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Uma criança de três anos que faz birra quando não tem atenção, apesar da irmã, que é mais nova, conseguir brincar sozinha durante imenso tempo. E esta mãe pergunta: "Eduardo, olá, boa tarde. Por que o meu filho pede tanta atenção? E se eu não a dou, começa uma birra, claro."
Olá, Judite. Quando a Judite estava no meio da pergunta: "Por que o meu filho reage assim?" Eu ia já todo pronto pra dizer: "Provavelmente ele está mal habituado". Mas depois o resto da pergunta da mãe ajuda a confirmar isso. Judite, vamos lá. Eu gosto que as crianças reclamem, começando pelo princípio, porque significa que têm uma relação livre com os pais, apelativa, e que às vezes não é só apelativa, é também, de alguma forma, reivindicativa. E isso tudo só é possível porque, no fundo, têm pais como deve ser e elas próprias sentem-se livres, saudáveis pra fazer aquilo que entendem que devem fazer. Até aqui, tudo bem. Quando os pais criam a ideia de que as crianças têm que estar sempre muito ocupadas e os pais muito dedicados, e muitas vezes num primeiro filho acontece isso, os pais de tanto se quererem dedicar, acabam por dar e dar. Claro que criam um vício de forma e criam logo ali uma bolsa de resistência em que uma criança, a determinada altura, vai solicitar sempre mais um bocadinho, no sentido de ter acesso àquilo a que se acha com direito. E, portanto, que ela reclame eu não vejo mal nenhum, que a mãe de alguma forma corresponda a isso, também não. Que a mãe se sinta obrigada a fazê-lo é que não me parece que seja razoável, até por isto: as crianças ganham se aprenderem a passar sem os pais as vezes que são necessárias e suficientes. Que brinquem de vez em quando com os pais, muito bem. Que os pais, de alguma forma, tenham que estar numa espécie de disponibilidade quase interminável em relação a elas, de modo nenhum, porque a autonomia também se aprende desta capacidade de estar só. E a capacidade de estar só cresce a partir do momento em que se pode ter a mãe e o pai, mas não como se fossem alguém sempre à disposição, sempre disponíveis para corresponderem àquilo que são as solicitações ou às vezes as exigências de uma criança. Quando a mãe reage invariavelmente assim por bondade, se calhar está a alimentar um vício de forma que a prazo vai funcionar com esta criança, porque ela de repente sente-se um bocadinho reizinho e isso não é um bom princípio pra aprender a ser autônomo.
Quando se percebe que a birra é pura manipulação, deve ignorar-se?
Judite, eu acho que nunca se deve ignorar uma birra. Eu percebo que a ideia passe por qualquer coisa do gênero: "Pronto, agora vamos contar até mil e ele mais tarde ou mais cedo vai descansar", mas quando nós a tentamos ignorar, o que estamos a fazer? Estamos a dizer a um filho que estamos sempre muito atentos e muito intervenientes em relação a tudo aquilo que é indispensável à sua vida, e que temos uma opinião, e que definimos regras. Tudo aquilo que faz parte de uma relação saudável entre os pais e os filhos. Mas é como se disséssemos: "Bom, mas há aqui uma linha da exceção que tem um bocadinho a ver com o facto de tu fazeres birras, porque chegada essa hora eu tremo toda e não consigo geri-la". E aqui eu não acho que seja razoável. Quando faz birra e é manipulação, eu não acho mal nenhum que uma mãe choque de frente com o filho. E não significa que faça uma birra maior, mas que tem que fazer uma cara um bocadinho feia, de maneira a que o filho perceba que um sinal vermelho é mesmo um sinal vermelho. Aí eu acho que tem, porque senão estamos a entrar num registro em que se uma criança faz birra e a pode levar até onde entender, é como se a mãe se fosse inabilitando para ser mãe em relação a tudo aquilo em que uma mãe deve intervir, deve gerir, deve mandar também. E quando é assim, a mãe, por muito bem que esteja a tentar fazer as coisas, está a arranjar dor de cabeça para os dias que vêm a seguir.
É também importante antecipar quando vêm as birras. Antecipá-las é bom, não é?
Se antecipar significar fazer uma gestão corrente dos humores de uma criança, de maneira que não dá-se que a raiva escale pra ali acima, eu digo que sim. Agora, evidentemente que, por mais que uma raiva que se manifesta seja uma reação tendencialmente muito saudável, porque estica os pulmões, faz bem à ansiedade, é um antidepressivo fantástico, isso tudo tem que ter contrapeso e medida, não é? E, portanto, nessas circunstâncias, quando uma criança sente Que passa a querer mandar um bocadinho no jogo através da raiva, significa que a autoridade da mãe e do pai talvez não estejam tão esclarecidas para ela quanto devia ser, porque uma pessoa não precisa de andar numa gritaria, Judite, mas precisa de ser suficientemente clara nos sins e nos nãos, de maneira que não haja muito espaço para uma espécie de governo em diálogo, que às vezes é isso que depois gera esta raiva que se vai instalando e que de vez em quando, escala por ali acima e acaba numas birras muito feias. E quando é assim, eu não recomendo, porque depois elas têm a tendência a funcionar como uma mancha de óleo que se vai alastrando e hoje faz-se birra por isto, hoje é por causa do jantar, amanhã é por causa dos trabalhos de casa, depois é porque a mãe e o pai decidem terminar um jogo de computador que estava ali no seu ponto mais desafiante. E quando é assim, cria-se uma gritaria infernal e um ai Jesus, por parte dos pais, que fazem com que aquela criança seja oficialmente o produto explosivo lá de casa. E uma criança só é um produto explosivo, quando a mãe e o pai, sem se darem conta, tantas vezes, Judite, deixaram que a coisa escorregasse, mas isso também se corrige sem sobressalto senhora.
E deixaram que escorregasse e pela descrição que fez, pode escorregar durante muitos anos.
Não, Judite, escorrega como deve ser. Ou seja, cria-se uma bolinha de neve que vai por ali adiante até às avalanches mais diversas. Muitos dos adultos caprichosos que nós conhecemos, que são muito narcísicos, são aqueles que passaram a vida a fazer birra e que de alguma forma as pessoas, foram entendendo como se fosse um defeito de fábrica e se foram encolhendo diante disso. Portanto, deixar que uma criança cresça assim, não significa estar a fazer bem, por mais que num primeiro momento a pessoa não saiba muito bem o que é de fazer.
É sempre difícil dizer isto, mas paciência e consistência são dois bons argumentos para estas alturas.
Sim, e uma firmeza serena, porque um não convicto, não tem que ser um não cheio de alíneas e de justificações e desculpa qualquer coisinha. É um não convicto próprio de quem está a tentar fazer o melhor por um filho, sem que tenha que estar sempre a justificar tudo e mais alguma coisa que depois dá esse tipo de episódios, que se vão repetindo e a certa altura se tornam infernais.
Eduardo, amanhã voltamos com mais um tema, talvez com mais um inferno de um pai ou de uma mãe.
Pode ser.
E até lá continue a escrever-nos para eduardosarro@observador.pt e também ouvir-nos em podcast. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
O agradecimento é meu e até amanhã, Judite.