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Nem o verão para o "Português Suave", já sabe, sempre com novos episódios durante este mês de agosto, ao domingo, comigo, João Costa e Silva, e com o ninja da língua portuguesa, o Marco Neves. Bem-vindo mais uma vez.

Cá estamos, em agosto.

É verdade.

Longo mês, que depois quando chega ao fim, parece que foi muito curto.

Eu acho que passa sempre tão rápido.

É engraçado que há um fenômeno das férias, não sei se concordas comigo. Imagina que tiras duas semanas de férias, não sei se alguma vez tiraste duas semanas seguidas.

Sim.

Parece que a segunda semana é sempre muito mais rápida a passar do que a primeira. Isto é, pra mim.

Sim. E é na segunda que já estás a desligar e depois já estás a voltar à realidade, é tão triste.

Exato. A segunda é o momento em que a pessoa, de facto, começa a descansar, mas depois aquilo passa num fósforo.

É verdade.

É assim, faz parte. A forma como nós vemos o tempo a passar ou como nós sentimos o tempo é muito diferente do tempo que é contado pelos relógios.

É verdade.

O tempo que está na cabeça é muito diferente. Hoje, queria falar um pouco de dois temas. Vamos ter um áudio também.

Fizeste uma promessa na semana passada, se bem me lembro.

A promessa de falar dos imigrantes. Que nós recebemos durante o mês de agosto. O país enche-se de pessoas que vivem em outros países e que vêm a Portugal passar algumas férias. Eu também tenho os meus imigrantes familiares. Deixo aqui um beijinho para o Diogo e para a Sofia, o meu irmão Diogo e para a Sofia, a mulher dele, e para as minhas sobrinhas, a Laila e a Olívia, que vivem em Inglaterra já há muitos anos. Elas nasceram lá, aliás. E eu lembrei-me de falar dos imigrantes por causa das línguas, porque a verdade é que com o mês de agosto, vêm os imigrantes e vem aquilo que muitas pessoas às vezes até acham um pouco estranho, que é esta mistura de línguas que nós ouvimos nos cafés, nas praias, pelas ruas, em que a mesma família pode estar a falar em português e depois há frases que vêm na língua do país onde estão. E isto, na verdade, é muito natural e muito humano, porque aconteceu desde sempre, desde que há pessoas que estão a misturar as línguas, a misturar as culturas e não é nada de negativo. Aliás, faz mesmo parte da humanidade. A humanidade sempre fez estas misturas. A verdade é que os imigrantes têm esta sorte, se souberem aproveitar, claro, porque isto depende, que é os filhos poderem ter duas línguas, naturalmente, a partir só de casa, coisa que não acontece sempre.

Isso hoje é mais natural, não é? É mais natural.

É mais natural e é assim, todos nós aprendemos línguas estrangeiras na escola. Mas aprender uma língua desde a infância é diferente. E eu devo dizer que também há uma certa ideia antiga, que ainda encontro nalgumas pessoas, que se encontra nalguns países com mais força do que noutros. Por exemplo, em França é muito comum encontrar pessoas que acreditam nisto. Em Portugal, menos, penso eu, mas aqui é só a minha impressão, não fiz nenhuma análise. Depende do país, mas há pessoas que acreditam que, por exemplo, haver um pai que fala numa língua e a mãe que fala noutra, ou vice-versa, ou até falar na língua do país de onde se vem, pode ser negativo, de acordo com esta ideia. Ou seja, segundo esta ideia, as pessoas devem falar com os filhos na língua que lhes é mais útil naquela sociedade onde estão. Não sei se estou a ser claro no que estou a dizer.

Sim, no sítio onde estão. Estando em França, por exemplo, no Luxemburgo, na Suíça.

Há pessoas que acham que devem falar sempre com os filhos naquela língua daquele país. A ideia é mesmo porque assim eles desenvolvem melhor a língua que vão precisar. Felizmente, esta ideia já é muito menos comum hoje. A verdade é que, por exemplo, se uma pessoa vive em França, ou vive na Alemanha, ou onde for, ou vive cá em Portugal, se forem pessoas que vêm de outro país e vêm cá para Portugal, a língua do sítio, da sociedade, vai sempre ser uma língua muito forte e as crianças que nasceram naquela sociedade vão certamente ficar com essa língua. Se não tiverem contato com outra língua, através dos pais ou como for, vão perder essa oportunidade. E eu vou te contar que eu ainda há poucos dias estive num evento no Pavilhão Atlântico, para comemorar o aniversário do Pavilhão do Conhecimento. Peço desculpa. É ali tudo perto.

Mas é ali tudo quase na mesma zona.

Exato. O Pavilhão do Conhecimento, houve o aniversário do Pavilhão do Conhecimento, eu estive lá a conversar numa mesa redonda, digamos assim, não era nenhuma mesa e não era redonda, mas faz de conta.

Chama-se assim.

Exato. E era com neurocientistas. Estivemos a falar sobre neurociência, que não é propriamente a minha especialidade, mas também eu estava lá a falar de língua e foi uma conversa muito interessante. Uma das pessoas que estava a participar lembrou que quando nós desenvolvemos a nossa capacidade linguística logo desde a infância, há um período em que o cérebro consegue absorver as várias línguas e consegue absorver, por exemplo, a estrutura fonológica das várias línguas, ou seja, os vários fonemas, que são diferentes de língua pra língua, os sons que distinguem significado são diferentes, e que se nós aprendemos desde criança, não só não faz mal nenhum, como ganhamos essa flexibilidade pra começar na pronúncia, mas não só, que é muito boa. Portanto, não há nenhuma desvantagem em aprender duas línguas. E também de vez em quando, quando estamos de férias, misturá-las ou até em casa. Essa existência de várias línguas misturadas na mesma família nunca foi um problema, é uma vantagem. Depois, claro, as pessoas dizem: "Mas às vezes as pessoas misturam, isso faz-lhes confusão." Só faz confusão a quem está de fora e só tem uma língua. Para quem tem as várias línguas, não faz confusão e as pessoas Com algum esforço, conseguem perfeitamente usar as duas. Também depende da área em que as usam.

Claro.

Mas é algo que é sempre vantajoso, com mais ou menos dificuldades. E por isso, aqui fica só este sublinhar de que ter mais do que uma língua, mesmo quando se mistura, é bom.

Eu acho que é sempre positivo, ainda mais quando falamos de crianças, quanto mais souberem, ainda melhor. Vai ser útil no futuro, com certeza. São só vantagens.

Agora temos uma dúvida do Zé Bonito. Vamos ouvir essa dúvida?

Sim, é um ouvinte muito assíduo e que nos envia muitas dúvidas através do 91 002 41 85.

Bom dia, Marco. Bom dia, João. Fala o José Bonito. Uma das curiosidades que eu tive em vários países em que vivi e viajei, tem a ver com as onomatopeias dos animais. Em Portugal, por exemplo, dizemos que os cães fazem "au, au". Na Espanha, é "béu, béu", se não estou em erro. Há países onde é "auf, auf". Obviamente, sendo que os animais falam a mesma língua, algo fez com que línguas criassem estes sons de maneira diferente. Há alguma explicação para isso ou é uma mera casualidade?

Marco Neves, vamos falar de ladrar neste episódio.

Vamos falar de cães. Há uma explicação que tem a ver com aquilo que nós acabamos de falar, que é o facto de cada língua ter uma estrutura fonológica diferente. Nós ouvimos os sons de maneira diferente, precisamente porque temos a nossa língua e há sons que para nós são perfeitamente distintos, para falantes de outras línguas não são. Por exemplo, nós em português distinguimos perfeitamente o P do B. Há línguas em que isso não acontece. Nós temos perfeita facilidade em distinguir avó de avô. Os espanhóis, por exemplo, têm muita dificuldade em distinguir avó de avô. O som O e Ó. Nós temos muita dificuldade a distinguir "ship" de "sheep" em inglês, aquelas duas vogais parecem quase iguais, para um inglês são completamente diferentes. Isto são distinções que se fazem e que se adquirem nos primeiros anos em que nós adquirimos a língua. Por isso é que depois, mais tarde, acaba por ser tão difícil conseguir o sotaque de língua materna, porque essas distinções ficam inscritas no cérebro. O que é que isto tem a ver com os cães? Quando os falantes de uma língua ouvem um cão a ladrar, cada um ladra de maneira ligeiramente diferente, mas não ladram de maneira diferente de acordo com o país.

Exato. Imagina.

Não há fronteira entre os cães. O que é que acontece? Os falantes ouvem aqueles sons, que são muito diferentes dos sons humanos. Nós interpretamos com a nossa estrutura fonológica e acabamos por tentar adaptar e criar onomatopeias que estão relacionadas com a nossa língua. Em português, nós temos o "au, au", que é precisamente o ditongo mais difícil, quanto a mim, de um estrangeiro conseguir reproduzir. Nós achamos que os cães fazem perfeitamente este som, mas para um estrangeiro, para um falante de outra língua, aquilo não soa assim. O "béu, béu", na verdade, é muito nosso também. Nós também usamos "béu, béu" em certas situações. Os espanhóis usam, fui ver, não sabia, "guau, guau".

"Guau, guau" é muito bom.

É, "guau, guau". Pronunciam de maneira um pouco diferente. Os bascos usam "zaunk, zaunk". É muito estranho. E têm um som particular para "txunk, txunk", que é para o cão pequeno.

Ah, fazem essa distinção. Muito bem.

Fazem distinção para os cães pequenos. Os ingleses é o "woof, woof". Os franceses é algo até parecido, mas escrito de maneira muito diferente. Os gregos é "gav, gav". Não faço ideia como é que eles conseguem ouvir "gavs" num cão. Os indonésios é "guk, guk". E os coreanos "mong, mong". Curiosamente, o símbolo para isto em coreano, eu não posso mostrar na rádio.

Pois, é difícil.

Mas a mim lembra muito um cão com a boca cá por baixo, mas é uma coincidência, sou eu que estou a ser condicionado. A explicação é esta, mas é muito engraçado ver como as pessoas ouvem os cães de maneira diferente.

Que grande episódio, Marco Neves. Começamos nos imigrantes e acabamos nos cães.

Desejamos um excelente agosto. Não se esqueçam, as pessoas que nos ouvem, de mandar as dúvidas para portuguesuave@observador.pt ou para o telefone.

Que é o 91 002 41 85. Enviar dúvidas, áudios para o nosso WhatsApp. Se está em família, se há alguma discussão que está a ter e naquele calor do momento, acha assim: "Isto era um bom momento de rádio." Enviar para nós, nós queremos muito ouvir, queremos cumprir esse desejo. Marco Neves, um abraço, até ao próximo domingo.

Um abraço, até para a semana.