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Não assina esta sexta-feira um artigo de opinião no site do Observador, mas é colunista habitual e todos os dias faz companhia aos nossos ouvintes nas manhãs 360 da Rádio Observador, no Contracorrente. José Manuel Fernandes, bem-vindo à "Tarde Política". Também gostamos de te ter por cá. Está a ser uma reta final da semana marcada pelas questões de segurança, a começar pela operação policial de grande aparato ontem no Martim Moniz. A PSP encostou dezenas de imigrantes à parede. Apenas uma pessoa foi detida na posse de uma arma branca e alguma droga. São os dados provisórios da polícia, que entretanto até marcou uma conferência de imprensa para daqui a cerca de 15 minutos e depois devemos saber mais e melhor o que é que motivou esta operação. Luís Montenegro diz que foi muito importante para criar visibilidade e proximidade no policiamento. Parece-te que foi proporcional ou foi exagerado até para o resultado a que assistimos, José Manuel?

Para ser franco, acho que estamos a assistir à parvoíce absoluta de toda a gente. E devo dizer que estou totalmente em desacordo com aquilo que disseram as minhas colegas aqui antes.

Estou aqui. Ainda bem.

Estou totalmente em desacordo, porque a questão é muito simples. Experimentem googlar "rusgas Lisboa" e "Porto". Experimentem googlar e vejam quantas é que houve nos sítios mais variados, inclusivamente na Mouraria, nos últimos tempos. E vejam quantas vezes nessas rusgas, inclusivamente entre o Martim Moniz e o Rossio, há pessoas de braços levantados encostadas à parede. Quer dizer, é um método habitual de atuação. Em vez de estarem todos a falar, porque apareceu uma fotografia nas redes sociais, as redes sociais é a culpa do Chega, mas depois as pessoas embarcam todas nisso, vão por aí adiante. E ontem tivemos um antigo presidente da Assembleia da República, um antigo líder do Partido Socialista, todos a dizer que era uma coisa antidemocrática. Quer dizer, googlem, vejam, há rusgas quase todos os dias. Há rusgas em todo lado. Não há em Ovelário? É provável que não haja em Ovelário. Mas, por exemplo, googlando, eu tenho aqui uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, 10, 11, 12 notícias abertas. Doze notícias abertas só de ter googleado isto, mais nada. Rusgas do Porto, rusgas em Lisboa, rusgas com ninguém preso. Outras com três detenções, quatro detenções, outras por causa de gangues de droga, outras por causa de assaltos, outras por causa de carteiristas. Tudo. Agora, há uma fotografia tirada em que estão as pessoas alinhadas contra a parede, que provavelmente é um método de atuação habitual da polícia, e cai o país. As pessoas não percebem. Desculpa, eu estou mesmo irritado com o tom desta discussão. Quer dizer, há rusgas com imensa frequência e de repente não se pode fazer uma rusga na rua do Bom Formoso, porque na rua do Bom Formoso há paquistaneses e, portanto, como há paquistaneses, não se pode lá fazer uma rusga. Mas estão todos parvos ou o quê? E o primeiro-ministro fala quando? Fala em primeiro lugar? Não, fala em último lugar. Quer dizer, quem hoje foi absolutamente extremista foi o líder da oposição, que vai dizer que está o governo mais extremista de sempre, quando eu vou atrás e rusgas destas foram feitas às dezenas no tempo dele, quando ele era ministro, eram feitas pelo ministro da Administração Interna. Isto é do domínio da ilusão absoluta.

Não pode ficar a ideia de que o governo instrui as forças de segurança para fazer operações que têm como alvo os imigrantes. Eu estou a perguntar-te isto porque foi o próprio Executivo a querer, desde novembro, avançar com meia dúzia de operações policiais.

Eles, desculpa, avançaram com meia dúzia de operações policiais, precisamente porque, como nós sabemos, saiu um estudo esta semana, há três percepções em Portugal. Uma: nós precisamos de imigrantes por razões económicas. Duas: precisamos de controlar mais os imigrantes. Três: as pessoas acham que a imigração está ligada a mais insegurança. E se quisermos até uma quarta: de todos os imigrantes, os que desejam menos são os paquistaneses. Portanto, se isto é a perceção pública, é preciso verificar se é falsa ou verdadeira. Nós não temos estatísticas policiais. Em Portugal, ao contrário do que acontece noutros países, nós não temos nenhuma ideia de quem são os carteiristas, quem são os traficantes de droga. Não temos, nunca se sabe.

Há instruções para não os identificar nos estudos.

Exatamente. Há instruções para não os identificar. Portanto, estamos às cegas. A única coisa que sabemos dizer é que não há nenhuma ligação entre imigração e insegurança. Quer dizer, as pessoas acham que há, mas os jornalistas acham que não há. E uma parte da classe política acha que não há. Eu não sei se há ou não há. Se calhar não há. Agora, a única forma que eu posso saber se há ou se não há-

José Manuel, ainda te quero fazer uma pergunta.

Sinceramente, isto é uma fotografia que saiu numa rede social e de repente cai o Carmen Miranda.

Certo, mas deixa-me só dizer uma-

Houve uma operação na Mouraria no dia 30 de julho. Uma operação na Mouraria. Nessa altura, a polícia disse que nos meses anteriores, entre a Mouraria, a Baixa, Arroios e o Castelo, tinha feito 53 detenções e 30 operações. Estamos a falar de 30 de julho, o governo tinha tomado posse há três meses. Portanto, quer dizer que destas 53 detenções e 30 operações, a maior parte delas foram com o governo anterior. Portanto, quem começou a falar disto não foi o primeiro-ministro, quem começou a falar disto foi o Ferro Rodrigues, foi o António José Seguro, foi a Mariana Mortágua. Quer dizer, depois querem o quê? Que o primeiro-ministro fique calado? Podia ficar calado, mas sinceramente, não vamos pôr tudo de pernas pro ar.

Posso agora fazer-te uma pergunta?

Claro.

É que estás tão irritado, também não ouviste o que eu disse.

Não, eu ouvi o princípio do que tu disseste.

A questão é que o primeiro-ministro não foi o último a falar, foi o primeiro

E esse é que é o meu tema.

Foi primeiro como? Quando é que ele falou?

Foi primeiro ontem, em Bruxelas. Perguntaram-lhe sobre o assunto e ele deu esta resposta, que eu, aliás, há bocado citei aqui.

Estás a dizer bem. Perguntaram-lhe sobre o assunto.

Sim, com certeza.

Mas por que se lembraram de perguntar? Mas já havia reações em Lisboa.

Mas os primeiros-ministros são supostos de saberem o que respondem, quando querem responder e quando não querem. Para mim, o tema é só esse. É se deve ser o primeiro-ministro a dar voz e visibilidade de cada vez que há uma rusga, como tem sido há anos.

Não é dar visibilidade responder a uma pergunta de um jornalista.

Depende da resposta que se dá. Se se dá uma resposta como se fosse o chefe da polícia.

Aliás, Luís Montenegro até poderia invocar o fato de estar fora de Portugal para não falar de assuntos internos, que é o que muitas vezes fazem os primeiros-ministros.

Sim, podia invocar isso tudo. Mas vamos lá ver. A tempestade que aí está não é por causa dele ter falado. Se estão a pedir para o chefe da polícia ir dar explicações, se estão a pedir para a ministra ir dar explicações, se estão a dizer que este é o governo mais extremista de sempre, não é o primeiro-ministro que fez nada disto. O primeiro-ministro podia não ter respondido ontem, mas é esse o principal problema? Sinceramente.

Mas então por que a PSP teve a necessidade de convocar agora uma conferência de imprensa, José Manuel, esta tarde?

Porque é uma tempestade que foi criada. Se lerem as notícias, nomeadamente publicada no Observador, há declarações da PSP no fim, a explicar o que se passou. No entanto, como depois aparece uma fotografia nas redes sociais, vai tudo atrás das fotografias das redes sociais, porque viram umas pessoas com as mãos encostadas à parede. Googlem e vejam pessoas com as mãos encostadas à parede há um mês no Rossio. Por quê? Por causa de uma reportagem da CNN. Mas como era uma reportagem da CNN a dizer que havia tráfico de droga em frente à Igreja de São Domingos, aí estava tudo bem. Por acaso, as pessoas encostadas à parede eram africanas. Não eram paquistanesas. É um método habitual ou não? Eu não sei, eu nunca fiz uma rusga, nunca participei numa rusga, nunca assisti a uma rusga. Agora, de repente achar que aquilo é uma forma de assustar as pessoas em relação à comunidade paquistanesa, como eu ouvi toda a gente andar a dizer por aí. Um bocadinho de tino. Quer dizer, às zonas de Lisboa, o presidente da Junta da Santa Maria Maior é de não ter saco. O presidente da Junta da Santa Maria Maior há quatro meses andou a pedir polícia, andou a pedir rusgas, fez reuniões no Hotel Mundial. Fez tudo. Quando foi a primeira rusga na Mouraria, nada de especial. Agora está a pedir a demissão da ministra e diz que vai pedir desculpas em nome do presidente. Eu sei muito bem quem ele é, o Miguel Coelho. Ele foi deputado do Partido Socialista, é um politicão. O que se está a fazer é política. O primeiro-ministro fez, mas todos os outros também fizeram. Não atirem só pedras para um lado. E depois, isto é anormal? Não sei. Sinceramente, não sei. Há operações destas que se fizeram mais uma vez.

Se é normal, não devia ser, devia haver muito mais.

Pela notícia, que não é de agora, é de 31 de julho, houve 30 operações no último ano. Só na zona de Mouraria, Castelo, Baixa e Arroios. 30. Umas mais visíveis, outras menos visíveis. Peço desculpa.

Também estão a protestar.

Houve 30 operações. Não foi a primeira. Há operações no Porto com muita frequência. Há operações na Amadora, há operações em Sintra, há operações provavelmente noutras regiões do país que a gente nem ouve falar, porque elas nem sequer vêm nos jornais. De repente, de toda aquela operação, aquilo que chocou as pessoas foi uma fotografia tirada e partilhada numa rede social. É só isso. Porque de resto, é uma rua fechada, como é natural, tem que se fazer quando há uma rusga, fecha-se uma zona e depois limita-se e faz-se uma revista às pessoas. É isto que habitualmente se faz. Há reportagens feitas já depois da rusga naquele sítio, em que há idosos paquistaneses que dizem que têm é que vir à noite para verem o que são os assaltos. E as pessoas de armas brancas. Se calhar a rusga devia ter sido feita à noite, isso posso discutir. Se calhar deviam ter é fechado aquilo à noite, em vez de fechar aquilo durante o dia. Olha, se calhar têm razão. Agora, achar que não pode entrar ali, porque isso é lançar um medo, um mau pório sobre as pessoas do Indostão, não faz sentido.

José Manuel, deixa-me só perguntar-te, temos mesmo de terminar, se o primeiro-ministro tem ajudado também a criar essa percepção de insegurança, ou não?

Eu acho que o primeiro-ministro fez uma péssima conferência de imprensa às 20h. Mas o problema foi fazer às 20h, porque ele pode falar sobre essa matéria, como aliás muitos outros primeiros-ministros falaram sobre estas matérias. Muitos outros primeiros-ministros falaram sobre estas matérias, muitos líderes da oposição. Fazer aquilo no prime time é disparatado. Agora, ocuparmo-nos todos apenas da hora e não do conteúdo também é disparatado. Reconheçamos. Ao menos vamos ver se isto está a dar algum resultado. Vamos ver o que é que diz o próximo relatório de segurança interna.

Vamos esperar por isso, José Manuel.

Porque se ele o usa, o que vai dizer a PSP agora?

E agora vamos esperar também por essa conferência de imprensa da PSP.

Eu só estou a dizer, por aqueles dados, começar a dizer que de repente a democracia está a acabar em Portugal e uma perseguição aos imigrantes, como se sugere por todo lado.

José Manuel, o relógio está a perseguir-me a mim. Temos mesmo de terminar, mas obrigada pela tua análise.

Eu estava a ouvir isto e, na dúvida, pus Google, rusgas, Lisboa, Porto. E apareceu-me uma lista que nunca mais acabava de coisas que todos, quase todas as semanas-

Sim, ficou claro, José Manuel. Obrigada por teres sido o nosso colunista do dia, o José Manuel Fernandes, que podem ouvir sempre também no Contracorrente da Rádio Observador.