Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Começa agora mais um "Porque sim não é resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de notas, competição e perfeição. Recebemos um e-mail de uma ouvinte, mãe de uma menina de sete anos, que se questiona sobre a exposição mediática dos alunos com 20 valores, por um lado, e sobre a competição entre crianças que diz já sentir na escola primária. Olá, Eduardo. Esta ouvinte fala de uma pressão que já se sente aos sete anos de idade da filha. Faz sentido, do ponto de vista do desenvolvimento infantil, falar em competição por notas nesta fase, ou somos nós que projetamos essa leitura?

Olá, Judite. Eu acho que somos nós. E começamos a competir mais cedo, porque por mais que eu entenda a bondade das mães, e eu entendo, Judite. No primeiro ano de escolaridade, é um desalento ver como algumas mães reagem com algumas notas que fazem parte do crescimento dos filhos, porque evidentemente não há como eles todos crescerem à mesma velocidade, da mesma forma, com os mesmos resultados. Aquilo que depois se vê é que de facto há pais que são implacáveis com algumas notas. E implacáveis pode não parecer uma expressão correta, mas acaba por ser, porque eu conheço muitas crianças que quando têm 80% num teste em que a nota máxima é 100%, ficam em pânico porque a seguir são muito magoados pela ira dos pais em relação àquelas notas. E quando mais tarde se vê a descrição, nomeadamente no secundário ou nalgumas turmas muito especiais de anos anteriores. A descrição de "é uma turma demasiado competitiva", isso quer dizer, por outras palavras, que há ali uma deslealdade, às vezes grande, onde os resultados merecem mais atenção do que a partilha de apontamentos, os movimentos solidários, que também existem entre os alunos, ou que pelo menos deviam existir, ou até na constituição dos grupos para determinados trabalhos. E portanto, nada contra as boas notas, mas eu de facto percebo que, sem querer fazer disto uma regra, há uma atmosfera, às vezes, um bocadinho inquietante, porque de repente parecemos estar todos os anos a produzir alunos com médias de entrada no ensino superior que são muito grandes. E eu pergunto-me, em muitos momentos, se estas médias correspondem, de facto, à sabedoria que eles têm. E depois, onde é que eles estão aos 25 anos? Porque já perdi a conta, Judite, aos miúdos que entram com notas incríveis no primeiro ano de uma faculdade difícil, se for preciso, e depois, como o jogo é outro, como não têm, às vezes, uma equipa de explicadores a trabalhar para eles, bloqueiam. E às vezes é comum passar-se um, dois, três ou mais anos em que aqueles alunos que vêm com notas incríveis, depois ficam decepcionadíssimos e ao fim de três ou de quatro anos não fazem nenhuma cadeira. Portanto, eu acho que às vezes é preciso alguma prudência, porque eles são pequenos, ficam deslumbrados. Como é que não haviam de ficar deslumbrados? Mas depois, quando têm a primeira engasgadela ou alguma coisa corre mal, pergunta-se: onde é que estão as pessoas? E aí, em muitos momentos, elas não estão, e isso é inquietante.

As notícias sobre alunos com 20 valores multiplicam-se todos os anos por esta altura. Esta exposição mediática, que tipo de efeito tem nos restantes alunos?

Judite, eu fico preocupado também com aqueles que têm mesmo 20 valores, porque logo se vê como é que tiveram os 20 valores. Não quer dizer que alguns não mereçam mesmo essas notas, mas eventualmente outras dessas notas podem não ser milimetricamente de acordo com aquilo que de alguma forma eles falam, mas cria, de facto, aqui uma discrepância à partida, até por isto. Porque depois a família fica muito contente, compreensivelmente, mas eles às vezes sentem-se num sufoco, porque é como se não pudessem, a partir daí, ter outra nota que não seja aquela pela qual toda a gente está à espera. Os que não têm 20 valores, às vezes ficam um bocadinho mais libertos, porque no fundo, não tendo esta pressão sobre eles, podem ir num crescente, enquanto muitas vezes os outros, se têm o azar de não corresponder desde logo aos 20 valores com que entraram e que inevitavelmente despertam expectativas nalguns professores, por mais que os professores Não tenham um conhecimento muito claro de quem é que teve aquela média para entrar naquele curso, mas eu admito que os que não têm 20 valores, às vezes, ficam um pouco mais libertos. Não é que não se espere nada deles, mas acima de tudo, eles têm a noção que a exigência, a pressão e o lado aparentemente implacável, pensam eles, da forma como as pessoas, às vezes, a comunidade onde eles vivem, vivem aquelas relações e com o conhecimento e com a escola, às vezes não toleram, porque quando eles, por qualquer motivo, têm uma nota negativa e às vezes têm. Uma nota negativa de um aluno que tem uma nota de entrada muito grande na universidade, tem um valor quase catastrófico, enquanto uma nota mediana para um aluno que teve uma média mediana, dá-lhe um espaço para ele crescer e muitos, aliás, crescem e crescem bem.

Esta mãe, no e-mail, fala de uma criança que conhece, que passou agosto numa sala de estudo. Onde é que está a fronteira entre incentivar o esforço e sacrificar a infância em nome do desempenho?

Judite, isso entra nos aspectos que me preocupam, porque se não faz. É normal que consigo ou comigo, quando nós temos um filho, andemos ali a disputar o feitio do nariz, a cor dos olhos, a maneira de pôr as mãos. Enfim, queremos muito que ele em todos os pormenores seja nosso filho. Isso é uma coisa muito bonita, todos fazemos isso. Mas às vezes nós temos poucos filhos, cada vez menos. As famílias têm menos filhos e às vezes só têm um, Judite. E é normal que ponham muitas expectativas sobre aquele filho, mas às vezes põem demais. Põem tão demais que de repente aquele filho, contra a vontade dos pais ou contra a intenção, quando eles fazem isso, acaba por ser uma espécie de coroa de glória. Os pais muitas vezes fazem isso, por quê, Judite? Porque nunca tiveram resultados tão bons na escola e, portanto, ficam vaidosíssimos com o facto de os filhos serem capazes de fazer aquilo que os pais não tiveram a oportunidade ou que não conseguiram fazer. Só que isto tem um peso terrível e, portanto, as notas, quando o custo é passar ao lado da infância, hipotecá-la, ignorar as férias, não valem tanto assim, porque os custos vêm logo a seguir, Judite. E, portanto, o que se ganha? Ter um filho a tirar muito boas notas, mal começa setembro, quando passou ao lado da vida e vai acumulando um déficit de vida a esse ponto. Não se ganha, porque ele pode ter boas notas, mas depois não se relaciona com os outros como deve, não se relaciona com a vida com a mesma desenvoltura que nós todos queremos para os nossos filhos. E, portanto, por mais que eu compreenda a ânsia dos pais de dar instrumentos aos filhos para crescer, eu fico muito preocupado, porque muitas vezes, até nos pequenos gestos, Judite, não ponderam os custos que muitos destes gestos acabam por ter. E têm.

Eduardo, hoje ficamos por aqui. Voltamos amanhã com mais um tema. Um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Outro para si, Judite. Até amanhã.