Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Ora bem, é segunda-feira, bem-vindos a mais uma semana e bem-vindos a mais uma dose de sugestões para tornar os próximos dias ainda melhores. Eles que já vão ser incríveis, tenham certeza. Podem contar sempre conosco. Susana Romana, que esta semana rima com Susana e isso rima com romana. Senti-me um grande poeta, inesperado.

Não tens que ser.

Estás aqui no lugar, isto é uma grande responsabilidade, do Bruno Venamaral.

Até está algum documentário true crime, vejam lá o quanto eu estou a tentar.

Fizeste o teu trabalho de casa. Tens imensas sugestões.

Tenho três.

Vamos a isso.

Tenho três. Vamos então começar já agora pelo documentário do true crime.

Isso, um grande abraço pro Bruno.

A primeira coisa que me chamou a atenção é o fato de ser um documentário francês, e normalmente este modelo está um bocadinho esgotado pelos americanos.

Tá bom.

Chama-se "Ercocain", tem três episódios, mais ou menos 45 minutos cada um. Está na Netflix.

Eu vi a imagem.

Sim.

E achei: "epa, isso deve ser uma foleirada".

Não é.

Pronto.

Não é. Aliás, uma das coisas que eu gostei mais e que eu achei melhor do que alguns documentários, porque claramente a máquina dos documentários true crime, às duas por três, uma certa máquina de fazer enxertos.

Claro, como tudo.

E achei este bem editado, bem realizado, com um sentido de humor perspicaz aqui e ali. Gostei mesmo do resultado final. É um caso que na altura passou ao lado de 2013, quando quatro cidadãos franceses foram presos no aeroporto de Punta Cana, porque tinham daqueles aviões privados possíveis de fretar, que tinha nada mais, nada menos do que 26 malas com droga e que todos eles diziam: "Não é minha". Todas as pessoas que estavam lá diziam: "Não sei como é que aqui vieram parar 26 malas com droga".

Isso parece uma turma da escola primária.

Sim. E o documentário, quando uma pessoa acha que já sabe pra onde a história foi, às duas por três aparece o Sarkozy, e aparecem pessoas da Frente Nacional, e aparecem pessoas a fugir de barco. O documentário é muito interessante e está, acima de tudo, muito bem feito e muito bem editado. Mais duas sugestões: uma exposição de fotografia, o "Venha Mais Cinco", que está na antiga Lisnave, que tem como subtítulo "O Olhar Estrangeiro sobre a Revolução Portuguesa".

Que é como quem diz Almada.

Exatamente, Almada. São 200 imagens de fotógrafos internacionais que andaram por Portugal, não só no dia da revolução, como na altura do chamado PREC. A exposição é ótima, tem imagens muito boas que eu nunca tinha visto, imagens muito impactantes, tem vários fotógrafos, incluindo o Sebastião Salgado, que recentemente faleceu. Tem também fotografias dele e tem coisas ótimas. E em terceiro lugar, um livro.

Um livrinho, vamos a isso.

Da espanhola Virginia Feito, que se chama "Victorian Cycle". O título em português continua a ser este estrangeirismo, porque é de alguma maneira uma piscadela d'olho ao American Cycle, mas é uma edição da Alfaguara, com tradução da Sofia Ribeiro, e é um livro de terror, no fundo, é um livro gore.

E assusta?

Assusta. É sobre uma perceptora.

O susto no livro é diferente.

É mais porque tu estás a ver aquilo do ponto de vista da assassina, vou-lhe chamar assim, da cycle, e é sobre uma perceptora que faz tudo pra ir parar a uma casa de um determinado casal rico com dois filhos, isto no século 19 na Inglaterra. E ela não é o que parece. Mas as primeiras páginas eu estava a pensar: "Eu acho que isto não é pra mim". E depois aquilo agarrou-me bastante. Eu gosto muito do resultado final, porque é um livro muito gráfico, muito gore, ao mesmo tempo com algum sentido de humor ali no meio. E como tu estás um bocadinho a acompanhar o raciocínio da personagem que está a matar, isso não é um spoiler, acaba por ser uma perspectiva interessante e os direitos já foram vendidos pro cinema.

Muito bem. Pedro Bucher Mendes, também tens três sugestões e eu estou muito curioso, porque tens duas sugestões, que são dois filmes sobre tecnologia.

Um filme chama-se "Blackberry".

Tu viste o Blackberry?

Não, nunca tive, na Netflix. É sobre um telefone que existiu antes do iPhone.

E que faleceu.

E que tinha uma grande pinta. E este filme dramatiza a criação do telefone, assim um bocadinho meio, às vezes, "The Office", assim meio encalhão. Perde-se um pouco nos detalhes tecnológicos.

É verdade.

Mas é uma boa viagem ao passado no sentido de: "epa, houve um dia que nós não mandávamos e-mails por telefone".

Sabes o que é? Eu já vi o filme. Concordo com a tua apreciação, como aliás acontece em 90% do tempo. E exatamente, foi isso que eu mais gostei no filme, e o que me surpreendeu, foi: não foi assim há tanto tempo, mas ao mesmo tempo foi há muito tempo. É meio estranho.

Sim, como sabes, eu escrevi um livro dos anos 80, e a parte mais difícil é limitar o número de vezes que eu digo ao leitor: "Atenção, que na altura nós não tínhamos internet, não tínhamos telemóvel". Porque hoje parece given. Dado, adquirido. Pronto. E o outro é passado mais cedo, esse mesmo nos anos 80, chamado "Tetris", que está na Apple TV+. Que é sobre como é que um jogo feito na antiga União Soviética, hoje Rússia, etc, se torna uma coisa absolutamente global. E faz parte até do léxico comum das pessoas. Devo dizer que eu jogava Tetris em máquinas com moedas.

Sim.

E eu como tenho pouca paciência e baixíssima tolerância à frustração, desistia rapidamente de tentar bater o record ou whatever.

Claro.

Mas eu convivia com pessoas-

Obcecadas

...nomeadamente mulheres, jovens mulheres, não sei como é que se diz. Ultimamente tenho essa dificuldade.

Foi isso que tu disseste.

Jovens mulheres, mas não se diz em português. Que eram muito competitivas nisso. E então eu queria fazer outras coisas, nomeadamente discutir o cinema de Spielberg, e elas não deixavam o Tetris. Ou então eu não era assim tão interessante.

A tua vida era um Tetris, de facto.

Ou então eu não era assim tão interessante.

Não digas isso.

Também nunca tive um BlackBerry. Tinha um Nokia muito pequeno que adorava, azul. Era mesmo muito pequeno.

Tipo um 3310, não é?

Não sei, era mesmo muito pequeno.

Eu também tive um desse.

Era maravilhoso.

Eu acho que ainda tenho alguns guardados.

Ainda deve ter bateria.

Talvez.

E se me tivessem dito-

Ainda se vendem esses telefones, custam tipo 20 paus.

Nokia acho que é difícil.

Não, em lojas.

Se me tivessem dito: "Olha, daqui por 10 anos ou não sei o quê, esta marca vai desaparecer".

Nunca acreditarías.

Apostaria o meu braço esquerdo, lá está. E talvez até o direito.

De facto, era impossível. Sim, era impossível.

Pronto, mesmo um tipo fascinante e intelectualmente superior como eu.

Caiu nessa. É verdade. Sim, senhor.

Tenho também. Olha, há muito tempo que andava à procura de um livro que fosse um easy read, portanto, que fosse relativamente simples de seguir e ao mesmo tempo tocasse os pontos que eu quero e que me interessam na ficção.

É muita exigência, Pedro.

Não.

Sabes que ler é antinatura, porque os nossos sentidos não estão feitos para isso. Tu para leres-

Tens de te concentrar

Tudo o resto à tua volta passa. E os nossos sentidos estão feitos para estar alerta. Enfim, peço imensa desculpa.

O mais interessante é a constatação de que nós, enquanto pessoas, vamos mudando. Isso é óbvio.

Tu também.

Nós temos atualizações de software.

Exato.

De sistema.

É isso.

Por exemplo, eu adorava policiais e hoje não consigo passar da segunda página.

Se calhar lês demais.

Pronto. E este livro, que se chama "Wellness", do autor Nathan Hill, que é o autor de " Nix: Fantasmas do Passado". É um livro que é interessante porque, no fundo, tem a ver com a minha geração. Duas pessoas apaixonam-se, depois temos essa história durante pouco tempo, felizmente.

Porque uma delas está obcecada com o Tetris.

Não, e depois passa para o chamado presente, onde obviamente o fogo da paixão diminuiu.

Exato. Acalma.

Afinal de contas, eu não sou o personagem daquele livro, portanto, eu não troco. E é giro porque eles têm dificuldades económicas, como sempre é importante isso nos livros ou nas histórias, e estão a comprar uma casa e a mulher compra uma casa com dois quartos, portanto, no fundo, eles vão dormir em quartos separados.

Exato.

E o personagem não percebe bem o que é que se passa com o casamento. Bom, então o livro vai prolongar-se por mais 500 páginas. É um livro grossito, é da Presença, "Wellness". Mas eu estou a gostar dessa trama.

Estás a gostar bastante, mesmo. Muito bem. Boa sugestão. Aliás, como sempre, peço imensa desculpa.

"Wellness", de Nathan Hill, da Presença.

E a Maria Ramos Silva tem imensa-- vai subir o nível, vai subir a parada nesta edição.

Não sei.

Vocês não estão a perceber.

São três conteúdos com e sobre gente da música, é a melhor forma de resumir isto, sendo que são tudo coisas diferentes, de estilos para todos os gostos. Olha, primeiro, uma minissérie que eu penso que acabou de estrear na Netflix, chama-se "Super Sara". Eu ainda só vi o primeiro episódio, porque entretanto também estou à espera que saiam os restantes, penso que são seis. Não há grande volta dada.

Só viste o primeiro, porque não podes ver mais.

Não posso ver mais, não me permitem. O que é raro, porque normalmente agora já libertam tudo.

Depende.

Pronto, mas isto é sobre o quê? Sobre a Sara Montiel, que é aqui uma estrela, foi um ícone aqui do cinema e da música do país aqui ao nosso lado.

Que é a Espanha, para quem não sabe.

Para quem não sabe, sim. Do outro lado só o mar e tubarões.

Exato.

A Sara Montiel tem uma história muito engraçada porque, para já, começa por triunfar em Hollywood, lá fora. Antes de ser uma estrela, de rebentar absolutamente em Espanha, começa por conquistar os Estados Unidos enquanto aquela atriz latina hispânica. Ela está sempre muito enfiada nessa gaveta, mas faz o "Vera Cruz" com o Gary Cooper e depois acaba por regressar a casa, digamos assim, e ter uma carreira absolutamente fulgurante, desafiando sobretudo com aquela figura muito sensual, muito extravagante. Não é por acaso que ela se transforma num autêntico ícone para os artistas e para toda a cultura LGBT em Espanha e não só, mas é absolutamente estonteante. E desafiando a própria ditadura franquista. Ela é das poucas pessoas que consegue continuar a fazer coisas e a baralhar e a dar ali com uma grande snica. Para além disso, contava histórias absolutamente extraordinárias, isso aparece neste documentário ou minissérie. Coisas tão incríveis que depois nós ficamos sem saber se são verdade ou não, mas que com ela até poderiam ser. Há uma que é particularmente interessante. Ela conheceu, obviamente, entre as inúmeras figuras lá fora, o James Dean, e conta que o James Dean a teria convidado para andar de carro naquele fatídico episódio em que ele acaba por morrer. E, portanto, essa é apenas uma das inúmeras histórias maravilhosas que ela foi entretanto contando ao longo dos anos.

Eu se tivesse a pinta dela, também tinha sido convidado.

E também contavas estas coisas todas, obviamente. Pronto. Depois, mudando aqui um bocadinho o registo. Um disco que acabou de sair do Isaiah J. Thompson. Ele é um jovem pianista e compositor. Ele fez parte do trio do John Pizzarelli.

Estamos a falar de jazz.

Estamos a falar de jazz contemporâneo, do bom, muito recomendável. Chama-se o álbum "The Book of Isaiah". Eu quase que chamo gospel jazz, porque ele acaba por ser uma coisa muito à volta da relação dele com a crença, com a religião, com Deus. É muito interessante. E se quiserem recuperar para introduzirem mais nisto ou começarem por aqui, ele tem um disco muito engraçado do Natal que anda à volta da obra do Charlie Brown. É uma espécie de disco de homenagem ao Vince Guaraldi, que era o pianista mais conhecido por fazer a banda sonora do Peanuts.

Sim.

E pronto, Natal também é quando queremos.

E agora queres fechar com bobadeira.

Quero com "O Pote de Ouro". Eu penso que é assim a tradução para português. É mais um copo ou mais uma rodada com o Shane MacGowan, o líder dos lendários The Pogues. O documentário é do Julian Temple, é de 2020, chega agora esta semana a Portugal. É absolutamente extraordinário.

Sala de cinema.

Nas salas de cinema, precisamente. É um documentário absolutamente extraordinário. O Julian Temple conta uma história muito engraçada quando aborda pela primeira vez e se encontra com o Shane MacGowan em casa dele, julgo eu, e ele está a ver David Attenborough e uma coisa qualquer sobre leopardos da neve. Ele diz: "Eu, de facto, achei aquilo simbólico, porque o meu trabalho também ia ser muito ter esse lado de expedição e de quase aventura na vida selvagem", à volta de um tipo que imaginem que começou a beber com seis anos. Portanto, todo o filme é, de facto, à volta disso. Enfim, como é que este poeta punk fez esta gestão também desses altos e baixos, dessa ingestão absolutamente estonteante. Eu acho que é muito fácil sair deste documentário. Se fôssemos ao balão, eu acho que aquilo acusava. Mas pronto, vejam porque é de facto incrível e é uma ótima forma de recordar os Pogues e o grande MacGowan.

Muito bem, sugestões entregues. Estão sempre disponíveis em podcast. Sigam-nos para não perderem nenhum episódio. Voltamos na quinta-feira. Até lá.