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Está com o Português Suave na Rádio Observador, dia de esclarecer as dúvidas dos nossos ouvintes. Eu sou o João Costa e Silva, sempre com o ninja da língua portuguesa.

Olá, tudo bem?

O Marco Neves.

Cá estamos.

Olá, bem-vindo.

Hoje estamos acompanhados pelo Matias. Queres dizer alguma coisa? Também és um ninja?

É filho de um ninja. Não sei.

Não sabes se és um ninja.

Acho que a palavra que o Matias mais disse nestes dois episódios é: "Não sei."

Ele está nervoso, está na rádio. Bem, vamos responder a algumas perguntas que recebemos, como por exemplo, esta pergunta. Como é que se chama a pessoa? Já não me lembro.

O Abel.

É o Abel. Então vamos ouvir.

Vamos ouvir.

Olá, Marco Neves. Fala Abel Santos, de Viseu. Eu gostava de saber qual é a sua opinião sobre a expressão "de todo". Para mim é um snobismo, que literalmente não significa nada. O que acha? Obrigado.

Eu percebo a questão. Há uma questão parecida no castelhano, em que eles dizem com muita frequência "en absoluto" para querer dizer "não", o que parece um pouco estranho.

Parece uma contradição.

Aqui, estas duas expressões aparecem de expressões mais longas, "não, de todo" e "não, em absoluto", que são reduzidas retirando o "não" e de repente parecem contraditórias. E é daí que vem o "de todo". "De todo" quer dizer "não", e começou como "não, de todo". Se é um snobismo ou não, isso também já tem a ver com a nossa própria perspectiva. Todos nós gostamos ou não gostamos de expressões. Ela tem um significado claro, que é "não", quando é usada no contexto certo. Eu, particularmente, também não gosto muito da expressão.

Eu uso muito raramente.

Eu percebo o que o Abel quer dizer com ser um snobismo, mas ser snobismo ou não é a mesma perspectiva nossa que podemos não gostar dos contextos ou da situação em que cada uma das pessoas que usa a expressão a diz, mas não me parece que não tenha significado. Tem significado naquele contexto, a sua origem, que é curiosa e acaba parecendo muito contraditória.

Um abraço para o Abel, que nos ouve em Viseu. Temos mais, não temos, Marco?

Temos. Agora não áudios, mas temos aqui algumas mensagens enviadas por escrito. Frederico Alves Pereira diz o seguinte: "Sou um dos vossos ouvintes de podcast assíduos, porém não me recordo se já foi respondida esta questão que nos surge no dia a dia. Será que me poderá trocar esta nota?" Ou: "Será que me poderá destrocar esta nota?" Fica a questão. Obrigado pelo vosso trabalho e tão agradáveis e necessárias correções e ensinamentos. Com os meus cumprimentos, Frederico Alves Pereira.

No outro dia pensei nisso, sabes por quê? Porque eu sou daquelas pessoas, deve ser agora virtualmente, num canto com dinheiro e precisava de trocar ou destrocar a nota. E cheguei à tabacaria e pensei assim: "Digo trocar ou destrocar?" E disse trocar.

Sim, trocar está sempre bem, não há problema. Destrocar é uma palavra popular que quer dizer a mesma coisa que trocar, mas só numa situação muito particular. Só quando estamos a trocar um valor maior por valores mais pequenos, ou seja, notas. É uma palavra popular que está nos dicionários e eu sei que é odiada profundamente por muitas pessoas.

Há pessoas que levam a mal.

É como dizer "alga". Há regiões onde nós dizemos alga, não é um problema, é uma palavra popular.

Ou trigo para se referir ao pão, por exemplo.

Há quem diga que sim. Então, mas se é "des", tem que querer dizer o contrário. Portanto, destrocar seria o contrário de trocar. Não necessariamente. Nós temos desinquietar, que é a mesma coisa que inquietar, mas de forma mais funda. Portanto, não é um problema lógico, é apenas uma questão de ser uma palavra popular, mas que tem um sentido muito preciso. Destrocar é trocar um valor maior por valores mais pequenos, que somados, têm o mesmo valor que o anterior. Se isto faz algum sentido. Portanto, eu diria, se a pessoa não quer irritar ninguém, diga na loja: "Será que me poderá trocar esta nota?" Mas se ouvir alguém dizer destrocar, também não fique irritado, porque é justamente uma palavra popular.

Porque eu senti-me julgado na minha própria cabeça e disse trocar, e não disse destrocar.

É por isso que a língua se padroniza, porque nós temos medo desse julgamento que existe. Portanto, o que eu costumo dizer é: é claro que nós temos de tentar não irritar as outras pessoas. Por outro lado, também devemos ser um pouco mais abertos à variedade da nossa língua.

É verdade. Pronto, está esclarecida esta dúvida. Temos mais uma, não é, Marco Neves?

Temos. Maria João Melo.

Que me está a julgar.

Que está a julgar, exatamente. Maria José Melo. Estava aqui distraído, porque eu tenho aqui o meu filho, querendo falar comigo. Portanto, o Matias está aqui a tentar distrair-me, é um desafio. E a Maria José Melo, que já nos enviou muitas mensagens, e agradeço muito pela simpatia de sempre, diz: "Carlos, Marco e João. No podcast sobre as línguas portuguesa e galega, o João diz: se calhar, o José declara mais rápido do que eu. Penso que deveria utilizar o advérbio e não o adjetivo, portanto, declara mais rapidamente. Obrigada pelos vossos programas. Cumprimentos, Maria José Melo." Muito obrigado pela pergunta. Eu devo dizer que já tínhamos falado sobre isto uma vez. A verdade é que nós podemos usar os adjetivos, em muitos casos, como advérbios, principalmente quando queremos dar até um toque de maior rapidez. Eu lembro-me já em episódios bastante antigos, ter dado aqui alguns exemplos literários. Por exemplo, dou aqui um exemplo de Eurico, o Presbítero: "Subiu rápido a encosta donde Roderico atendia aos sucessos da batalha." E não se pode dizer que Alexandre Herculano fosse particularmente informal. Ele precisava aqui demonstrar mais rapidez ainda.

Claro.

Almeida Garrett, em Camões, diz: "O sol descia rápido e já perto de seu diurno termo." Portanto, o rápido existe e é literário. Nós também temos rapidamente, temos os dois recursos. Nós também dizemos: "Eu falo alto" e não "eu falo altamente", até porque altamente depois ganha um sentido diferente.

É verdade. Parece que estás a dar importância àquilo que eu estou a dizer e não ao tom.

Exatamente. Há esta possibilidade de converter um adjetivo em advérbio, que existe na nossa língua e que não é propriamente um erro. Dá-lhe um ar mais informal e nós estávamos a conversar. Por isso, não considero que seja erro. Mas há erros. E eu até deixo aqui, eu não sei quanto tempo é que temos.

Ainda temos, Marco.

Então, só para não parecer que é só uma questão de estarmos a desculpar o que estamos a dizer, é apenas um uso da língua portuguesa. Eu vou dar um exemplo de um erro que eu dou muitas vezes. E tento evitar, mas nem sempre consigo Principalmente quando nós estamos a falar sem guião. Quando nós dizemos: "Uma das pessoas que vieram cá." Muitas vezes, nós dizemos: "Uma das pessoas que veio cá". Mas o "veio" não está a concordar com "uma", está a concordar "pessoas". "Pessoas que vieram cá", uma delas. E eu muitas vezes, a falar descontribidamente, digo: "Uma das pessoas que veio cá, uma das pessoas que falou", quando deveria ser: "Uma das pessoas que falaram". E isto é uma questão de concordância, de lógica. Ou seja, nós estamos a falar de uma. De quem? O grupo, as pessoas que vieram, ou as pessoas que falaram. E por isso, esse é um erro que eu dou com muita frequência e que tento evitar, mas nem sempre consigo. Isto só para mostrar à Maria José, ou melhor, para justificar que nós não estamos aqui apenas para desculpar o que nós dizemos. Às vezes, de facto, damos erros, mas o caso do rápido não foi um erro.

Pronto, ainda bem. Já me sinto menos julgado neste momento, ainda por cima com o selo de aprovação de um ninja da língua portuguesa.

Mas tu também cometes.

Claro, eu cometo tantos também.

Todos nós.

E com o microfone à frente estamos à mercê desse julgamento.

Por isso nós temos que tentar evitar, mas também saber que esses erros vão acontecer. E não sei se o Matias quer despedir, dizer só: "Até à próxima. Tchau." O Matias hoje está em formato seco.

Um dia destes voltas e espero que fales mais, Matias.

E queres que eu conte a história de onde é que veio a palavra tchau? Tens alguma ideia? Olha, foi um país muito importante.

Da Itália.

Itália, exatamente. Olha que bem, já ouviste essa. Foi da Itália, exatamente. Então pronto, João, até para a semana. Vamos ter um formato diferente durante agosto. Vamos voltar com dúvidas, mas também com alguns episódios especiais.

É isso mesmo. E dúvidas podem ser enviadas para o e-mail portuguessuave@observador.pt. Aliás, duas destas dúvidas do programa de hoje foram enviadas por e-mail. Se quiser, quem sabe, ouvir a sua voz aqui no "Português Suave", é enviar para o nosso número de telefone, que é o 91 002 41 85, usar o WhatsApp da Rádio Observador. Marco, um grande abraço e até para a semana.

Um abraço. Até para a semana.