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Está no ar o "Português Suave". Aos domingos reunimos sempre com o Marco Neves. Eu sou o João Costa e Silva. Olá, Marco, bem-vindo.
Olá, tudo bem. Cá estamos nós de novo.
Mais uma vez.
Mais uma vez. Já estamos com o maio bem avançado, já vamos a mais de meio de maio.
Daqui a nada estamos nos santos populares.
É, daqui a nada. Aí está o verão.
A dançar a rosinha com uma sardinha na mão.
Como é que é a expressão? Aqui estamos no verão. É isso.
É isso mesmo. Junho é sinônimo de verão.
Sim, exatamente. Junho é sinônimo de verão e maio é sinônimo de pico da primavera.
E alergias.
Exato. Vamos à língua das notícias, vamos avançar. Já estava me esquecendo do separador.
Logo, nem faz em jeito de antecipação.
Não, hoje as pessoas: "vejo até o fim, se quero ouvir".
Vamos a isso.
Duas notícias, uma delas já desatualizada, mas nós não falamos dela no nosso programa, portanto, decidi trazê-la outra vez, que é o Dia da Mãe. Já lá vai.
Sim, o Dia da Mãe é todos os dias.
Exatamente.
Eu digo sempre isto à minha mãe como forma de justificar um não presente.
Muito bem.
O meu presente é estar cá todos os dias.
Eu aqui também estou a usar isto para dar os parabéns à minha mãe, que fez anos no dia 14.
Muito bem.
Então fica aqui o dia da minha mãe. Descobri também quando fui ao Brasil, há umas semanas, que lá o Dia da Mãe não é no primeiro domingo de maio, mas no segundo, curiosamente.
Ok.
É uma semana depois e é o Dia das Mães, não o Dia da Mãe.
Isso entra aqui numa discussão.
Eu ouvi uma pessoa, quando eu disse isto num vídeo: "Mas por que não é das mães todas? É mãe?" É mãe enquanto conceito.
Exato.
Enquanto conceito. E eles que celebram as mães concretas.
Eles levam tudo mais à letra e ao detalhe.
Eles dizem ao contrário. Eles dizem que nós é que levamos tudo à letra. Mas isso é outra discussão. Lembrei-me de falar aqui da origem de mãe, rapidamente. Penso que é tema que já falamos aqui. Vem de uma palavra muito antiga, com 6500 anos, do protoindo-europeu, que é uma daquelas expressões que eu repito muitas vezes aqui.
Andávamos nós aqui a dar os primeiros passos e a mãe a surgir.
Exato. E de certeza que já havia línguas até mais antigas. E era algo como "meh1ter". Há 6500 anos, um filho virava-se para a mãe e dizia: "meh1ter". Digo eu. A verdade é que não temos a certeza, não há gravações, mas é a reconstrução. Provavelmente, será uma daquelas palavras que existe em todas as línguas, ou algo parecido. É difícil imaginar uma língua que não tenha uma palavra pra mãe. Portanto, é uma palavra universal. Mãe, em particular no português, houve ali uma transformação que nós chamamos tecnicamente hipocorística.
O que é esse palavrão?
Este palavrão quer dizer que a certa altura, mãe era uma forma carinhosa de dizer madre. Madre era a origem, a palavra mais normal, formal, e nós começamos a reduzir aquilo pra mãe, como forma carinhosa de dizer madre, e depois acabou por se tornar a forma normal. Portanto, se calhar, daqui a uns mil anos, mãezinha poderá ser a forma normal de dizer.
Eu acho muito carinhoso as pessoas que ainda, sei lá, nos seus 30, 40, 50 anos, ainda chamam a mãe de mamãe. Acho muito carinhoso, muito bonito.
Exatamente. Eu, por acaso, não chamo minha mãe de mamãe, mas ela não se importa.
Eu também não, mas ela também não se importa. Acho que é eu.
A segunda notícia tem a ver com hoje, dia 17 de maio, é um dia particular relacionado com uma área, um território, uma região que tem uma relação muito forte com a nossa língua, mas sobre isso vamos falar no Mapa da Língua.
Sim, isto sim já é em jeito de antecipação.
Então eu hoje decidi falar de três territórios. Estamos no Mapa da Língua. O primeiro é a Galiza, porque hoje é o Dia das Letras Galegas. Um dia muito importante para a Galiza.
Das Letras.
Das Letras Galegas. Mas é um dia que é mesmo muito, eu até diria, parece-me, tanto quanto eu consigo ver a importância que os galegos dão aos dias, que é até mais importante do que o próprio Dia da Galiza, que é em junho ou julho. O Dia das Letras Galegas é um dia muito importante pra eles, em que eles comemoram todos os anos um escritor, um autor, em que falam da literatura, em que falam da língua. Ou seja, pra eles a língua é de fato um fato. É de fato um fato, peço desculpa. É algo muito importante pra sua identidade. E pra nós é importante porque, na verdade, como já aqui discutimos não sei quantas vezes, o galego e o português têm uma relação muito forte. O galego e o português foram a mesma língua durante muito tempo, muito pra lá do latim. E há ainda alguns galegos que consideram que o português e o galego ainda são a mesma língua.
Estava aqui a lembrar que esta sexta-feira também celebrámos o Dia Internacional da Família. Está ligado aqui.
Dia da Mãe em vários países, Dia das Letras Galegas, Dia da Família. O galego é da família do português.
Não, eu lembro-me disto porque há muitas iniciativas a acontecer, tanto este fim de semana, sábado e domingo, a propósito de celebrar este Dia Internacional da Família, e com atividades em vários municípios do país.
Agora, vamos descer da Galiza até Portugal, e eu queria falar aqui de um tema. Ontem tivemos a final da Eurovisão, nós não participamos.
Sim, não chegamos à final.
Não vale a pena falar sobre essas questões.
Tu acompanhaste esta cena? Eu não acompanhei muito.
Este ano foi um ano atípico, digamos assim.
Sim, acho que a atenção está desviada do foco que é a Eurovisão.
Sim, exato. Mas de qualquer formaPorque estamos num programa sobre língua e línguas, tive a curiosidade de procurar alguns estudos sobre o uso das línguas na Eurovisão. O inglês é a língua mais usada, mas não passa dos 50%. Ou seja, se olharmos para todas as canções que já passaram pela Eurovisão, mais de metade não são em inglês, mas quase metade são.
Ainda ali muito perto.
Estamos a falar desde o início. Nas primeiras décadas, o inglês quase não era usado.
Eu, por acaso, sou defensor, entre aspas, de que os países deviam cantar na sua língua materna.
Sim, e até certa altura era muito difícil cantar noutra língua. Foi só a partir de 99, 2000, que o inglês explodiu.
O ano em que eu nasci.
Explodiu. E agora, o mais curioso é: sabes qual foi o ano em que houve o pico do uso do inglês, em que a maior percentagem de canções da Eurovisão foi em inglês, e depois começou a descer? Neste momento, estamos numa fase descendente.
2010.
Não. 2017 foi o ano em que Portugal ganhou com Salvador Sobral. Ou seja, aquele momento foi o momento em que mais músicas estavam a ser cantadas em inglês e ganha o Salvador Sobral a cantar em português, sem qualquer palavra em inglês. E a partir daí, nós olhamos pro gráfico e vemos que começa a descer. Ou seja, neste momento, o uso inglês está em decadência na Eurovisão, o que é muito curioso. Não diria apetitoso, nós sabemos que correlação não é causalidade, pode não haver causa, mas apetece dizer que foi por causa também de Salvador Sobral que o inglês começa a ser menos usado e que os países começam a enviar mais canções na sua própria língua. Talvez seja. O inglês continua a ser muito usado, há muitas músicas em inglês, mas sabe-se bem, Salvador Sobral provou isso muito bem, não é preciso cantar em inglês pra ganhar a Eurovisão.
Sabes que eu tenho muita curiosidade, vou dizer isto, com as participações da Ucrânia na Eurovisão, nomeadamente quando começou este conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Desde que começou, a Ucrânia canta geralmente e quase sempre, arrisco-me a dizer, na língua materna. E eu gosto muito de sempre de ir ver depois a tradução, perceber o que é que diz a letra, porque geralmente há sempre pequenas referências àquilo que está a acontecer e mensagens de esperança pra que termine esse conflito.
Foi este?
É deste ano, por acaso ainda não vi, porque não estou a acompanhar. Mas gostei muito da canção do ano passado e pra mim era a vencedora, a da Ucrânia. Mas pronto, vamos seguir, não é?
Como disse, tinham três pontos.
Ah, falta um.
Estava a falar do Brasília, mas vamos avançar pros mitos e origens, porque isto também tem a ver com mitos e origens.
É? Então vamos lá.
Vamos pros mitos e origens. E neste caso, a origem é a origem dos sotaques. Muitas pessoas já nos perguntaram: por que existem pronúncias diferentes? E nós já falamos aqui disso várias vezes.
Num país tão pequeno, como é que há tanta pronúncia?
Eu gostava aqui só de revelar uma coisa que eu aprendi. Há uma equipa de investigadores linguistas na Universidade de Brasília, que eu conheci, que estão a estudar o desenvolvimento particular do português em Brasília. O que é curioso, porque Brasília tem 60 e poucos anos. É uma cidade criada artificialmente, uma cidade planeada no início dos anos 60. E já existe uma forma particular de falar de lá, tendo em conta as várias misturas de pessoas que vieram de outros sítios, com as pessoas que têm mais visibilidade pública, de onde é que vinham os trabalhadores que foram pra lá criar a cidade, de onde é que vinham as pessoas que lá vivem. A verdade é que estes linguistas conseguem detetar características próprias da pronúncia, até da gramática e até do vocabulário em Brasília. Isto é só uma espécie de experiência laboratorial, é como se fosse um laboratório, que mostra que, em geral, a tendência é mesmo pra haver variação, ou seja, que uma cidade, uma terra, vai sempre ter formas próprias de falar, porque as pessoas dentro dessa cidade falam mais umas com as outras do que com as pessoas de fora. E por isso algumas tendências da língua vão ficar mais marcadas naquele sítio. E isso, no fundo, também nos revela, olhando pra Brasília, por que razão é que nós temos pronúncias diferentes no resto do país, lá no Brasil, e aqui em Portugal e nos outros países de língua portuguesa. As várias terras de Portugal eram até mais isoladas antigamente, e por isso é normal que certas palavras circulassem mais nessa terra e ficassem com características regionais.
É muito curioso tu falares sobre isso, sobre Brasília, porque não sei se tens essa percepção, mas até quando falamos e quando perguntamos a capital do Brasil, as pessoas nem sempre associam imediatamente Brasília, falam mais de Rio de Janeiro, São Paulo.
As capitais do Brasil, já que estamos a falar de geografia, foram Salvador, da Bahia, no início, quando ainda era uma colônia, depois foi o Rio de Janeiro e agora é Brasília, há relativamente pouco tempo, há poucas décadas. Há mais países assim, a Austrália tem Canberra. Como é que se pronuncia essa terra? Olha, boa pergunta. Olha, fiquei eu com uma dúvida. Tem de ser pro próximo episódio. Temos Washington. Washington também é uma cidade que não é a principal do país. É engraçado, na América, há vários países onde a maior cidade não é a cidade capital, o que é curioso.
Sim, mas há tantos estados nos Estados Unidos.
Não, mas estou a falar mesmo, o Canadá, por exemplo, também não é a maior cidade que é a capital, o Brasil também não é. Penso que o México é, sim, a Cidade do México, mas há vários países em que isso não acontece. E hoje foi sobre as origens do sotaque e temos que passar pra nossa quarta secção. Lembras-te que temos-
Mais uma, não é? Com este separador incrível. Um dia fazemos ao vivo, aqui com esta musiquinha.
Tá vai, vamos fazer. Isso é um desafio que já está em cima da mesa há muito tempo e temos que pensar em fazer o "Português Suave" ao vivo. Olha, se tu às vezes me chamas o ninja da língua portuguesa, não sei se conheces o ninja do latim
Quem é?
André Simões, o professor que tem uma conta no TikTok e no Instagram sobre latim.
És tu, só que em latim.
Não é em latim, ele geralmente fala em português.
Sobre latim.
Já acompanho há vários anos o André Simões, professor da Universidade de Lisboa, que tem várias contas muito interessantes em várias redes sociais sobre latim, muito seguidas, muito comentadas.
Tenho de espreitar.
A esta surpresa, às vezes, que as pessoas têm, às vezes dizem-me a mim que se surpreendem por alguém estar a falar da língua portuguesa e ter tantos seguidores. Eu acho mais surpreendente o latim, que é uma língua que nós usamos todos os dias, porque nós estamos a falar latim.
Sim, não temos é essa percepção.
Sim, estamos a falar latim muito mastigado, mas vale muito a pena conhecer o André Simões nas redes sociais. Ele fala latim e não só. E ele tem um livro recente chamado "Lusitânia", em que ele tenta reconstruir a vida privada de uma família em Lisboa na altura do Império Romano. É um livro muito interessante. Confesso que não li até o fim, já li uma grande parte, mas como tive esta viagem ao Brasil há uns tempos. Mas já li uma parte grande e vale bem a pena conhecer esta família. Uma das personagens é Marco, fiquei muito surpreendido, porque Marco é um nome muito romano nesse aspecto. E permite-nos conhecer Lisboa numa época que nós sabemos que existiu, mas raramente pensamos nas questões mais miudinhas. Como é que era ir à casa de banho em Lisboa na altura do Império Romano, como é que era tomar banho, coisas assim desse género. Portanto, acho que é um livro muito interessante. Tem que ver com a língua? Claro que tem, porque tem a ver com a época que nos trouxe a língua que, na verdade, ainda hoje falamos depois de muitas transformações.
Falamos aqui do André Simões, deste livro que se chama "Lusitânia". Quem também tem um livro muito recente é o Marco Neves. Marco, por onde é que tu vais andar agora?
Olha, antes de mais, na terça-feira, dia 19, vou estar já a apresentar o livro, e já vou dizer onde, mas queria só também sublinhar que vou estar também na Feira do Livro. Venham aí à Feira do Livro.
Quando é que começa a Feira do Livro?
Olha, boa pergunta, mas é agora no final de maio. Podemos ver a Feira do Livro.
Estamos aqui a pesquisar em direto.
Estamos a pesquisar em direto qual é a data.
De 27 de maio a 14 de junho.
Pronto, e vou lá estar várias vezes. Mas antes disso, na terça-feira, dia 19 de maio, vou estar a apresentar o livro na Livraria da Travessa, no Príncipe Real, e gostaria de convidar todas as pessoas a lá aparecer para o lançamento oficial. Já tive sessões sobre o livro, mas não houve o lançamento oficial. Vai ser com o Fernando Alvim, o Fernando Alvim vai estar a apresentar.
Boa. Estás bem acompanhado.
Estou bem acompanhado e vamos lá estar a conversar sobre as raízes da língua.
Olha, não vou estar lá porque vou tirar um siso e vou estar a convalescer.
Tenho pena por não estares.
Mas vou estar na Feira do Livro, de certeza.
Pronto, então na Feira do Livro encontramos por lá. Vamos conversar.
Fica combinado.
E era bom também termos um encontro com os ouvintes.
Era giro, eu gostava. Dúvidas, já sabe, para o "Português Suave", enviar para o e-mail:
portuguessuave@observador.pt.
E também para o nosso WhatsApp, mensagens escritas, mensagens de voz, até 30, 40 segundos. Queremos ouvi-lo através do 91 002 41 85. Não se esqueça que queremos cumprir aquele desejo de um dia apanhar uma discussão enquanto discutem a língua portuguesa.
É que senão tinha que ser eu a gravar lá em casa, a ter uma discussão sobre língua portuguesa.
Olha as baianas. Isso deu-te dor de cabeça ou nem por isso?
Eu contei logo antes que ela fosse ouvir, exato.
Sim, não fosse arranjar problemas lá em casa. Marco Neves, até quarta-feira. Um abraço.