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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos de uma criança irrequieta que entrou no primeiro ano e que tem um comportamento desestabilizador na sala de aula, segundo a professora. A mãe está naturalmente preocupada, mas ainda não conseguiu que o filho tivesse uma atitude mais madura, agora que deixou o jardim de infância ou pré-escolar. Olá, Eduardo. Esta mãe diz que é quadratura do círculo tentar que uma criança cheia de vida perceba que tem de ter outro comportamento na sala de aula. É assim?

Olá, Judite. Eu acho que não.

Ótimo.

Vamos lá ver. Uma criança que vem de um jardim de infância é uma criança que tem muita dificuldade em adequar-se a um conjunto de regras. Como um ex-ministro da Educação dizia: "O grande problema depois é mantê-los sentados".

Exato.

Nesse contexto, eu percebo que seja, eventualmente, um pouco desorganizador pra um professor, que queira manter as crianças mais ou menos sintonizadas, focadas, atentas e tudo mais. Mas, evidentemente, também me parece que os professores do primeiro ciclo e do primeiro ano do primeiro ciclo, têm a maleabilidade de perceber que têm ali em mãos uma malta muito vibrante, muito capaz de se sintonizar com os desafios mais diversos, mas que tem que fazer esta transição de uma forma pausada. Não acho que seja porque a mãe, de certa forma, sensibiliza uma criança, que ela vai de repente adequar-se às expectativas que ela, na sua generosidade, entende que pode ter. Também me parece que depois depende dos professores que as crianças têm ao seu dispor. E se o professor, por qualquer motivo, eventualmente é um pouquinho mais inseguro, se quer muito apresentar serviço e as crianças acham que a escola serve para brincar, ou, o mais importante de todos, se o professor tem muita dificuldade em fazer uma ponte entre o brincar e o aprender, e vice-versa, que era aí que nós talvez todos devêssemos estar, então isto pega fogo. Mas eu tenho alguma dificuldade em perceber quando se fala em instabilidade, embora eu não esteja a dizer que não haja crianças que às vezes sejam muito agitadas. Tantas vezes que eu converso com professores dos primeiros anos do primeiro ciclo, que me dizem que têm a sensação que as primeiras vezes que algumas crianças escutam um "não", pontuado como deve ser, é quando chegam justamente ao primeiro ciclo. Portanto, é natural que a primeira reação que tenham seja de grande perplexidade: "E agora, como é que eu vou estar quieto?" E algumas, coitadinhas, tentando sintonizar-se com aquilo que a escola lhes pede e que as mães, de alguma forma, persuadem que elas levem por diante, estão quietas e mexidas ao mesmo tempo. É justamente por isso que começam a roer as unhas, a roer as borrachas, a roer os lápis, e roem. Que é uma maneira de tentarem corresponder àquilo que lhes pedem e ao mesmo tempo fazerem a ponte para todo um clima em que tudo era mais informal, mais movimentado, para um outro em que têm que estar quietas e caladas e às vezes isso é mesmo muito difícil.

Já usaram uma tática de não a deixar fazer uma coisa que gosta muito, e isto é ir pro futebol, até que tenha um comportamento certo na escola.

Não!

Precisa do futebol pra deitar energia cá pra fora, não é?

Não só, Judite, eu acho que a atividade desportiva é uma coisa muito importante. Sinceramente, eu acho que é tão importante como a escola, por uma razão simples, porque eles aprendem a brincar com o corpo, aprendem, de alguma forma, um conjunto de coisas que, em condições normais, a escola tem dificuldade em ensinar, que é esta coisa de competir, de intuitivamente irem à bola em tempo real e serem agressivos no limite das regras e tudo mais. E eu gosto muito que eles tenham sucesso na escola e às vezes dificuldades no futebol ou vice-versa, que é uma maneira de haver ali uma complementaridade de desafios que os estiquem, que os façam crescer e tudo mais. Portanto, eu acho que é uma coisa séria, realmente muito séria. E depois, pra além de ser uma coisa séria e que, em boa verdade, é muito do agrado e da maior utilidade pra uma criança, tem outro pormenor: é que quanto mais os pais infernizarem a vida de um filho, por mais que estejam preocupados, como se compreende, mas por mais que infernizem a vida de um filho desta forma, o resultado acaba por ser um pouquinho ao contrário. Quase exatamente como se estivessem ali a contar carneiros pra adormecer e a coisa corre um pouquinho mal Portanto, numa circunstância dessas, eu deixaria a questão da escola para a escola. Um professor sensato tem esta grande virtude de os ensinar a conviver com uma realidade completamente nova para eles. Às vezes um professor acerta, às vezes tem que se zangar um bocadinho. Eu acho que um professor fixe passa a ser um bom professor quando faz uma voz mais colocada e diz: "Ó minha gente, em que mundo é que nós andamos?" E faz com que eles engulam em seco e percebam que um professor pode ter um coração muito grande, mas que não se pode fazer tudo e mais alguma coisa na escola. E a partir do momento em que elas fazem isso, elas vão dali para diante e vão muito bem. Mas é natural que neste período de transição as coisas sejam assim. Período de transição, aqui entre nós, que ninguém nos ouve, vamos supor, pelo menos três meses. Porque é o tempo de engolirem, de perceberem as regras do jogo, de saberem os cantos à casa, de conhecerem o professor, de perceberem de que maneira é que podem ser cúmplices com ele. Isso tudo demora tempo, vai depender delas, vai depender de um professor. Se os pais estão muito em cima de uma criança, ela tenta corresponder, enche os pulmões de ar, respira, mas depois mal se descontrai um bocadinho, descontrola-se. E portanto, é pior a emenda que o soneto, porque a seguir, se se descontrola um bocadinho, descontrola-se de uma forma, porventura, mais impetuosa e nessas circunstâncias, claro que corre um bocadinho mal.

A mãe fala do seu próprio sentimento de culpa, da ideia de que mima demais o filho. Isto pode ser mima mais?

Ainda bem que eu não estou a conversar com uma mãe. Porque as mães têm sempre mania que aconteça o que acontecer, a culpa é sempre delas. Valha-me Deus, as mães. Não digo que as mães sejam perfeitas e façam tudo bem feito, mas fazem quase tudo bem feito. E eu percebo o que esta mãe está a dizer. No português das mães, que é um português técnico, às vezes muito seu, mimar demais significa: "Ele leva-me à certa. Eu tenho dificuldade em lhe dizer que não. Eu quando olho para ele, babo-me de orgulho e depois ele faz-me uns olhos tais que ele faz de mim um gato de sapatos." Mimar demais é isto, não é mais nada que isto. E se for isto, como eu acho que é, acho que sinceramente, esta mãe tem que ir tendo mão no processo, se permite. Por quê? Porque depois dá com toda a convicção, com todo o amor e corre o risco de, nalgumas circunstâncias, um galifão destes, que conhece tão bem a mãe, tem tão bem as medidas, que a certa altura, isto fuja de controle e quando dão por isso, a mãe ralha e depois às vezes isso não dá em nada. O que é importante é que a mãe não fale muito daquilo que ele tem que fazer na escola, a não ser que uma criança passe completamente os limites, mas estamos falando de uma criança muito pequenina. Isso fica para o professor ou para a professora, eles fazem isso magnificamente. Às vezes corre bem, às vezes nem sempre corre bem. De início, é natural que não corra bem, é natural que uma criança não ache gracinha nenhuma ir para a escola, porque é quase como se dissesse: "Mas eu não posso fazer tudo o que me apetece?" E a resposta é: "Não, podes fazer mais ainda do que tudo o que te apetece". Mas claro que mimar demais não é bem a passo arte. O mimo faz lindamente à saúde. Eu acho que quando alguém anda para aí a dizer que o mimo faz mal, é porque se calhar nunca teve tanto mimo quanto queria e fica com uma pontinha de inveja. Uma mãe que adora assim um filho, faz lindamente em estragá-lo com mimos. Se calhar, às vezes tem que afinar nas regras, mas isso num primeiro filho é sempre mais difícil. No segundo e no terceiro, a pessoa apanha o jeito e depois nunca mais esquece.

Eduardo, hoje ficamos por aqui. Amanhã voltamos com mais um tema. Obrigada e até amanhã.

Eu é que agradeço, Tita. Até amanhã.