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E nos Estados Unidos, João Alexandre, Donald Trump entende que o livro do ex-conselheiro é pura ficção.
É a reação através da rede social Twitter por parte do presidente norte-americano ao livro que foi escrito por John Bolton e que já motivou um pedido de Donald Trump para que o Departamento de Justiça trave o lançamento deste livro nas bancas. Tem lançamento marcado para a próxima terça-feira. Junta-se agora a nós neste Jornal Observador, Bruno Cardoso Reis. É presença habitual todas as semanas aqui no Café Europa, programa da Rádio Observador, é também subdiretor do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE. Boa tarde, Bruno Cardoso Reis. Começo por perguntar que tipo de impacto é que pode ter para Donald Trump a revelação deste livro e daquilo que está neste livro por parte de um antigo conselheiro, alguém muito próximo do presidente norte-americano e quando estamos já a começar daqui a poucas semanas a entrar numa espécie de reta final para aquilo que resta da campanha norte-americana rumo às eleições de novembro.
Eu acho que há aqui dois impactos principais. Um tem realmente a ver com essa questão eleitoral, ou seja, no fundo há aqui a ideia de que muitas vezes as memórias são a continuação da política para outros mais, ou seja, uma vingança ou uma forma de pessoas que entretanto foram afastadas de posições de poder poderem passar a sua versão do que se passou. E, portanto, aqui claramente o John Bolton está a tentar influenciar as eleições e está a tentar influenciar nomeadamente o Partido Republicano, porque ele não é um democrata, não é alguém do Partido Democrata e que é um conservador, é até visto como alguém da linhagem do Partido Republicano e, portanto, isso também torna especialmente interessante estas revelações, embora eu tenha dúvidas que consiga ter um grande impacto no núcleo de apoiantes do presidente Trump e é o que teremos de ver, mas não parece que estes apoiantes tão fiéis ao presidente Trump se deixem impressionar por alegações de ignorância em questões externas, eventualmente alegações de estar aqui a pôr acima de tudo a sua própria eleição e estar disposto a chegar a acordos duvidosos com países como a China, isso já pode ter outro impacto, mas ainda assim eu duvido. Tipicamente, a política externa não tem um grande impacto nas eleições internas. O segundo impacto tem a ver com baixar ainda mais ou afetar ainda mais, reduzir ainda mais a credibilidade do presidente Trump em termos externos. Ou seja, quando nós vemos, por exemplo, a enorme pressão que os Estados Unidos fazem neste momento sobre a Europa, inclusive sobre países como Portugal, para se distanciarem da China, mesmo que isso tenha custos elevados para pôr em questão coisas como o 5G, a compra de equipamento à Huawei. Quando nós aparentemente temos alguém próximo que trabalhou com o presidente Trump a dizer-nos que o presidente Trump, quando lhe convém politicamente, está disposto a chegar a acordos com a China, obviamente isso mina também a credibilidade desse tipo de apelos, que são feitos em nome de questões de princípio, solidariedade, alianças, etc. Tudo isso fica bastante minado.
Entretanto, Bruno Cardoso Reis, já tivemos aqui também, por exemplo, o presidente do Comitê de Inteligência da Câmara dos Representantes, Adam Schiff, a sublinhar aqui uma realidade que é esta: John Bolton já foi em tempos convidado, na altura que se falava do impeachment de Donald Trump, para falar neste comitê de inteligência e na altura, diz Adam Schiff, acabou por reter algumas informações que agora revela neste livro. De alguma forma, esteve aqui a guardar estas informações para obter algum ganho de causa e alguma espécie de lucro próprio. Isto pode também retirar algum peso a estas revelações que possam sair neste livro que é publicado na terça-feira?
Sim, parece-me evidente que, de facto, este livro não é um livro inocente. O John Bolton não é alguém que seja estranho à política norte-americana, é um operador político há muitos anos, é até conhecido por ser um operador político bastante impiedoso. Eu acho que o que torna isto interessante é precisamente ser alguém que não é propriamente um republicano conservador e até o facto de ser alguém que vem dessa ala mais dura do Partido Republicano. Agora, é verdade, houve muitas críticas a isso. Ele foi acusado de, para promover o livro, não querer desvalorizar a informação que lá vinha e, portanto, não se ter voluntariado para prestar declarações ao Congresso, embora ele tenha dito que se fosse obrigado a ir ao Congresso, se fosse convocado judicialmente para ir ao Congresso, ele iria. Mas não se voluntariou para isso e parece claro que isso tem a ver com ele achar que seria mais lucrativo publicar num livro próprio. E também provavelmente em termos de timing e também de se afirmar autonomamente, de vir aqui neste contexto das disputas dentro do Partido Republicano dizer que, de facto, ele não considera que o presidente Trump é aquele que melhor serve os interesses do Partido Republicano. Mas é provável que este facto dele ser um operador político mine alguma da sua credibilidade e sobretudo naquele setor, naquele núcleo duro de apoiantes do presidente Trump, que são, de facto, pessoas muito alérgicas a tudo que tem a ver com Washington e com a política de Washington.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigado pela disponibilidade na análise naquele que pode ser o efeito provocado por este novo livro, que vai ser publicado na terça-feira. Esperam-se ainda as ondas de choque deste "A Sala Onde Tudo Aconteceu". É o título desse livro que promete revelar o caos na administração de Donald Trump. É um livro da autoria de John Bolton, ele que foi conselheiro do atual presidente norte-americano.
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