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Seja muito bem-vindo ao "Português Suave", na Rádio Observador. Estamos por cá ao domingo e à quarta-feira. Eu sou o João Costa e Silva e está comigo, claro, o ninja que a língua já consagrou, a língua portuguesa, claro. Marco Neves, bem-vindo.

Olá, está tudo bem? Hoje tenho que começar por dizer que vamos ter um dia especial pra língua portuguesa no dia 10 de junho, que está quase.

Merece, não é?

Merece, sim, claro. A língua portuguesa tem vários dias. Há o Dia Mundial da Língua Portuguesa, que é o dia 5 de maio. Há o Dia Nacional da Língua Portuguesa no Brasil, que é o dia 21 de maio, salvo erro, posso estar enganado. Não sei se os outros países de língua portuguesa têm dias próprios. Nós cá comemoramos o Dia Nacional no dia 10 de junho, porque não deixa de ser o dia do país e de Camões. Falaremos disso na quarta-feira.

Exato.

Hoje, para adiantar serviço, vamos falar das dúvidas que recebemos dos nossos ouvintes.

Quem fica a ganhar são os nossos ouvintes, porque ficam com um episódio especial na quarta-feira pra falar sobre o 10 de junho e hoje ficam com mais tempo pras dúvidas.

Portanto, vamos já avançar com a primeira dúvida de João Miranda.

Vamos ouvir.

Vamos ouvir?

Olá, Marco. Eu tenho uma amiga brasileira e agora que estamos na época do Campeonato do Mundo, ou da Copa, estamos a discutir a origem da palavra "golo" em português e- "Gol" no Brasil. E gostávamos de perceber por que os dois países dizem de forma diferente. Obrigado.

Então, Marco Neves.

O que acontece aqui é o que acontece com muitos termos que foram importados já depois da separação política entre Portugal e o Brasil. O Brasil torna-se independente no início do século XIX. Não é que as relações tinham sido cortadas, continuamos a ter muitas relações literárias e culturais entre escritores, e não só, mas é claro que há uma maior separação, a partir do momento em que há uma independência. E por isso, quando começam a surgir termos particulares relacionados com o futebol, pra falar aqui deste caso, muitas vezes as duas sociedades não olham uma pra outra, ou não olhavam, e por isso simplesmente adaptavam a palavra que vinha de fora de maneira diferente. Portanto, os estrangeirismos serviram, em certos pontos, para afastar as duas variedades. E digo duas, porque estamos a falar do Brasil e de Portugal, que na época eram os dois países que falavam português, depois outros países que se juntaram à família. E por isso, simplesmente a razão é esta: havia uma palavra inglesa original, goal, que queria dizer objetivo. O objetivo do jogo era esse. E depois foi adaptado de maneira diferente em Portugal e no Brasil. Há outros casos parecidos em que nós temos áreas onde há este afastamento e são áreas relativamente recentes. Posso te dizer que dá uma sensação que nas últimas décadas tem havido uma maior atenção de Portugal ao Brasil.

Nós já dissemos isto num dos episódios da semana passada, acho eu.

Exatamente. Também me parece que estamos agora a viver numa época em que o Brasil começa a dar um pouco mais de atenção aos outros países, pro bem e pro mal. Isto eu digo pro bem e pro mal, pros dois lados.

Claro.

Pro Brasil, claro. E por isso, se calhar, agora já seria mais fácil que uma palavra ficasse igual se fosse importada hoje. Não sei. É uma hipótese de trabalho que não sei se confirma ou não. Portanto, a explicação é só essa: temos uma palavra inglesa que deu origem a duas palavras diferentes, porque os brasileiros e os portugueses importaram-na em separado e não olharam pro outro lado, e as duas formas de importar a palavra são legítimas no âmbito da língua portuguesa, e por isso os brasileiros ficaram com gol, sem o O no fim, e nós ficamos com o O no fim.

Muito bem.

E é assim.

Um abraço pro João Miranda e também pra sua amiga. Que seja uma boa Copa, um bom Mundial, que está aí quase a começar.

Vamos ver. Quem é que vai ganhar? Será que Portugal ou o Brasil poderão ganhar?

Sim, eu gostava muito. Era muito bom que Portugal ganhasse, até porque seria o último mundial do Cristiano Ronaldo e tinha aqui um simbolismo especial. Ficávamos todos muito contentes.

É mesmo, vamos a isso, vamos ganhar.

Marco, e agora?

Neste caso, eu acho que nenhum brasileiro se importa que nós digamos que-

Olha que eu acho que se importam.

O quê? De nós dizermos que gostávamos que Portugal ganhasse, achas que não? Digo eu.

Não sei. Há muita competitividade até nisto.

Não, claro que há, mas eu também não estou à espera dos brasileiros dizerem que gostavam que Portugal ganhasse.

Sim, claro. Isso, sim.

Portanto, acho que vamos ver quem ganha e nós esperamos que seja Portugal.

Claro. Olha, vamos agora à próxima do Rui.

Vamos a isso.

Ele não vai sozinho.

Marco Neves, estávamos aqui no meio de uma discussão e lembramos que realmente esta discussão é ótima pra te fazer uma pergunta. Eu estou aqui com meu filho, com o Pedro, e temos aqui uma divergência. Ele tem cinco anos e ele diz que é "a Google", mas não é, é "o Google", não é? É "a Google". Não, "o Google". "A Google". Marco Neves, ajuda-nos, por favor.

Finalmente começamos a ter-

Começamos a ter discussões, exato

...ao vivo. Neste caso, o que acontece é que são coisas diferentes. Ou seja, nós podemos falar de a Google quando falamos da empresa, que neste momento até já se chama Alphabet, e o Google é o website.

O motor de busca.

Pois, o motor de busca. Portanto, nós podemos ir pesquisar alguma coisa ao Google, que pertence à Google, que entretanto mudou de nome. E assim ficam todos contentes aí em casa e espero que a discussão, não precisa terminar, porque estas discussões são interessantes. Mas pronto, a Google é uma coisa, o Google é outra, e eu não vou fazer pesquisas à Google, mas vou ao Google fazer pesquisas. E pronto.

Muito bem.

Está respondido. E eu estou obrigado, fiquei muito contente por ouvir.

Sim, começamos a cumprir, finalmente. É que eu e o Marco Neves, para quem nos está a ouvir, se calhar, pela primeira vez, não sabe do que estamos a falar, nós temos um desejo, que é um dia receber um áudio em plena discussão da dúvida que estão a ter. E tivemos aqui o Rui e o filho Pedro a tentar cumprir, quase.

Pronto, e fica aqui um agradecimento ao Pedro e também ao Rui.

Exato.

Vamos à próxima dúvida.

Vamos ouvir o David. Exatamente.

Olá, João e Marco.

Olá.

O meu nome é David, sou um ouvinte vosso. Aliás, acabei agora de ouvir episódios enquanto almoçava. E a minha dúvida prende-se com algumas profissões e por que a terminação não é sempre igual. Isto é, temos, por exemplo, jornal, jornalista, bar, barista e motor, motorista. Mas, por outro lado, temos cabelo, cabeleireiro, sapato, sapateiro e não temos sapatista ou cabeleirista, se poderia fazer sentido. Queria perceber de onde é que veio esta diferença e se alguma vez eram diferentes daquilo que são hoje. Obrigado e sucesso para o vosso programa.

Cabeleiri... Eu não consigo dizer isto. Ia ser muito difícil, Marco Neves.

O quê? Dizeres o quê?

Se dissesse cabeleireirista.

Não, mas tens outra palavra, já lá chego. Há uma palavra que poderá substituir cabeleireiro com o "ista" no fim. Antes de chegarmos a essa palavra, são dois sufixos que parecem significar a mesma coisa, mas como sempre na língua, há algumas tendências e depois também há casos que atrapalham essas tendências. A tendência é para usar o "ista" quando aquela tarefa é vista como artística ou criativa. Um artista. Temos o jornalista, o barista, que também tem alguma coisa de arte, ou pelo menos é isso que se pretende quando se diz barista. Repara, nós temos jornalista, por um lado, mas temos jornaleiro, que é uma tarefa menos criativa, e o "eiro", de facto, está mais relacionado com tarefas menos criativas. Mas isto não é uma regra, é apenas uma tendência, porque depois também temos motorista. Nós sabemos que conduzir às vezes precisa de muita criatividade, mas não será uma profissão normalmente associada à criatividade como é o jornalista. Se calhar estou a ser injusto. O cabeleireiro eu acho que é muito artístico, é uma tarefa artística, é uma tarefa criativa e por isso também há a tendência, às vezes, para falar de estilista, por exemplo, noutros contextos, quase que podemos dizer o estilista do cabelo. Não sei se estás a perceber o que eu quero dizer.

Sim.

Há esta tendência. Depois temos o sapateiro, temos outras profissões mais práticas, mais de mãos na massa. Por isso é que o cabeleireiro também é cabeleireiro. Eu diria que aqui o motorista é que está um pouco a falhar e o barista, no fundo, também. É uma tendência que eu vejo nestes dois sufixos. Agora, isto é apenas tendências que nós podemos encontrar ao olhar para aquilo que os falantes fizeram, mas os falantes muitas vezes não estão a pensar nisto e por isso depois temos casos em que não funcionam. Devo dizer ainda que o "eiro" também serve para sítios. Estamos na costa, uma pessoa que está na costa, ou melhor, alguma coisa que está na costa é costeiro, ainda que não tenha a ver com nenhuma profissão. Depois temos o caso de quem é do Brasil, é brasileiro. E aqui há uma história antiga que o nome brasileiro terá vindo de uma profissão, de brasileiro, relacionada com o próprio nome Brasil, que é o nome de uma madeira. Mas isso é uma história para ficar para outro dia. Mas o "eiro", por exemplo, aqui é aplicado a uma nacionalidade, que também não é habitual, o que também mostra como por vezes os sufixos são muito desarrumados. Portanto, resumindo tudo isto: temos dois sufixos que servem para profissões. Parece-me haver aqui uma tendência para usar o "ista" para profissões com uma tendência um pouco mais criativa, o "eiro" para mais práticas, mais mãos na massa, mas isso não é nenhuma regra, é apenas uma tendência ao longo da história, como acontece em muitos outros casos da língua portuguesa.

Muito bem, Marco Neves. Ainda bem que existes para nos esclareceres sobre profissões, também. Nunca pensei, mas a verdade é essa. Existem tantas dúvidas que qualquer dia estamos a falar aqui de temas que se calhar nunca pensávamos que íamos falar em rádio.

Acho que a língua está ligada a todos os temas.

Exato. O que pode ser perigoso.

Pois é, exatamente. Vamos à quarta dúvida.

Vamos ouvir uma família agora, parece-me, não é?

Não. Olha, toma a casa.

Olá, Marco Neves. Estamos aqui com uma dúvida à mesa. Querem dizer olá?

Olá, Marco Neves.

Não queres dizer? Estou aqui com a Luísa, que está na primeira classe. E nós estamos aqui com uma dúvida, que um dos trabalhos de casa é: antes do B e antes do P, a letra M. Mas agora eu estava-me a lembrar aqui a minha mulher estava a perguntar por uma palavra, e a palavra que me veio à cabeça foi membro, e membro tem um N. Como é que isto é? Afinal, não há uma regra? Obrigado. Querem dizer adeus?

Adeus. Mas quem é esse?

É o Marco Neves. De um programa que se chama Português Suave.

Digam adeus.

Adeus. "Mas quem é esse?"

O Bernardo, o Francisco e a Luísa. Olá a todos. Cá estamos nós, do Português Suave, o João e o Marco, somos nós.

Sejam bem-vindos.

Muito obrigado pela pergunta. Acontece muito, às vezes estou ao pé dos meus filhos e atrapalho-me muito, mas aqui o Bernardo atrapalhou-se um pouco porque membro, na verdade, tem M. É um M. É o que acontece, quando nós estamos com os filhos, ficamos todos baralhados. Também já me aconteceu. E membro tem M. Portanto, esta regra é bastante sólida. Antes de um B e de um P, nós usamos um M quando a sílaba anterior precisa ter uma letra para assinalar a nasalidade. Eu tenho que dizer aqui várias coisas. Primeiro, por que isto acontece? Porque isto é uma tradição muito antiga da ortografia portuguesa, e não só, não é só da portuguesa. Tem que ver com a forma como nós pronunciamos o BE o P, em que a forma aproxima-se mais do M do que do N e por isso acabamos por usar o M, apesar de, na verdade, nós não dizermos o M, nós simplesmente nasalizamos, que é uma palavra muito feia, a vogal anterior. Mas esta tradição vem dessa forma muito parecida de pronunciar o B, o P e o M. Estou a dizer à primária. Devo dizer que ainda há uma terceira letra, é o B, o P, e ainda há uma terceira letra que obriga ao uso do M, que é o próprio M. Há uma palavra, que é comumente, que tem dois M. Ou seja, o "mente" começa por M e como nós queremos nasalizar o U, temos que pôr também um M e não um N. Isto dizer M e N na rádio é um pouco-

É estranho, não é?

Porque são sons muito parecidos e espero ter ficado claro o que eu queria dizer. Mas eu gostava muito de agradecer esta conversa e gostava que houvesse mais conversas destas.

É então mais divertido, não é?

São deliciosas.

Exato. Um abraço.

Um abraço pro Bernardo, pra Francisca e pra Luísa e pra todos aí em casa e obrigado pela pergunta.

E venham te ver à Feira do Livro ou então na televisão. Tu estás em todo lado, Marco Neves, até nas redes sociais, para saber quem é que é este. Porque é preciso.

Se quiserem aparecer na Feira do Livro, vou lá estar.

Estás por lá quando, agora?

Hoje, dia 7, vou lá estar. Agora vou perguntar, penso que às 16h, vou falar de um dos meus livros, o "Atlas da Escrita", às 16h, hoje, domingo. Deste domingo vou lá estar e depois ainda vou lá passar amanhã para apresentar outro livro, vou andar por lá.

Sim. Se quem quiser ver o Marco Neves, pode ir às redes sociais, pode ir à Feira do Livro ou então ouvi-lo por aqui todas as semanas no "Português Suave". Já sabe, se tiver dúvidas, envie-nos através do 91 002 41 85, é o nosso WhatsApp. Foi através do WhatsApp que recebemos estas dúvidas em mensagem de voz para este episódio, mas também pode usar o nosso e-mail, que é portuguessuave@observador.pt. Marco Neves, um abraço, fica bem.

Até quarta.

E até quarta, isso mesmo.