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José Manuel, que leitura podemos fazer destas declarações de Pedro Nuno Santos? Ainda há espaço para trabalhar entre o Partido Socialista e o Governo?

Eu vou ser sincero: espero que não haja, porque estas propostas são tão más. Isto é voltar ao Governo Socialista, e os portugueses em março votaram para mandar embora o Governo Socialista. Aceitar este tipo de propostas e este tipo de raciocínio seria continuar a fazer o mesmo. E o mesmo, já vimos, não resultou e os portugueses acham que não resultou. Se o Partido Socialista se entrincheirou nestas posições, o melhor é voltarmos. Já estou por tudo. Continuar na mesma é que me parece que não vale a pena. Reparem, nós tínhamos aqui dois temas em divergência. Um era como é que nós ajudamos os jovens a ficarem em Portugal. O Governo fez uma proposta, que eu até acho uma má proposta, relativamente ao IRS Jovem para ajudar a dar incentivos a que ficassem em Portugal. O que o Partido Socialista vem fazer? Duas coisas completamente absurdas. Uma é desviar o dinheiro para os reformados. A gente está a falar de quê? Da preocupação de evitar a imigração de quadros para que o país tenha mais capacidade e cresça mais no futuro ou aumentar os rendimentos dos reformados? São duas coisas diferentes, que não têm nada a ver uma com outra. E depois, construir casas e residências, o que é extraordinário vindo da parte de um ministro que teve o tutela da habitação, e que foi um fiasco, um fracasso. E construir casas não é casas de habitação social, é casas para a classe média. Eu vou dizer uma coisa um bocado brutal. Infelizmente, desde o Estado Novo que em Portugal não há programas públicos de construção de casas para a classe média com sucesso. Em Lisboa houve alguns no tempo da década de 60, início da década de 70, e depois tem sido habitação social, alguns programas com grande sucesso, mas para a classe média não tem existido. O Estado não tem sabido fazer isso, não vejo que vá passar a saber. Portanto, isto é um não caminho. Depois, sobre o IRC. Perdão, pelos vistos o que o Rocha disse não é muito diferente do que eu estava a dizer.

Era o que eu ia sublinhar.

Enfim, não combinamos nada.

Não parece, José Manuel.

No IRC, o problema português é que temos a taxa de IRC mais elevada da União Europeia. Temos a mais elevada todas. Como é que se pode dizer que isto não é um obstáculo ao investimento? Como é que é possível dizer uma coisa destas? Como é que é possível achar que isto não tem influência? Há aqui duas coisas erradas naquilo que disse Pedro Nuno Santos. Primeiro, é isso que eu estava a dizer: temos a taxa mais elevada e não tem problema nenhum. A segunda coisa é a insistência de que modulando o IRC, fazendo com que o IRC, em vez de ter uma taxa que toda a gente entenda, tenha milhares de taxas diferentes conforme critérios que mudam todos os anos, se consegue alguma coisa e que o Estado acaba por dirigir. Isto é socialismo, mas não foi no socialismo que os portugueses votaram em março. E este socialismo foi o que aplicámos nos últimos anos, que levou a 1350 alterações do IRC com os resultados que estão à vista, quando comparamos com outros países que têm taxas mais elevadas, mais competitivas e que têm andado a um ritmo que não é o nosso. Parece-me que isto é tão contraditório com o programa do Governo, que o Governo se abdicar por completo disto para medidas que são 200 milhões para negociar com os médicos. O Governo não tem feito outra coisa senão negociar com as várias classes profissionais, tem dado dinheiro a todas, está em negociação com os médicos e agora um pacote de 200 milhões que não se sabe bem para que é. Isto é demagogia, é apenas para tentar dar um bocadinho a todos, a ver se agrada a todos. Não tem nada a ver com uma discussão orçamental séria, infelizmente. Eu tinha alguma esperança nesta reunião, achei que podíamos ficar a meio caminho. Achei que havia no Partido Socialista ainda quem se lembrasse do acordo do António Guterres sobre o IRC. Achei que sobre o IRS Jovem, o Governo porventura poderia ceder e ir por outros caminhos e encontrar outras fórmulas relativamente aos jovens. Mas esta proposta de Pedro Nuno Santos é para fechar a porta, não é uma proposta para negociar, é uma proposta para fechar a porta totalmente. E se o Governo entender que é por aqui que vai, é porque o Governo entendeu estar ele no governo, mas governar com o programa do Partido Socialista.

Vamos também ouvir a opinião do Miguel Pinheiro. Não sei se partilhas, Miguel Pinheiro, diretor executivo do Observador, da desilusão de José Manuel Fernandes em relação a este balanço feito por Pedro Nuno Santos depois da reunião com Luís Montenegro.

Acho que aqui realmente só faltou Pedro Nuno Santos acrescentar uma exigência final, que é de que enquanto for primeiro-ministro, Luís Montenegro tem que lhe fazer o pequeno-almoço todos os dias e o levar à cama, porque é só o que falta.

E atenção à temperatura dos ovos.

Isso. É só o que falta, porque realmente se Luís Montenegro aceitar a premissa desta proposta do PS, e a premissa é não há de forma nenhuma nenhum tipo de redução de IRS e não há nenhum tipo de IRS Jovem, zero Realmente mais vale de facto entregar as chaves do Palacete de São Bento a Pedro Nuno Santos. E depois realmente a este discurso, repare, todos podemos jogar este jogo. Não aprovamos nada que permita aumentar as desigualdades. Então vamos a isso. Está aqui dinheiro para residências universitárias. Estão aí os jovens que não têm condições de estudar na universidade e que têm que ir trabalhar. O governo está a cavar ainda mais o fosso de desigualdade entre aqueles que podem ir estudar e os que têm que ir trabalhar? Está a premiar aqueles que apesar de tudo têm condições de passar mais três, quatro ou cinco anos a estudar e em vez de dar dinheiro àqueles jovens que têm que ir trabalhar logo que acabam o ensino obrigatório? Se Pedro Nuno Santos quiser, podemos ir por aí. E depois a Soncis diz: "Não, nós estamos a ajudar os jovens na habitação, porque é habitação para todos." Dentro do todos estão os jovens. E então, fazendo uma coisa para todos, para os jovens, para os menos jovens, para os extremamente jovens como eu, os jovens também estão lá incluídos, mesmo que aquilo seja para pessoas que não são jovens. É Soncis política. Não tem aqui nenhuma medida para jovens. Ele quer segurar o pouco voto jovem que o PS tem, porque como sabemos, como os estudos eleitorais mostram, o PS tem um peso absolutamente desproporcional.

Isso também não explica em parte esta recusa em relação a esta medida do IRS jovem?

Isso explica porque o PS quer aparecer a tentar dar mais dinheiro aos pensionistas do que aquele que lá está. É para poder dizer: "Não se vão embora. Por favor, não se vão embora, não votem no PSD, porque se eu chegar ao poder eu ainda vos vou dar mais dinheiro." E o líder do PS também insistiu. Realmente Pedro Nuno Santos tem problema com comentadores. Eu acho que ele devia preocupar-se com outras coisas na vida, não sei, futebol, passeios no parque, qualquer coisa. Disse por duas vezes que os comentadores não quiseram perceber o que ele tinha dito, porque ele disse sempre que não aceitava nenhum tipo de modulação, sequer do IRS jovem do IRC. Bem, eu acho que ele não tem ouvido dirigentes do PS ao longo deste tempo. Se ele os quiser despedir ou mandar calar, se calhar era mais fácil, porque nós ouvimos vários dirigentes do PS a dizerem que se calhar era possível modular estas medidas do PSD. Luís Montenegro vai falar hoje, ao contrário do que estava previsto, a princípio em Mafra. Vamos ver o que vai dizer. Imagino que continue a haver negociações. Agora, tudo depende de uma coisa: em que fase é que está Pedro Nuno Santos? Ele está naquela fase inicial, quando nós chegamos ao bazar e dizemos que não damos mais do que €10 por aquele tapete. Está nessa fase, sabendo ele que está disponível para pagar 20 em vez de 10, ou já está mesmo na fase final?

O que achas, Raquel? Raquel, é para vocês. Em que fase é que estará Pedro Nuno Santos?

Na fase do tapete?

Estava aqui a mandar uma mensagem que eu penso que não vi as duas possibilidades do tapete.

O Miguel estava a dizer que ou Pedro Nuno Santos está na fase em que entra no bazar e oferece €10 pelo tapete, mas está disposto a ir até aos 20, ou então está mesmo naquela fase em que não vai mesmo dar mais de €10 pelo tapete.

Pois, eu acho que essa é a questão. Acho que esta conferência de imprensa foi surreal. Eu acho que para o próprio eleitorado do Partido Socialista e para o próprio eleitorado do PS, ou a tentativa de captação de eleitorado que o PS tem que fazer para poder sonhar em ganhar umas eventuais eleições antecipadas. Porque acho que não há nenhum português que perceba o tom e a forma como Pedro Nuno Santos apresentou aquilo que são as condições do Partido Socialista para poder viabilizar o orçamento. Porque apesar de tudo, toda a gente acha que é preciso negociar, mas em princípio o orçamento devia ser mesmo do governo e não do Partido Socialista.

Ele disse que é 99% do governo.

Mas esse é um bom ponto.

Mas é que os 99% há uma folga de mil milhões de euros, foi as contas que ele fez. Ora ele com as suas propostas ocupa 976 milhões de euros, portanto, deixa 23 para o governo poder fazer umas medidazinhas.

Como se sabe, 99% do orçamento, diz ele, está nas mãos do governo, mas como toda a gente sabe, uma parte muito substancial do orçamento, não sei qual é a percentagem, quando se pega no papel, já está. Salários.

Portanto, a folga que existia está completamente ocupada pelas exigências.

A folga para tomar medidas diferentes é sempre reduzida em qualquer orçamento, porque há um bolo, há uma pedra inamovível que passa de um ano para o outro. Um orçamento não começa do zero a cada ano. Não, é preciso pagar os salários dos funcionários públicos todos, por exemplo. E por isso a folga é sempre muito curta e todos os governos se queixam de ter uma folga muito curta para introduzir novas medidas. Portanto, é uma falácia ouvir dizer que o governo tem agora 99% do dinheiro para gastar como entender.

Sim, aliás, as contas são simples de fazer e, portanto, não há 99%, nem 0,5%, parece-me a mim, se este caderno de encargos fosse aceite. Agora, depois dito isto E porque ainda faltam semanas, meses para a aprovação do orçamento, eu acho que isto depois espremido, porque ele começa num tom muito violento a sua conferência de imprensa, mas depois no final de apresentar estas medidas, que no fundo, como dizia o José Manuel Fernandes, é o programa do Partido Socialista que tivemos durante oito anos e portanto isto é inaceitável para um governo qualquer que queira continuar a ser governo no dia seguinte. Depois disto, ele diz que não faz questão destas propostas, que intermediaram entre o fim do IRS Jovem e depois uma nova explicação sobre o IRC. Portanto, não fazendo questão e havendo os tais mil milhões de folga, não sei se ele vai ser contra qualquer medida alternativa que o PSD possa apresentar, por exemplo, de uma descida de IRS transversal num valor semelhante a este que ficaria disponível com o fim do IRS Jovem. E na questão do IRC, também aceita, aparentemente, a tal modulação que ele diz que nunca aceitaria no início. Agora, depois quer impor a modulação e a modulação tem que ser exatamente o que o Partido Socialista fez. Se se mantiver inamovível, de facto, isso torna a negociação impossível. Mas para dizer que tudo espremido e se houver algum bom senso nisto, e eu repito, eu acho que esta posição assumida por Pedro Nuno Santos nesta conferência de imprensa aos olhos dos portugueses é inaceitável. Não há nenhum português, mesmo socialista, que ache que é possível um outro governo aceitar este caderno de encargos. Se a parte final da conferência de imprensa for para levar a sério, ainda pode haver caminho a fazer. Se a parte inicial da conferência de imprensa for o que pesa mais, então eu acho que de facto não há nenhuma possibilidade de se entenderem.

Mas José Manuel Fernandes...

Com ganhos, deixa-me só terminar. Com ganhos para o governo, porque a questão dos jovens e do IRS Jovem, independentemente da bondade da proposta que está no Parlamento para ser aprovada, é uma questão muito importante e reconhecida por todos. Portanto, se é o Partido Socialista a inviabilizar isso mais uma vez em nome da sua agenda, eu acho que isso não tem qualquer adesão no eleitorado.

José Manuel, olhando para tudo isto e para o que disse Pedro Nuno Santos, ainda haverá margem para uma abstenção por parte do Partido Socialista?

Eu vejo muito difícil.

Ele falou em inviabilização, não é? Não falou em abstenção.

Exatamente, sim. Eu vejo muito difícil, porque se o governo abdicar de qualquer redução na taxa de IRC, está a abdicar de uma trave mestra do seu programa eleitoral e de algo que distingue a forma de governar da atual maioria da Assembleia da República, porque sobre esta matéria há acordo entre PSD, CDS, enfim, conta pouco, Iniciativa Liberal e até o Chega. Portanto, e a minoria que atualmente é de alguma forma representada pelo PS. E corresponde àquilo que os estudos todos, uns atrás dos outros, até estudos, por exemplo, da CEDES, que a CEDES é dirigida por um socialista, neste alvarbeleza.

Considero Pedro Nuno Santos.

Todas apontam no mesmo sentido. E há aqui uma coisa que é grave, na minha perspetiva, e que é este lado irredutível de Pedro Nuno Santos, relativamente a qualquer aspeto que seja, as pessoas disseram: "Pronto, OK, em vez de dois pontos por ano, é um ponto por ano, ficamos a meio caminho." Mas ele disse que não há qualquer modulação. Foi o que ele disse logo, e está escrito no comunicado do Partido Socialista. Portanto, não havendo isso, há um outro problema, e isto já compromete em parte qualquer reforma que se faça do IRC, porque há o risco de, mudando a maioria, a maioria vai mudar mais tarde ou mais cedo, vir um governo de um Pedro Nuno Santos ou outro igual, que volta outra vez às taxas que estavam cá antes. E isto, do ponto de vista dos investidores, é um pesadelo, não há estabilidade. Portanto, eu creio que este caminho está estreitíssimo. Eu ontem estava a ouvir um podcast da nossa concorrência, do público, em que se dizia que o acordo ia ser feito com o Chega, e se calhar eu achei que aquilo não fazia sentido nenhum, porque tinha alguma confiança na reunião de hoje, já não sei. Se calhar, para isto não irmos para eleições, vai lá aparecer o Chega que se abstém, não faço ideia.

Mas não basta abster-se.

De alguma forma, não sei se basta abster-se.

Não basta, tem que votar a favor.

Pronto, já não sei bem como é que tinha que fazer as contas, porque a Iniciativa Liberal eu julgo que tem mais deputados junta do que tem o PCP e o Bloco e os partidos à esquerda, portanto, tinha que fazer as contas. Não faço ideia agora. Teria que se ver. Mas creio que é um caminho muito estreito para sairmos deste imbróglio. Não sei se Pedro Nuno Santos quer obrigar o governo a governar, porque ele disse que o PS também não quer eleições. Portanto, vamos governar em duodécimos, não faço ideia. Agora, ele tem que ter noção de uma coisa. Governar em duodécimos talvez não evite que haja as alterações que ele não queira aprovar, porque essas alterações, algumas delas, porventura aquelas que têm grande impacto orçamental precisam, depende do impacto orçamental, mas porventura, por exemplo, o IRC talvez não necessite, porque o impacto maior do IRC seria no ano de 2026, talvez não necessite de uma aprovação e talvez possam passar como duodécimos. Mais, se formos para duodécimos, parte do que foi aprovado relativamente ao IRS pelo PS e pelo Chega é capaz de cair. Estamos numa situação, de facto, que é complexa