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Seja muito bem-vindo ao "Português Suave", edição de domingo. Eu sou o João Costa e Silva. Olá, Marco Nunes.

Olá, tudo bem? Cá estamos.

Tudo bem. Por cá está tudo bem. A nível internacional, as coisas estão um bocadinho complicadas.

Nós tínhamos planeado um episódio muito engraçado que ainda havemos de fazer.

É verdade. E uma das dúvidas até é minha.

Exato. Qual é que era a dúvida?

Que era a origem do "ok".

Exatamente. Nós tínhamos isso planeado, mas hoje fomos atropelados pelas notícias. Mas havemos de dizer qual é a origem de "ok".

Sim, fica para a próxima semana. Fica combinado.

Esperemos que para a próxima semana possamos fazer isso.

Sim. Fomos aqui atropelados pela atualidade. Tínhamos outro episódio programado, mas hoje vamos dar atenção ao Meio Oriente. Vamos falar, inclusive, de uma palavra que já dissemos aqui ainda há pouco nas notícias: aiatolá.

Sim, vamos falar do aiatolá. Vamos à língua nas notícias.

Vamos a isso.

Aiatolá é uma palavra muito conhecida, principalmente quando falamos do Irão e de qualquer notícia relacionada com o país.

Dita em português, tem graça.

Tem graça. É verdade. Às vezes acontece isto. Nós temos palavras que têm um significado muito preciso, que vêm de outra língua. Não sei se sabes que, por exemplo, uma palavra que pra nós é muito banal, para os espanhóis tem graça e eu nunca cheguei a perceber muito bem o porquê, que é a palavra guardanapo. Para eles, guardanapo, não sei, deve estar relacionado com nariz. Mas pronto. Neste caso, aiatolá tem alguma graça em português. Em persa, é uma palavra que tem origem árabe, curiosamente, e que queria dizer sinal de Deus, e é usado para clérigos de elevado prestígio no Islão xiita. O aiatolá não é só o líder supremo, que morreu hoje, mas há vários aiatolás no Irão. Portanto, é fácil de explicar, tem uma origem árabe, é uma palavra religiosa, é um termo religioso para uma pessoa que tem uma determinada importância naquela religião. E agora vamos avançar para o próprio nome do país, porque nós sabemos que temos Irão. Mas também temos Pérsia. E qual é que é o nome certo? Qual é que é o nome correto? Na verdade, estão os dois corretos. O termo Irão é um termo de origem persa, ou seja, na própria língua. É muito antigo, já usado há muitos séculos. Está relacionado com um termo que podemos dizer que é um termo de má memória na Europa.

Então.

Que é o termo ariano. Um termo étnico de um determinado povo, que foi muito usado de forma mitificada, muito exagerada, absurda, quase, pelo nazismo para designar um povo supostamente muito puro.

A chamada raça ariana.

Exatamente. Mas, de qualquer forma, é verdade que o termo Irão tem origem na mesma palavra que deu origem a ariano noutras línguas. Esse é o termo Irão. Pérsia é um termo de origem geográfica e não étnica, e está ligado a uma parte, a uma província do atual Irão, mas era um nome que nós sempre demos durante muitos séculos, da mesma forma que nós também damos o nome Grécia, apesar de os gregos não darem o nome de Grécia à Grécia, que dizemos China, apesar de não ser um termo que seja usado habitualmente na China. No fundo, Pérsia é o termo clássico, o termo tradicional para aquela civilização, se quisermos, para aquele país. Não deixa de ter origem na língua do Irão. Portanto, Pérsia também tem origem, mas relaciona-se com uma parte do Irão. E pronto.

Muito bem. A língua das notícias está ultrapassada. Falámos aqui de aiatolá e do Irão. Muito bem.

E agora vamos para o mapa da língua.

Vamos lá.

Pronto, João, não sei que línguas é que são envolvidas neste conflito. Temos o persa, temos o árabe, porque os países árabes ali à volta também estão envolvidos neste conflito. Temos o hebraico, de Israel, e temos o inglês. E eu gostava de falar um pouco destas várias línguas, porque elas têm relações curiosas. Isto, claro, para perceber a guerra não será assim tão relevante, mas eu penso que nos ajuda a perceber o contexto geral histórico daquela região. Portanto, temos aqui o persa, que muitas pessoas insistem em chamar farsi, que é o nome da língua em persa, portanto, não é o nome correto, é simplesmente o nome que em persa se dá àquela língua, e nós chamamos persa, como também chamamos inglês à língua que os ingleses chamam inglês. Portanto, não é um erro. É um termo com origem no próprio persa. O nome persa começou nessa língua, passou para o grego e depois chegou até nós. Agora, o que talvez não seja assim tão conhecido é que o persa é falado em mais do que um país. O persa é falado no Irão, onde é uma língua muito antiga, muito importante, uma língua imperial. Quando tínhamos o grego antigo a ser falado na Grécia Antiga, já existia o persa antigo, neste caso. Portanto, é uma língua antiquíssima, com muita tradição literária, histórica, imperial, que deu muitas palavras a muitas línguas, incluindo à nossa própria língua.

À nossa, ao português.

Sim, já lá chegamos. No final, gostava de dizer algumas dessas palavras. E é falado no Irão, é falado também no Afeganistão, com outro nome, dari, mas é uma das línguas do Afeganistão, e é falado no Tajiquistão, com o nome tadjique. Neste caso, no Tajiquistão, enquanto que nos outros dois países a língua é escrita com aquele alfabeto que nós conhecemos como alfabeto árabe, mas na verdade é o alfabeto persa e árabe.

Sim.

No Tajiquistão é escrita com o alfabeto cirílico, o mesmo alfabeto que o russo.

Qual deles é o mais complicado?

É o persa, diria eu. Para nós, pelo menos, porque o sistema de escrita cirílico é parecido com o nosso. Além disso, o sistema de escrita cirílico tem consoantes e vogais completas, enquanto que o sistema de escrita árabe e persa, a relação com as vogais é um pouco diferente e é mais complexa.

Não é tão decifrável à primeira vista.

À primeira vista, não, claro, nós não conhecemos. Mas além disso, há algumas complicações que são próprias daquele sistema de escrita, mas é um sistema de escrita que tem a mesma origem que o nosso.

Sim.

Só que é escrito da direita pra esquerda, as letras ficam todas ligadas umas às outras.

Só isso, por si só, já é um bocadinho complicado.

Já complica um bocadinho pra nós que estamos habituados. De qualquer forma, dito isto As relações entre as línguas são muito diferentes daquelas que nós pensamos quando olhamos pro sistema de escrita. Nós olhamos pra o persa e pensamos: "Isto deve ter alguma relação com o árabe, porque é o mesmo sistema de escrita". Não tem relação com o árabe, quer dizer, tem a mesma relação que nós também temos. O árabe deu-nos muitas palavras. Há palavras árabes que também vieram das línguas, do português diretamente talvez não, mas de várias línguas europeias. Por acaso, há uma palavra árabe que vem do português, já falamos dela, que é a palavra que eles usam hoje para laranja, mas depois falaremos disso.

Já lá vamos.

Agora, o persa e o árabe são línguas de famílias completamente diferentes. O árabe e o hebraico são da mesma família, o árabe e o hebraico são línguas semíticas, essas sim estão relacionadas. E agora, o inglês e o persa, curiosamente, são da mesma família. Portanto, o persa é da família do inglês, do português, da família indo-europeia. Tem uma mesma origem numa língua falada há uns 6 mil anos, que já falamos aqui muitas vezes, o protoindoeuropeu. E nós conseguimos ver isto de forma muito clara quando comparamos algumas palavras relacionadas com família em persa e em inglês. O inglês é mais fácil de ver isso, porque digamos que as línguas latinas afastaram-se mais de algumas outras línguas, mas podemos ver que em persa, a palavra filha, que em inglês todos sabemos que é daughter. E tem lá aquele GH no meio que representa um som que já desapareceu. Em persa é algo como, e eu não sou especialista em pronuncia persa, mas é algo como "doxtar", muito parecido com daughter.

Parece bem a tua pronúncia.

Irmão, em persa é brother, que também não é muito longe do brother, do inglês.

Não é muito longe, não. É parecido até.

Mãe, em persa é mother, o que ainda é mais parecido com a nossa. Provavelmente será pronunciado algo como "madar", não exatamente como eu pronunciei, e pai é "pedar". Aqui afasta-se mais do inglês, mas tem aquele P, que, na verdade, está na maior parte das palavras para pai nas línguas indo-europeias, incluindo a nossa. Aí temos o padre. Há muitas palavras.

Sim, há parecenças, não é?

E depois há muitas outras, isto é só uma amostra. A língua tem, de facto, muitas parecenças com as outras línguas indo-europeias. As línguas indo-europeias têm uma relação muito forte. Isto é escondido pelo sistema de escrita. Nós não vemos isto porque o sistema de escrita não nos permite ver isto. E mesmo quando ouvimos, também não é fácil, porque nós sabemos que as pessoas pronunciam as línguas de forma muito rápida e não é fácil perceber isto. Nós temos a terceira secção e eu tinha, antes de chegar a essa secção, algo pra dizer sobre isso. Há um mito relacionado com as línguas, mas antes disso eu gostava de mostrar algumas palavras, não sei se temos tempo.

Temos tempo. Com confiança.

Algumas palavras portuguesas têm origem ou passaram pelo persa. Mais uma vez, não é novidade, nós já falamos disto aqui há uns meses, salvo erro.

Vou ficar muito surpreendido.

Vais? Não. Vais fingir que vais ficar surpreendido. Vamos começar pelas mais óbvias. Vamos começar pelo chá, o chá da Pérsia. Não o chá que nós bebemos, esse tem outra origem. O chá da Pérsia, chá, aquela palavra tem origem no persa e acho que ninguém se surpreende muito com essa. Mas depois temos outras mais surpreendentes, como pijama. Pijama, que nós vestimos confortavelmente ao final do dia, também tem origem no persa, embora tenha passado pelo hindi, pelo inglês e chegou ao português. Depois temos açúcar. Açúcar também veio do persa, ou melhor, passou pelo persa, já tinha vindo de outra língua, passou depois pelo árabe e chegou ao português. E depois a palavra que eu acho muito engraçada sempre que falo dela, porque vem do Afeganistão, na verdade, onde se fala persa e chegou a nós através das rotas da seda: azul. A palavra azul vem do persa e chegou até nós e hoje nós usamos todos os dias, sem saber que estamos a usar uma palavra que passou pelo persa. E há mais umas quantas, mas se calhar queria só falar aqui de um pequeno mito relacionado com tudo isto.

Então vamos lá, vamos a isso.

E o que eu gostava de dizer, isto é relativamente rápido e é mais uma opinião, não é tanto um facto como por vezes eu trago aqui, mas é mais uma perspectiva minha relacionada com tudo isto. É que por vezes há a ideia de que as línguas, no fundo, são um fator de desacordo entre os povos. Mas se nós olharmos bem ou pensarmos bem naquilo que eu acabei de descrever, nós vemos que, por exemplo, a proximidade linguística entre duas línguas não tem nenhuma relação com, depois, digamos, a falta de conflito ou a paz entre aqueles povos que falam aquelas línguas. Todas estas línguas que nós falamos, o hebraico e o árabe são as mais semelhantes, estão muito próximas e não se pode propriamente dizer que isso represente muita paz entre os povos que falam estas línguas. É mais quando nós tentamos atacar uma língua, no sentido em que tentamos impedir que algum povo a fale, que aí representa um fator de conflito. Fora disso, dois povos podem falar precisamente a mesma língua, ou línguas muito próximas, ou línguas da mesma família, e odiarem-se profundamente. Ou então falarem línguas muito afastadas e estarem naquela situação do mesmo lado num conflito. Portanto, há esta ideia de que as línguas em si, pela própria diferença que têm, são origem de conflitos, quando na verdade é mais as atitudes que se têm perante os povos.

Claro.

Isto pode parecer muito óbvio, mas eu ouço tantas vezes dizer que: "Ah, se falássemos todos a mesma língua, nos entendíamos mais".

Não, de todo.

Eu às vezes digo, é mais fácil.

Até se calhar ia ser pior porque íamos compreender todos.

Basta olhar para, estamos a falar de conflitos muito diferentes, os conflitos a sério do que estamos a falar aqui hoje, mas basta olhar para as caixas de comentários da internet para vermos que os conflitos estão entre pessoas que falam a mesma língua. Pessoas que falam línguas diferentes, muitas vezes até se divertem com isso.

É verdade.

A tua língua é diferente. Portanto, não é a língua em si que é o problema, é depois tudo aquilo que nós dizemos, na verdade. Como estavas a dizer, às vezes, se nós nos compreendermos, ainda pode ser melhor do que se calhar esta barreira. E pronto, foi só um mito. Não sei se temos muito tempo ou não.

Já não temos muito mais, mas diz-me.

Não, era só pra dizer que depois, além destas palavras que eu tinha dito há pouco que vêm do persa, há muitas outras, mas nós deixamos isso pra outro episódio, pro próximo episódio.

Não, mas diz, ainda temos tempo.

Não, olha, por exemplo, a palavra magia. A palavra magia vem do persa antigo e chegou à nossa língua através do grego. Depois do grego passou pra latim, depois chegamos ao português. É possível que, é possível, não, esta de certeza que vem. Xadrez também passou pelo persa. Há quem diga que a palavra, e aqui há, digamos

Mais dúvidas.

Mais dúvidas, a palavra xeque, que nós usamos antigamente. Terá passado pelo inglês, mas também chegou até nós. Enfim, é uma língua que nós falamos poucas vezes, normalmente só neste contexto de conflito, mas que foi muito importante ao longo de toda a história.

Sim, e que nos trouxe muitas palavras, não é? Que hoje usamos e às vezes nem sequer sabemos de onde vêm. Marco Neves, nós estamos de regresso na quarta-feira, só com dúvidas, pra onde é que podem enviar os nossos ouvintes?

portuguessuave@observador.pt e para o telefone que não vou dizer.

Que é o 910 002 41 85, 910 002 41 85. Enviem dúvidas através do WhatsApp. Estaremos cá na quarta para esclarecer.

No próximo domingo falaremos de ok.

Sim, e há lá uma expressão também muito gira. Não vamos revelar qual é.

Não, não vamos.

Mas que é muito gira e que vamos analisar aqui no Português Suave. Um abraço, Marco. Até quarta-feira.

Um abraço.