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Primeiro dia da semana, "Primeiro Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França, comigo está o Bruno Vieira Amaral e vamos falar da primeira relação pós divórcio. Porque um ouvinte pergunta-nos se essa primeira ligação é de transição. Olá, boa tarde, Eduardo. O que nos diz? É mesmo de transição?
Olá, Judite. Olá, Bruno.
Olá, Eduardo.
Não tem que ser. Eu acho que percebo a pergunta, porque uma pessoa está tão embrulhada por tantas coisas que aconteceram numa separação, independentemente de ela se ter dado a bem ou a mal, que a determinada altura, quando surge alguém na nossa vida, nós temos sempre a ideia de que surgiu cedo demais. É sempre aquela fórmula, Judite, que ouvimos tantas vezes: "Eu ainda não estou preparado pra uma relação". Como se houvesse uma preparação prévia pra que as coisas acontecessem. E depois as coisas acontecem e não é necessariamente uma ponte pra outras relações, não é uma relação eventualmente mais frágil, eventualmente até mais descartável. Não tem que ser assim. Depende da boa surpresa ou não, mas depende, sobretudo, se houver uma boa surpresa daquilo que essa pessoa possa trazer à nossa vida. E aí, tudo aquilo que parecia mais ou menos de passagem, de repente torna-se uma coisa muito séria e o mundo vira num instantinho.
Podemos dividir em dois tipos essas relações pós divórcio, aquelas que acontecem mesmo que a pessoa ainda tenha algumas dúvidas sobre se estará preparada, mas já há um pressentimento que aquilo pode dar alguma coisa, e as outras relações em que se entra nessa fase pós divórcio, precisamente com a noção que é uma relação transitória, de transição, para se habituarem à nova vida.
Algumas dúvidas eu receio que tenhamos todos nestas circunstâncias. Por mais que aquela relação possa parecer uma relação muito séria. Às vezes, aliás, quanto mais séria parece, mais somos inundados por dúvidas, tal é o medo de nos envolvermos noutra relação que possa não dar certo. Eu acho que entendo as entrelinhas da pergunta que nos foi colocada, porque muitas relações pós divórcio não são relações que acabam por ser assumidas como uma relação que é pra valer. Às vezes, ouvimos também em muitos momentos, expressões como: "Bom, mas ainda agora eu saí de uma, não posso estar a me meter noutra relação que possa correr mal". Às vezes, uma relação pós divórcio é usada. Depois podemos questionar se o fazemos a bem, se o fazemos a mal, mas é usada de maneira a tentar esquecer a pessoa de quem nos divorciamos. E aí, valha a verdade, se calhar estamos a instrumentalizar a outra pessoa que de repente apareceu na nossa vida, não é?
Era isso que eu te queria perguntar. Se essa pessoa é que ia pagar a fatura do que correu mal na relação anterior, no casamento.
Meu caro Bruno, as pessoas que chegam a seguir qualquer relação na nossa vida, oem.
Isto falando, vamos lá ver, se só uma das pessoas é que estiver nessa situação. Porque até pode acontecer de estarem as duas a ressacar de um divórcio ou de um casamento.
Sim, Bruno, mas nessas circunstâncias, imagino que é duas pessoas que têm as suas faturas ainda por esclarecer. Imagino o que acontece quando elas colocam as respectivas faturas uma no colo da outra, que é o que acontece na maior parte das relações, como é evidente. Nesse contexto, eu tenho a ideia que os primeiros tempos de uma relação nova, quando temos experiência de vida e quando estamos ainda muito amachucados por uma relação de onde entretanto saímos, os primeiros tempos são assim mesmo, para apresentar faturas que não têm rigorosamente nada a ver com aquela pessoa. Ela teve o azar e a sorte pra nós, eventualmente, de se ter cruzado conosco num determinado momento em que não estaríamos pelo menos tão libertos deste tipo de encargos. Sim, servem em muitos momentos para pormos as contas em dia. Há pessoas que depois têm um jogo de cintura absolutamente notável, é verdade que sim, e percebem isso, e ajudam, e de que maneira, a esclarecer tudo aquilo que não tem a ver com elas, mas que teve a ver com relações de onde estamos a sair. Mas, na verdade, as relações que surgem depois de um divórcio, e um divórcio, por mais que seja amigável, dói sempre, traz-nos sempre feridas e outras coisas mais. A pessoa que vem a seguir precisa de ser realmente muito especial para valer por ela Para nos permitir sermos capazes de trabalhar essas dores todas que estão por saldar e ainda assim abrir-se um espaço para que depois aquela relação possa ter futuro.
As pessoas quando se divorciam procuram a seguir uma personalidade diferente daquela com que casaram?
Depende, Judite França. Sabe por que eu estou a rir? É quase um riso nervoso. Porque em muitos momentos, quando temos um amigo que entretanto se divorciou e que viveu aquilo que entendeu viver até nos apresentar uma nova namorada, e quando nos apresentou essa namorada ao telefone, imagine, a descreveu como uma pessoa ótima, diferente da primeira, etc. Às vezes, gera-nos um tremendo mal-estar, porque quando finalmente nós nos damos conta dessa pessoa, nós temos a ideia que é quase a cópia da anterior e, portanto, às vezes nós tentamos de tal forma procurar alguém tão diferente, mas estamos tão vinculados a alguns lugares comuns de uma relação, que às vezes parece uma compulsão à repetição. A pessoa que vem a seguir, por mais que nos pente, aos olhos das pessoas que estão ao nosso lado, parece ser uma espécie de pequeno clone daquela de que nós nos afastamos. E isto, meu Deus, causa muito mal-estar, muitas dores de cabeça e o que é grave é que só nós, às vezes, parecemos não ver essas semelhanças com tudo o que elas implicam numa relação conosco.
Vamos olhar aqui para esta mensagem que nos chegou e que está a motivar esta nossa conversa, porque se trata de uma relação entre duas pessoas que saíram de relações longas, sofridas e que estão juntas há um ano e dizem-nos que têm feitios fortes, com diferenças de personalidade que motivam várias discussões, mais do que as que é suposto num primeiro ano de namoro, mas que gostam da companhia uma do outro, se riem muito com o outro e as coisas, de resto, correm bem. Aqui a questão desta nossa ouvinte é se estas discussões podem minar o relacionamento. E a minha questão, Eduardo, é saber se estas discussões terão que ver com essas relações passadas, sofridas, ou se estamos a falar de duas pessoas que têm personalidades que motivam estas discussões.
Eu acho que os namorados, e isso vê-se melhor na adolescência, eventualmente, discutem mais vezes porque tentam mais vezes conhecer um ao outro. E isso é uma coisa muito boa. Eu acho que os namorados precisam de conversar muito e acho que nós, quando assumimos uma relação a sério, parecemos perder essa necessidade, como se entretanto conhecêssemos de tal forma aquela pessoa que já nem precisássemos de conversar acerca disto ou daquilo, fosse lá do que fosse. Eu acho ótimo quando as pessoas discutem numa relação, porque no fundo, são dois mundos diferentes que estão a tentar fazer pontes um para o outro. As discussões têm, é claro que depois, dentro do que é razoável, e eu não tenho dúvidas que quem nos está a escutar também entende que eu não estou a dizer que as discussões intermináveis por coisas absolutamente tolas e inconsequentes são discussões ótimas. Mas a necessidade de duas pessoas se compatibilizarem no mesmo comprimento de onda, de vez em quando precisa discussões, sim, porque argumentam, porque estão a tentar não desistir daquilo que é importante pra elas e ao mesmo tempo não desistirem uma da outra. E, portanto, têm um efeito de detox, digamos assim, que as ajuda a aproximar. A ideia que eu tenho é que quanto mais as pessoas são capazes de pôr as suas condições em cima da mesa e lutar por elas, e lutar às vezes de forma árdua e convicta por elas, nessas circunstâncias, criam condições para relações mais consistentes. É por isso que à nossa volta, às vezes nós vimos amigos nossos que são capazes de discutir de vez em quando e que não se inibem de o assumir e ao mesmo tempo têm relações de cumplicidade absolutamente fora do lugar, enquanto aquelas pessoas que nunca discutem, nem por isso têm relações mais próximas. Às vezes vão iludindo aquilo que as separa até a altura em que uma diz: "Chega, basta, acabou-se." Mas não quer dizer que esta relação esteja comprometida. Antes pelo contrário, se calhar, bem vistas as coisas, até está a ter um conjunto de recursos que a prazo pode funcionar a favor dela.
Esta ouvinte faz essa pergunta, se esta relação pode ter futuro, e é depois que faz a ligação para o facto de ser uma relação ou poder ser uma relação de transição. Pode haver aqui também algum receio da solidão pós divórcio?
Sim, até por vários motivos. Porque depende da idade com que nós estamos a sair de uma relação, depende do estado geral em que nós estamos a sair, depende de termos filhos ou não, porque o medo, compreensível, é que não surja ninguém Que valha verdadeiramente a pena na nossa vida, que goste de nós quando chegamos com aquelas faturas de que estávamos a falar e ao mesmo tempo equipados com dois ou três filhos. Estas coisas todas suscitam, de facto, muito medo. No limite, é de facto o medo da solidão, é o medo de nós podermos nunca vir a encontrar alguém com quem possamos ser realmente felizes. Portanto, nessas circunstâncias, eu acho que quando nós estamos a entrar numa outra relação, fazemos muita cerimónia, não dizemos logo aquilo que estamos a sentir, não assumimos os pequenos sentimentos, às vezes os mais subtis que existem em todas as relações, nas mais diversas circunstâncias, com medo de não melindrar a outra pessoa e vice-versa. E sem nos darmos conta, quando nós o fazemos, em vez de ficarmos mais próximos, estamos um bocadinho mais distantes todos os dias. E, portanto, sim, esse medo da solidão é o medo que nos toca a todos, mas é o medo de que no limite não haja ninguém capaz de gostar de nós tal como somos e capaz de gostar de uma forma que se torne arrebatadora, que nos levante do chão e que nos leve a acreditar no amor. E, portanto, vamo-nos relacionando a medo, que é mais ou menos meio caminho andado para que as coisas possam correr mal.
Nessas relações pós divórcio, Eduardo, tendemos a ser mais tolerantes, até no sentido de baixarmos um bocadinho as expectativas e vamos lá ver no que é que isto vai dar? Ou mais intransigentes, mais exigentes também connosco e com os outros.
Bruno, eu gostava que fôssemos mais exigentes, para lhe dizer a verdade, porque quando nós baixamos a fasquia, é como se, no fundo, aquilo que entendemos que é de facto exigível numa relação, não pode ser cumprido por ninguém por quem nos possamos interessar. E portanto, antes de nos relacionarmos a sério, já estamos a desistir um bocadinho daquela pessoa. Se é legítimo deixarmos um conselho, por favor, não transija, exija tanto quanto for capaz, porque é óbvio que depois a outra pessoa vai fazer o mesmo e só aí é que dá espaço para estas discussões e destas discussões depois abrem-se clareiras e logo a seguir as relações podem ficar mais fortes, de facto, se cada um dos dois estiver disponível para, depois de um divórcio, ir a jogo com toda a alma, como é claro.
Nós também vamos com alma para amanhã, para um novo "Porque sim não é resposta". Até lá estamos disponíveis em podcast, no site do Observador e sempre em eduardosa@observador.pt. Eduardo, obrigada, um grande abraço e até amanhã.
Eu é que agradeço. Um grande abraço para os dois e até amanhã.