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Está no ar o Português Suave, na Rádio Observador. Aos domingos, há um novo episódio pra ouvir. Eu sou o João Costa e Silva. Olá, Vanessa Cruz, bem-vinda.

Olá, João.

Hoje estás conosco neste episódio de domingo. Marco Neves, olá, também bem-vindo.

Estamos aqui num grupo diferente do habitual.

Sim.

Mas eu estou aqui desejosa de aprender.

Sim, esse é o desejo que todos nós queremos. Num dia especial, 5 de outubro, uma data importante.

Nós não vamos falar muito do dia 5 de outubro. Aliás, vamos ter o resto do dia pra falar disso.

Sim.

Mas eu queria só assinalar que em relação à língua portuguesa, o 5 de outubro tem importância, porque foi a República que logo no ano a seguir criou a ortografia portuguesa, que nós não tínhamos antes. Ou seja, tínhamos várias propostas de ortografia, tínhamos vários hábitos, tínhamos aquela forma de escrever um pouco à francesa, com muitos PHs e com muitos THs.

Farmácia.

Farmácia, por aí fora, que era muito uma imitação do francês, apesar de haver razões etimológicas pra algumas delas. E depois a República decidiu fazer uma coisa, nós podemos discutir muita coisa sobre a República, mas naquele caso até fez bem, porque foi buscar os grandes especialistas da língua portuguesa da altura, juntou-os, eles fizeram uma ortografia que ia buscar alguns aspectos da ortografia da época de Camões, por exemplo, uma ortografia bem feita, sistematizada, e foi aquela que depois foi usada pra ensinar a grande parte da população a escrever, porque nós, em 1910, quase ninguém sabia escrever.

Fica aqui uma pequena contextualização. Sempre importante. Por onde é que vamos andar esta semana?

Uma das palavras que está nas notícias já há bastante tempo, que é flotilha, temos uma dúvida sobre isso e vamos depois passear por línguas artificiais e acabar com um copo de cerveja.

Ui, línguas artificiais. Já fiquei curioso. Vamos a isso, Vanessa Cruz, Marco Neves, começamos com a língua nas notícias.

E vamos a isso. Aliás, nos noticiários, fartei-me de dizer a palavra flotilha e temos uma dúvida de um ouvinte, André Azevedo.

André Azevedo pergunta se não deveríamos usar frota ou frutilha.

Eu já ouvi frutilha.

E a pergunta tem razão de ser, porque nós temos frota, que é uma palavra portuguesa, flotilha também é, na verdade, mas flotilha é uma importação do castelhano, como o André diz. Mas isso não é um problema em particular, ser uma importação do castelhano, porque nós temos muitas importações do castelhano. Aqui fica com este ar castelhano por causa do FL, que é mais típico da língua aqui do lado, o FL do que o FR. Mas flotilha não é bem uma frota. Uma frota, por exemplo, vamos lá ver, uma companhia de cruzeiros tem uma frota.

Exato.

Mas a flotilha é um conjunto limitado de embarcações que estão juntas no mar.

Tem a ver com a escala, podemos dizer?

Tem a ver com a escala. Pelo menos, da forma como interpreto estas palavras, frota não tem de estar juntos. Quer dizer, uma empresa pode ter uma frota e estão espalhados. É essa a minha interpretação desta diferença. E seja como for, muitas vezes estas palavras aparecem nas notícias e são quase marca da notícia que estamos a dar. Quando nós dizemos a palavra flotilha, sabemos perfeitamente do que estamos falando.

Sim, por mais que não saibamos exatamente o que a palavra quer dizer, associamos à imagem.

É quase um nome próprio do acontecimento em particular que estamos a viver. Queria ainda dizer que há muitos castelanismos, como disse há pouco. Camões usou imensos. Há algumas pessoas que se horrorizam com estrangeirismos. Como eu disse, o problema dos estrangeirismos é o excesso. Não é provavelmente a existência deles, porque eles sempre existiram. Mas nós temos armadilha, botija, cabecilha. Fui buscar uma lista que a Infopédia preparou, um dos grandes recursos que nós temos, mas há outras listas também, só isso. Essa é fácil. Ombridade. Se nós vimos bem, ombridade, vem de "ombra", não vem de "homem". Novilho, palmilha, sapatilha. E podíamos continuar. Há muitos castelanismos por cá. Também há, depois, mas isso fica pra outro dia, palavras portuguesas que foram para o espanhol.

E por que não frutilha?

Frutilha.

Não sei se te questionaste sobre isto, Vanessa Cruz, ao longo dos vários noticiários que foste fazendo, ao longo destes últimos dias.

Não, eu acho que encarnei mesmo aquela questão do associo à imagem. Eu gostava de dizer do nome próprio, mas fiquei a pensar: "Eu nunca usei esta palavra".

Exato.

Mas frutilha, eu posso dizer. Nós tivemos uma época, e continua a existir de certa forma, mas houve uma época na nossa língua onde nós transformávamos muito o FL no FR. Temos prato em vez de plato, que é o lá. Temos branco em vez de blanco. Já falamos disto aqui. E alguns falantes ainda continuam a fazer isto. No Brasil é muito típico, sabemos que há pessoas que dizem em vez de problema, não, não é problema. Transformam palavras que têm um PL num PR. Outra típica: plantar. Há muitas pessoas no país que, na forma popular, dizem "prantar", que é pôr qualquer coisa. Ou seja, é uma tendência velha da nossa língua transformar PL no PR. Mas esta tendência não se aplica, em geral, a importações que vêm diretamente do castelhano, que ficam mais ou menos preservadas. Ou seja, é sinal de que aquela palavra não teve evolução do latim até o português, mas passou ali pela língua do lado. Portanto, eu não acho que haja grande razão pra dizermos frutilha, porque o FL continua a existir. Nós temos flor. Eu até disse flor.

Então flotilha acaba por ser aqui o termo mais correto, não é?

Não tenho nada contra este termo. E é, de fato, como estávamos a ver, o nome próprio desta frutilha.

Já ia dizer frutilha outra vez.

Mas pronto, cá ficou.

Fica esclarecida esta dúvida, que foi enviada pelo André Azevedo, a quem agradecemos. Enviou a dúvida através do e-mail portuguessuave@observador.pt. Vamos agora numa viagem, no Mapa da Língua. Vanessa Cruz, vamos falar de línguas artificiais. Não sei se isto te abriu o apetite.

Sim, estou muito curiosa. O que é que vem aí, Marco?

Vasco Pina perguntou-nos se em línguas artificiais também devemos usar o nome língua para estas construções ou se deveríamos reservar o nome para português, inglês, línguas naturais. E há outras perguntas por trás curiosas, porque eu não vejo razão nenhuma para não usar o nome língua, porque na verdade elas podem ser muito parecidas com as línguas naturais. Depende de quem criou e por que razão criou. A pergunta que eu também por vezes recebo é: por que razão nós dizemos que umas são artificiais e outras são naturais, quando todas foram criadas por seres humanos?

Exato, o que é que distingue a artificialidade.

E para explicar isto, eu já usei uma imagem que é: imaginem um campo relvado. Se nós tivermos pessoas a viver de um lado de um campo e lojas do outro lado, as pessoas vão atravessar o campo naturalmente e vão criar caminhos, porque vão devastar a relva. E são caminhos naturais. Se antes de alguém viver ali, a Câmara Municipal for lá, e estamos na época das autárquicas, podemos falar das Câmaras Municipais. Não, agora estamos numa época em que vamos criar caminhos como deve ser antes de alguém atravessar aquilo. Não sei se estão a perceber.

Sim.

Aqueles caminhos foram todos criados por pessoas, mas alguns foram criados naturalmente pelo uso que se deu. E outros foram criados de forma consciente antes de alguém usar. Tudo pessoas, mas de formas diferentes. E as línguas artificiais são isso. As línguas naturais são criadas pelo tempo fora, sem que ninguém planeie. As línguas artificiais são criadas de forma consciente por pessoas que têm um nome, não sei se vocês sabem.

Não.

É um nome um pouco estranho. Só existe em inglês, nós não criamos ainda um nome em português para isso.

Qual é que é?

Conlanger.

Ok, é um palavrão.

Constructed language creator.

Conlanger.

Línguas construídas. Há línguas construídas para serem muito simples e que são muito diferentes das naturais. O esperanto é uma delas, é muito simples, não tem irregularidades, não tem verbos irregulares, não tem nada. Tem muita coisa, mas é tudo muito regular, não há exceções.

Mas pode dar um exemplo?

Por exemplo, nós temos verbos irregulares, o verbo ser não funciona da mesma maneira, enquanto que no esperanto a primeira pessoa é sempre igual em todos os verbos. A primeira pessoa do singular. Não há conjugações diferentes, não há o ar, er, é tudo a mesma coisa. Se eu quero criar o feminino, é sempre da mesma maneira, não há exceções. Se eu quero criar o plural, é sempre da mesma maneira, não há qualquer exceção. Não deixa de ser uma língua muito baseada nas línguas europeias, é uma língua que nós reconhecemos como parece uma língua europeia e por isso para falantes de outras línguas asiáticas ou africanas ou americanas, é uma língua mais difícil do que uma língua artificial com esse intuito deveria ser. Mas o objetivo do esperanto é ser fácil. E ele é fácil, é uma língua fácil e que é provavelmente das línguas artificiais a mais falada. Há quem diga que tem mais de um milhão de falantes. Eu não sei se chega a tanto, mas é muito falada. Depois há as que são criadas para serem parecidas com as naturais. O Tolkien. Já ouviram falar das línguas do Tolkien, do "Senhor dos Anéis"?

Eu não sigo.

Eu ia dizer o mesmo. Eu não sou muito fã.

"Guerra dos Tronos", já ouviram falar da "Guerra dos Tronos"?

Sim.

A "Guerra dos Tronos" tem línguas e ao contrário do que acontece, por exemplo, na "Guerra das Estrelas", em que as línguas daquelas espécies todas são só barulhos que as pessoas estão ali a fazer e que não significam nada, a maior parte delas. No caso da "Guerra dos Tronos", houve um linguista, David J. Peterson, que é muito famoso atualmente e que escreve livros sobre isto e que sempre que alguém precisa criar uma língua para um filme, agora ele é a pessoa a quem se vai pedir isso. Ele criou várias línguas para os vários povos da "Guerra dos Tronos", que são línguas com gramáticas, com vocabulário, com regras e exceções, porque ele quer imitar as línguas naturais. Tem exceções, tem regras e aquilo está tão bem feito que chegou a haver espectadores da série que começaram a aprender a gramática destas línguas e que enviaram mensagens a dizer que a personagem X no episódio tal se tinha enganado, que aquilo tinha um erro de Valírio.

Começaram a ser mais especialistas.

Mais do que os próprios especialistas, que ficou: "Olha, é verdade".

Está mesmo errado.

Mas não deixa de ser natural que as pessoas também usem mal a própria língua. Aquele erro, no fundo, também existe nas línguas naturais. E o Tolkien foi o grande criador de línguas artificiais para o "Senhor dos Anéis" e ainda hoje há pessoas que aprendem. O "Caminho das Estrelas" também tem, o Star Trek. Quem é que usa "Caminho das Estrelas"? Acho que ninguém. O Star Trek tem o famoso, como é que se chamava aquela espécie muito esquisitos, muito feios.

Tu estás a falar de conteúdos que eu não domino. Começo a ficar aqui com uma-

Os Klingon. Já ouviram falar dos Klingon? Não. Está-se a sentir aqui uma certa diferença de geração.

Devias estar aqui outras pessoas hoje.

Não, há aqui uma pequena diferença de geração. Nós não somos assim idades tão diferentes, apesar de tudo, digo eu. E no entanto, às vezes há estas diferenças. Há pessoas que aprendem, o próprio Duolingo, que é aquela aplicação, tem uma parte para aprender Klingon.

Olha que interessante.

Completamente inventada. Só para vos dizer então que existem línguas artificiais. Eu não vejo que haja grande diferença na sua essência. Na formação há, mas uma língua artificial até pode ser usada e aprendida por pessoas. Houve pessoas que aprenderam esperanto desde crianças e que têm o esperanto como língua mãe. Não há uma diferença na forma como as línguas podem ou não funcionar, há só a diferença de como é que foram criadas. Só isso.

Vamos para a nossa última rubrica. É interessante. Vamos lá aos mitos e dúvidas Marco Neves, esta dúvida por si só é muito engraçada. Vamos explicar. Houve aqui um coletivo do Observador que se juntou, encabeçado pelo nosso subdiretor Ricardo Conceição, que na semana passada te interpelou e te fez uma questão sobre uma dúvida: cerveja e birra.

Eu a pensar que me estavam a convidar para alguma coisa, mas afinal não.

Não, mas temos às 18h todas as sextas-feiras, uma hora dedicada a isso mesmo.

Podiam ter dito.

Podes ficar, podes vir cá.

Estou a brincar. Hei de vir.

Estás mais do que convidado. Até fazes um episódio exclusivo.

Só no fim da sessão, porque vai ser o episódio mais estrambólico, uma palavra que já tivemos. Temos cerveja, por um lado, que também existe em castelhano, existe em várias línguas ibéricas, que não são só o português e o espanhol. Temos cerveja, não vou falar espanhol que não bebo o suficiente para isso. Mas temos birra, beer. E as duas origens são muito claras. Uma é a origem celta, que passou para o latim e que nos deu cerveja, e outra é a origem germânica. Pensa-se que terá começado no alemão, mas espalhou-se pelas outras. Agora a pergunta é: por que razão é que nós temos esta divisão? E não há uma só explicação. Eu não consigo dizer: "Olha, foi por isto, foi no ano X que aconteceu aquilo." A verdade é que a importância da cerveja alemã é muito forte. Ela espalhou-se, exportou-se para a Itália, para a França, para a Inglaterra e o nome também foi. E nós cá, neste cantinho mais ibérico, nunca ligámos tanto à cerveja e fomos ficando com a palavra que os romanos usavam. Não sei se isto faz sentido. Ou seja, no fundo, tem que ver mais com o interesse que os próprios povos têm na bebida. Nós fomos sempre mais para o vinho do que para a cerveja, tradicionalmente, e também por isso não ligámos tanto a esta bebida mais germânica, que se espalhou a certa altura no centro da Europa. Fomos ficando com a palavra.

Mas conhecem pessoas que utilizem normalmente birra para se referir à cerveja?

Aqui em Portugal? Não.

Eu não.

Não acho que não.

Até recorremos mais a fino, por exemplo, a imperial, que é uma variante.

São as várias palavras que nós temos.

Dizemos é o barrilinho. Também existe o barrilinho.

Isso eu não ouvi.

É uma cerveja mais pequenina, é uma imperial mais pequenina.

Dava para um episódio só com os nomes das cervejas.

Sim, certeza.

E com as diferenças que há. Basicamente, nós os ibéricos somos um pouquinho diferentes nesta questão, mas não há grande mistério nisto. Há muitas palavras em que isso acontece. Por exemplo, todas as línguas europeias, quase todas, têm uma palavra para azul, que tem a mesma origem que o azul português, mas não usam. Por exemplo, os ingleses têm azure, também não usam. Os franceses têm azure, que é "comme ta azul", mas também não usam essa palavra normalmente. Portanto, as palavras quase sempre estão disponíveis, mas os povos vão usando uma ou outra, dependendo da história.

Entretanto, eu estava aqui a reparar que o Oktoberfest termina hoje, dia 5 de outubro, portanto, está tudo interligado.

Nós fizemos isto de propósito, obviamente.

Sim. E também em Algés decorre o Beerfest, que podemos lhe chamar, se calhar, uma variante. Está na quarta edição e também tem aqui a vertente das cervejas artesanais, também gastronomia, música ao vivo. Acontece em Algés e termina hoje, dia 5 de outubro. Trouxemos aqui duas sugestões, se calhar, para o Oktoberfest.

Já é um bocadinho tarde.

Eu acho que já não vai a tempo.

Se alguém nos ouvir na Alemanha.

Mas se alguém quiser desafiar os limites e a velocidade.

Nós temos ouvintes na Alemanha.

Sim, também é verdade. Certeza. Nós ficamos por aqui. Vanessa Cruz ainda está de regresso conosco na quarta-feira, mas é importante, se tiver dúvidas, envie-nos para o e-mail. Marco Neves?

Marco Neves, não. Não é esse o e-mail.

Podes dizer o teu, também.

Não, portuguesasuave@oobservador.pt.

Muito bem. E o número de telemóvel?

91, não sei o resto.

Agora fiquei com esperança. Ainda não é desta. 91 002 41 85. Envie-nos as suas dúvidas através do nosso WhatsApp, através de uma mensagem de voz, até 30 segundinhos, que é para conseguirmos ouvir aqui neste episódio de dúvidas de quarta-feira. Até lá, Marco. Um abraço.