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Bem-vindo ao "Porque Sim Não é Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França e hoje vamos falar de gaslighting. Isto a propósito de um e-mail de uma ouvinte que diz ter sido vítima deste tipo de manipulação e, portanto, vamos abordar o tema. Olá, Eduardo. Afinal, o que é isto do gaslighting?

Olá, Judite. É uma das variações que, entretanto, andam por aí no meio das relações e que fazem com que as pessoas se sintam invariavelmente instrumentalizadas e muito sozinhas. E, portanto, nessas circunstâncias, aquilo que se passa é que depois acaba por haver um desequilíbrio estonteante entre aquilo que dão e aquilo que recebem. No essencial, é isto.

Há aqui uma das partes que é manipuladora, e a outra parte que fica a duvidar da sua percepção de realidade, às vezes até da sua memória. Como é possível fazer este tipo de, não sei como lhe hei de chamar, este tipo de manipulação tão eficaz?

Para todos os efeitos, estamos a falar de um abuso. Isso é importante que fique claro. Eu preferia chamar simplesmente de perversão, porque são aquelas pessoas que, no fundo, estão permanentemente a criar uma realidade e a vendê-la como se fosse outra completamente diferente. E o fazem, às vezes, de forma tão eloquente, porque são pessoas muito inteligentes. São muito perturbadas, mas muito inteligentes, que nessas circunstâncias vão fazendo distorções. Sabe aqueles envenenamentos que se fazem em suaves prestações sem que as pessoas de alguma forma percebam que estão a ser envenenadas? Exatamente o mesmo. E vão fazendo tantas distorções da realidade que, sobretudo, porque o fazem com boas pessoas, aquelas pessoas que se põem em causa, se põem em dúvida: "Será onde é que eu estive mal? Por que é que reagiste deste ou daquele modo?" Que, em determinada altura, são uns verdadeiros fingidores e que nos levam a ser induzidos para uma leitura que, em boa verdade, não corresponde rigorosamente nada àquilo que se passa. Às vezes, isto acontece também no contexto das famílias, porque no domínio de um divórcio que correu muito mal, aquilo a que se chama alienação parental é isto.

Exato.

São crianças que são manipuladas continuamente, e se cria uma reação, todo um enredo com princípio e fim. Todo um enredo tão significativo e tão, às vezes, coerente, que de repente isto funciona como se se criasse uma realidade paralela, uma realidade que não corresponde àquilo que se passa e que faz com que uma pessoa se sinta baralhada, culpada.

Desestabilizada, não é?

Sim, a projetarem sobre nós tudo aquilo que está desorganizado dentro dessas pessoas, a ponto de nos sentirmos confundidos e a perguntar: "Mas afinal de contas, quem é que sou eu? Onde é que começa aquilo que eu percebo? Ou até que ponto é que tudo aquilo que me dizem que aconteceu, mas não aconteceu, corresponde àquilo que é verdade?" A perversão típica, a maldade, que se faz com o rótulo: "Mas eu só faço isto por causa de ti".

Pior ainda. Eduardo, hoje ficamos por aqui, numa versão um pouco mais curta. Amanhã voltamos com mais um tema. Até lá, um grande abraço. Obrigada, Eduardo. Até amanhã.

Obrigado e até amanhã.