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Contamos também com a ajuda do Luís Rosa, redator principal do Observador e que acompanha estes temas de justiça há muito tempo e tem acompanhado com particular atenção e poucas horas de sono este caso. Luís, partilhas desta opinião que isto foi o início da defesa pública de António Costa ou não?

Sem dúvida. Foi o início da defesa pessoal de António Costa e quem sabe, porque ele diz que não se recandidatará a cargos públicos. Vamos lá ver se não se recandidatará, porque isso é de grande probabilidade, vamos lá ver se não se candidatará à Presidência da República. Por muito que António Costa diga o contrário, diga que respeita a justiça e o governo demissionário, o que é certo é que António Costa está em guerra com o poder judicial, não é só com o Ministério Público. O segredo da habilidade aqui é que ele diz com um cinismo extraordinário que não está a fazer isso, mas está. Quando António Costa diz que à justiça o que é da justiça, à política o que é da política e fala da liberdade da ação política, está a acusar o Ministério Público e o poder judicial de colocar em causa essa ação política. É por isso que eu sinceramente digo que não me resta dúvidas que este é o mais grave conflito da democracia portuguesa entre o poder político e o poder judicial, com Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente da República, a assistir a este espetáculo mexicano e boliviano, em que a residência oficial do primeiro-ministro serve para António Costa fazer uma defesa pessoal dos seus problemas criminais ou de alegados problemas criminais. Marcelo Rebelo de Sousa está de braços cruzados. Mas confesso que o que eu achei mais interessante é uma questão factual. António Costa pede desculpa por Vítor Escária. E eu acho que ele até foi sentido.

Por ter sido encontrada aquela pipa de massa, como diria Idanha Ramos.

Exatamente, os envelopes de dinheiro. Pede desculpa e diz que põe vergonha. Mas não pede desculpa pelo facto de Lacerda Machado invocar o seu nome. Toda a Lisboa sabia disso. António Costa é um homem muito bem informado. Não pediu desculpa por Lacerda Machado ser contratado precisamente porque era o melhor amigo do primeiro-ministro e por ter as chaves de acesso ao poder. Agora diz que afinal o primeiro-ministro não tem amigos e que teve um momento de infelicidade. Há aqui questões que têm que ser escrutinadas. Estamos já a caminhar pro fim. Primeiro, António Costa diz que nunca falou com Lacerda Machado sobre os assuntos que estão em investigação. Veremos o que dizem os autos. E que não tem conhecimento de nenhuma irregularidade. Vamos ver. Agora, há aqui uma questão pra concluir. António Costa disse muito bem o impacto na imprensa estrangeira. Muitos jornais espanhóis, franceses e italianos tinham: primeiro-ministro português demite-se por causa de corrupção. É verdade. E a imagem que passou do nosso país é esta: Portugal é um país de corruptos por causa do governo de António Costa. Não é por causa de António Costa, é por causa do governo de António Costa. Eu acho que o mínimo que António Costa deveria ter feito já era de facto abandonar o barco e vir nos poupar a esta vergonha de utilizar a residência oficial do chefe do poder executivo.

Mas a razão oficial para a declaração dessa noite é precisamente essa, é um bocadinho limpar a imagem e dizer que por favor continuem a investir, não é? Essa é a razão oficial.

Eu sou um grande defensor da economia de mercado e do capitalismo. E no capitalismo, a concorrência é um conceito fundamental, mas a concorrência tem que ser feita com transparência e com igualdade de oportunidades para todos os players económicos. E o que está em causa neste processo é que há uma pessoa, pelo menos no processo do data center, há uma pessoa que se chama Diogo Lacerda Machado, que tem acesso às chaves do poder. É um lobista, e é um lobista que o António Costa promoveu, como o Miguel Pinheiro já disse, e muito bem, a gestor de dossiês públicos importantíssimos. Ele agora diz que afinal não devia ter feito isso. Eu lamento, mas já vem tarde. Mas vou concluir. Se António Costa tem vergonha de Vítor Escária, os portugueses têm vergonha que o nosso país seja visto lá fora como um país de corruptos. E é isto que António Costa e praticamente todos os dirigentes do Partido Socialista não percebem. E o meu receio é só um: ou é o PS que vai ter um problema existencial muito em breve, como muitos partidos socialistas tiveram pelo resto da Europa, ou é a democracia que sofrerá um dano muito forte e tudo por causa do egoísmo de António Costa. E eu digo e concluo: o presidente Marcelo Rebelo de Sousa está de braços cruzados em Belém a assistir esta decadência institucional da nossa democracia, em que vamos ter que esperar 72 horas para que António Costa supostamente vá apresentar a cabeça de João Galamba a Marcelo Rebelo de Sousa.

Na terça-feira às 17h30.

Às 17h30, parece que já está marcado. Setenta e duas horas! Setenta e duas horas! Por amor de Deus. Eu gostava muito que Marcelo Rebelo de Sousa falasse e pusesse fim a isto.

Luís, antes de te ires embora, diz-nos só mais aqui uma coisa, por favor. Em relação às zonas cinzentas de que falava Rui Tavares, há assim tantas zonas cinzentas? É preciso mais regulamentação para ter mais transparência neste tipo de grandes investimentos?

Há duas questões aqui que são diferentes. Uma questão é o direito administrativo, em que se os governos têm ou não têm ação suficiente para que os tribunais administrativos impeçam a sua ação. Isso é uma questão. Outra questão, que eu não acredito que Rui Tavares esteja a falar disso, é se foram cometidos crimes ou não. Isto é um problema criminal, a não ser que o Rui Tavares queira reformar o Código Penal, não me parece que seja essa a sua ideia. Já agora se ele quiser, eu que se lembre que há um ex-primeiro-ministro que está à espera de ser julgado porque mete recursos atrás de recursos e já meteu 40 e tal recursos. A democracia ainda não conseguiu julgar José Sócrates. Rui Tavares está preocupado com o problema do nosso processo penal. Aconselho que promova uma reforma do nosso Código de Processo Penal para que a justiça seja mais ágil, porque os partidos devem se preocupar com o facto de José Sócrates ter sido acusado em 2017, pronunciado em 2021 e ainda não ter sido julgado. E não foi julgado porque o nosso processo penal permite isso. Já os cidadãos comuns, se tivessem um problema desses, já tinham sido julgados, condenados e mesmo que tivessem dinheiro para todos os recursos, já estavam presos ou absolvidos. Porque aqui a questão é essa, é o processo penal ser diligente e eficiente para que se resolva ou pra um lado ou pro outro.

Obrigado, Luís Rosa, jornalista do Observador, redator principal do Observador, especialista em justiça. Obrigado também pelo teu contributo nesta noite