temporada, não ficaste assim muito convencido com o final, não seguiste caminho.

Nem tu, acho eu.

Da primeira. Eu já não me lembro como é que acabou a primeira.

Não vamos falar.

Não interessa. Eu acho que não foi mal. Mas não seguiste caminho para as temporadas seguintes, o que não invalida que faças aqui o teu juízo. Aliás, tu tens algumas coisas a dizer sobre esta série. E sobre este exercício de reciclagem. Não sei se lhe podemos chamar assim.

A série é feita pelos Duffer Brothers. São gêmeos.

Os manos.

Exato, que nasceram em 1984.

Não têm legitimidade pra-

Têm. Só que não viveram os tempos. No fundo, é como se nós fizéssemos uma série sobre os anos 60.

Exato.

Gostamos imenso da época, mas não éramos vivos, não éramos nascidos nessa altura. Portanto, é só pra enquadrar. E o lado homenagem aos anos 80 e àquela lógica de alguns filmes, filmes do Spielberg, o "E.T.", os filmes como o "Poltergeist", os "Dunas".

"Encontro dos Inimigos", etc.

Exato, "Encontro dos Inimigos", etc. É assumido.

"O Tubarão".

Sim, é assumido.

Sim, claramente assumido.

As chamadas piscadelas de olho ou easter eggs.

Acho que são muitas coisas plantadas de propósito.

É uma série. Aquele meme, aquela fotografia do DiCaprio, que vemos o DiCaprio a ver televisão e aponta assim o dedo para a televisão a dizer: "Olha, uma referência." Não sei se já apanhaste alguma vez.

Acho que não, mas estou muito curioso com isso.

Há uma fotografia do Leonardo DiCaprio que circula na net, que é: "Olha, uma referência a Portugal numa série." Há sempre uma luzinha que se acende em nós quando vemos uma referência a Portugal nas séries, e eventualmente dos anos 80. Algumas gerações poderão fazer o mesmo, ou pessoas que estão muito interessadas na época. Eu vi a série em 2017 ou 2016.

Começou em 2016.

2016 já foi há muito tempo.

Nove anos.

É outro vida.

Eu era outra pessoa. Eu hoje provavelmente não teria espreitado.

Mas estás melhor hoje.

Não, tenho outra idade. Eu, por exemplo, não espreitei sequer aquela série, Wednesday.

Também não.

Nem sequer vi um frame. E se calhar, se fosse há 10 anos, teria espreitado. Portanto, quando espreitei a série, eu gostei bastante da dinâmica dos atores. Há atores que são interessantes, fazem lembrar aqueles miúdos como no E.T., o Elliot, que se chamava. São expressivos. A própria Eleven, é assim que se chama aquela personagem esquisita que é a Millie Bobby Brown naquela altura. Senti: " estes são interessantes", como o caso do Goonies, que foram muito bem escolhidos, sobretudo aquele que se chama Finn.

Sim.

Depois há sempre o miúdo feio e gordo.

Que é o que encontra a Eleven, como se fosse o E.T., não é?

Depois há o feio e gordo, expressivo.

Sim, há os estereótipos.

Mas são muito bem escritos. A série está bem escrita. A primeira temporada. Depois tem a mãe não sei quê e o vizinho não sei quê.

Arquétipos.

Isso, são referências que nós temos. Não gostei do final como foi resolvido, embora acho que é um problema meu, porque o final é resolvido a contento daquela estética 80's, aqueles tipos de filmes em que ainda não havia inteligência artificial nem CGI e os efeitos especiais eram efeitos com plasticina, com bonecos e com luzes e com efeitos de câmera, etc. Depois aquilo tornou-se um fenômeno popular, acho eu, como se teria tornado uma série passada nos 60's se houvesse Netflix há não sei quantos anos. Acho que tem a ver com isso. Acho que tem a ver com o facto de algumas pessoas terem uma ideia, uma noção dos anos 80, neste caso, e quererem alimentar esse amor, essa devoção. Mas, na verdade, essas pessoas são de outro tempo. Podemos discutir isso depois, se quiseres.

Percebo-te. Bruno Vieira Amaral, qual é a tua relação com esta série?

É uma relação É uma relação-

Estás no divã.

Que foi interrompida.

Vocês não embarcaram neste fenômeno.

Não fiquei a ver todas as temporadas. Aliás, foi curioso que a primeira temporada que vi foi a segunda, porque o meu filho mais velho, na altura adolescente, agora já saído da adolescência, estava a ver a série, já tinha visto a primeira temporada. Eu acho que foi quando foi lançada a segunda temporada. Vi, não tinha visto a primeira e depois fui ver a primeira temporada. Gostei, mas não o suficiente para ver as temporadas ou estar à espera das próximas temporadas. Não me importava muito, realmente, o que ia acontecer a seguir. E admito que a falha seja minha. Mas a série levanta uma série, passo aqui a repetição da palavra, de questões importantes sobre a memória, sobre a nostalgia e sobre, nesta época em particular dos anos 80, o que é que são os anos 80 para nós e para a geração que os viveu. Não foi o caso destes irmãos, eram muito pequenos, viveram mais se calhar já na década seguinte, mas provavelmente ainda com muitos efeitos da década de 80. E pensando na década de 80, as memórias que temos e a ideia que temos foi muito formada quer pela cultura popular, mas em particular pela televisão, pelo cinema e pela televisão e pelo cinema que víamos também na televisão. Portanto, é inevitável que uma série que seja ambientada nos anos 80, é praticamente impossível não remeter para o universo audiovisual dos anos 80 e aquilo que formou as nossas memórias, porque as memórias audiovisuais e as memórias da vida confundem-se, são uma só.

Desculpe interromper, mas isso explica muito bem uma coisa que é o facto de, à parte do resto, a história ou elenco, ou seja o que for, a série ter cativado uma geração como a nossa. Ou seja, pessoas mais velhas ou não, adolescentes ou não crianças, mas os mais novos não viveram esses anos 80, não têm essa referência e apaixonaram-se pela série.

E apaixonaram-se, provavelmente até mais do que a própria geração que teria uma ligação com-

Isso é o que o Pedro dizia. Nós também temos outro encanto pelos anos 60.

E séries de crianças e de adolescentes são sempre um apelo para pessoas

Que o foram há pouco tempo ou que o são.

E havia esse lado de contraste com o que é ser adolescente hoje. Basta lembrar outras referências como o "American Graffiti" do George Lucas, que também é uma revisitação de um período da adolescência, mas é feito nos anos 70, sobre a juventude ali nos anos 50. E há essa revisitação que tem um apelo para quem viveu aquele período, mas também para quem estava a ser adolescente, com aquela ideia: como era diferente ser jovem naquela altura. E há aqui essa sobreposição de, por um lado, de como era ser adolescente nos anos 80, ou ser criança e ser adolescente nos anos 80, e a ideia que temos disso é muito marcada pelos produtos audiovisuais, séries, cinema e filmes daquela época. E também há essa sobreposição com referências atuais e formas de produzir também o audiovisual, que são completamente modernas, um pouco no sentido daquilo que o Pedro dizia, as possibilidades audiovisuais hoje, a nível de efeitos especiais, mas também até a nível da narrativa, são outras, são diferentes. Então há aqui uma revisitação nostálgica de um determinado período, mas com as possibilidades tecnológicas dos nossos tempos. E eu acho que é isso que torna interessante para os jovens de hoje e, ao mesmo tempo, para essa geração, que teria mais facilmente um ponto de ligação emocional com a história. Mas nestes produtos que fazem essa revisitação nostálgica de um momento, há sempre também um diálogo com a geração atual.

Claro.

E basta ver como os miúdos hoje, há muitos miúdos que as referências musicais deles, se calhar, até vão antes dos anos 80. Vão aos anos 70. Mas anos 70, anos 80 e anos 90, para eles, há uma recusa dessa, também uma forma de afirmação da sua própria identidade geracional. Há uma recusa das referências culturais do seu tempo e ir buscar mais atrás, e é uma forma de ancorarem também a sua personalidade. E tudo isso é explorado no "Stranger Things". Depois, pode-se discutir outras coisas, sobre a qualidade da própria história que é contada, se capta a atenção ou não, mas eu acho que do ponto de vista cultural, a série faz essa síntese, essa revisitação nostálgica e ao mesmo tempo, ligando-se à geração de hoje, que eu creio que foi essa geração que tornou o "Stranger Things" num fenómeno.

Pedro, sei que tens aí uma coisinha para partilhar conosco. Vamos só fazer agora um curto intervalo. Já te passo a palavra. Voltamos daqui a nada, também para viajar até ao nosso 1987. Até já. Estamos de regresso ao "PopUp" com Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Bucher Mendes. Na primeira parte começámos a falar sobre "Stranger Things", que é o tema que nos traz aqui esta semana. A última temporada acabou de chegar à Netflix, os primeiros episódios. Pedro Bucher Mendes, tinhas aqui mais qualquer coisinha a dizer sobre esta série?

Sim. Quando eu era miúdo, uma das grandes referências era uma série belga, acho que suíça ou belga, chamada "Os Pequenos Vagabundos", "Les Galapiats", não sei se já ouviste falar.

Ouvi qualquer coisa.

Sim.

Quando isto acabar, vou fazer aqui uma pesquisa.

Merece bem que, pelo menos, um te ache alguém.

Pois é.

É uma série que passou na RTP várias vezes e é uma grande referência para as pessoas nascidas nos anos 60 que viam televisão.

Exato.

Eu já nasci nos anos 70. Outras referências para nós: "Os Cinco" e "Os Sete". No meu caso, também "Os Dois Anos de Férias" do Júlio Verne e, enfim, talvez tantas pessoas, claro. Tudo que envolvia jovens como nós, crianças como nós, a fazerem coisas audazes, já para não falar dos Cinco, claro, eram motivos de interesse. Nós queríamos ser como aqueles miúdos que iam resolver mistérios. O próprio Tintim tem uma idade quase que se nós quisermos puxar para esta idade.

Eu acho que nem se percebe muito bem a idade do Tintim de propósito.

Eu acho que esta geração que sentiu o apelo pelo "Stranger Things" é mais a geração do "Já Tocou?", do "Saved by the Bell", deves te lembrar da TV.

Lembro, claro.

E dos Morangos com Açúcar, claro.

Pronto, isso já não.

Mas lembras-te, sim?

Sim, claro.

Sabes o que é, claro.

Sim, mas não já não.

Que é uma série, que é uma produção da TV, teve inúmeras temporadas e que lançou vários atores, mas que é um marco cultural muito importante nas gerações nascidas nos anos 80 e 80 e tal.

Confesso que conheço, portanto, estamos a falar de pessoas mais novas que eu. Quem tenha sido criança adolescente com Morangos com Açúcar e que agora é adulto a ver "Stranger Things" e é de tal maneira fã que tem tatuagens da série.

Do "Stranger Things"?

Sim.

Essa parte dos Morangos com Açúcar é só para, ou seja, nós temos sempre os nossos referentes de séries com adolescentes e crianças e aquela idade de liceu.

Riscos.

O risco, isso é um caso à parte. Aquela idade do primeiro beijo, do primeiro cigarro, das primeiras referências disto e aquilo, em que a amizade é pura.

Eu gostei da cronologia. Beijo, cigarro.

Ou talvez cigarro, beijo.

Exato.

Um dos apelos grandes da nostalgia é que nós achamos que o passado é imutável, já não vai acontecer nada. Ou seja, eu posso me deitar no sofá, olhar pro teto e sorrir, também porque sei que o bullying do liceu não vai aparecer de repente. A não ser que seja uma série tipo "Stranger Things".

E pode aparecer.

E só pra dar esta nota: "Ah, então por que não há mais? Por que não se fazem mais séries?" Porque trabalhar com menores de idade é muito caro. Complexo e muito caro. Podem gravar muito menos horas, incluindo em Portugal, a lei protege-os. Têm que ter tutores para dar aulas, não sei o que mais. Portanto, esta série tem esse mérito de ter conseguido fazer uma saga com crianças atores ou atores crianças.

E um brilhante casting.

Que demorou, acho que foram vistas 400 pessoas.

Sim.

A Millie Bobby Brown, antes de chegarem a ela.

Muito bem.

Imagina que em Portugal podes ver 400 pessoas antes de escolher.

Boa sorte com isso, rapazes. A série, esta última temporada de "Stranger Things" passa-se em 1987 e nós, como apreciamos esse tipo de exercícios, vamos falar do nosso 1987 e eu pedi-vos que escolhessem algumas referências desse ano, das vossas memórias. Maria Ramos Silva, vamos começar por ti e tu vais começar com os Amigos de Gaspar.

Ó papa-aju.

Quase que soltas uma gotinha.

Vou, sabes por quê? Porque, de fato, nós estamos aqui a falar deste advento todo que nos permitiu fazer coisas extraordinárias, incluindo combinar o lado nostálgico com o melhor que a tecnologia nos dá. Depois ter aqui uns gráficos incríveis. Mas isto era o mais básico que havia. Isto eram marionetes, eram peluches manipulados.

É verdade. E era extraordinário.

E era extraordinário. Tinha canções do Sérgio Godinho, imaginem. Digam uma série hoje que tenha canções do Sérgio Godinho pra miúdos. Não, não deve haver, claramente. Mas eu acho que nos deu personagens absolutamente maravilhosas. Nós continuamos a citar ainda hoje, desde o Majorico, o guarda cerouzo e o Farturas, coisas absolutamente incríveis. E, aliás, isto é criado, um dos fundadores estava ligado às marionetas do Porto e, portanto, não é por acaso esta relação, mas de fato era uma coisa muito amadora. Quando nós olhamos em retrospectiva, mas certamente muitos miúdos daquela altura lembrar-se-ão destes momentos frente à televisão. Pra mim, são uma bela memória.

Bruno Vieira Amaral. Não associava diretamente 1987 a "Roque Santeiro".

Mas ele arranjou forma.

Porque não me lembro.

Não te lembras, mas eu lembro-me.

Mas fiz a coleção de cromos.

Do "Roque Santeiro"?

É verdade.

Havia uma coleção de cromos do "Roque Santeiro"?

E eu fiz.

"Roque Santeiro" estreou em 1987 em Portugal. Foi um fenômeno visível.

Só se falava disso.

O "Roque Santeiro", depois da Gabriela, que foi a primeira telenovela, foi o maior sucesso, mesmo no Brasil, na altura. No Brasil, estreou em 85, creio que final de 85. Houve uma primeira versão do "Roque Santeiro", ainda durante a ditadura militar no Brasil, que foi proibida pela censura nos anos 70, com o Francisco Coco no papel que depois foi desempenhado, Roque Santeiro, papel desempenhado por José Wilker, já com o Lima Duarte no papel de Senhorzinho Malta, e creio que era a Betty Faria que fazia de Porcina, a viúva Porcina, que depois foi a Regina Duarte. E o Roque Santeiro marcou, porque todas as novelas na altura marcavam.

Claro.

Mas marcou mais do que todas as outras e representa, creio, que o apogeu do formato telenovela no Brasil, na teledramaturgia, mas em Portugal também. Ou seja, o fenômeno popular, o envolvimento com as personagens, com a história, os bordões que ficaram famosos dessa telenovela, pra mim, são um apogeu do formato em Portugal, que depois ainda tem outros momentos altos, mas a partir daí vai declinando vagarosamente, até depois ser substituído, já no final dos anos 90, começar a ser substituída pelas telenovelas de produção portuguesa. E acho que na altura, em 1987, não havia mais canais, havia a RTP1 e a RTP2. Todos víamos, adultos e crianças viam as telenovelas. No dia seguinte, na escola, comentava-se a telenovela. Tudo era em função das telenovelas. Os nomes das crianças eram escolhidos por causa das personagens das telenovelas, portanto, era algo que englobava, engolia toda a sociedade.

Era inescapável.

Não tens nenhum fenômeno remotamente semelhante ao impacto cultural das telenovelas. E o Roque Santeiro, pra mim, pra além da qualidade, foi esse verdadeiro fenômeno cultural. Eu lembro-me depois, em 1993, a SIC, que na altura já tinha os direitos das telenovelas da Globo, ter feito uma reposição e ter achado bastante antiquado.

Normal.

Essa é a dúvida: estou certo ou estou errado?

Estou certo ou estou errado? Pedro Abrunhosa Mendes.

Aliás, o Scolari, desculpa, o Scolari fazia lembrar um pouco a personagem cômica das novelas brasileiras, mas é um elogio.

Tu queres ir pro rock and roll, Circo de Feras dos Xutos & Pontapés.

Eu quero ir, tu perguntaste o que é que é importante em 87.

Certo, claro. E Joshua Tree dos U2, dois álbuns históricos e clássicos, digo eu.

Sim, são dois discos que saíram nesse ano

Enfim, não é preciso falar muito do Circo de Feras e de Joshua Tree. Só para dizer que esses discos, álbuns como se diz agora, longas durações.

LPs.

LPs, tiveram uma vida longuíssima nos meses e anos, até anos seguintes. Ver o Bono com aquele chapéu preto e aquele ar misterioso, e aqueles discos a preto e branco, e os Xutos &​ Pontapés, claro, que se tornaram, defendo eu, e falo disso no livro que escrevi sobre os anos 80, na banda nacional do cavaquismo, aquelas músicas do Circo de Feras, embora a intenção dos Xutos obviamente não fosse essa, que era uma banda urbana, ligada às classes trabalhadoras, pelo menos em espírito. 87 é talvez o primeiro ano em que se sente mesmo o efeito da adesão à CEE. Nós somos da CEE efetivamente a partir de 1 de janeiro de 86. Posso já falar da segunda coisa?

Por que não? Vamos em frente.

87 é a primeira maioria absoluta de Cavaco, porque, defendo eu, e defende lá mais gente, os portugueses queriam que aquele DJ, neste caso Cavaco, que era primeiro-ministro desde 85.

DJ Cavaco.

Cavaco era primeiro-ministro do governo militário desde 85. Os nossos analistas e comentadores da altura achavam que era passageiro, nem sequer citavam o nome dele. Era uma questão do PRD, do Yanes, resolver aquilo ali com o PS, o Soares. O Cavaco queria sair rapidamente. O próprio Álvaro Cunhal disse que não, isso vai durar para aí um dia, esse governo. Parece que o povo português gostou dos governos de Cavaco Silva. Alguém gostou. Se calhar estavam intoxicados pela boa vida que vinham tendo. E 87 é o primeiro ano em que se vive a sério os benefícios de fazer parte da União Europeia, por comparação com não fazer parte da União Europeia. Nessa medida, escolhi esses dois álbuns. Eu comprei o disco dos Xutos &​ Pontapés. Na altura, para um jovem comprar um álbum de uma banda portuguesa era muito arriscado, porque se nós tivéssemos dinheiro, em princípio iríamos comprar mais um best of dos Queen. Ou o álbum dos Simply Red, ou uma coisa qualquer. Dar dinheiro por um disco de uma banda portuguesa era uma coisa, porque nós achávamos que a música portuguesa era inferior. Aliás, podemos fazer um programa sobre isso. A música portuguesa não tocava nas rádios, nem tocava nas discotecas. Havia programas específicos de música portuguesa como se fosse uma coisa secundária e pior. E esse disco dos Xutos é o álbum dos Contentores, e do Circo de Feras, e do Sai para a Rua, e do Na América, e o álbum dos U2. São dois álbuns que vão viver durante muito tempo a seguir a terem sido lançados, o que também não era muito comum na época.

E continuam a viver. Só para recordar, o Pedro escolheu dois álbuns e DJ Cavaco.

Não, eu só queria dar aqui uma colherada, pode? Porque isso é muito engraçado. Repara, eu tinha cinco anos na altura, portanto eu sou um legítimo produto do cavaquismo, como deves calcular. E vendo imagens daquela altura, é muito engraçado, porque o Cavaco é quase o fundo do ecrã da minha infância ou daquela altura. Porque de facto, eu lembro-me de imagens ótimas com o meu irmão miúdos na sala a brincar, e a imagem do Cavaco está na televisão. E isso é muito expressivo daqueles tempos e também das memórias que acabam por se colar não sei se como DJ, mas como figura pop incontornável daquele tempo.

O DJ é naquele sentido, nós estamos numa festa e estamos a gostar da música. "Vou-me embora". "Não, fica aí, fica aí mais um bocado". Fica aí, que está aí DJ Cavaco. Maria Ramos Silva eu queria que tu falasses também de uma das outras coisas, que são as livrarias nos primórdios dos centros comerciais.

Sim, porque eu ainda não ia a discotecas nesta altura.

Exato. Depois é que foi a desgraça.

Depois é que veio o DJ Cavaco. As livrarias, eu recordo, em pequena, segundo dizem os meus pais, quem é aqui a fonte mais segura nestas matérias. Eu nunca liguei muito à bonecada, tirando essa da televisão. Mas não era propriamente o meu entretenimento mais recorrente, mas gostava muito de livros, até do objeto livro, nem que fosse andar com o livro atrás como aquele personagem do Charlie Brown que anda com o mantinha.

O Linus.

O Linus. Eu não andava com o mantinha, mas andava sempre com um livro atrás.

Era a tua fralda.

Era a minha fralda.

Era a tua fralda.

Que bela imagem, Tiago Parafita. E aparentemente também gostava muito de livrarias. Vai-se lá saber por quê, porque é ali que estavam os livros, as pessoas iam às livrarias. Não havia sequer essa ideia do livro digital. E eu recordo-me que parte da experiência, isto na verdade são duas experiências que acabam por se encontrar, que é de alguma forma a experiência de ir ao centro comercial, aos centros comerciais que tinhas na altura ainda muito de centro de cidade, com dimensões mais reduzidas, como o Polo 70, que vem de trás. Lembro-me muito, por exemplo, do rés-do-chão do Fonte Nova, onde havia uma livraria. E lembro-me perfeitamente dessa imagem de descer as escadas. Eu não me recordo sequer qual era a livraria, mas que havia lá embaixo.

Não era a Livraria Castilho?

Mas era no fundo nova, não me recordo.

Era, essa é a ideia que eu tenho. Mas seguimos em frente.

É possível, pode ser. Alguém que nos auxilie, provavelmente.

Agora temos um e-mail.

Exato, mandamos a resposta para as nossas dúvidas. É verdade.

Até lá vamos.

E depois em 87, obviamente, esse pináculo da sofisticação urbana que é a abertura das Amoreiras e a possibilidade de depois ires a um centro que ainda era uns furos acima.

E era mesmo acima.

E era mesmo acima. E nós dois brincamos, achamos uma coisa absolutamente provinciana, essa coisa de ir passear para o centro comercial.

Não, aliás, já fizemos referência a isso várias vezes neste programa.

Mas para aquele tempo, em que as pessoas não tinham sequer telemóveis para estar a fazer scroll infinito, era o acontecimento, de facto, e portanto, é obviamente uma paisagem da minha infância.

Exato. Por falar em ir até ao infinito, Bruno Vieira Amaral, uma das tuas escolhas foi "Miami Vice".

Mais televisão. Eu só escolhi televisão.

E bem.

Para mim, a infância é televisão. Era o que nós víamos e víamos tudo, e isso é outra coisa interessante. Víamos conteúdos, como se diz agora, que não se destinavam a miúdos da nossa idade. Víamos aquilo que estava a dar.

Então olha, podes falar de "Miami Vice" e da outra escolha, já antes de acabarmos.

Que são o "Vamos Jogar no Totobola". O "Vamos Jogar no Totobola" creio que dava normalmente às quartas-feiras e era uma produção da Santa Casa da Misericórdia.

A vida era diferente.

Era para aí, não sei se era 15 minutos ou se era um bocadinho mais.

Quando fizerem o "Stranger Things" português.

Tem de estar lá o "Vamos Jogar no Totobola". Aquilo era um documentário, a impressão que tenho é que seria de 15, 20 minutos, sobre uma região de Portugal. Eu lembro-me de qualquer coisa sobre Macau, e era documentários a certa altura realizados por Brandão Lucas. E tudo aquilo era o nosso mundo, aquilo não era estranho. Podia dizer, isto não é exatamente para mim, mas era como as coisas do Jacques Cousteau, os documentários.

E no fundo, estava a falar de jogo.

E depois, no final, havia a sugestão para as apostas, para apostar no Totobola. Como é que devia ser? Era um X dois, o que devias fazer, se as apostas eram duplas ou triplas.

Era pedagógico.

Portanto, tinha um lado pedagógico. A Santa Casa até tinha essa preocupação para os viciados em jogo. Tinha um lado pedagógico de dizer: "Vamos mostrar aqui a cultura portuguesa". E o inacreditável é que nós comíamos aquilo, e víamos aquilo como se fossem os 10 mandamentos, uma coisa épica, espetacular. A mesma coisa em relação ao "Miami Vice". Claro que não era uma série para a nossa idade. Creio que passava às terças-feiras à noite, porque às terças-feiras à noite era o dia da série policial. Creio que também em 87 era alta sociedade.

Era um filme.

Exatamente.

E à segunda, o concurso.

À segunda, o concurso, à terça a série policial.

Um, dois, três.

Exatamente. Que em 87 a série policial que estreia também é "Dempsey and Makepeace".

Claro.

Também um clássico, que também não era para a nossa idade. Na altura ninguém sabia.

Havia lá classificação etária.

Essa série fez com que as mulheres aderissem à polícia, se alistassem na polícia.

A sério?

Sim.

Estás a falar de Portugal?

Não.

No geral, ok.

Que mais mulheres considerassem a possibilidade de ter uma carreira na polícia.

Certo. No caso de "Miami Vice", nós não sabíamos, na altura, quem era o Michael Mann. Não fazíamos ideia. Nós sabíamos só quem era o Don Johnson e o outro, que era o Philip Michael Thomas.

Era o outro.

Era o outro.

E as roupas.

E as roupas.

Claro. E a música.

Eu não sei se se recordam, havia umas pastilhas elásticas que traziam cromos do Sonny.

É verdade, sim senhor.

E as miúdas, agora vi isto, as miúdas na quarta classe eram apaixonadas pelo Don Johnson.

Eu percebo.

Estás a perceber? Eram os nossos ídolos. Nós, miúdos de 10 anos, nove, 10 anos.

Don Johnson e Jake Avarque, imagina.

Queríamos ser o Don Johnson e as miúdas estavam apaixonadas pelo Don Johnson.

Eu preciso de 1 minuto e meio, para terminar, quero ouvir o Pedro Boucherie Mendes a falar de uma das referências também, que é o calcanhar do Madjer.

Sim, naquela altura. Talvez agora também. Vinha a pensar sobre isso e não cheguei a nenhuma conclusão. Naquela altura, certos acontecimentos ficavam imortalizados em expressões. O golo do Carlos Manuel.

Certo.

Eu falei nisso a várias pessoas enquanto escrevia o livro dos anos 80, lá está, e muita gente: "O quê? O que é esse golo?" Foi o milagre de Estugarda. Portugal se apura para um mundial qualquer, 86.

86.

Pronto. A Alemanha nunca tinha perdido em casa. Foi um golo. Andámos a levar com esse golo décadas, porque servia como símbolo de que Portugal era capaz de. Lembra o golo de Carlos Manuel, o milagre de Estugarda. Nós conseguimos.

Mas a verdade é essa.

E o calcanhar de Madjer.

Anos depois, em 1990, a Alemanha era campeã do mundo e houve um jogo particular em Lisboa, no Estádio da Luz. E para nós, só o facto de recebermos os campeões do mundo já era um feito extraordinário. E empatámos a zero com a Alemanha e festejamos como se tivéssemos conquistado o Campeonato do Mundo. Portanto, o golo do Carlos Manuel não é assim tão estranho que tenha adquirido uma aura mítica.

E o calcanhar de Madjer refere-se ao facto do Porto ter sido campeão europeu contra o Bayern de Munique.

Mais uma vez os alemães.

E o golo da vitória ter sido marcado pelo argelino Rabah Madjer, de calcanhar, na segunda parte. E o calcanhar de Madjer é uma expressão do futebolês.

Que levámos para a vida.

E que representa, eu nem sou adepto do FC Porto, mas que representa, de facto, o conseguimento, que é uma palavra odiosa, do português, mesmo que seja através de um argelino, perante a adversidade. O Porto conseguiu ser campeão europeu, que de facto foi um feito extraordinário, graças ao calcanhar de Madjer.

Contra os favoritíssimos alemães e com um gesto que, sendo de um argelino, é de desenrasca. Ele desenrascou-se naquele momento.

E humilhou os teutônicos, como se dizia na altura.

Os teutônicos que depois tinham encarado os portuguesinhos com a teutônica sobranceria.

Muito bem, meus amigos.

O e-mail. Esqueci o e-mail.

Não, é agora. Vou anunciar que chegámos ao fim do "Pop Up" e que podem escrever-nos para popup@observador.pt para partilharem as vossas angústias. Sigam-nos nas vossas plataformas favoritas e nós voltamos na segunda-feira em podcast com as sugestões da semana. Até lá.