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Está com o Português Suave na Rádio Observador. Olá, Marco Neves, bem-vindo.
Está tudo bem?
Tudo bem, hoje à distância.
Hoje à distância. Às vezes estamos próximos, outras vezes à distância, mas sempre aqui juntos das pessoas que nos ouvem a falar da língua portuguesa.
É isso mesmo.
Nós vamos ter aqui umas mudanças nas próximas semanas.
Mas não vamos embora. Nós não somos aquele podcast que vai de férias.
Não vamos de férias, só que não vamos ter aquele episódio especial, à quarta. Especial? Exato, é especial. Das dúvidas, vamos ter dúvidas, mas será ao domingo.
Exato.
Entre também episódios diferentes. Em agosto, os episódios só saem ao domingo. Depois, em setembro, voltamos ao ritmo normal. É só para abrandar um pouco o ritmo neste momento de calor.
Deixa-me só dizer isto, que é para os nossos ouvintes, que muitas vezes ficam na dúvida se enviam ou não dúvidas. Aliás, esta semana recebemos uma mensagem assim de um ouvinte que dizia: "Já estava há imenso tempo para nos enviar dúvidas". O momento é agora, porque em agosto é só dúvidas e portanto é enviar para o portuguesSuave@observador.pt, que é o nosso e-mail, ou para o 910024185, que é o nosso WhatsApp.
Exato, que tenho um projeto de férias de tentar decorar. O que eu ia dizer? Já temos aqui uma série de dúvidas e de comentários, que já estão aqui em cima da nossa mesa, mas não vamos falar deles hoje, vão ficar para o próximo episódio, que será no domingo, primeiro domingo de agosto. Já agora, eu sou de Peniche, tenho que dizer isto. No primeiro fim de semana de agosto temos as festas de Peniche.
Muito bem. As minhas já foram, porque em São João da Madeira, festeja-se o São João. Não podia ser de outra forma.
Não podia ser. Pois, em Peniche é agora no primeiro fim de semana de agosto. É uma festa muito engraçada e fica o convite de um penicheiro para que as pessoas vão lá visitar a minha terra. Agora, hoje eu pensei fazer aqui uma espécie de guia do viajante linguístico, um guia das pessoas que andam aí a passear em agosto, durante as férias. Vou dar algumas sugestões para repararem em aspetos linguísticos, mas vamos seguir as nossas secções normais e, portanto, a primeira paragem será na língua das notícias. Vamos começar.
Primeira paragem.
A primeira paragem é a Espanha. Por quê? Porque os nossos amigos espanhóis ganharam o Mundial e por isso é a língua que está nas notícias.
E foi muito merecido. Sim, senhor.
Sim, acho que foi. Na final, eu estava a torcer por Espanha, não sei o que estavas a fazer.
Também. E sempre podemos dizer, Marco, que fomos derrotados pela campeã mundial, portanto, tem outro sabor especial.
É verdade.
Não é que nos traga nada de especial.
Há um aspeto curioso linguístico, lembrei-me agora, não tinha planeado falar disto, mas sabes que a palavra troféu, nós já falámos disto há muito tempo, no ano passado, salvo erro. A palavra troféu tem origem em qualquer coisa que se tirava ao derrotado, ou seja, é uma palavra grega, qualquer coisa que se tirava ao derrotado. E eu achei muito engraçado, porque na final, na verdade, aquilo foi mesmo um troféu, porque a Espanha, entre aspas, roubou, no bom sentido, o campeonato ao que era campeão, à campeã.
À Argentina, sim.
No fundo, foi mesmo um troféu a sério, porque a Espanha ficou com aquilo que era daqueles que ficaram agora derrotados. Foi uma pequena curiosidade linguística. Mas olhando pra Espanha, quem for passear este verão por Espanha, pelas várias regiões de Espanha, um país muito variado linguisticamente e não só, eu proponho que repare nas placas da estrada. Há muita coisa para reparar em Espanha, mas nas placas da estrada, as próprias línguas estão lá de forma muito curiosa. Por exemplo, quem for à Galiza, e como já todas as pessoas que acompanham aqui o Português Suave sabem, eu gosto muito da Galiza e a princípio irei lá com os meus filhos ver o eclipse que vai ocorrer no dia 12 de agosto. Vamos lá ver. Quem for à Galiza vai reparar numa coisa curiosa, que é as placas da estrada, os nomes das terras estão só em galego, não estão em castelhano. Portanto, nas placas da estrada aparece A Corunha e não La Coruña. Isto em toda a Galiza. Mas se forem para outras regiões de Espanha, acontecem coisas diferentes. Numa região como Madrid é a mesma coisa, está tudo na mesma língua, neste caso não o galego, mas sim o castelhano ou espanhol. Mas se forem até Valência, vão encontrar muitas vezes placas que têm duas línguas na mesma placa. Por exemplo, quem quiser ir até Alicante, uma terra muito famosa, vai também encontrar placas da estrada onde aparece o nome em valenciano, que é Alacant. Portanto, naquela região, em Valência.
Ou seja, aparecem as duas formas na placa, a identificar.
A pessoa vai pela estrada fora e vê a mesma terra com dois nomes diferentes, um em cada língua. Na comunidade valenciana, as duas línguas aparecem nas placas da estrada. Se for até à Catalunha, mais ao norte, estou a falar dos nomes das terras, apenas, não estou a falar de outras informações. Na Catalunha aparecem apenas e só em catalão. Os nomes das terras oficialmente são só em catalão. Vão encontrar nomes como Lleida, que em espanhol seria Lérida, mas em catalão é Lleida e é esse o nome que aparece. Se forem até ao País Basco, vão encontrar, tal como em Valência, os dois nomes. Por exemplo, São Sebastião, San Sebastián, é também Donostia. Aparecem os dois nomes na estrada. Isto eu sei que são só pormenores, mas são uma espécie de Entrada para a reflexão linguística que as pessoas podem ter quando reparam com mais calma naquilo que as pessoas falam e dizem, e o que está escrito nas várias regiões de Espanha, um país linguisticamente muito interessante. Muitas vezes as pessoas passam por Espanha e ouvem apenas uma língua, a língua principal, o espanhol. Principal no sentido de ser mais falada, mas há muita coisa que se esconde lá por trás e as placas são uma pista para isto. As leis de cada uma das regiões são diferentes. Há regiões onde as duas línguas são oficiais e há outras em que é apenas uma das línguas, seja o castelhano, seja outra.
E os nossos ouvintes que este verão forem pra Espanha vão olhar com outros olhos para as placas.
Enviem.
Enviem-nos fotos.
Enviem uma mensagem. Eu sei que é um pouco estranho estar a dizer para as pessoas olharem para as placas da estrada. Olhem pra estrada também, não se distraiam. Mas reparem nestas coisas. Enviem mensagens, enviem mensagens a dizer se repararam nisto ou não, o que é que repararam mais. E é isso.
É isso mesmo.
Vamos avançar para o Mapa da Língua.
Vamos a isso.
Neste caso, para quem for passear pra países de língua oficial portuguesa, tenho só aqui duas sugestões muito rápidas. Também são temas que já falamos aqui várias vezes, mas hoje é numa perspectiva turística. Quem for até Cabo Verde, e eu sei que há muitos portugueses que vão passar férias em Cabo Verde.
Estive lá o ano passado, Marco.
Pois, olha, és um dos portugueses que vai passar férias a Cabo Verde. Eu gostava de lá voltar. Já estive algumas vezes, gostava de lá voltar, mas os filhos têm-me dito, principalmente por causa do mundial. O mundial chamou a atenção para Cabo Verde.
Aumentou a cotação turística de Cabo Verde, e como é nara.
E os meus filhos têm dito que gostavam muito de passar férias a Cabo Verde. Não será ainda este ano, mas talvez qualquer dia, vamos ver. A minha sugestão, está tudo escrito em português, a língua oficial é o português, mas também a língua nacional é o crioulo cabo-verdiano, e uma sugestão será que as pessoas tenham a curiosidade de perguntar alguma coisa. Ou seja, tentar aprender algumas palavras em crioulo cabo-verdiano, porque é sempre interessante. Eu lembro-me de estar lá há dois anos, ou três, agora já não me lembro, e estarmos a falar sobre o crioulo e ouvir o crioulo, e é muito engraçado, porque se forem conversas mais pessoais, ou seja, conversas de café, de rua, nós percebemos muito pouco daquilo que se diz em crioulo cabo-verdiano. Obviamente, todos os cabo-verdianos falam também português e quando querem falar conosco em português, falam em português. Mas se estivermos a ouvir dois cabo-verdianos a conversarem em crioulo cabo-verdiano, pode ser muito difícil de compreender, porque a língua afasta-se muito do português quando estamos a falar de aspectos pessoais, diários. Quando, e eu tive essa experiência, quando dois cabo-verdianos a conversarem em crioulo cabo-verdiano, estão a falar de assuntos que, por exemplo, eu compreendia, que eu estava a par, aí já se aproxima mais do português e começo a compreender. É muito engraçado perceber que a proximidade entre as duas línguas varia dependendo do tema e do registo. É só uma curiosidade. No Brasil, se algum português for passar férias ao Brasil, a língua acho que é óbvio qual é que é, mas se forem até ao sul, ao estado, por exemplo, de Rio Grande do Sul, ou do Paraná, ou de Santa Catarina, procurem aquelas, e se forem pra lá, pra essa zona, porque o Brasil é enorme, procurem as terras, os municípios que têm, por exemplo, variedades germânicas e italianas como línguas oficiais também, ao lado do português.
Porque há muitas, não é, Marco?
Há muitas. Há muitas dessas línguas que foram levadas pela imigração no sul do Brasil e ainda hoje são variedades que são usadas por lá. Já falamos disso também por aqui. É só uma lembrança mais turística.
Muito bem.
O Mapa da Língua fica por aqui. Vamos aos Mitos e Origens. Eu lembrei-me deste episódio especial turístico, digamos assim, porque há uns meses largos.
Já me doem os pés de tanta viagem.
Desculpa lá. Estamos parados. Portanto, o meu convite é pra aqueles que de fato estão a andar. Mas eu percebo, só pela imaginação já nos doem os pés. Há muitos meses, eu lembro de ter sido entrevistado numa rádio da nossa concorrência.
Podes dizer, Marco, não tem mal nenhum.
Neste caso, foi a Antena Um, e a jornalista disse-me que, por ter ouvido falar daquilo que eu vou falar agora a seguir num vídeo que eu tinha feito, tinha decidido ir com amigos ver este lugar que eu vou agora referir.
Já viste a influência que tu tens nas pessoas.
E eu fiquei contente. Fiquei contente que a pessoa tivesse essa curiosidade.
Um verdadeiro influencer.
Não sei se eles depois gostaram ou não, porque eles não tinham ido ainda, estavam a planear. Mas de que sítio é que eu estou a falar? Estou a falar do lugar na província de Cáceres, mesmo ao lado dali à Serra da Malcata, do lado português, portanto, do lado espanhol, há ali algumas terras onde se fala chalimego, ou também podemos dizer fala. É uma pequena variedade linguística, ou uma língua, se quisermos, que é do grupo do português e do galego. Portanto, está mais próximo do português do que está o mirandês, por exemplo. E portanto, nessa zona de Espanha, da província da Extremadura, temos ali, principalmente as pessoas mais velhas, a falar qualquer coisa que não é português, mas é uma língua da família do português muito pouco falada, em comparação com o português, claro, e em comparação até com o galego, mas é ali um cantinho que tem esta particularidade linguística que nós conhecemos pouco por cá, mas que é uma língua irmã do português, e que está do lado espanhol. E por isso fica aqui o convite pra irem àquele cantinho espanhol, ali perto da Serra da Malcata. Depois temos também, obviamente, o mirandês. Quem for a Miranda do Douro, no Conselho Miranda do Douro, pode procurar as placas da estrada, pode procurar pessoas a falar mirandês. Em Miranda do Douro em si não é fácil, não é uma língua falada no dia a dia em Miranda do Douro, mas nas aldeias à volta ainda é possível encontrar falantes de mirandês, e também as crianças que estão na escola e que também aprendem mirandês como língua opcional. Fica esse convite. Quem for até França Já demos aqui um salto.
Sempre a saltar de um lado pro outro.
Para o lado dos Pirenéus. Há também, cada vez mais, placas da estrada no sul de França em occitano, que é aquela língua que nós conhecíamos na escola como provençal, que é outro nome para occitano. Portanto, aquela velha língua que nós ouvimos falar dos trovadores, está hoje a ser recuperada nas placas da estrada em muitas zonas do sul de França. Fica também o convite para quem lá quiser ir. E pronto, agora vamos até ao livro da semana.
O que será que trazes esta semana? Vamos descobrir.
Eu pensei se conhecia algum livro que fosse uma espécie de guia turístico.
Trazias um mapa?
Sim, os mapas são sempre um bom guia para olhar para os nomes das terras, para as línguas.
O mapa-mundo. Mas isso não é um livro.
Não, não é. Quer dizer, pode ser um livro. Há os atlas.
De certeza que há. Exato, os atlas.
Em português, não conheço nenhum livro que seja uma espécie de guia turístico linguístico, mas conheço um livro em inglês que eu gostava muito que fosse traduzido. Aliás, o livro começou por ser um livro em neerlandês, escrito por Gastón Dorren, um escritor que gosto muito, um escritor que escreve sobre línguas. Ele escreveu um livro em neerlandês. Curiosamente, a história deste livro é diferente do habitual, porque foi traduzido para inglês e chama-se em inglês "Lingo", mas a edição inglesa sofreu tantas mudanças por iniciativa do autor, em conjunto com o tradutor, tantas mudanças de adaptação, que acabou por ser traduzido de volta ao neerlandês com as alterações e, portanto, há uma versão neerlandesa que é uma tradução da tradução. Por estranho que isso pareça. É um livro que tem esta particularidade, andou a viajar. E é um livro que eu gostava muito que fosse traduzido para português. Já andei a fazer essa sugestão, mas ainda ninguém me ouviu, espero é que oiçam. Aliás, tive uma aluna que trabalhou nele, num trabalho de mestrado, trabalhou na tradução deste livro. Era bom que essa tradução viesse a ser publicada.
Fica aqui o apelo para isso mesmo, Marco Neves.
Porque é um livro muito interessante, é um livro sobre as línguas da Europa numa perspectiva de viajante. Para as pessoas que querem viajar pela Europa e querem reparar mais nas línguas que se escondem. Para lá daquilo que nós sabemos em Portugal, português, em França, francês, há todas essas línguas óbvias, mas depois, para lá disso, há muitas outras línguas, há muito a saber sobre as línguas da Europa. Isto é um livro sobre as línguas da Europa, em particular, e é um livro que vale a pena. Para quem gosta de ler em inglês, fica a sugestão "Lingo", de Gastón Dorren, um bom livro para viajantes linguísticos.
Terminamos com a tua sugestão, Marco Neves, e reforçamos aqui o apelo aos nossos ouvintes. Se têm dúvidas, se discutem com os amigos. Aliás, agora se calhar discussões no trabalho é mais difícil porque vêm as férias, mas discussões em família.
Grande discussão.
Sim, e vêm muitos imigrantes agora para Portugal, que estão emigrados lá fora, na Suíça, na França, no Luxemburgo.
Esse é um excelente tema para um dos nossos episódios de agosto. Temos que pensar nisso.
Vês? Eu penso em tudo, Marco Neves. Dúvidas para o e-mail, podes dizer?
portuguessuave@observador.pt.
Isto porque o Marco não sabe o número de telefone, que é o 910024185. Marco, um grande abraço e agora não até quarta-feira, mas sim até domingo. Até lá.
Até domingo.