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Está no ar o Português Suave na Rádio Observador, edição de domingo, comigo, João Costa e Silva, e claro, com o ninja que a língua portuguesa já consagrou, o Marco Neves. Bem-vindo.

Olá, tudo bem?

Estamos a chegar ao carnaval, Marco Neves.

Estamos a chegar. O que queres dizer com isso?

Não sei, uma tal promessa.

Eu não me lembro de nada.

Ah, não?

Não, eu não me lembro de nada.

E agora pegava naquele excerto daquele episódio. Sim, porque estamos aqui a falar no abstrato, mas o Marco Neves prometeu que se ia mascarar de ninja. Garanto-vos que eu estou aqui a vê-lo de frente, só vejo os óculos. Mas, por acaso, até as cores, o Pantone não está assim muito longe. Estás de verde.

Estou a aproximar. Para a semana venho mascarado de ninja.

Pronto, fica aqui só a promessa no ar. Bem, não vamos falar de carnaval, mas o que temos para o programa de hoje?

Vamos falar de duas palavras que marcaram a semana. Depois vamos olhar para vários países que têm várias línguas minoritárias e depois já vou explicar de onde é que vem esta referência. E por fim, temos uma dúvida. E eu gostava de responder essa dúvida, porque tem que ver com a origem de uma palavra e por isso vamos a isso.

Ok. Excelente plano de antecipação, para não dizer aquela palavra que todos sabemos em inglês. Vamos a isto. A língua das notícias.

Bem, para a língua das notícias de hoje, temos uma palavra que infelizmente esteve nas notícias esta semana, a palavra dique. E eu só queria marcar aqui, porque no fundo, o Português Suave também olha para aquilo que está à volta, por isso temos esta secção da língua das notícias. Só vou dizer que a palavra dique, que esteve nas notícias porque houve um dique que falhou, aliás, houve vários problemas relacionados.

Colapsou.

Exato, colapsou e que acabou por levar a que a autoestrada A1 fosse interrompida. Tens alguma ideia, sem eu te dizer, de que língua virá esta palavra? Podes errar à vontade, que eu também erraria.

Tu estás a dizer isso é porque não é óbvio.

Quer dizer, não é assim tão difícil, se pensares bem. Que país da Europa controla muito a água e precisa de muitos diques?

É um país mais nórdico, não?

E precisa de muitos diques.

É um desses, não sei. Diz lá.

Os Países Baixos, ou como nós tradicionalmente dizemos, Holanda, que também é uma boa questão, por que razão é que agora insistimos tanto no Países Baixos, mas não vamos por aí. A outra palavra que marcou a semana foi a rádio, porque na sexta-feira tivemos o Dia da Rádio, e eu aqui gostava de explicar como esta palavra teve uma história curiosa.

Rádio que também é um osso.

Um moço?

Rádio.

Ah, um osso! Pensei um moço. Que moço é que tem o nome Rádio?

Não é um moço, é um osso.

Exatamente, sim. Mas neste caso.

Exato.

Está a correr bem.

Eu prometo que ninguém consumiu nada antes deste programa.

Não, isto é só eu e tu estamos a fazer rádio.

São 11 e pouco da manhã, está tudo bem.

Bem, então temos rádio, que começou como uma palavra que foi aplicada no século XIX, principalmente, para radiação, em geral era radiação. Tanto que nós falamos ainda de radioatividade. Radioatividade é radiação.

Ainda está ligado, sim.

O que nós hoje chamamos de rádio, começou com radiotelegrafia, mas também podia ser radiotelefonia ou radiotelevisão. Tudo isto, repara: radiotelegrafia era grafia, escrita, à distância, tele, por rádio, radiação. Portanto, era através da radiação que se transmitia à distância a grafia. Radiotelefonia era a transmissão por radiação à distância, tele, do som, fonia. E radiotelevisão era a transmissão à distância da visão, da imagem, por rádio também. No final, acabamos por abreviar, tal como abreviamos pneumático para pneu, também abreviamos radiotelefonia para rádio, e radiotelevisão para televisão. Portanto, as duas palavras depois acabaram por ficar com estes dois sentidos.

Mas radiotelefonia é uma palavra bonita, até. Não me importava dizer que faço radiotelefonia.

Todos os dias estamos aqui num programa de radiotelefonia.

Sim, por acaso não me importava nada.

Aqui no nosso canal de radiotelefonia. Mas depois ainda dá um outro passo, porque repare, não sei se é a maior parte, confesso, não faço ideia, mas uma parte significativa dos nossos ouvintes não está a ouvir por radiotelefonia. Há uma parte que está, através da Rádio Observador. Outra parte está a ouvir através da Rádio Observador, mas em podcast, que já é uma forma diferente.

Ou através da internet, também.

Ou através da internet, sim. Não sei se nós podemos dizer que os podcasts são sempre através da internet, eu penso que sim.

Não, eu digo isto porque agora também há aquela facilidade em alguns carros, por exemplo, em que tu já podes ouvir a emissão não propriamente através da rádio.

Da radiotelefonia.

Da radiotelefonia. Ou seja, a rádio digital, mas no carro.

Repara, a rádio digital. Já estamos muito longe da radiação que começou tudo isto. E, no entanto, continuamos a dizer rádio, porque é uma transmissão ao estilo da radiotelefonia anterior. E, portanto, as palavras vão mudando e vão absorvendo, digamos assim, as transformações tecnológicas e sociais. Tanto que quando nós dizemos rádio, não é só o modo de transmissão, é também todos estes hábitos das notícias, dos programas, daquilo que estamos a fazer aqui. Até um certo tipo de voz e de dicção, tudo isso está associado à rádio.

E tu também fazes parte da história da rádio, não te esqueças.

Agora, nesta breve história dos últimos dias.

E não interessa, estás a construir o teu mito.

Estamos a construir a rádio. A rádio, repare, isto é só o último pormenor antes de passarmos ao Mapa da Língua. Nós dizemos a rádio para todo este mundo que estamos a descrever, mas dizíamos, pelo menos, agora já talvez seja um pouco mais raro, o rádio, para falar do equipamento de radiotelegrafia, radiotelefonia, com que nós recebíamos as transmissões.

Já passou, mas feliz Dia Mundial da Rádio e obrigado aos ouvintes que nos ouvem e que fazem também parte deste Português Suave e do mundo da rádio. E um abraço também especial para Coimbra. Tenho que dizer isto porque eu estudei em Coimbra durante três anos, tenho grandes memórias daquela cidade.

As coisas não estão fáceis.

As coisas não estão fáceis. Na altura, eu também apanhei as cheias de 2019, porque estudava lá nessa altura e vive-se tempos difíceis em Coimbra nesta altura.

Um abraço à distância e pela rádio para Coimbra.

Exato. Estamos todos conectados, sempre. Vamos ao Mapa da Língua.

Falou-se muito esta semana de espanhol nos Estados Unidos por causa do espetáculo do Bad Bunny no Super Bowl. Foi um espetáculo que estava e está nas bocas do mundo, por várias razões. Eu queria concentrar-me na questão do uso do espanhol, que não é sequer inédito.

Tu fizeste um vídeo incrível, serviço público nas tuas redes sociais, no teu Instagram. Passem por lá, porque explica muito bem isso que se calhar tu também vais explicar por aqui.

Sim, no fundo, não deixa de ser uma continuação desse vídeo em que eu expliquei que há um certo medo em muitas sociedades quando há uma língua maioritária e depois há uma ou várias línguas minoritárias. Quando eu digo minoritária, houve pessoas que comentaram: "Mas o espanhol pode ser considerado minoritário?" Nos Estados Unidos, obviamente que sim.

Para os Estados Unidos, qualquer língua que não seja o inglês é minoritária.

É falada por menos de 50% das pessoas, portanto matematicamente é minoritária. É uma língua muito importante nos Estados Unidos, o espanhol, tal como o francês no Canadá, porque é falada desde sempre em alguns territórios. Porto Rico faz parte dos Estados Unidos, não nos podemos esquecer. O Bad Bunny vem de Porto Rico e o espanhol sempre foi a língua de Porto Rico. Eles também falam inglês, mas falam inglês como segunda língua. Portanto, é uma situação relativamente natural e as reações negativas à presença do espanhol naquele contexto são interessantes, porque mostram essa atitude de alguns falantes das línguas maioritárias em muitos países, que tentam recusar toda a presença pública das línguas minoritárias, porque têm medo que isso seja uma ameaça ao domínio da língua maioritária. E não é.

Aliás, durante esse intervalo do Super Bowl, o Duolingo registou um aumento exponencial de pessoas que queriam aprender espanhol. Portanto, isto diz alguma coisa.

Ainda bem, porque, na verdade, a melhor forma de gerir várias línguas é todos aprendermos um pouco das outras línguas.

Sim, exatamente. Ficamos mais ricos todos.

Tal como os falantes de espanhol nos Estados Unidos, na sua maioria, aprendem inglês.

Exatamente.

Mas eu queria dizer que esta presença de línguas minoritárias, presença até quase institucional, que nos Estados Unidos é uma questão um pouco diferente. O Bad Bunny estar a cantar no intervalo do Super Bowl não é uma presença institucional. É uma presença cultural muito importante.

Sim, artística.

Mas há muitos países que dão presença institucional às línguas minoritárias. Eu queria dar aqui alguns exemplos e hoje o mapa da língua é sobre isso. Para começar, obviamente, o Canadá, logo por cima dos Estados Unidos. O francês é, por cima no sentido de estar a norte. O francês é uma língua minoritária no Canadá, mas uma minoria bastante significativa. E, no entanto, é uma língua oficial a nível federal e depois é a língua oficial nalgumas províncias, incluindo o Quebec, onde é usado maioritariamente. Aí no Quebec é maioritário. E o Canadá resolveu esta questão relativamente bem. Claro que continua a haver tensões, até às vezes em relação ao uso do inglês no Quebec, que é outra questão. Mas o Canadá assumiu que tem pelo menos duas línguas, até tem mais. Mas estamos a falar aqui só destas. Mas podia continuar. A Suíça também é um caso famoso.

Já falámos desse caso aqui.

Nem sequer é preciso repetir, mas depois há outros menos conhecidos. A Finlândia. A Finlândia é um país que tem o finlandês como língua nacional e mais falada, mas também tem o sueco como língua minoritária. E língua minoritária, que depois é maioritária em certas zonas, tal como acontece, por exemplo, no espanhol, no caso de Porto Rico, que é maioritário e sendo uma parte dos Estados Unidos. A Finlândia dá oficialidade ao sueco, reconhece o sueco como outra língua oficial. Depois temos a Alemanha, que também tem o sórbio, que é uma língua muito pouco conhecida, mas que é uma língua eslava, uma língua da família do polaco e do checo, que tem algum reconhecimento oficial nalguns estados da antiga Alemanha de Leste. Depois temos os Países Baixos, já falámos deles aqui, que também têm várias línguas que são reconhecidas, como o frísio, que é a língua mais próxima do inglês.

Algumas muito difíceis de decifrar. Eu acho muito difícil.

O holandês, pra usar termos mais tradicional cá em Portugal, sim, é muito difícil. E as outras línguas do país também são. Não vou falar da Bélgica, que é um caso muito complicado, muito complexo e muito tenso, mas também tem três línguas. Depois temos a Itália, que dá reconhecimento ao alemão e outras línguas, mas eu queria falar do alemão. A Irlanda, em que a língua minoritária, que é o irlandês, é minoritária de longe, é considerada a língua nacional, a língua principal e é aposta à frente do inglês. O Reino Unido, o galês é a língua oficial no país de Gales, ao lado do inglês, e podia continuar. Não é nenhum drama um país olhar pra uma língua minoritária e dar-lhe visibilidade e valor institucional. Os Estados Unidos têm uma tensão neste aspecto. Há quem defenda que o espanhol deve ser mais reconhecido institucionalmente. Há quem defenda que deve ser absolutamente ignorado, e acho que esta segunda opção é uma receita para o desastre, para menos integração e pra uma sociedade muito mais tensa.

E não é nenhum drama o Bad Bunny ter cantado toda a sua atuação em espanhol. Não é. Vamos seguir para mitos e dúvidas.

Hoje temos um áudio e vamos ouvir aqui uma dúvida de Hugo Girão.

Viva. Gostava de saber qual é a origem da palavra uva, tendo em conta que é uma fruta que vem da videira, está nas vinhas e que vai dar vinho.

É uma excelente dúvida, a dúvida do Hugo Girão, e eu devo dizer que as coisas ainda são mais complicadas do que a pergunta faz crer, porque o Hugo Girão pergunta por que temos uva, mas depois temos as outras coisas todas relacionadas, vinha, videira. Na verdade, são três palavras. Temos uva, temos vinho e temos videira. E as três têm origens diferentes. Não estão relacionadas entre elas. O vinho vem de uma palavra antiga do protoindo-europeu, que era algo como "weihó", que já queria dizer vinho na altura. Portanto, o vinho é uma coisa que nos acompanha há muitos milhares de anos e deu origem depois a "vinum", em latim, que nós diríamos hoje, olhando ali pra primeira letra, "vinum", mas os romanos clássicos diriam "vinum".

Pois é, questão do V e do I.

Exatamente. Depois temos uva

Que vinha do latim, que eu vou tentar ler, isto não é fácil, "uva", porque no fundo aquilo também é um U, e que também já tinha vindo uma outra palavra do indo-europeu, que queria dizer um tipo de fruto, não necessariamente aquele fruto em particular. E depois temos videira, que vem de outra palavra, também do indo-europeu, que era o "h₂étis", que já queria dizer um tipo de planta e que depois transformou-se no latim "vītis", que depois deu origem à nossa videira. Portanto, as três palavras são completamente separadas na sua história, são vagamente semelhantes por causa do V que todas têm, mas é absolutamente uma coincidência. Por que nós usamos as três e não apenas uma? Porque estamos a falar de algo tão importante na nossa cultura que acabamos por ir usando várias palavras para descrever os vários aspetos da cultura. E agora outra dúvida: com ou sem grainha? Eu não sou esquisito. Vou-me abster. Qual é a tua opinião? Eu não sou esquisito. Por acaso não é uma coisa que me faça grande confusão. Ter a grainha? Sim. Não apostas nas uvas já mastigadas? Não. A não ser. Não, por acaso não. Não é daquelas coisas que me incomoda. É parte da tradição. Bem, ficamos por aqui neste episódio domingo do "Português Suave". Se tiver dúvida, já sabe, pode enviar por e-mail, que é, Marco Neves? portuguessuave@observador.pt Muito bem. E o número de telefone que o Marco Neves nunca vai conseguir decorar, talvez lá para 2037. Começa por nove. 91 002 41 85. É fazer como o Hugo Girão, que nos enviou este áudio através do WhatsApp, até 30, 40 segundos, se conseguir, porque o episódio de dúvidas também é mais curtinho e, portanto, temos de ter aqui tempo mais reduzido, mas conseguimos sempre esclarecer. Marco, um abraço e até domingo. Até quarta. Até quarta, pois é. Desculpa, estou todo trocado.