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Hoje no "Porque sim não é resposta" vamos falar de provas de aferição do segundo ano que serão realizadas através de computador. E a pergunta é: é justo? Mesmo quando as condições de igualdade das crianças em relação à tecnologia é díspar, fará sentido? Professores e pais estão preocupados. Houve pais que escreveram ao psicólogo Eduardo Sá exatamente sobre este tema. Eduardo, olá, boa tarde. É uma situação complicada. Há pais que não vão permitir que os filhos façam estas provas, são provas que não são decisivas em termos de avaliação dos alunos. Percebe-se estas reservas?
Olá, Judite. Olá, Bruno. Bruno, é imperdoável que eu não tenha estado ontem consigo.
É verdade. Mea-culpa também, que me ausentei.
Judite, eu habitualmente fico muito preocupado com estas provas, porque percebendo que ter-se uma dimensão macro daquilo que se passa na educação pode ser muito útil. Em muitas circunstâncias, eu vou colecionando episódios que me deixam, naturalmente, com reservas em relação ao valor real que elas acabam por ter. Eu não perco de vista que muitas crianças, tristemente acabo por reconhecê-lo, que não têm habitualmente educação física, na altura de terem uma avaliação em termos de expressões corporais, têm umas lições à pressa para que depois, chegada a altura da avaliação, eles não fiquem tão mal na fotografia ou pelo menos os resultados não deslustrem, como em muitas circunstâncias acontece. E já perdi a conta, que é uma coisa que, aliás, me escandaliza ainda mais, que chegados a esta altura, haja uma ou outra escola que pede muitas avaliações de dislexias para que os alunos tenham mais tempo pra responder e, em consequência disso, os resultados possam ser enviesados a favor da escola a que eles pertencem. As provas de aferição são provas importantes, são provas que medem o pulso àquilo que são as aquisições de conhecimentos dos alunos, mas às vezes eu tenho medo do modo como tudo isto se faz. E tenho mais medo ainda, por quê? Porque eu acho que de repente se entrou num furor muito perigoso. As crianças precisam de perceber a vantagem de pegar num lápis, de aprenderem a motricidade fina, que é uma coisa difícil num primeiro momento, para que depois sejam capazes de fazer rabiscos e depois formas, e aquelas formas serem formas standardizadas, regulares, que tenham um som, a que se juntem outros sons e que se construam palavras. Eles precisam desenhar as letras pra aprender a escrever. Eu às vezes fico com muito medo que se introduzam muito rapidamente este tipo de aquisições, os tablets e outras coisas do gênero, como se de repente o mundo fosse todo ele altamente tecnológico. É, mas há muitas aquisições de aprendizagens que continuam a ser o que eram. Quando se introduzem este tipo de instrumentos na aprendizagem, que me preocupa, porque vão limitando mais do que parece as aquisições de motricidade fina das crianças em relação a tudo, e nomeadamente em relação à escrita, e limitando em relação à escrita, limitam em relação ao uso da palavra. A mim, por maioria de razão, preocupa-me que, com o argumento, como eu já ouvi, de que com isso os professores poupam trabalho, se introduza uma avaliação a partir de tablets, por exemplo, porque é como diz, Judite, nem todas as crianças têm os instrumentos tecnológicos adequados para que respondam adequadamente, porque obviamente isto vai mais uma vez, na sequência da pandemia, criar aqui uma dimensão oblíqua entre as crianças que têm mais recursos sociais e aquelas que têm menos recursos sociais. Nem todas as crianças têm banda larga. E depois, como os diretores de escola muitas vezes chamam a atenção, vamos admitir que eles chegam à altura de responder e não se entendem com o computador que têm à frente ou não percebem sequer a lógica daquilo que lhes é pedido. Nós não temos professores que lhes deem apoio técnico, porque há agrupamentos escolares que são enormes e que estão repartidos numa área geográfica separada por vários quilômetros. Juntando tudo isto, parece-me pouco razoável que se vá por aí. Acho que é precipitado e sinceramente entendo que os ganhos não compensam os custos.
Só pra quem não está muito dentro do tema, estamos a falar de crianças com sete, oito anos?
Sete anos, no essencial.
São muito novas, não é?
São muito pequeninas, estão no segundo ano de escolaridade. Algumas não sabem o que fazer com um atacador. Ou seja, a motricidade fina destas crianças é uma coisa muito preocupante e nós partimos do pressuposto que elas já nasceram a dominar os instrumentos tecnológicos, são muito hábeis, mas aquilo que lhes é pedido é muito discrepante em relação àquilo que lhes é dado nos dois anos de escolaridade até esta avaliação.
E são os pais, precisamente, das crianças que estão no segundo ano, os mais incomodados com estas provas de aferição nestes moldes. Eu aqui também sou um pouco juiz em causa própria.
Tu te incluís-te.
Sim, porque tenho um filho de sete anos que está no segundo ano e se ao longo do ano tivesse sido feita uma utilização recorrente desta tecnologia em sala de aula permanente, que lhes permitisse a todos eles ter adquirido as competências mínimas para fazerem estas provas de aferição, se calhar os pais não estariam preocupados e indignados. Mas a verdade é que os pais sabem que a utilização foi muito escassa, pra não dizer praticamente inexistente, e estar a pedir a estas crianças que não conviveram o suficiente com a tecnologia, acaba por ser um peso grande em cima de crianças de sete anos. Não só porque normalmente com esta idade não teriam essas competências, além disso, não tiveram a prática suficiente em contexto de sala de aula para as desenvolverem. Como é que nestas circunstâncias se decide fazer uma prova de aferição desta forma? E a questão que queria colocar ao Eduardo era essa: a maioria dos pais não está contra as provas de aferição, mas o facto de serem feitas em computador.
Voltamos àquilo que muitas vezes acontece na educação e acontece de uma forma que não se entende. Não se entende que no contexto de vários níveis escolares, de vários ciclos escolares, às vezes as regras mudem no decurso do próprio jogo. Isto é muito confuso, não é sequer razoável. E nestas circunstâncias, manda o bom senso que nós só tenhamos condições pra avaliar, tomando em consideração os conhecimentos e o modo como entretanto fomos avaliando até aí. E, portanto, a mim parece-me muito pouco razoável que a esmagadora maioria dos alunos deste país não tenham tido acesso a esse tipo de aprendizagem, fazendo a ponte entre o manuscrito e o digital, e se parta do pressuposto que lá porque as crianças manuseiam videojogos ou sabem lidar até com o telemóvel, com uma versatilidade fora do lugar, elas são capazes, mesmo quando não foram ensinadas pra isso, de chegar lá e fazer uma gracinha. E eu fico tão preocupado, porque a determinada altura vejo professores a dizerem assim: "Pronto, eu não estou em condições de compactuar com uma coisa que me parece pouco razoável". E vejo muitos pais com uma vontade de dizer aos filhos: "Olhe, nós também não estamos de acordo com isso". No limite, eu acho que isso era uma resposta cívica muito curiosa, porque era uma maneira dos pais e das escolas dizerem a quem pensa a educação: "Por favor, nós estamos todos no mesmo barco. Nós queremos muito que os nossos filhos vão pelas novas tecnologias adiante, mas tenhamos bom senso e não estejamos a expor a situações pouco razoáveis". Até porque eles já pequeninos, até pela mão dos pais, muitas vezes têm a ideia que estas provas não são a sério. Todas as provas são a sério e é importante que existam, mesmo estas. Agora, em condições que depois nos permitam ter amostragens corretas do que é que se passa. As provas do ano passado, pra não irmos mais longe, disseram que as crianças portuguesas manifestavam uma grande dificuldade de expressão oral. Não é só a pandemia, mas têm uma grande dificuldade no acesso à palavra. E o que se fez para de alguma forma se combater isso? Porque estas provas servem justamente pra isso, pra dizermos: temos um problema, como é que nós vamos resolvê-lo? Agora, quando as provas já de si criam problema, não acho razoável e é por causa deste tipo de coisas que fico triste, porque depois quando nós todos queríamos que a escola funcionasse de maneira equilibrada e em favor da aprendizagem, de repente há estes solavancos todos que nos levam a pôr muitas reticências nisto tudo.
Eduardo, para uma resposta rápida: devem os pais impedir os filhos de fazer as provas? Muitos sentem-se tentados a fazê-lo.
Meu querido amigo, ainda bem que estamos só a falar os dois e mais ninguém nos ouve, mas a minha tentação era responder-lhe que sim.
Mas a vantagem, pensando agora da perspectiva do aluno que vai sujeitar-se ou vai experimentar este modelo, há alguma vantagem em poupá-lo a isso?
Olhe, dito em termos práticos, a grande vantagem é dar à avaliação a seriedade que ela deve ter. E eu acho que quando a avaliação está inquinada com aspectos e com ruídos desta natureza, ela nunca pode ser credível, nem creditada, nem sequer aos olhos dos alunos, por mais pequeninos que eles sejam. Eu acho importante que eles passem por muitos estágios de avaliação e que tremam, se engasguem e tenham medo, mas a determinada altura, as regras do jogo têm que ser claras para que eles possam conviver com elas, porque se é assim, eles estão sempre numa instabilidade muito grande sem saberem exatamente com aquilo que contam.
Mas a verdade é que essa prova em si, eu estou a fazer de advogado do diabo, pode ter alguma importância nesse particular, no particular de lhes dar uma experiência dura, eventualmente?
Judite, pode.
Desculpa interromper. Dura, mas segura o suficiente porque não tem implicação, não é?
Pode, Judite. Mas também pode levar-nos a chegar à conclusão que nós desperdiçámos uma oportunidade importante, sobretudo porque não há muitas magias aqui. Há muitas crianças ainda que não têm acesso a computadores e a recursos que lhes permitam ter a mesma versatilidade que as outras todas que lidam com isso todos os dias, porque os pais os têm ali ao lado. E nós temos que ter esta dimensão, porque de outra forma a escola não cria oportunidades idênticas, cria relações tão desiguais que depois nos levam a ficar de boca aberta.
Eduardo, hoje ficamos por aqui. Vamos para um novo programa amanhã, vamos para uma nova carta de um leitor e das suas dúvidas com uma situação que aconteceu com a filha numa escola. Uma história muito curiosa, talvez que aconteça com mais facilidade do que os pais pensam e que deixou esta mãe sem chão, como ela diz. Para isso voltamos amanhã. Até lá estamos disponíveis em podcast. Continue a escrever-nos para eduardo@observador.pt. Eduardo, um grande abraço, obrigada e até amanhã.
Até amanhã, Eduardo.
Um grande abraço para os dois e até amanhã.