Um livro publicado esta semana nos Estados Unidos acusa Jared Kushner, genro de Donald Trump, de ter beneficiado de contas bancárias financiadas por países do Golfo, com um valor total de pelo menos dois mil milhões de dólares (cerca de 1,7 mil milhões de euros), noticiou o jornal The Guardian. O enviado especial norte-americano nega todas as acusações e ameaça avançar com processos judiciais.

Em Princes and Thieves: Jared Kushner and Mohamed bin Zayed’s Secret Plot to Remake the Middle East (Príncipes e Ladrões: o plano secreto de Jared Kushner e Mohamed bin Zayed para remodelar o Médio Oriente, em português), o jornalista Matthew Cole alega que os príncipes Mohamed bin Zayed, dos Emirados Árabes Unidos, e Mohammed bin Salman, da Arábia Saudita, terão criado duas contas bancárias para financiar projetos diplomáticos durante o primeiro mandato de Trump, entre 2017 e 2021.

Segundo o autor, os dois líderes terão inicialmente proposto a criação de um fundo para financiar iniciativas que beneficiassem a administração norte-americana. Pelo menos dois mil milhões de dólares (cerca de 1,7 mil milhões de euros) terão sido depositados em duas contas, uma das quais terá ficado sob controlo de Kushner e de Mohamed bin Zayed. O livro alega que os fundos se destinavam a promover objetivos de política externa, incluindo a normalização das relações entre Israel e os países árabes.

Uma das contas, identificada como “Alpha”, teria cerca de 750 milhões de dólares (672 milhões de euros) e estaria depositada no First Abu Dhabi Bank, o maior banco dos Emirados Árabes Unidos. A segunda, denominada “Beta”, conteria aproximadamente mil milhões de dólares e teria sido transferida para o banco central israelita, através do Azerbaijão, por iniciativa do príncipe emiradense e com a sugestão do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu. Matthew Cole afirma que não é claro de que forma o dinheiro foi utilizado, mas cita uma fonte que defende que os fundos da segunda conta se destinavam a benefício pessoal de Kushner.

O livro sustenta ainda que o telemóvel de Kushner terá sido pirateado pelos serviços de informações russos e neerlandeses, permitindo o acesso à gestão das contas. O autor descreve um contexto em que a chantagem seria utilizada como instrumento de política externa, mas não apresenta imagens de emails ou outros documentos que comprovem diretamente as alegações. A investigação baseia-se sobretudo em fontes anónimas e inclui notas de rodapé com referências a entrevistas confidenciais.

“A alegação central deste livro é categoricamente falsa. Não existem contas bancárias. Nunca existiram”

Kushner rejeitou as acusações numa publicação na rede social X. “As alegações feitas por este autor são completamente absurdas e nunca aconteceram. Negámos publicamente cada uma dessas alegações, mas o autor não apresentou sequer um único indício que as comprovasse”, escreveu. O genro de Trump acrescentou que, durante o período em causa, foi alvo de intensa atenção mediática, de várias investigações do Congresso e de uma investigação conduzida por um procurador especial, nas quais colaborou voluntariamente, prestando mais de 30 horas de depoimento.

“Trata-se de invenções escandalosas apresentadas como jornalismo de investigação. Isto não é jornalismo. É uma mistura de fantasia, ficção e ativismo, escrita por alguém que está profundamente perturbado ou que age com intenções sinistras”, afirmou ainda, exigindo que a revista Vanity Fair, que publicou um excerto do livro na semana passada, retirasse o texto.

Chad Mizelle, advogado da administração Trump que se identificou como representante legal de Kushner, também rejeitou as acusações. “A alegação central deste livro é categoricamente falsa. Não se trata de questões de interpretação ou de versões diferentes dos acontecimentos: não existem contas bancárias. Nunca existiram”, disse, citado pelo Guardian.

O livro aborda ainda outras relações financeiras de Kushner com países do Médio Oriente. Entre elas está o investimento de dois mil milhões de dólares (cerca de 1,7 mil milhões de euros) feito em 2021 pelo fundo soberano saudita na Affinity Partners, a empresa de investimento privado criada pelo genro de Trump depois de ter deixado a Casa Branca. O livro cita um responsável árabe e investidor da empresa que afirma: “Não pagamos a Jared por ser um investidor perspicaz. Pagamos-lhe para o manter satisfeito. Isso mantém o sogro dele [Trump] satisfeito”.

Kushner, que integrou a primeira administração Trump como conselheiro presidencial, continua a participar em iniciativas diplomáticas no segundo mandato do Presidente, apesar de não ocupar um cargo oficial no Governo.

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