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Aos domingos temos encontro marcado no Português Suave. Seja muito bem-vindo. Eu sou o João Costa e Silva. Marco Neves. Olá.
Cá estamos para o Português Suave. Estávamos a comentar antes de começar que temos ouvido muitas pessoas a dizer que ouvem o Português Suave.
Sim, tenho cada vez mais amigos a dizer: "Eu ouço o Português Suave" e eu a pensar assim: "Então, mas por que só me dizes agora?"
Mas pronto, obrigado a todas as pessoas que nos ouvem.
São muitos.
Vão dizendo, vão espalhando por aí a notícia de que existe este programa sobre língua portuguesa.
Temos de espalhar cartazes, QR codes.
Para poderem ouvir.
Era uma bela ideia, não era?
Sim. Hoje vamos começar por falar de uma desgraça futebolística.
Nem me digas nada. Já sei o que aqui vem.
Mas depois vamos até França.
E longa viagem até França, não é? Vamos ficar lá durante um bocadinho.
Vamos.
Vamos à língua nas notícias.
Houve um país que teve o desplante de vencer Portugal no futebol.
Mesmo.
Foi a Irlanda.
Fiquei muito chateado.
Hoje vamos ter outro país a jogar conosco, espero que não tenha o mesmo desplante.
Não há CR7.
Não, pois.
Foi expulso.
Foi expulso. Tinha que ter feito aqui a origem da expulsão, mas não.
Isso é mais do que certo.
Mas temos então a Irlanda que venceu Portugal e nós já falamos da Irlanda aqui em outros episódios. Gostava de lembrar que o nome da Irlanda é curioso porque oficialmente o nome daquele estado não é, ao contrário do que nós pensamos, República da Irlanda, é só Irlanda.
Mas há muitas pessoas que se referem como República da Irlanda.
Para distinguir da Irlanda do Norte, e aliás, nas leis da Irlanda aparece de vez em quando República da Irlanda, mas está lá bem expresso numa das leis que criou este nome, que é uma descrição, não é o nome oficial, tanto que a Constituição da Irlanda diz claramente que é Constituição da Irlanda, o presidente é o presidente da Irlanda, não é o presidente da República da Irlanda. Não é que a Irlanda não seja uma república, que é, claro, mas há aqui uma espécie de ambiguidade consciente. Eles querem que o nome, e já falamos disto aqui, que o nome se refira a toda a ilha, apesar de ser só para já.
E eles estão nesse direito, não é?
Estão nesse direito. Aliás, no acordo de paz que acabou com o conflito bélico, a Irlanda tem a possibilidade de vir a unir-se no futuro, mas esta questão do nome aponta precisamente para isso. A República da Irlanda, enquanto descrição daquele Estado, tem como nome oficial Irlanda para mostrar que quer que no futuro venha a ser uma ilha unida. Esta ambiguidade consciente aparece também. O que eu digo ambiguidade consciente é-
Eu gosto desse conceito. As duas palavras combinam bem. Ambiguidade consciente.
É uma ambiguidade que é propositada, é consciente. Aparece também, por exemplo, nas leis de Macau, que falam da língua oficial. A língua oficial em Macau é o português e também o chinês. E chinês aqui não é mandarim. Mesmo na versão portuguesa da lei, não aparece mandarim. Também não aparece cantonês, aparece chinês, que é uma forma ambígua de a lei se referir à língua que é falada em Macau, que na verdade é o cantonês, não é o mandarim. O mandarim é a língua oficial. Há aqui uma certa ambiguidade, uma certa imprecisão, que é propositada para que não seja necessário escolher: vamos pôr o mandarim ou vamos pôr o cantonês? Diz-se chinês e pronto. O outro país que vai jogar com Portugal não é a China, é a Arménia.
Não, a Arménia, exatamente.
A Arménia, que linguisticamente é muito interessante, eles têm um sistema de escrita muito curioso e têm uma língua que é um ramo independente das línguas indo-europeias, é um primo muito afastado do português. E em arménio, Arménia diz-se Hayastan.
Hayastan.
E este stan é uma importação do persa, está relacionado com o Paquistão, com aquele stão, o Turcomenistão. Enfim, bem, esperemos que o Hayastan perca com Portugal e vamos avançar.
É verdade. E ficamos aqui com o Português Suave a incluir o desporto. Somos um programa tão inclusivo, há espaço para tudo. Vamos avançar, vamos até ao mapa da língua e agora sim, vamos até França.
Nós recebemos aqui uma mensagem que não cumpria o nosso pedido. Uma mensagem, perdoa-se, porque é aqui uma colega nossa.
É verdade, aqui da casa, a Susana Peralta.
A Susana Peralta decidiu enviar-nos uma mensagem muito grande com um tema muito interessante e vamos ouvir uma parte dessa mensagem e depois desafiá-la, se ela quiser, um dia destes, a aparecer por cá.
A estar cá. Eu gostava muito. Vamos ouvir a Susana Peralta.
Olá, bom dia, Marco Neves, eu sou Susana Peralta, sou tua fã e também faço assim umas perninhas na Rádio Observador. Eu ouvi o teu programa no outro dia do pá, do pá, ó rapaz, e falaste do Asterix. E na verdade, o que eu tenho para dizer, era só para entrar aqui numa conversa, porque eu li o Asterix na Lusitânia em francês e de facto, na edição francesa, não há pás, provavelmente não há nenhum. Eu voltei a percorrer os diálogos e não encontrei nenhum pá, não quer dizer que não haja para lá um ou dois perdidos, mas realmente não é aí que incide a graça dos autores relativamente à forma de falar dos portugueses. E eu achei que isto era giro para ti, uma vez que és realmente um apaixonado pelas palavras, e porque também és um tradutor, porque eu, de facto, ao ler o Asterix em Lusitânia, fiquei convencida que aquilo era praticamente intraduzível. E isto por quê? Porque uma parte grande da piada daquilo São exatamente os franceses a fazer pouco da maneira de falar dos portugueses, mas como é que eles fazem pouco dessa maneira? Essencialmente de duas formas e depois há uma terceira, mas a principal é os "ãos". Portanto, eles pegam em todas as palavras que em francês terminam em "um" e põem o português ou a portuguesa a dizerem "ão".
Fica aqui a mensagem da Susana Peralta. Continuava, ela descrevia a outra forma e ainda a terceira forma. E nós interrompemos, espero que ela não se importe e espero que seja uma forma de aceitar o nosso convite para vir cá e conversar sobre algumas palavras. A última forma, aliás, era o "inho", na versão francesa, que eu não li. Aliás, ainda não li também a versão portuguesa, confesso, mas já estive com ela. Não tenho acesso à versão francesa. Eu daqui a uns dias até vou à França dar uma conferência, vou tentar ver se consigo ver a versão francesa, que também acho que se vende cá. Lógico que sim. Não é preciso ir a França. Mas o que a Susana diz é muito interessante e agradeço muito a mensagem, porque ela está a descrever a forma como os franceses olham para a nossa língua, a superfície que a nossa língua tem. Como ela diz, não estão a falar português, nem estão a imitar a língua, mas estão a imitar os sons que a língua tem, o tal "ão", o "ê", o "inho". E nós também fazemos isto, isso é curioso. Nós também olhamos para as outras línguas e vemos coisas que são a nossa forma superficial de as descrever. Eu vou dar o exemplo: nós olhamos para o castelhano, para o espanhol, e o que nós vemos? Vemos muitos ditongos. Às vezes as pessoas quando falam portunhol põem muitos "is" onde não devem. "Está a comiciar" em vez de começar. Mas começam a inventar palavras. A tendência é sempre essa, tentar imitar o mais possível. Tal como os espanhóis também fazem o mesmo connosco. Isto é a superfície da língua. Nós aos franceses, se calhar, pomos a forma como eles acabam as palavras, os ingleses. Só para vos dizer várias coisas. Primeiro, esta superfície engana-nos quando nós ouvimos línguas que estão tão influenciadas por uma língua principal que parecem essa língua. E isso acontece, por exemplo, com o galego, que muitos portugueses confundem com o castelhano, porque tem algumas características fonéticas parecidas. Também nos engana, por exemplo, quando ouvimos o sardo, que é muito mais raro, obviamente, nós não andamos a ouvir sardo todos os dias, mas o sardo, que é uma língua italiana, que é uma língua muito importante na história das línguas latinas, porque tem características do latim que não se perderam, também quando nós ouvimos, parece-nos italiano, só porque nós não conseguimos identificar mais do que a superfície. E há um cantor italiano que usou esta característica nossa, ou seja, esta forma que nós temos de olhar para as línguas e se não estamos com atenção ou se não as conhecemos, só ouvimos a tal superfície. Um cantor italiano que nos anos 60, que se chamava Adriano Celentano, decidiu fazer uma brincadeira: criar uma música que parecia inglês, mas não tinha uma única palavra inglesa. Não sei se podemos ouvir um pouquinho. Vamos ouvir essa música. Eu gosto dessa sonoridade. Sim. Ele vai começar a cantar em inglês americano. Não sei se concordas que isto parece inglês. Parece inglês, é verdade. Mas não tem uma única palavra inglesa. É um pseudoinglês. A música ficou muito famosa. É uma forma de criticar a superficialidade da nossa análise das músicas, mas é uma forma de provar que nós, quando ouvimos uma música, nem sempre estamos a ouvir o que está a ser dito. Quantas vezes estamos a cantar uma música em inglês e estamos nós próprios a inventar o inglês. Ai, tantas vezes. Não sei se tens algum caso que te lembras, talvez não tenhamos agora de repente. Tantas músicas. Eu às vezes estou a cantar músicas e nem sei o que elas significam e estou a inventar o próprio inglês. Ou a pessoa que ouve durante décadas. Até faço um desafio para os nossos ouvintes, se alguém se lembrar. Uma pessoa que ouve durante décadas uma música e pensa que é uma coisa e afinal é outra, isso pode acontecer na nossa própria língua, não é preciso ser uma língua estrangeira. Ou também aquele caso de palavras em inglês que são muito parecidas com as portuguesas, também acontece. Que nós ouvimos como se fosse uma palavra portuguesa. Isso é um ótimo tema para um episódio, quem sabe, do "Português Suave". A Susana também referiu na mensagem que considerava isto muito difícil de traduzir, e é verdade, é muito difícil traduzir. A variedade linguística, ou seja, as diferenças entre línguas, são muito difíceis de traduzir. A tradução tornou-se um exercício entre normas. E o que acontece? Mas nem sempre é, e os tradutores muitas vezes fogem à norma precisamente para conseguir ter a criatividade necessária para resolver problemas como estes. E o tradutor, por exemplo, o tradutor português, pelos vistos, começou a usar o "opa" para identificar os portugueses. Teve de recriar, teve de refazer, isso é o que acontece com muita frequência. A tradução é muito difícil, em particular quando se refere à própria língua e quando se refere à variedade linguística. Eu vejo isto, por exemplo, quando, de vez em quando, estou a falar e estou a ser traduzido, acontece isso em vários contextos, estou a ser traduzido para Língua Gestual Portuguesa. Quando estou a falar da língua portuguesa e a ser traduzido para Língua Gestual Portuguesa, é muito difícil. Pois é. É mesmo muito difícil, mas os tradutores conseguem. Aquilo que as pessoas querem que os tradutores façam hoje, não é bem o que queriam que os tradutores fizessem há uns séculos. Há uns séculos era muito mais aceitável que os tradutores mudassem o texto original, que recriassem. Hoje os tradutores fazem isso, mas não é muito bem visto. E, no entanto, é necessário. Para se conseguir trabalhar entre línguas, às vezes é preciso reinventar o texto para que ele funcione na língua de chegada. Deixamos aqui o convite à Susana Peralta, se ela um dia quiser vir aqui ao "Português Suave", de certeza que há muitas dúvidas. Está feito o convite. Sim, e podemos conversar sobre isto, ou o que ela quiser. E eu confesso que isto está um bocadinho difícil pra mim, estou com muita tosse. Estamos naquela altura do ano. No próximo episódio eu faço audiodescrição de tosse. A sério? Olha, eu gostava muito. Porque estamos naquela altura do ano em que isto começa a ficar difícil. Marco Neves, nós ficamos por aqui neste episódio. As melhoras. Obrigado. Dúvidas já sabe, portuguessuave@observador.pt e também para o nosso número de telefone 91 002 41 85. Há um número do WhatsApp à sua espera, em que pode enviar os seus áudios, como fez a Susana Peralta. Não é preciso ser tão grande. Até 30 segundos. Já está ótimo. Até quarta, Marco. Um abraço.