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"Brincar é a mais elaborada forma de pesquisa". A frase não é minha, é de Albert Einstein e calha mesmo bem no Dia Internacional do Brincar. Olá, Eduardo. Boa tarde.
Olá, Judite. Boa tarde, como está?
Vamos brincar um bocadinho, Eduardo, porque ontem assinalou-se o Dia Internacional do Brincar. É um artigo que faz parte da Convenção sobre os Direitos das Crianças das Nações Unidas, que reforça que brincar é um direito, sobretudo, e é também uma fonte de aprendizagem.
Judite, é verdade que sim. Nós temos nos distraído todos para um exercício absolutamente fundamental para o desenvolvimento das crianças. Não há como ter um desenvolvimento saudável à margem de brincar. E muitas vezes os pais, por mais que digam que na sua infância terão sido mais felizes ao brincarem livremente do que os filhos são hoje, ainda assim, os pais vão se deixando envolver nesta onda e todos os anos as crianças perdem horas de brincar, o que nos devia interpelar de uma forma verdadeiramente alarmante. Nós temos crianças extraordinárias, capazes de serem acutilantes, atentas, intuitivas, sensíveis, inteligentes. E depois, com cinco horas de internet por dia, como dizem os engenheiros da Google, nós temos crianças extraordinárias com o tempo de atenção de um peixinho vermelho, sete segundos. E esta capacidade de atenção compromete tudo, o que não acontece quando as crianças brincam, porque estão concentradas nas suas atividades, nos seus enredos, sejam eles dramáticos, sejam quais eles forem. Isso é tão fundamental que funciona como vitamina do crescimento. E, portanto, nós devíamos aproveitar, como estamos a aproveitar, aliás, um dia como este, para, uma vez mais, chamar a atenção de todos os pais que as crianças precisam brincar todos os dias, e se me permitem esta sugestão, duas horas por dia, para que elas possam crescer saudáveis.
Então, vamos pôr essas duas horas no horário das crianças, porque hoje em dia temos também muitas atividades extracurriculares. E a dada altura, as crianças têm horários tão cheios, tão preenchidos, que brincar não consta.
Não. E por isso é que eu achava que era tão importante, agora que estamos a acabar um ano letivo e que não tarda nada, e a partir de agosto, os pais começam a andar numa roda-viva planeando todo o ano letivo que vem a seguir, que, por favor, coloquem naqueles calendários, que às vezes têm pendurados nos frigoríficos lá de casa, primeiro coloquem duas horas por dia para eles brincarem e depois tentem encaixar tudo o resto, adaptando-se a esse tempo indispensável para o crescimento das crianças. Os pais são muito atentos em relação à maneira como alimentam os filhos com produtos de qualidade, são atentos em relação a tantos aspectos que têm a ver com a segurança das crianças, etc. E depois, numa atividade que as torna mais inteligentes, mais capazes e a terem um desenvolvimento inacreditavelmente melhor, às vezes entram numa distração pegada e isso não pode ser, porque os filhos saem verdadeiramente prejudicados, muito mais do que às vezes os pais imaginam.
Segundo as Nações Unidas, o comportamento lúdico regular, estou a citar, "que é sistemático e não estruturado, apresenta vantagens para a saúde e para o bem-estar das crianças e por isso deve ser protegido ao longo do desenvolvimento humano". Será que nós temos noção de quão valioso é brincar para o desenvolvimento de uma criança?
Não temos, Judite. Não temos e eu fico muito contente que estejas em Aveiro, que é de certa forma também a minha cidade. Estejas com o presidente da Câmara já a seguir, porque é um homem tão empreendedor e tão capaz de inventar soluções. Porque eu tenho para mim que muitas vezes os espaços públicos do brincar, veja quantos parques públicos para as crianças estão abertos, sem que estejam à chapa de sol, para começarmos pelo princípio, e veja quantos centros lúdicos existem pelas cidades. E era muito importante que, nomeadamente, já que estão aí, desafiassem o presidente da Câmara, é que Aveiro fosse não só uma cidade amiga da criança, como uma cidade amiga de brincar. Quanto mais nós trouxermos as crianças para a cidade e os pais perceberem, por influência dos políticos, com o seu lado proativo, que podem promover transformações muito importantes no seu desenvolvimento, vamos deixar de as ter tão sedentárias como são hoje, de uma forma, aliás, alarmante. Vamos deixar de as ter presas invariavelmente aos digitais e aos ecrãs e vamos tê-las a poder conviver com a cidade, conviver com o ar puro e conviverem umas com as outras, a pretexto de brincar, que é isso que faz com que elas cresçam mais saudáveis. Eu sei que posso estar a ser exagerado aos olhos de alguns, mas se nós pusermos a escola e o brincar lado a lado, o brincar arrisca-se a ser um bocadinho mais importante do que a escola.
Há algumas estatísticas que eu encontrei quando estava a preparar o programa, nomeadamente, quatro em cada cinco crianças gostariam de brincar mais com os pais ou com os educadores. Ou seja, 79% das crianças gostavam mais de brincar com os pais. Isto também é obrigação dos pais, brincar com os seus filhos?
Mais ou menos, Judite. Eu gosto muito que os pais, quando brincam com as crianças, o façam de forma convicta e apaixonada, não como se fosse uma espécie de óleo de fígado de bacalhau, que está ao serviço do desenvolvimento das crianças. Mas eu não me canso de chamar a atenção dos pais para este pormenor. Os pais são os brinquedos mais do agrado das crianças, sem dúvida. Vêm equipados de origem com as normas de segurança da Comunidade Europeia, são ergonômicos, não são tóxicos, não se partem em pequenas peças. Pronto, às vezes lá são um bocadinho mais lentos a levantarem-se do chão, se for o caso. Podem-se levar para férias e tudo mais. E se os pais tomarem o brincar dos filhos como uma oportunidade para eles próprios, pais, crescerem como pais e como pessoas, não são só as crianças que ganham. São as crianças, é a família e, obviamente, é o futuro.
E já agora que falamos de brincar, também podemos falar de trepar às árvores, porque as crianças de hoje em dia brincam cada vez mais entre os quatro paredes.
Mas diga aí ao presidente da Câmara que o próximo parque aberto às crianças tem que ter lá a entrada qualquer coisa como as crianças sujarem-se. E lejarem-se é, de facto, um patrimônio imaterial da humanidade. Ajuda-as a crescer. E se nós vivermos isto com a seriedade que estas coisas têm de ter, como se fazem revoluções tranquilas sem darmos por isso? E é uma coisa tão preciosa que se torna inadiável, sinceramente.
Nomeadamente, até no desenvolvimento motor, nas primeiras idades, mas também na capacidade de conhecer o corpo, que esses movimentos possam ser criadores.
Judite, o meu querido amigo Carlos Neto chama a atenção de um pormenor que eu acho que não é demais chamar a atenção.
Que curioso, li o texto do Carlos Neto, precisamente. E não combinamos.
De todo. Mas que não é demais chamarmos a atenção para um pormenor que eu acho assustador. As crianças quando hoje chegam aos jardins de infância e começam a correr livremente no recreio, muitas vezes chocam de frentes, Judite. Ou seja, a relação que têm com o corpo é tão rudimentar que isto de se afastarem de forma reflexa de um amigo que está prestes a chocar com elas, ainda nem sequer está adquirida. E, portanto, agora veja tudo o resto. Tudo o resto que implica trepar às árvores, como diz, aliás, muito bem, ou atar uma sapatilha, que é uma coisa que as crianças, às vezes, com nove e 10 anos, não aprendem. E, portanto, era ótimo que os pais percebessem que não se aprende contra o corpo, aprende-se de dentro do corpo e com o corpo para fora do corpo. E, portanto, os pais que não pensem que por lhes darem muitas atividades intelectuais, estão a ajudá-las, porque se não puserem o corpo na equação e o brincar, em particular, estão a ajudá-las a que elas fiquem todos os dias um bocadinho menos inteligentes, embora elas sejam, sem dúvida, crianças extraordinárias.
Há depois também uma questão que se relaciona com esta, que é a questão do desporto. Crianças com pouca atividade física, mesmo que ela seja de brincadeira, têm depois também pouca apetência para o desporto.
O que é uma coisa muito grave. Se me perguntar o que é mais importante, uma atividade desportiva ou a escola, eu digo-lhe: são as duas igualmente importantes. E eu não entendo, por mais que eu perceba que às vezes os pais fiquem à beira de um ataque de nervos, como acontece a todos os bons pais, aliás, eu não entendo que os pais, num acesso de fúria, porque a matemática ou o teste de português vieram constipados, digam: "Pois agora estás proibido de ir ao futebol". Os pais, quando querem castigar um filho, não o proíbem de ir à escola. Por favor, uma atividade desportiva é essencial para todas as crianças e para todos os adolescentes e precisam de ser educadas nesse sentido. E claro, que se calhar, às vezes, as escolas não têm tanto desporto escolar quanto deviam, mas mais uma vez, os espaços abertos à atividade desportiva pelas próprias autarquias desafiam-nas para brincarem uns com os outros e fazem com que as cidades deixem de ser estranhas para as crianças, como infelizmente muitas vezes são.
Então devíamos ter um ministério do brincar e um ministério do desporto, mas para crianças. Não pensar só no desporto para os adultos. A ideia de fazermos uma estratégia de promoção do desporto nacional, que seja integrada, sobretudo a pensar nas crianças e nos mais jovens. Nós sabemos que por cada euro no desporto poupam-se quatro euros no Serviço Nacional de Saúde. Portanto, com estes dados, quanto mais não seja por uma razão econômica.
Judite, nós em Portugal estamos a produzir cada vez mais crianças sedentárias e cada vez mais crianças com excesso de peso e obesas. E é importante que nós tenhamos noção disso. Eu adoraria que um dia, num país mais decente, digo eu, houvesse um ministério das crianças, porque era uma forma simbólica de nós darmos importância ao futuro, muito mais do que nós estamos a dar. Mas vamos admitir que ainda estamos longe de um país decente, com grande tristeza para todos nós. Mais uma vez, as autarquias podiam ter um pelouro municipal da criança, só da criança, porque se fizessem isso, como se faz, por exemplo, em Albergaria Velha, tão engraçado, que em cada freguesia abriram um parque infantil para as crianças brincarem. E quando há esta implica--
Perdemos agora aqui, por breves momentos, acho que perdemos aqui o Eduardo, mas também estávamos mesmo a chegar ao final do nosso tempo, infelizmente, estava mesmo já a bater a hora de terminar o "Porque sim não é resposta" e acho que ficou o essencial daquilo que é possível perceber e querer para as nossas crianças hoje no Dia Internacional do Brincar. O "Porque sim não é resposta" volta na próxima sexta-feira com mais um tema e até lá continue a escrever-nos para eduardosa@observador.pt. Eduardo, se nos estiver a ouvir, um grande abraço e até sexta.