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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França e hoje vamos falar de solidão. Segundo a Organização Mundial da Saúde, uma em cada seis pessoas no mundo sente-se sozinha. E essa solidão está ligada a quase 900 mil mortes por ano. Olá, Eduardo. Quando é que a solidão passou a ser um problema de saúde pública?
Olá, Judite. Quando ela se tornou tão generalizada que, de repente, parece verdadeiramente endêmica, parece fazer parte da natureza humana com uma naturalidade fora do vulgar. Independentemente das idades, é esse talvez o aspecto mais impactante. Era por demais evidente que as pessoas mais velhas viviam numa solidão incompreensível, mas hoje nós percebemos que os nossos filhos, independentemente de terem inúmeras solicitações e muitas formas de comunicar, às vezes estão mais sozinhos do que era suposto, porque nós temos muita dificuldade de acompanhar o crescimento deles e participar de uma forma ativa e formadora no crescimento deles. E, portanto, a solidão começa a ser muito banal na adolescência e mesmo nas pessoas crescidas que vivem entre redes sociais, mensagens, tutoriais e outras coisas do gênero, e depois vai-se a vez e conversam muito pouco acerca delas próprias, alimentam de uma forma sustentada a ideia que quem está ao lado delas mal as conhece e assim vão andando, às vezes numa agitação muito grande, fervilhante, fim de semana, tentando encontrar relações significativas, outras vezes vivendo resignadamente. Às vezes com grandes limitações financeiras também e com tudo o que isso implica a seguir, que é um afastamento tão progressivo que comunicam pouco com a família, não falam de si, nem escutam aquilo que se passa com os pais, com os irmãos e até com a pessoa que vive ao lado delas. E, portanto, eu acho que é um apelo muito importante que a Organização Mundial de Saúde faz, nomeadamente quando nos damos conta que é tudo ao contrário daquilo que nós ouvimos. Uma sociedade de informação, uma sociedade de comunicação. E afinal, com tudo isso, o que é que nós estamos a conseguir? Mais solidão. Não faz sentido.
O que a solidão faz concretamente ao corpo e ao cérebro? Porque fala-se em maior risco de doenças cardiovasculares, depressão, ansiedade, demência e até morte prematura. Portanto, isto tem implicações na nossa saúde, não só na nossa saúde mental.
Judite, eu acho que nós falamos pouco dessas relações e acho que é quase absurdo não o fazermos. Tudo o que se passa na nossa cabeça repercute-se no nosso corpo e vice-versa. Mas tomando em consideração aquilo que se passa na nossa cabeça, evidentemente, que quando nós estamos mais deprimidos, o sistema imunitário constipa-se todo e ficamos muito mais vulneráveis a situações de estados que podem tão simplesmente ser inflamatórios, como às vezes podem ser virais. Inflamatórios, sem dúvida, quando nós vamos engolindo aquilo que sentimos e em vez de manifestarmos através da palavra o nosso mal-estar ou até mesmo somente o nosso estresse, vamos guardando e varrendo para baixo do tapete e aí produzimos umas substâncias pró-inflamatórias que fazem com que rapidamente fiquemos com sinusites, tendinites e tantas outras coisas que nomeadamente nas crianças mais pequeninas vão sendo episódios de repetição e deviam ser um alarme por parte dos pais. Mas as pessoas que, por exemplo, têm uma vida a 200 e que no fundo dizem, e às vezes com orgulho, Judite, que é bom viver sob pressão, são aquelas pessoas que vão ficando tão tensas, que depois, inevitavelmente, se não explodem de raiva, explodem com patologia cardiovascular e, portanto, há correlações muito significativas entre estes perfis de personalidade e a patologia cardiovascular. E as próprias doenças degenerativas começam por ser, é importante que se dê conta, doenças inflamatórias que depois se generalizam e criam de tal forma linguagens paradoxais no sistema nervoso que, a determinada altura, saltam para as doenças autoimunes nalgumas circunstâncias, noutras, simplesmente para as doenças degenerativas. Portanto, termos uma atenção séria, que não temos, Judite, em relação à saúde mental Não é termos uma atenção exclusiva para a saúde mental, é termos uma noção das intercorrências que ela tem na saúde dos portugueses e, portanto, um estado de negligência em relação a ela significa falarmos muito, talvez cavalgando o momento acerca de saúde mental e não sermos promotores de saúde como nós devíamos ser, desde a mais tenra idade por ali adiante.
Há pouco estava a falar dos mais novos, dos mais jovens, que aparecem como um dos grupos mais afetados e nós inevitavelmente ligamos isso às redes sociais, à forma como as redes acentuam esta solidão. As redes sociais fazem de alguma forma a promoção do indivíduo solitário?
Eu acho que nós todos o fazemos a partir do momento em que temos a noção que às vezes andamos todos muito desregulados, muito desorganizados e andamos sempre a vender como se fosse uma qualidade esta coisa de uma pessoa autorregular-se, que é uma forma pomposa da psicologia para falar de controlar-se. Esquecendo-nos nós que o controle que eu e a Esdite temos no contexto social não é uma competência estritamente individual, é, de facto, um recurso que se aprende na relação com os outros e, portanto, são os outros que nos ajudam a fazer tudo isto. E nós estimulamos uma certa omnipotênciazinha dos nossos filhos quando são pequeninos e dos adolescentes, quando no fundo começam a crescer e às vezes têm a noção que é em relação àquilo que sentem, ora tapam a cabeça e destapam os pés, ora vice-versa. E portanto, de facto, nós não damos o devido valor à relação com os outros como fator de organização da saúde mental. E nós estamos sempre a encher a boca a dizer: "Sim, por favor, mais saúde mental" e muitas vezes aquilo que recomendamos desde o princípio e por ali adiante, é tudo ao contrário daquilo que é útil para a saúde mental. Era a altura de nós termos perspetivas menos vindas através de redes sociais ou daquelas pessoas que se aventuram ao fim de um fim de semana de formação a ser coaches e coisas do gênero, e começarmos a falar dela a sério e tirarmos as consequências indispensáveis por uma razão simples: quanto menos saúde mental, menos saúde física, mais vamos morrendo em suaves prestações e é um desperdício, meu Deus.
Ficamos por aqui hoje. Amanhã vamos falar de resoluções de ano novo, porque estamos no dia, mesmo no dia para isso. Até lá, Eduardo, um grande abraço. Obrigada. E cá nos encontramos amanhã.
Um abraço, Esdite e até amanhã.