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Hoje no "Porque Sim Não É Resposta" falamos de violência de jovens sobre os pais, um fenômeno que está a crescer. Olá, Eduardo, boa tarde. É um tema pouco conhecido e muito pouco debatido.
Olá, Judite. Olá, Bruno.
Olá, Eduardo.
Judite, eu não quero fazer uma leitura como essa, uma visão tenebrosa, nomeadamente dos jovens em relação aos pais nos tempos que correm. De longe não é assim. Mas eu tenho medo que os pais, em muitas circunstâncias, se anulem muito em relação a alguns comentários ou algumas atitudes dos filhos que, gota a gota, depois acabam por desencadear estes episódios mais feios. Há mães que me dizem com imensa tristeza, como se compreende, que quando os filhos se enfurecem, desabafam qualquer coisa como: "Fica descansada que quando fores mais velha eu ponho-te num lar e nunca mais te vou ver". E eu acho que é muito importante que os pais todos tomem em consideração que, da mesma forma que não é razoável magoarem os filhos, muito menos com violência, não é de todo tolerável esse tipo de coisas. E eu acho que às vezes os pais se encolhem muito e às vezes criam esta ideia de que os adolescentes têm que se tornar, em virtude da adolescência, muito escorregadios e que, em função disso, ficam quase com medo de lhes dizer: "Olha, vamos lá arrumar o teu quarto", ou outras coisas do gênero. E devagarinho vão criando situações em que é muito vulgar, Judite, os pais reconhecerem que os filhos, com os amigos ou com os estranhos, são excelentes pessoas, simpáticos, cordiais, prestáveis e com os pais muitas vezes são hostis, são desafiadores e são tão omissos e de uma forma tão violenta, que é como se, no fundo, tivessem duas faces completamente antinómicas uma em relação à outra. E, portanto, de facto, eu tenho medo que os pais, na ânsia de quererem filhos com sucesso, quem são os pais que não querem? Às vezes se anulem e criem aquela ideia de que os filhos têm como única obrigação estudar para ter bons resultados, sendo ilibados de tudo, até de um conjunto de comportamentos que os pais em consciência entendem que eles têm que ter. E depois se vão anulando no sentido de definir regras, limites, barreiras e interditos. E ser mal-educado por um pai ou por uma mãe, tem de ser um interdito, não há como não ser. E, portanto, quando se vão encolhendo e acanhando, depois, a determinada altura, criaram uma realidade tão fora de controle que depois dá no que dá, como nessa reportagem do Público era referido.
Daqui para o período entre 2013 e 2018, de acordo com dados recolhidos pela APAV, tivemos 4092 casos de pais ou mães agredidos por filhos em ambiente doméstico, sendo que 176 casos estão associados a menores de 18 anos e 585 atribuídos a jovens entre os 18 e os 25 anos. Portanto, não são maioria. E as dinâmicas também são outras quando os filhos são mais velhos e até já estamos a falar em casos em que muitas vezes são eles os cuidadores dos pais. Mas aquilo que também se verifica é que, em muitos casos, a violência começa cedo, até mesmo na infância. Há comportamentos violentos, o que significa que há um problema de raiz e que se não for logo atalhado, acaba por se manifestar nestes episódios mais graves, quando os filhos já são mais velhos.
Sim, Bruno, mas eu acho muito importante, de facto, que nós conversamos sobre isto, até por aquilo que acabou de dizer. Porque sejamos razoáveis. Quando os pais são bons pais, e eu hesitei um bocadinho a dizer bons pais, porque eu percebo que todos nós queremos muito ser, sobretudo, bons pais. Mas quando os pais são bons pais, isto é, quando fazem tudo aquilo que é suposto que os pais façam, estarem vivos por dentro e por fora, estarem atentos, serem tão capazes de dar colo como serem capazes de autonomizar, definirem regras, mas ao mesmo tempo fazerem-nas cumprir, darem exemplos. Não vale a pena nós termos a ideia de que com os pais a fazerem de bons pais, que de repente os filhos, porque bateram com a cabeça num sítio qualquer Se extraviam e passam a ter comportamentos que de outra forma não teriam. Quando as crianças pequeninas, muito pequeninas, tratam mal a mãe ou o pai, por mais que isso possa doer ouvido assim, é porque a mãe ou o pai estão a ter muitas dificuldades em definir de uma forma clara, de uma forma coerente, de uma forma tendencialmente constante, um conjunto de regras. E por isso é que eu às vezes fico muito incomodado quando se dá a entender que os nãos que nós dizemos em relação aos nossos filhos, quase os traumatizam, porque não é verdade. É mesmo demagógico dizer isso. E, portanto, eu acho que às vezes há pais que ficam muito sem jeito. Às vezes educam com o manual na mão e não tanto pelo sexto sentido e, portanto, vão sendo omissos na maneira de educar e permitem que as crianças fujam pra frente, a um nível que, sejamos razoáveis, uma criança de cinco ou de seis anos não trata mal os pais, a não ser que os pais a tratem mal. Mesmo assim, quando uma criança é muito maltratada, tenta anular-se para não merecer mais maus tratos ou quando os pais são completamente omissos ou pelo menos muito insistentemente omissos em relação às regras que entendem fazer cumprir. Desculpe, diga.
Não, diga, Eduardo.
Não, eu digo. Depois chega-se à adolescência e cria-se sempre aquela ideia que eles ficam absolutamente fora de controle, o que também não é verdade. Às vezes ficam mais difíceis, mas independentemente de terem 1,80m e de reclamarem isto ou aquilo, continuam a precisar de ter uma mãe e um pai a definir regras e limites. E, portanto, há aqui, muitas vezes, atitudes muito assustadas de muitos pais, que depois se vão acumulando e depois tanto se acumulam, que chegam a este desespero. É tristíssimo quando nós nos confrontamos com isso, mas esses dados dão-nos números de violência física. Agora, imagine se são outros.
E esse início, como é que pode ser travado? Estou a perguntar isto porque no artigo do Público em que deu o mote a esta nossa conversa, há um especialista que diz: "Muitas destas crianças cresceram habituados a ver as suas vontades cumpridas".
Muitas vezes. Muitas vezes, Dito, sabe, eu acho que nós temos que reabilitar o não, porque eu entendo o que é não. E eu acho muito importante que os pais não se deixem engolir por aquela ideia de que isto é um exercício de prepotência. Não é, porque os pais bondosos têm, obviamente, toda a legitimidade para entenderem o que é razoável e o que é que não é razoável um filho fazer. E não precisam de estar linha A, linha B, linha C, linha Z, a justificar porque é que entendem que este não é um não. Aliás, porque os filhos percebem isso. Os filhos precisam dos nãos para que depois, por exclusão de partes, descubram os sims e descubram o caminho que têm que fazer dentro das regras que os pais entendem que são razoáveis. Agora, há aqui um truque que eu acho que é importante. Os fisioterapeutas, que são pessoas que eu admiro muito e que eu conheço muito, particularmente por vários motivos, costumam dizer uma coisa que eu acho que é muito sensata, que eles fazem aquelas manipulações às vezes tremendas e esticam-nos os músculos de uma forma muito intensa, mas eles costumam sempre dizer que a partir do momento em que dói, para-se, porque se estica demais, podemos estar a criar uma situação inflamatória que depois se torna mais difícil de gerir. E eu acho que é isto que os pais têm que perceber. Quando o nariz de um pai ou o nariz de uma mãe não gostam da resposta de um filho, não gostam do tom da resposta de um filho, não gostam da maneira como um filho se faz desentendido em relação àquilo que a mãe ou o pai pedem. Não gostam da maneira como desafia e às vezes desafia de uma forma que se insinua, que não é aberta. Não gostam de comentários que têm tudo ao lado. São tudo ao lado daquilo que os pais entendem que devem ser os valores dos filhos, etc. Sempre que isto faz com que haja uma dorzinha no coração da mãe ou no coração do pai, mal estaríamos, que a mãe ou o pai não têm que justificar. Têm só que dizer: "Eu não posso permitir uma coisa destas". Um filho chega lá muito rapidamente. Porque se formos assim, nunca se cria este efeito dominó que depois dá no que dá.
Eduardo, hoje ficamos por aqui. Amanhã voltamos com mais um tema. Até lá, continuem a escrever-nos para eduardo@observador.pt e ouvir-nos em podcast. Eduardo, obrigada, um grande abraço e até amanhã.
Até amanhã, Eduardo. Um abraço. Um grande abraço para os dois. Obrigado e até amanhã.