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Bem-vindo ao "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de conflito de gerações. Olá, Eduardo. O conflito de gerações pode estar à beira da extinção ou isso é um mito?

Olá, Judite. Pode estar à beira da extinção, e é uma pena, devo dizer, porque sempre foi uma mola muito importante no crescimento das famílias e dos pais, em particular. Por que pode estar à beira da extinção? Porque, de uma forma que nem sempre é completamente leal, não é completamente verdadeira, por outras palavras, os pais tentam adaptar-se a todas as tendências do momento num filho e às vezes chocam um pouco diferente, trocando argumentos, assumindo conflitos, às vezes acalorados, mas no fundo, acabam por fazer pouco movimento no sentido de os interpelar, de os corrigir ou de lhes dar toda a razão, quando é o caso. E, portanto, num contexto como esse, do ponto de vista dos pais, eu receio que possa estar um bocadinho à beira da extinção. De um ponto de vista dos filhos, eu acho que é um pouco diferente, Judite, porque os filhos estão sempre à procura de uma pequenina nódoa no comportamento dos pais, que seja quase imperceptível, mas que sirva para eles dizerem: "Há uma diferença entre aquilo que tu me exiges e aquilo que tu fazes", que faz com que os pais depois fiquem em contramão, num embaraço muito grande. Mas do ponto de vista dos pais, em muitos momentos, à boleia disto que agora se convencionou a gerir conflitos, isso acaba por ter como consequência engolirem opiniões e/ou correções, porque elas também são necessárias, inevitavelmente, e nessas circunstâncias ele ficou um bocadinho sem jeito, porque é tão importante ver os filhos e os pais medirem forças e trocarem argumentos e aprendere uns com os outros, que o conflito de gerações, que era uma espécie de instituição há uma geração atrás e nas anteriores, entretanto amenizou, porque os pais às vezes desistem de argumentar, às vezes pelas piores das razões, Judite, é como se dissessem: "Para quê argumentar se no final eu perco sempre?"

Mas hoje os pais explicam mais e impõem menos. Isso necessariamente reduz o conflito?

Judite, reduz de certa forma. Eu não tenho nada contra explicações, desde que não sejam num movimento quase obsessivo, quase como se cada explicação fosse feita para que merecesse a concordância explícita de um filho, porque nessas circunstâncias eu acho que não é muito razoável, por uma razão única: porque aquilo que de repente é uma explicação, de repente torna-se numa espécie de pedido de autorização, numa certa validação indispensável, e isso não me parece razoável. Parece-me que os pais têm toda a legitimidade, têm a sabedoria que lhes permita, em muitas circunstâncias, definir um caminho. E quando os pais o definem de formas razoáveis, os pais não são essas pessoas prepotentes e autoritárias, fazem-no em função de convicções, às vezes lendo mal os dados da realidade. Mas obviamente que quando um filho contra-argumenta, os pais são suficientemente sérios para se porem em questão, nem que seja numa certa clandestinidade dos seus silêncios, pensando com os seus botões e falando entre si. Agora, eu também não vejo mal nenhum que os pais sejam uma autoridade, não no sentido de impor por impor, mas no sentido de definirem um caminho, definirem um ponto de vista, definirem regras, constrangimentos e limites, porque eles às vezes são indispensáveis. E nessas circunstâncias, por uns motivos ou por outros, sim, ficas assim numa coisa meio liofilizada que não beneficia ninguém, não beneficia seguramente os adolescentes.

Os pais de hoje têm-- Desculpe, pensei que tinha terminado. Porque eu ia lhe perguntar se os pais de hoje têm medo do conflito.

Imenso. Tanto. E eu acho isso tão estranho, sabe? Porque o conflito aproxima-nos. Eu acho que os pais têm medo do conflito, porque têm uma experiência seguramente má, razoavelmente má, daquilo que viveram no seu crescimento. Mas o conflito aproxima as pessoas. O conflito é a base da autonomia das pessoas. Nós só nos autonomizamos em presença de alguém, quando somos capazes de assumir um não, independentemente daquela pessoa a quem nós dizemos não, merecer todos os nossos sims. E, portanto, sem esse tipo de coisas, não se promove a autonomia. Antes pelo contrário, promove-se todo um estar Que infantiliza os adolescentes, quando devia ser obrigatório os dois a crescer.

A obediência deixou de ser um campo de batalha?

Ai, Judite França, tenho medo desse termo. Vamos lá ver. A obediência sempre se prestou a muitos mal-entendidos e, portanto, não se trata de querer educar as crianças pra que elas mal respirem ou se ponham em sentido quando estão com os pais ou não tenham vontade ou opinião próprias. Era o que faltava. Agora, presume-se que quando a mãe e o pai definem regras, que volto a dizer, serão seguramente de bom senso, esperam que, de alguma forma, os filhos as levem à prática. E verdade, seja, se os filhos achassem que aquilo que os pais estão a sugerir ou a pedir, ou às vezes a exigir, fosse tão absurdo assim, claro que os filhos reagiriam e de uma forma veemente. Os filhos têm intuição que os pais estão a fazer o trabalho deles, dão-lhes esse crédito, até porque os amam e obviamente porque reconhecem neles a sabedoria que, em muitas circunstâncias, por mais que eles barafustem e digam que não, lhes reconhecem. Portanto, nessas circunstâncias, sem dúvida nenhuma. Mas sim, eu acho que às vezes se criou esta ideia, que vigora e mal, Judite, mesmo mal, de que autoridade e autoritarismo é a mesma coisa, e não tem nada a ver. Ninguém quer andar a exigir este mundo e o outro aos filhos quando faz qualquer coisa rigorosamente diferente. De modo nenhum. Os pais põem-se em causa, os pais crescem tanto, aliás, quando se põem em causa. Mas sim, a palavra obediência é muitas vezes utilizada de uma forma um bocadinho malévola, acho eu, porque os pais não querem ter filhos obedientes no sentido de dizer: "Senta, levanta", esse tipo de coisas. Valha-me Deus. Querem, obviamente, ter um conjunto de regras que eles assumam com esta particularidade, que eu acho que é a particularidade mais importante em todas as relações. É que os pais educam os filhos, que fique claro, mas os filhos também educam os pais. Ou seja, depois de várias experiências de pais com vários filhos diferentes, quem vem a seguir tem sempre pais muito mais educados, muito mais sábios, com a capacidade de terem a entrada no tempo certo, que se calhar de início não tinham. E, portanto, isto de nos educarmos uns aos outros é verdadeiramente um mundo democrático, é bonito, e é isso que se faz nas famílias. E portanto, ninguém quer prepotência nas famílias, autoritarismo, outras coisas do gênero. Queremos só que, havendo um conjunto de regras, a liberdade de uns comece onde começa a dos outros.

Exatamente. Eduardo, ficamos por aqui hoje. Um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Muito prazer, Judite. Até amanhã.