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Na Dinamarca, já há alguns anos que é obrigatório frequentar aulas de empatia. Chamam-se Klassens time, a hora da classe, e desde 93 que ensinam empatia como uma disciplina obrigatória pra alunos dos seis aos 16 anos. O que eles fazem durante essa hora? Basicamente, fazem escuta ativa e compreensão mútua. Ouvem os problemas pessoais ou coletivos, sejam eles relacionados com a escola ou fora dela, e juntos, com o auxílio do professor, procuram soluções. Eduardo, olá, boa tarde. Esta abordagem busca sobretudo combater o bullying, reduzir a competição e melhorar o clima escolar geral. É uma boa solução para Portugal, aulas de empatia?

Olá, Judite. Judite, faladas assim um pouco em abstrato, eu fico sempre um bocadinho inquieto, por quê? Porque habitualmente todos nós acabamos por ter a noção que quem mais fala de empatia e quem usa a empatia como uma espécie de atributo muito seu, com alguma vaidade e tudo, são pessoas que nós sentimos que às vezes têm muita dificuldade de perceber o que a empatia pode querer dizer. Mas num contexto destes, eu devo dizer que não me importaria que se chamasse outra coisa qualquer, mas também não me choca nada que se chamem aulas de empatia. Eu acho que é muito importante que nós aprendamos com método a sentirmo-nos uns aos outros. Nós fazemo-lo muito bem, em piloto automático. Nós nunca somos alheios àquilo que se passa à nossa frente e que se passa, já agora, de bom e de mau com as pessoas com quem vamos interagindo. Mas não me choca nada, até porque eu acho sinceramente que as escolas têm uma responsabilidade tão preciosa e que se for muito bem gerida, acaba por ser tão magnífica nas qualidades que pode desenvolver, sentir os alunos a escutarem-se uns aos outros, a sentirem-se uns aos outros, a imaginarem aquilo que de alguma forma são as situações que uns e outros acabam por confidenciar e com isso a fazerem pontes e a serem capazes de não só escutar como falar sobre isso, que eu digo, não me choca que isso aconteça em Portugal, já agora, Judite. Não me choca que aconteça nas escolas, que aconteça nas instituições, que aconteça na Assembleia da República, que aconteça nos sítios onde há pessoas, porque de facto, nós vivemos numa vida tão agitada que isto de nos escutarmos. A Laurinda Alves uma vez definia isso como, e definia muito bem, acho eu, escutar como ouvir com o coração, ou seja, sermos capazes de sentir o que aquela pessoa nos está a querer dizer e sermos capazes de, pra além do intuitivo, pormos legendas naquilo que essa pessoa nos faz sentir. Porque verdade seja dita, Judite, as coisas que nós percebemos de uma pessoa não têm só, e às vezes não têm tanto a ver com aquilo que ela nos diz, às vezes têm muito mais a ver com aquilo que ela nos faz sentir e que, olhe, por vícios de educação, por agitação, ou seja lá o que for, às vezes acabamos por não escutar, simplesmente.

Num estudo que envolveu 44 países, a Dinamarca está entre os três países europeus com menor incidência de bullying. Isto poderá dizer qualquer coisa.

Claro que diz, Judite. Eu tenho medo que quando se lê um termo como empatia, que é um termo técnico muito precioso da psicologia, depois se possa fazer disso uma leitura muito livre. E uma leitura muito livre, nalgumas circunstâncias, faz com que as pessoas imaginem isto como uma espécie de catecismo numa versão mais urbana, em que andamos aqui a aprender a gostar uns dos outros, quando não é bem isso que se tem que estar. Evidentemente que a empatia tem um impacto significativo na forma como nós lidamos com as pessoas e, portanto, na forma como nós somos capazes de falar com elas. Nós todos temos uma dificuldade enorme de falar acerca do que sentimos, acerca do que estamos a viver em determinado momento com uma pessoa e a fazê-lo de uma forma clara, cuidadosa, mas ao mesmo tempo, que possa ajudar as pessoas a comoverem-se umas para as outras. E, portanto, eu não tenho dúvidas que isto ajuda as pessoas a serem muito mais atentas, serem muito mais humanas E em consequência disso, serão seguramente mais simpáticas, já agora, porque a simpatia acaba por ser a consequência mais macroscópica da empatia.

E ajuda as crianças a prepará-las para a vida adulta, também ser um adulto mais compreensivo.

Claro. Mas lá está, eu acho que às vezes nós temos muito medo das palavras. Porque compreensivo, no entendimento de muitas pessoas, é ser mais condescendente. E mais condescendente, bem vistas as coisas, é ser falsamente compreensivo. Ora, ninguém pretende que ninguém seja falsamente compreensivo, mas que se proponha simplesmente a estar, nem que seja por um bocadinho, no lugar do outro, e a perceber, estando no lugar do outro, até que ponto é que isso é ou não é razoável, para que as pessoas se consigam, de facto, fazer entender de forma mútua. Isto também é importante na relação entre os pais e os filhos. Os pais e os filhos, e eu digo isto com ênfase, por quê? Porque a priori seriam as relações onde a empatia ganhava por 10 a 0, mas muitas vezes não é assim. E às vezes quando os filhos entram na adolescência, basta que os pais fiquem assustados com a perspectiva de eles estarem a entrar na adolescência, que de repente adeus empatia, e começam a fazer curto-circuito por tudo e por nada. É muito importante na relação com os avós. A forma como nós às vezes falamos com as pessoas mais velhas, é de uma ausência absoluta de empatia. Nós às vezes falamos devagarinho, de forma baixinha, aí de uma maneira estupidamente condescendente, e as pessoas têm uma elegância absolutamente fora de lugar, para não nos responderem como deviam. Naquele registo de: "Olhe, seja empático, mas, por favor, não me trate como se eu fosse um tolo". E, portanto, de facto, eu acho muito importante que nós possamos falar de empatia. Por mais que eu tenha a noção, que as pessoas que às vezes pegam nas frases feitas e as jogam como se estivessem sempre a caminhar na maionese e dominassem tudo e mais alguma coisa, tivessem a ideia que só por falar de empatia já são empáticas. Às vezes é exatamente o contrário. Quanto mais se fala dela, menos ela se observa.

O bullying, entretanto, está a mudar de cara, com o cyberbullying a crescer. É possível também educar para a empatia no mundo digital?

E o problema do bullying é que está, de facto, a mudar de cara. O bullying, a agressividade física, é cada vez menos frequente nas escolas. E antes daquilo que se passa nas redes digitais, nomeadamente com o bullying, aquilo que se passa no bullying das escolas é uma coisa muito inquietante e, portanto, eu não me choca nada, pelo contrário, que se pratique este tipo de aulas, porque, de facto, é ausência completa de empatia. E ausência completa de empatia não é só uma ausência completa de empatia. É maldade. E a forma como nos tempos que correm se exibe a maldade, se exibe a falta de humanidade e se exibe a falta de boa educação, é tão inquietante que eu gostava muito que tudo isto começasse nas escolas, porque eu tenho a ideia que as grandes mudanças dos comportamentos dos pais vêm através do comportamento dos filhos, que são muitas vezes mudados através daquilo que a escola lhes dá.

Fica aqui o alerta para talvez um módulo nas aulas de Cidadania, por exemplo.

Muito a sério, por que não?

Por que não? Eduardo, um grande abraço. Bom fim de semana alargado.

Também para si, Judite. Muito obrigado.

Até segunda.