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Tudo pronto para mais um episódio do "Porque Sim, Não Há Resposta". Eu sou a Ana Filipa Rosa, em estúdio está o Ricardo Conceição e conosco o Eduardo Sá. Olá, bem-vindos.

Olá, Eduardo. Olá, Ana Filipa.

Olá, Ana Filipa. Olá, Ricardo.

O Parlamento da Nova Zelândia aprovou, por unanimidade, o luto de três dias com licença remunerada para pais e mães em caso de perda gestacional. Em Portugal, a deputada não inscrita Cristina Rodrigues apresentou na semana passada uma proposta de lei no mesmo sentido, uma proposta que será discutida e votada brevemente. Hoje vamos falar sobre isto e, para termos aqui algum enquadramento, uma mulher trabalhadora que tenha uma interrupção da gravidez tem direito a uma licença com duração entre 14 e 30 dias, consoante o que um médico determinar, mas nem ela nem o pai têm direito a um período de luto e, portanto, é isso que está aqui em causa. Eduardo, falta reconhecer com a devida dimensão a dor que envolve perder um filho mesmo antes de ele nascer?

Ana Filipa, nós estamos na Idade da Pedra. E eu fico muito chocado com isso. Nós, na verdade, estamos no século XXI em muitos aspectos e muito longe dele noutros. Começando só por um pormenor que eu não consigo entender, e acho que terei alguma autoridade moral pra falar sobre isso, porque trabalhei durante muitos anos numa maternidade central. Eu não consigo entender, ainda hoje, que uma mulher que tenha que fazer uma intervenção cirúrgica, porque é disso que se trata, em consequência de uma interrupção da gravidez, esteja num quarto com outras utentes que estão a ter as mesmas dores de parto para terem um bebê. Temos duas camas, por hipótese. Numa, está uma mulher a ter dores de parto para ter um bebê vivo e noutra está uma mulher a ter dores de parto para expulsar um cadáver. Mais, às vezes, numa cama está uma pessoa que decidiu desencadear, de modo próprio, voluntário, uma interrupção da gravidez, e na cama ao lado está uma mulher que, por variadíssimos motivos da sua vida, perdeu aquele bebê e vai ter que o expulsar no contexto de um parto. Eu acho isto absolutamente, peço-vos desculpa, primário. Acho de uma violência que eu não consigo entender como é que é possível que ainda hoje exista, havendo enfermeiras e enfermeiros, médicos e médicas, que muitos deles têm experiência de maternidade e de paternidade, e não terem a humanidade mínima pra perceber isto, eu já acho grave. Para que todo um sistema de saúde presuma que isto são amendoins, eu acho inacreditável. Ou todo um país, quando se trata de perceber a Segurança Social. E portanto, se me perguntar assim: três dias? Não, eu acho pouco. Ponhamos, no mínimo, uma semana, porque se as pessoas acham que isto não tem sequelas pra uma mulher e pra um homem, muito mais pra uma mulher do que pra um homem, em muitos momentos, por quê? Porque seja através da via cirúrgica, seja através de compromissos que são administrados e que muitas vezes estas pessoas vivem em contexto de residência, isto é de uma violência tremenda. Uma pessoa, no fundo, cada vez que vai à casa de banho, desculpem-me os pormenores, tem pequenas contrações ou às vezes grandes contrações, e está sempre à espera de olhar pra ver se mais um bocadinho daquilo que podia ser o seu filho, vai parar à sanita. E quando as pessoas acham que isto é uma coisa insignificante, que passa ao lado do sofrimento de uma pessoa e que não merece todo o apoio da Segurança Social pra que estas pessoas não fiquem destroçadas, eu não entendo onde é que nós andamos.

Mas isso também, Eduardo, e corrija-me se eu estiver enganado, também parte muito da nossa exigência enquanto sociedade. Porque, felizmente, se calhar, os casos são poucos ou pelo menos não têm uma dimensão grande no caso do aborto espontâneo, e as pessoas acham que tanto pai como mãe podem seguir a vida normal, daí a dois ou três dias depois de uma intervenção. Às vezes dizem aquelas coisas: "Podem tentar outra vez." Como se fosse algo de normal, como se as expectativas do pai, da mãe, naquela criança, pudessem ser arrumadas numa gaveta e no dia seguinte está tudo bem. É assim que olhamos um pouco pra estes casos ou não? Ou estou aqui a exagerar?

Ricardo, eu receio que seja, mas fico sem jeito ao perceber que de alguma forma é assim. Estas crianças foram sonhadas por estes pais. Muitas vezes já têm o nome, já têm o primeiro baby grow, já têm todo um conjunto de sonhos que as pessoas vão desenvolvendo de todas as maneiras. E nós estamos a falar de uma morte antes do nascimento, sim, com todo o embrulho, desculpem-me a vulgaridade, que isto implica ter, e que tem consequências tremendas. Vejam o que é que representa para uma mulher, nomeadamente, ir a uma consulta de obstetrícia, ir com o pai do bebê, estarem numa intensidade muito grande pra perceber como é que ele está e, de repente, deixou de se ouvir o coração E tentem perceber a brutalidade que representa uma pessoa entrar numa consulta à espera de conhecer mais um bocadinho do seu bebê e sair de lá a perceber que tem um bebê morto dentro de si. E agora tentem perceber o que significa ter-se um bebê morto dentro de nós e deixarmos passar um dia, e deixarmos outro, e de repente sentirmos que, por um lado, queremos de todo expulsá-lo o mais rapidamente possível, mas ao mesmo tempo nos sentirmos as pessoas mais abandonadas do mundo perante uma tarefa como essa. E portanto, os números são muito superiores a muitas medidas legislativas que foram assumidas pelo Parlamento Português a propósito de algumas questões que, de facto, eram realmente minoritárias e que não deixaram de ser importantes nesta discussão. E, portanto, eu não consigo entender como é que isto é passado assim com esta leveza. Acho ótimo que tenha que existir um país muito longe do nosso que diga: "Atenção, isto é um luto, sim, mas três dias, acreditem, não é nada, porque isto é um luto". Um luto demora muito tempo, mas muito tempo a cicatrizar e quando nós não temos a humanidade de o reconhecer, falta-nos um bocadinho para sermos mais pessoas.

Como dizia o Eduardo, estamos na Idade da Pedra, ainda neste aspecto. Eduardo, nós vamos criando esta bolha cor-de-rosa da maternidade. Eu acho que estes casos, se calhar, são muito mais comuns do que aquilo que imaginamos. Nós, se calhar, temos é pais e mães que falam muito pouco sobre isto, abertamente. Ainda existe um certo tabu em relação a esta situação, porque ser mãe, ser pai, é como diz, é tudo muito planeado, tudo muito pensado e depois quando algo corre mal, se calhar existe uma dor tão grande que não é partilhada. É um ponto positivo termos este tipo de iniciativas que nos colocam a falar sobre isto, por exemplo, na rádio, como está a acontecer agora.

Em absoluto. É o que há de mais nobre no serviço público. Aliás, Ana Filipa, isto é de tal forma que nos últimos 20 anos tem-se visto, e eu tenho visto, porque tenho trabalhado intensamente com este tipo de pessoas, que vivem estes dramas, e é fantástico observar como os casais, quando engravidam, se defendem quase espontaneamente de algum ruído à volta deles. Ou seja, não era habitual esta prática, que agora se tornou quase banal, dos casais quando têm bebê, guardarem dois meses, três meses, quatro meses, para que finalmente digam à família e aos amigos. Isto não acontecia. Dantes, o que era normal era que mal uma pessoa sabia que estava grávida e assumia aquela gravidez como uma festa, como qualquer coisa que era muito desejada desde o princípio, era dizer a toda a gente. Estás com o olhar de quem adivinha um parceirinho novo. Era tal a alegria que as pessoas se permitiam transbordar. As pessoas hoje guardam. E guardam por isto, porque de repente, é quase como se, não sendo supersticiosas, tivessem sempre a ideia que alguma coisa pode correr mal. E correr mal é isto, e é muito mais frequente do que se pode imaginar.

Desculpe, Eduardo, interrompê-lo. Também, se calhar, é um mecanismo de defesa quando as pessoas, sobretudo as mulheres, engravidam cada vez mais tarde, em que os filhos surgem mais tarde na vida dos casais e em que a gravidez pode ser mais complicada. Se calhar, é um mecanismo de defesa por parte dos casais.

Também, mas é como a Ana Filipa estava a dizer, Ricardo. Às vezes, todos nós criamos a ideia de que uma gravidez é sempre cor-de-rosa. É um estado especial, e é. Agora, uma gravidez nunca corre sempre bem. Tem alguns aspetos mais sombrios, alguns lados B, dos quais não se fala tantas vezes. E eu acho muito importante que nós possamos conversar muito acerca de tudo isto. Acredito mesmo que este programa pode ter um impacto muito grande em muitos dos nossos ouvintes, porque é estranho que isto, que faz parte da vida de tantas pessoas, seja, com aspas, evidentemente, censurado tantas vezes.

Nós já não temos muito tempo, Eduardo, mas em relação às pessoas que rodeiam este pai e esta mãe, que acabam por perder um filho mesmo antes de ele nascer, qual deve ser a postura? Porque há pouco o Ricardo falava daquela coisa muito comum que nós vamos ouvindo: "Pronto, agora é seguir em frente, é voltar a tentar". E isso pode ser também muito doloroso, porque um filho, apesar de não nascer, continua a ser um filho, uma vida que se perdeu e que fica para sempre na memória deste pai e desta mãe.

Claro. As famílias ficam sempre num embaraço imenso, como se compreende. Às vezes marcam presença pela ausência. Não falam. É como se se ignorasse tudo aquilo que se está a passar, fosse uma ajuda. As pessoas ficam sem jeito porque não sabem o que hão de dizer. Mas o que é verdade é que eu acho que é urgente que as pessoas percebam que uma grávida e um grávido precisam de viver um luto, e um luto vive-se no colo das pessoas mais importantes. Com alguém. Com alguém, ser capaz de falar por nós E a pôr legendas onde nós não somos capazes de as colocar. E é tão duro um luto por um filho que se perde mesmo antes de ele nascer, que quando nós imaginamos um luto vivido na mais completa solidão, então se torna absolutamente enlouquecedor.

E é um luto não só por uma vida que se perde, mas é também um luto por todas as expectativas que se perdem, não é?

Ricardo, a melhor resposta que eu encontro para aquilo que pergunta, talvez se tenha passado quando eu tinha acabado há muito pouco tempo de chegar à maternidade e as ecografias ainda eram muito rudimentares. E lembro-me perfeitamente de uma senhora que entrou na maternidade vinda de uma localidade distante com uma gravidez de gêmeos e que quando o ecografista fez uma ecografia de rotina para preparar o parto e lhe disse: "Olhe, tem aqui um bebê ótimo, pronto a nascer", e ela disse: "Não, não pode ser, eu vou ter dois gêmeos". E ele disse: "Não, deve ter havido um equívoco, só tem um". E depois de um taco a taco, de cortar o coração a qualquer pessoa, ela tem este bafe, que eu acho que nos ajuda a perceber um bocadinho no limite aquilo que se passa muitas vezes dentro de todos nós. "Não sei se está a ver, eu tenho dois bebês, dois nomes, quatro padrinhos e eu agora vou ter que matar um dos bebês. Como é que eu vou fazer isso?"

Para quem nos está a ouvir, nós vamos recebendo também muitos testemunhos, portanto podem continuar a enviar também. Este e-mail está disponível para outras sugestões de tema, para perguntas: eduardosa@observador.pt. O "Por que senão é resposta?" regressa amanhã, quarta-feira. Eduardo, Ricardo, obrigada. Até amanhã.

Até amanhã.

Até amanhã.

Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.