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Contamos nesta edição com a análise de Tiago André Lopes, especialista em Relações Internacionais. Obrigada por poder estar com o "A Tarde Política". Como estava aqui o Miguel Vitor Dias a dizer, Antony Blinken deixou esse aviso de que poderia não haver outra oportunidade para um acordo que permita também a libertação de reféns. Netanyahu pode ter-se sentido pressionado pelos Estados Unidos para aceitar este acordo de cessar-fogo?

Antes de mais, obrigado por mais um convite. Haverá, de certeza, várias razões pelas quais Netanyahu deu luz verde a um acordo que, e isto eu acho que é importante, nós não sabemos que linhas gerais é que o acordo implica, e é nessas linhas gerais e na sua articulação que pode estar a chave para o Hamas aceitar ou não aceitar. Mas esta ideia de Blinken, de que é a última oportunidade, esta dramatização diplomática em torno da aceitação do acordo, é uma estratégia um tanto quanto gasta, porque Blinken já o fez no passado várias vezes. E a verdade é que aparece sempre uma nova última oportunidade e aparece sempre uma nova janela que se pode explorar e, portanto, eu não acho que a pressão de ser esta a última vez tenha funcionado. O que pode ter funcionado é o articulado do acordo, que nós ainda não conhecemos na sua plenitude.

O mais difícil está feito? Isto porque o Hamas tem dito que a falta de acordo deve-se à intransigência de Netanyahu.

O mais difícil não está feito, nós não sabemos. Há aqui duas questões que vão ser essenciais perceber nas próximas horas, para nós percebermos o que de fato foi feito nestas duas horas. Se o acordo implicar na mesma a deportação dos prisioneiros palestinianos para países terceiros, e se implicar na mesma a manutenção das tropas de Israel na Faixa de Gaza, no cenário pós-conflito, então o Hamas dificilmente dirá que sim, o que de resto o Hamas já avisou há quase três semanas atrás. E, portanto, nesse aspecto, o que Blinken está a fazer é, do ponto de vista diplomático, uma margem diplomática para apenas forçar a culpa da rejeição do acordo no Hamas e, portanto, dá-se uma falsa luz verde quando se sabe que o outro lado não vai aceitar as condições. Agora, se houver uma alteração com relação a estes dois assuntos, então podemos estar perante a primeira vitória de Blinken depois de 10 meses de conflito.

E havendo mesmo acordo de cessar-fogo, havendo também esse sim do lado do Hamas, poderá vir a ser cumprido ou pode acontecer o mesmo que aconteceu no último cessar-fogo temporário? Houve bombardeamentos enquanto estavam a ser libertados reféns.

Esse é o problema maior, é que nós não sabemos se Israel está de fato disponível também a uma terceira cláusula, que eu não ia mencionar por causa desta questão, que é a questão do cessar-fogo ser permanente ou não. Nós sabemos que Israel queria um cessar-fogo que Israel pudesse, por razões securitárias, violar justificadamente. E aquilo que o Hamas quer é um cessar-fogo permanente e total, como de resto costumam ser os cessar-fogos, normalmente, quando são impostos. E é esse regime de cessar-fogo que também tem a chave nas mãos. Portanto, se houver um cessar-fogo para depois violar a seguir, o novo acordo mais à frente vai ser ainda mais difícil de alcançar, porque as partes já desconfiavam dos mediadores. Israel não confia no Qatar, o Hamas não confia nos Estados Unidos, por isso é que são três mediadores. A violação de um acordo, se vier a ser alcançado, não estou muito otimista quanto a isso, poderia pôr de fato por terra as jogadas diplomáticas nos próximos meses.