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Olá Eduardo, boa tarde. Estamos em direto do Café Viana, em Braga, onde temos estado ao longo de todo o dia numa emissão especial dedicada à Capital Portuguesa da Cultura. Já falamos de música, fotografia, cinema, dança, literatura também e ouvimos agora mesmo a Sara Borges, responsável pelo serviço educativo da Braga Media Art, a falar da programação infantojuvenil para esta Capital Portuguesa da Cultura. Eduardo, como é que educamos um filho para gostar de arte? Como é que isso entra de forma natural numa família?
Olá, Paulo. É um prazer estar outra vez consigo.
Obrigado, Eduardo.
Paulo, eu vou-lhe já responder, se me dá licença, mas acima de tudo, eu acho que também é muito importante os pais perceberem para que serve a cultura, porque nós acabamos por falar dela como se fosse de uma forma muito pré-fabricada. E eu acho que era muito importante nós percebermos que os nossos filhos são de uma sensibilidade, de uma inteligência, de uma intuição fora do lugar, recolhem toneladas de informação ao longo do dia, mas é muito mais essa informação do que conseguem entender em tempo real. E, portanto, inevitavelmente, quando eles vão às histórias, à música, ao teatro, à pintura, etc, é como se eles, no fundo, juntassem pedacinhos de coisas que entretanto foram intuindo e os fizessem ganhar sentido e lhes dessem movimento e um significado. E nessas circunstâncias, era muito importante nós percebermos que a cultura não fica bem, ela é, sobretudo, a vitamina indispensável com que as crianças crescem. Por outro lado, a cultura traz-nos à beleza, e a beleza é o melhor antídoto do mundo em relação à maldade, em relação à estupidez e em relação ao tanto faz com que nós muitas vezes vamos convivendo. E, portanto, se os pais perceberem tudo isto, educar um filho pra cultura é abrir a oportunidade pra que ele, desde muito pequenino, aceda a um conjunto de conteúdos que, em muitas circunstâncias, não são trazidos pelas escolas. Os pais já fazem um trabalho magnífico com as histórias, mas depois é preciso que eles brinquem com a música, é preciso que eles brinquem com as artes plásticas e nessas circunstâncias, mais até do que as crianças terem ateliês de tempos livres ou não fazerem a correr, de uma forma mecânica, os trabalhos de casa, muito ganharíamos todos se elas tivessem atividades extracurriculares na área da cultura, porque aí sim, isso ajudaria a alavancar a sua capacidade de perceber e de pensar sobre as coisas, e eles naturalmente ficariam mais inteligentes e mais saudáveis.
Essa era justamente uma questão que eu tinha aqui pra si. Quer dizer, nós sabemos que nós precisamos, e os nossos filhos também, de português, matemática, geografia, ciências, tudo isso, mas também precisamos da arte na educação de uma criança. Como é que conseguimos pôr isso, e muitos professores já fazem das tripas coração para conseguirem encaixar no tempo curricular um pouco de arte, mas como é que se ajuda os professores e as escolas a dar a devida atenção a esta cola tão importante que ajuda as crianças a construir o mundo?
Paulo, de uma forma que eu receio que possa não ser socialmente correta, mas que eu tenho muita esperança que possa ser um bocadinho revolucionária, desde logo, fazendo com que as disciplinas de Educação Musical, de Educação Visual ou, por exemplo, de Educação Física, noutro plano, deixem de ser disciplinas de segunda e passem a ser tão importantes quanto as outras.
Opcionais.
E a Matemática. Isso possa reprovar com a negativa a Educação Visual e Educação Musical, porque só quando nós legitimarmos estas áreas do conhecimento como áreas absolutamente fundamentais, é que, de facto, todos passaremos a vivê-las de outra forma. Por outro lado, repare, eu acho que todos já ouvimos os pais, com aquela pontinha de orgulho, que é saudável e típica dos pais, falarem das notas dos seus filhos nesta e naquela disciplinas, mas depois há sempre um comentário colateral em que dizem: "Bom, a Educação Visual, pronto, teve três, mas também não é uma coisa muito importante".
Mas não faz mal.
Eu acho que é uma coisa fundamental, Paulo, porque ninguém nasce com uma espécie de formatação que permita que aprenda a traduzir tudo aquilo que são formas numa expressão visual. E, portanto, se muitos de nós hoje não temos jeito pra design, temos que agradecer à forma como a escola nos trouxe a Educação Visual, porque foi de uma forma tão pouco envolvente. Claro que, de repente, até parece que é uma questão de jeito, uma questão de equipamento de base, e não é. Portanto, começando pelo princípio, dando às disciplinas todas a importância que elas devem merecer, porque se formos por aí, os pais, um destes dias, nesta vertigem muito questionável, todavia, de explicações, hão de pôr as crianças em explicações de educação visual, e aí nós estamos a tratar de uma área de conhecimento tão preciosa e tão indispensável como tratamos a português e a matemática.
Eduardo, e aquela questão que tantas vezes se fala que as crianças aprendem pelo exemplo e se numa casa onde houver livros, eles terão vontade de ler. Numa casa onde veem os pais a ler, eles terão vontade de ler. Mas será que é mesmo assim? Os pais chegam a casa ao fim do dia, estão cansados, estão estafados com a correria e com o tempo que perdem no trânsito e com todas as solicitações do dia a dia, e os miúdos, claro, com as atividades extracurriculares, com o judo, com o balé e com tudo aquilo que nós encaixamos para lhes preencher a vida. Depois onde é que fica o tempo para a leitura, para eles nos verem a ler, para nós lermos com eles, para nos sentarmos com eles a ver um documentário que possa fazer sentido?
Paulo, eu acho que os pais também têm que deixar de fazer tanto de vítimas. Ou seja, eu percebo tudo aquilo que são as tarefas de uma mãe e de um pai, mas a determinada altura, se nós virmos o tempo que cada português gasta nas redes sociais, logo aí percebemos que se calhar as coisas bem geridas dão para serem esticadas um bocadinho para que eles tenham acesso a tudo isso.
Menos Instagram, mais literatura? Menos Facebook, mais histórias infantis?
Menos redes sociais, mais saúde mental. Note-se, nós em Portugal consumimos o dobro de psicofármacos, considerando o número de livros que se vendem. Ainda assim, curiosamente, a área infantojuvenil da literatura tem um peso muitíssimo significativo no negócio das editoras, e muito bem.
É verdade.
Mas aquilo que é muito inquietante, é que a partir de determinada altura, as pessoas leem muito pouco e, portanto, às vezes não se trata só de verem os pais a ler, trata-se de verem os pais a acarinhar os livros, porque só aí é que eles percebem que são objetos tão preciosos que precisam de ser folheados e manipulados, mas a certa altura precisam de ser muito bem cuidados e às vezes eles não veem isso por parte dos pais.
Mais livros, menos ecrãs. Parece-me que é uma boa forma de terminarmos este "Porque senão é que se posta". Eduardo, muito obrigado. Não lhe digo até amanhã, porque amanhã já estará com a Judite. Obrigado, é sempre um gosto.
Até breve também para mim, Paulo. Um abraço.