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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França e hoje vamos a um e-mail de uns pais que vivem com três filhos adultos e com quem travam uma luta diária em torno das tarefas domésticas. Olá, Eduardo. Esta mãe conta-nos que já tentou de tudo um pouco, regras, escalas para dividir tarefas e parece que nada resulta e escreve-lhe a perguntar o que fazer.
Olá, Judite. Chamar a atenção a estes jovens que determinada altura, quando se cresce, é também importante assumir um pacote de responsabilidades. Se num contexto como este acabam por não as ter, é porque se calhar os pais, e isso é uma constante maior do que era razoável que existisse, se vão substituindo a eles de uma forma incompreensível. Há estudos para todos os gostos e às vezes há estudos que dizem que os adolescentes portugueses, nomeadamente, são aqueles que, à luz daquilo que se passa na Europa, acabam por ter menos tarefas domésticas. Vale o que vale, como é óbvio, mas o que é importante é que os pais percebam que por mais que adorem os filhos, evidentemente, um conjunto de direitos vem sempre equipado com um pacote de responsabilidades. E, portanto, estes filhos que às vezes chegam à casa deles, que para todos os efeitos também é uma casa deles, e é ótimo que seja assim. Ainda assim, não é porque sejam adultos, é bom que percebam que quem define as regras será a mãe e o pai, dentro do que é razoável, evidentemente. Nestas circunstâncias, pedir, persuadir, falar ao coração, negociar e outras coisas do gênero, talvez não faça muito sentido, porque é evidente que eles estão ali, certamente porque os pais têm o maior gosto nisso. Às vezes, nem sempre acontece isso, Judite, porque os filhos vão ficando num estatuto de adolescentes crescidos, que não são completamente adultos, mas que não são completamente adolescentes e, portanto, têm uma vida completamente autónoma em relação aos pais, o que não é razoável, e utilizam a casa dos pais como uma pensão, como tantas vezes as mães nos desabafos acabam por dizer. Mas o que é importante é que os pais definam de uma forma muito musculada um conjunto de regras, porque senão acabam por estar a viver na sua própria casa debaixo de uma atmosferazinha de coação que não tem graça nenhuma e que faz com que as relações, aliás, se estraguem.
Isto está relacionado com o facto de em pequenos, eventualmente, não sabemos, mas quando eram pequenos não tinham essas obrigações?
Judite, eu acho que sim. Eu acho que todos nós educamos um bocadinho mal os nossos filhos, o que eu acho que é uma tranquilidade enorme, porque quando nós dizemos que uma criança é um bocadinho mal-educada, muitos pais acendem os sensores como quem diz: "Mas que blasfémia fazer-se uma afirmação dessas". Todos nós educamos um bocadinho mal, todos nós adoramos os nossos filhos e porque os adoramos, eles depois são realmente um bocadinho egocêntricos, mas depois a coisa escorrega para um registo que às vezes os torna muito egoístas e nós às vezes anulamo-los. E dizemos que a tarefa que eles têm em mãos é estudar. A mim não me parece que seja bem essa a principal tarefa. A principal tarefa é aprender a viver, aprender a conviver e nesse pacote de responsabilidades está aprender a ser bons filhos e, portanto, a cuidar também dos pais. E os pais vão cedendo nisto tudo, de tal forma, que às vezes os filhos são crescidos e se comportam com os pais como para efeitos de levantar uma mesa, de trazer qualquer acepipe para uma refeição ou outros tipos de cuidados mínimos. Os filhos se comportam para esse tipo de efeitos como se fossem adolescentes, para todo o resto, como se fossem adultos muito crescidos. Isto é que não é razoável. E, portanto, eu acho que sim, porque nós escorregamos e os deixamos ser um bocadinho egoístas demais e que depois quando eles crescem, como às vezes os pais na sua sabedoria dizem, trepam por ali acima e parecem não aceitar as regras, que obviamente quando os pais as definem, são só regras de bom senso, não é tirania absolutamente nenhuma.
Esta mãe diz que todos têm horários muito diferentes, uns estudam, outros já trabalham. Mesmo assim, é possível estabelecer justiça nas tarefas, na divisão das tarefas?
Como é evidente. Claro que eles têm vida, mas quer dizer, quando nós temos filhos de 10, 11 ou 12, sabe que então quando eles têm uma atividade desportiva e um dia temos que falar das atividades desportivas, que é uma coisa muito importante, mas às vezes eles têm tantos treinos e às vezes os treinos são de tal forma fora de horas, que de facto tem que haver alguma maleabilidade, porque eu chamo muitas vezes a atenção disso aos pais, mas vale às vezes jantar em hora mais tarde e o jantar ser um sítio onde estão todos Meia hora, 45 minutos, o que seja, mas onde estejam todos, onde se conversa sobre tudo e sobre nada, do que permitirem que um jante fora de hora, os outros jantem no quarto. Ou seja, quando há muitas leis numa casa, acaba por não haver lei, portanto, ninguém fica protegido. E numa circunstância dessas, tem que haver momentos de família. Não quer dizer que tenham que ser todos os dias, mas tem que haver momentos de família absolutamente inegociáveis, que quem tem que os definir, naturalmente, são os pais, porque depois quem usufrui disso tudo são os filhos, sobretudo, de início, contra a feitos, eventualmente, mas quando percebem os ganhos de estarem ali todas as semanas, nem que seja no almoço de família, que não se negoceia, fica muito claro que há um conjunto de regras, mas também há um conjunto de responsabilidades e de compromissos que quando são assumidos por todos, fazem com que o sol quando nasça acabe por tocar a cada um dos membros da família de forma idêntica. E isso é um ganho para todos, independentemente dos filhos terem atividades profissionais, terem vidas pessoais e terem, seguramente, mais de 18 anos.
E até onde deve ir a vigilância ou a pressão dos pais sem infantilizar os filhos que já são adultos?
Eu acho que isto funciona um bocadinho como na fisioterapia. Na fisioterapia, estica, estica. E depois há ali um limite em que dói. E os fisioterapeutas, na sua sensatez, dizem: "Pronto, vamos parar aqui, porque se nós continuamos, a seguir à dor vem uma inflamação e temos uma dor de cabeça onde não faz sentido". Ou seja, a partir do momento em que os pais têm um conjunto de regras que, volto a dizer, é suposto que sejam só sensatas e que de alguma forma não são pura e simplesmente cumpridas, isso já entra no patamar da dor. E os pais têm que ser duros, se for o caso, explicando aos filhos que pra eles, pais, também é uma benevolência os filhos lá estarem, sendo certo que ou cumprem as regras ou quando a dor começa a mediar tudo isto, se calhar eles vão ter que ser definitivamente crescidos e imaginarem-se a ter um espaço com uma gestão autónoma, como se calhar neste momento não fazem. Até porque, sejamos razoáveis, tudo isto implica um pacote de despesas muito significativo, em relação aos quais os pais se encolhem sempre de reclamar, mas que os filhos têm a obrigação de, de uma forma delicada, sem magoar os pais, ir comparticipando para que tudo isto não represente um peso e seja, sobretudo, um privilégio para todos.
Era isso mesmo que lhe ia perguntar, se contribuir financeiramente pra casa ajuda a responsabilizar ou, por outro lado, confunde papéis.
Não confunde, porque mãe e pai são dominío do sagrado, não se discute. Agora, sejamos razoáveis, se nós estamos a falar de filhos que têm 30 anos ou mais, como tantas vezes acontece, que são adolescentes crescidos, que têm a vida que entendem, entram as horas que entendem, não têm que dar satisfações aos pais, etc. Por mais que a mãe e o pai fiquem preocupados quando ele sai de noite e tudo isso, evidentemente que as regras são definidas pelos pais por uma questão de respeito, só de respeito e de admiração, mas cuidar dos pais pode também ter a ver com esse tipo de compromissos que, em muitas circunstâncias, os filhos não assumem como se fosse um direito seu, interminável, quando muitas vezes esse tipo de direitos nem sempre deixa os pais tão à vontade no seu dia a dia e na vida que eles próprios entendem ter o direito de ter.
Que se aplica a regra: quem suja, limpa. Essa é uma regra universal.
É tão mais simples. É mesmo sensato.
Tio Eduardo, um grande abraço. Obrigada. Encontramo-nos amanhã para mais um tema. Até amanhã.
Até amanhã, Edite.