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Começa agora mais um "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá e hoje vamos falar de pensamentos intrusivos. Olá, Eduardo. O que é, afinal, um pensamento intrusivo e por que a cabeça insiste em produzir exatamente aquilo que mais nos horroriza?

Olá, Judite. Pensamento intrusivo é uma daquelas designações que começou no meio técnico e que os adolescentes pegaram com ambas as mãos e que passaram a usar para traduzir muitas das coisas que se passam dentro deles. Na verdade, se calhar, tem muito pouco de intruso, não é, Judite? Porque tem a ver com partes nossas que gostaríamos de não nos recordar, que fazem parte de algumas coisinhas que nos incomodam, que nos magoam, que nos irrita, particularmente, observar e que parecem, de cada vez que nós tentamos ignorar, impor-se com mais força. Habitualmente, as pessoas utilizam as estratégias mais inacreditáveis para fugir deles, como se fosse, a exemplo dos desenhos animados, há um anjo bom e um anjo mau, e o anjo mau, pensamento intrusivo, está sempre ali a atormentar-nos, a atazanar-nos a paciência e a impedir-nos de sermos melhores. Na verdade, não é isso. São pensamentos que têm muito a ver conosco, que nós gostaríamos de não recordar. São pensamentos que traduzem de uma forma muito clara coisas que nos atormentam e que, em boa verdade, nós ganharíamos mais se olhássemos para eles, percebêssemos o que eles querem dizer, em vez de andarmos a afastá-los da nossa cabeça ou a tentar descobrir uma espécie de lixívia especial que, de alguma forma, acabe com eles, como se pega numa noz e se faz com que desapareça.

Além daquilo que é um pensamento, uma recordação. Por exemplo, uma mãe que tem um pensamento fugaz de deixar cair o bebê. É diferente do medo completamente irracional, porque, de facto, pode acontecer uma eventualidade. Eles funcionam da mesma forma na mente?

Judite, funcionam, mas esse medo é um medo que não tem essa dimensão tão grande. O que se torna um pensamento intrusivo? De repente, uma pessoa estar a viver um estado de angústia muito grande e recorrer a um corte no braço para aliviar momentaneamente a angústia com a introdução de uma dor aguda, por exemplo. E nós termos passado por um ou outro episódio de grande violência emocional algures no nosso crescimento, aos nossos olhos de hoje, porventura, não termos tido a desenvoltura, se calhar, a coragem de fazer frente a quem nos atemorizou e estarmos permanentemente a castigar-nos com uma culpa que, na verdade, não devia ser culpa, porque se calhar fomos muito mais vítimas do que parece. Às vezes, estarmos de coração completamente divididos, já é um outro nível, como se compreende, em relação a alguém que, por um lado, não tem espaço na nossa vida, mas porque tivemos uma relação com essa pessoa, parece impor-se uma vez, duas, três, muitas. Impor-se de tal forma que acaba por estar a criar um mal-estar e até episódios muito desagradáveis na relação que agora temos, etc. E, portanto, são episódios de nós que não são fantasiosos, são episódios que traduzem experiências que nós vivemos, experiências em que nos sentimos partidos ao meio entre aquilo que sentimos e aquilo que admitimos que é razoável sentir e que às vezes nos provocam muito sofrimento, porque nos estão permanentemente a lembrar uma coisa que nós queríamos esquecer, dos quais, como baratas tontas, nós fugimos, como todos nós quando estamos assustados, e fugimos tanto que nessas circunstâncias não temos a clarividência ou às vezes a ajuda de alguém que nos diga assim: "Olha, vamos lá parar e tentar perceber, em primeiro lugar, por que isto é tão insuportável de olhar de frente e já agora vamos tentar perceber se tem solução ou não, porque quando nós fugimos, fugimos e não olhamos para trás."

Mas é normal que as pessoas escondam esse tipo de pensamentos, mesmo até do parceiro?

Até porque às vezes representam episódios muito violentos. Dou-lhe o exemplo mais banal de todos, que é um exemplo tremendo. Se calhar, há muitas mulheres que passaram na sua adolescência por um episódio de violação e que vivem ao lado de um homem há 10, 15, 20 anos e ao fim de 20 anos nunca tiveram espaço para falar desse episódio com medo das represálias ou dos mal-entendidos que ele possa trazer. E, portanto, nessas circunstâncias, sim, as pessoas escondem-nos, às vezes tentam escondê-los até de si, porque traduzem episódios muito feios, em que sofreram muito durante muito tempo, que elas próprias, à data de hoje, têm muita dificuldade de entender e que não têm uma segurança por aí além de que a pessoa que está com elas e que poderia ser um aliado importante na compreensão e na ultrapassagem de tudo isto. E porque não têm essa segurança, tentam fazer os possíveis e os impossíveis por iludir um pensamento desses. Só que, como todas as nossas dores muito grandes, às vezes no meio de um pesadelo elas aparecem, às vezes no dia a dia, às vezes quando estamos a ver uma série que, de perto ou de longe, traz um bocadinho daquele episódio à nossa memória, levando-nos a recordar. E quando nós recordamos, lá vem outra vez aquela ferida a não nos sair da cabeça durante uma semana, duas ou três. E é isso que muitas vezes se chama um pensamento intrusivo. Não são tolos, mas magoam.

Eduardo, ficamos por aqui hoje. Amanhã voltamos com mais um tema. Até lá, muito obrigada, um grande abraço e até amanhã.

Um abraço, Judite, e até amanhã.