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Junta-se agora a nós também Jaime Nogueira Pinto, politólogo. Boa tarde, Jaime Nogueira Pinto. Falava-se aqui desta independência, deste espírito livre que era Vasco Pulido Valente. É também assim que o recorda?

Sim, recordo. Aliás, o Vasco tinha uma grande qualidade. Eu devo dizer que houve uma altura que nos encontramos com alguma frequência, que foi no princípio dos anos 80. Mas lia as coisas dele e acho que o Vasco tinha uma grande qualidade, que era não se importar de ser desagradável com praticamente toda a gente quando era preciso. Não tinha, de facto, nesse aspeto, aquele espírito de ceita que pelas boas e pelas más razões a gente às vezes acaba por ter. Admirei muito sempre esse lado. E depois, de facto, tinha uma escrita em síntese e que continua. Ele não se importava nada de ser politicamente incorreto, como agora vi, e continua a não se importar.

Mas era alguém que tirava algum prazer disso ou nem por isso?

Eu acho que sim, também. Primeiro, é evidente, o Vasco tem uma obra histórica importante, sobretudo sobre a área que ele mais estudou, que foi essencialmente o século XIX. Eu lembro que a primeira coisa que eu li dele e que na altura foi um livro que embora tivesse pegado numa linha curiosa, que era de um historiador espanhol conservador, o Jesús Palomeque, mas foi de facto "O Poder e o Povo" sobre a Primeira República, que era uma desconstrução, uma desmistificação, mostrando a Primeira República, que era um período sagrado para os antifascistas portugueses, mostrando o seu lado repressivo, o seu lado de, por vezes, ditadura da rua. E o Vasco, esse livro era um livro nesse aspeto bastante interessante e bastante provocador, digamos, em termos até do pensamento dominante no pós 25 de Abril. Na correção política que se instalou nessa época. E as coisas dele, de facto, os estudos dele sobre o século XIX não há dúvida que são estudos importantes. Nós ideologicamente, embora tivéssemos algumas inimizades e algumas antipatias comuns, não éramos também propriamente colegionários. Eu, aliás, nessa época que me dei com ele mais, eu lembro-me que um dia eu estava lá em minha casa e disse uma coisa qualquer. Isto pode surpreender alguns, eu disse ao Vasco: "Não te esqueças que és a pessoa mais à esquerda que já entrou nestas portas." E naquele tempo era verdade. Depois disso entraram outros, talvez bastante mais à esquerda, mas nessa época era. E o Vasco tinha, de facto, essa qualidade, que eu acho que era uma independência de juízo. Às vezes essa independência de juízo dava-lhe para ser brutal. Mas isso, ao fim e ao cabo, também acho que é capaz de ser uma qualidade. Porque às vezes, pelas boas razões, a gente poupa as pessoas, poupa as causas, não, mas poupa as pessoas. E o Vasco também, como eu estava há bocadinho a falar, como não era também muito uma pessoa de causas, nem de tribos, tinha esse lado de independência. E eu vi-o duas ou três vezes, aliás.

O Jaime Nogueira Pinto fala muito dessa faceta dele de historiador e do trabalho dele de historiador, mas muitos vão ficar apenas a lembrá-lo quase como apenas um cronista. Apenas salvaguardando aquilo que representa também a palavra.

Nessas crónicas, ele tinha, de facto, muita independência e praticamente atacava tudo e todos. Nesse aspeto era muito independente, não tinha grandes admirações e tinha uma escrita, nesse aspeto, boa, notável. Ele tem coisas de demolição de determinadas personalidades. E estou a dizer isto, duas ou três vezes ele foi bastante crítico de coisas minhas, não me importa nada.

Mas independentemente das opiniões que partilhava e que as tinha mais ou menos convicto, é unânime também, falava desse dom da escrita. Era alguém que manejava como poucos a língua portuguesa. Isso é também quase unânime no legado.

Tinha cultura, escrevia muito bem, tinha um jeito às vezes engraçado, porque no fundo nós acabamos todos em Portugal por ser sempre um bocadinho influenciados pelos grandes escritores do século XIX, no fundo pelo Camilo e pelo Eça. E ele às vezes tinha uma brutalidade camiliana, outras vezes tinha uma graça queirosiana, mas tinha depois um ar de vir, como se costuma dizer, para a jugular. E tem peças nesse aspeto. E depois tinha um sentido de humor grande, de facto, na escrita. Houve uma altura que me dei com ele ali naquele princípio de anos 80, portanto já lá vão muitos anos Depois lia muito esporadicamente.

A última crônica, creio que é a última crônica de Vasco Pulido Valente no "Público", tinha este cabeçalho: "Gostava de ver a lista dos hóspedes portugueses que Isabel dos Santos recebeu no seu apartamento de Monte Carlo. Seria, com certeza, muito consolador. Claro que ela era o casamento perfeito, uma noiva rica, sem país, um país velho, sem dinheiro." É aqui que está também o rasgo e essa escrita, que é quase encantatória, por parte de Vasco Pulido Valente.

Pode dizer que eu não consto nessa lista. Outro dia alguém me perguntou se eu tinha estado no casamento da Isabel dos Santos. Não consto dessa lista. E só a encontrei a senhora uma vez no casamento da filha de um amigo meu. Mas acho que o Vasco tinha, de facto, uma grande independência nesse aspecto, que é muito importante. E quando digo independência, até às vezes permitia-se brutalidades que a maior parte das pessoas não. Nem sequer é só pelas más razões, a maior parte é pelas más razões. O português poupa muito as pessoas, sobretudo as pessoas poderosas, poupa-as muito pelas más razões, ou então ataca-as de uma forma que acaba por ser quase elogiada. E o Vasco tinha essa independência.

Foi essa independência, e já agora aproveito pra lhe perguntar também, que levou um ministro, na altura João Soares, lhe oferecesse também um par de bofetadas.

Pois.

Pergunta que eu lhe faço, Jaime Nogueira Pinto.

Não sei. Olhe, eu, um par de bofetadas, eu, como era um homem de direita, até direita bastante radical nesse tempo, numa faculdade que era completamente dominada pelas esquerdas. Bofetadas, não, mas murros troquei alguns durante a minha adolescência e também é uma coisa que nunca me intimidou nem preocupou muito. Mas enfim, não sei. Acho que cada um tem os seus códigos de conduta. Se alguma vez me oferecessem um par de bofetadas, eu acho que respondia com as mesmas bofetadas ou com uma murrada, não sei. Isso nunca me atrapalhou muito na vida. Agora, sim, havia uma tradição, por exemplo, também no século XIX, dessas coisas de oferecer. Nessa altura não era bofetadas, era bengaladas, que era uma coisa que aparece muito, quer no Eça, quer no Camilo. As bengaladas.

Obrigado, Jaime Nogueira Pinto. Muito obrigado por lhe se ter juntado também a este jornal