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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de estudantes que deixam o ninho para ir estudar para fora. As colocações nas universidades já saíram e por estes dias já há muitos alunos a fazerem as malas. Olá, Eduardo. Desvalorizar o impacto emocional de uma mudança como esta, só porque é no mesmo país, ajuda o estudante a embarcar nesta aventura ou só aumenta a culpa de quem sente ansiedade?
Olá, Judite. É uma mudança para todos os efeitos. E para muitos deles é uma mudança muito grande, porque passam a vida a sonhar sair de casa, serem crescidos e poderem entrar às horas que lhes apetece, aquelas coisas todas típicas de um adolescente que se vai tornando um bocadinho rebelde e um bocadinho tão de saia. E depois quando finalmente isto acontece, fazem o caminho e têm todo um desafio enorme em mãos, tremem da cabeça aos pés. Na primeira semana ainda não, Judite, porque na primeira semana é um deslumbramento e são muito bem acolhidos. Parece uma festa interminável. O problema é a seguir, quando finalmente percebem que é um compromisso que tem muito tempo para durar e que ao fim de andarem dias e dias, às vezes zangados, amoados, a resmungar quando a mãe chama a atenção por isto ou por aquilo, finalmente não têm a mãe e o pai ali ao pé e por mais crescidos que queiram ser, tremem. Não é só ansiedade, Judite, às vezes ficam desolados, desconsolados, vêm lá sempre os telefonemas com um choro copioso, próprio de quem está a crescer. É crescido em muitos aspectos, mas seguramente muito menos crescido do que imagina, a ponto de estar, por outras palavras, a dizer: "Quero a minha mãe, quero o meu pai", coisas típicas de crianças bem mais pequenas, que os estudantes quando fazem isso estavam longe de imaginar que voltariam a viver.
Esse susto inicial é o choque natural da perda da rede de proteção?
Judite, de repente, perceberem que são mais pequeninos do que imaginavam. Nós somos todos muito mais pequeninos do que às vezes imaginamos e a vida encarrega-se de nos chamar a atenção para isso. Claro que somos ousados nos sonhos e nas escolhas e não deixamos de fazer um caminho, às vezes à boleia de uma racionalidade que puxa por nós, mas na verdade, dói. E primeiro que uma pessoa aprenda a retirar os ganhos que vêm daí, tem alguns sobressaltos. Agora, eu acho muito importante que isto se dê, acho que devia ser quase proibido, que quando estas mudanças se dão, obviamente, no registo do ensino superior, que os pais não tenham que ir às escolas tratar das inscrições, etc., reclamar e tudo mais, porque isso se vai observando cada vez mais, o que nos leva a dizer: "Mas eles são crescidos?" São. E nos leva a concluir que para efeitos das suas reclamações, são adultos, para efeitos dos seus direitos, em muitas circunstâncias, são pequeninos, deixam-se estar. Enfim, protestam levemente quando são aparentemente desconsiderados por este excesso de zelo dos pais, mas deixam-se estar, porque os ganhos compensam e mau seria que não achassem isso magnífico.
O custo de vida e do alojamento noutra cidade é hoje uma enorme preocupação. Como é que um jovem lida com a pressão de sentir que está a gastar o dinheiro dos pais?
Judite, aprende a crescer e aprende a ser responsável, porque obviamente, o ensino universitário não é um ensino disponível para todos. E acho que um dia nós vamos ter que repensar enquanto país se isso tem ou deve ser assim. Eu acho que não deve ser, mas isso ajuda-os a ter uma noção muito mais real da vida. Às vezes é quase como um duche de água fria que se tem de um momento para o outro, porque de facto, o alojamento é caríssimo, as propinas em muitos momentos não são muito compreensíveis, mas são caras. E depois há a vida, a vida à qual eles também têm direito. E esta quadratura de um círculo, que é muito difícil de fazer, mas que é indispensável, Judite, entre a vida que eles precisam de ter, a emancipação que tudo isso dá e a responsabilidade que implica gerir uma mesada, gerir relações, fazer comida muitas vezes, coisa que muitos deles não fizeram até sair de casa, e ter, de facto, uma noção muito mais clara Do papel da mãe e do pai. E portanto, muitas relações que estavam mais ou menos desarrumadas antes de sair de casa, depois de se ter esse tipo de experiências e depois da lonjura, por bom senso, onde às vezes ele parecia faltar, de repente aprende-se a dar outro tipo de valor àquilo que se tem, coisa que quando se é adolescente, muitas vezes se toma como adquirido e nem sequer se questiona.
O regresso a casa todos os fins de semana é um refúgio necessário para recarregar baterias ou é um travão à integração?
Não, é col, col, col e depois não perca de vista um pormenor, Edite. Nos primeiros tempos é um regresso, de preferência, todos os fins de semana. Nos segundos momentos, há sempre um professor aborrecido que marca um teste para a segunda-feira e "eu queria tanto ir e não posso". E de repente começam a aparecer um naipe de desculpas que nunca mais acabam, no sentido de eles terem col, claro, mas ao mesmo tempo terem a vida e uma sensação de liberdade que lhes faz muito bem. Portanto, eles depois acabam por ter esse caminho. Mas sim, no primeiro momento, a ideia é estarem muito tempo em casa. E se houver universidades, como há, que dão as sextas-feiras aos caloiros, então veja o luxo que significa ter aulas entre segunda à tarde e quinta e ajudar nesta integração. De facto, nem sempre depois eles estão tanto tempo com os colegas quanto precisariam, mas o tempo encarrega-se de pôr bom senso nisto tudo. E portanto, eu acho ótimo quando se vai estudar para uma universidade que se saia de casa. E acho ótimo porque não sei o que é mais importante, se é o estudo em si, aquilo que se vai aprender, se é esta emancipação toda que traz escola de vida a muitos adolescentes que até aí não a tinham.
Eduardo, hoje ficamos por aqui. Voltamos amanhã com mais um tema. Um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Outro facílis, Edite. Até amanhã.