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António Costa esta noite a partir da residência oficial do Primeiro-Ministro. Chamo agora à conversa o Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. Rui Pedro, faço-te a mesma pergunta que fiz ao José Manuel Fernandes, ao Miguel Pinheiro, à Raquel Bocasias e ao Luís Rosa. Estamos aqui perante aquilo que poderá ser o primeiro ato da defesa de António Costa?

Eu creio que sim. Pelo menos a linha de defesa, se é que ele alguma vez vai ter que se defender de uma forma séria do caso, será esta, ou seja, dizer que aquilo que para o Ministério Público é um ilícito, para António Costa é uma espécie de serviço público e defesa do interesse nacional, porque no entendimento dele, os governantes devem captar investimento e utilizar o poder político que têm para esse investimento, seja para salvar o lobo ibérico e fazer esses equilíbrios todos. Mas o José Manuel dizia até que pode ter sido um aconselhamento jurídico. Eventualmente pode ter sido. Eu não creio que lhe seja muito útil, porque o que ele está a proferir na residência oficial do primeiro-ministro depois não poderá ser utilizado como jurisprudência do género: "O entendimento do governo era este." E essa confusão é logo muito estranha. De qualquer das formas, eu creio que ele não se poderá ter aconselhado porque os amigos dele ou as pessoas com quem se aconselhava estavam todas ocupadas, umas presas e outras a defender as que estão presas. E portanto, logo a partir daí teve um grande problema de aconselhamento jurídico. Por outro lado, acho que do ponto de vista da comunicação, o aconselhamento foi bom, ou seja, do ponto de vista da imagem, a declaração é brilhante. Eu não sei se António Costa quer ter futuro político ou não. Nós estamos a olhar para a justiça da declaração e para a forma como há até uma espécie de usurpação do cargo para criar uma linha de defesa. Mas se olharmos aquilo que é, sem querer adivinhar, nem tão pouco me pôr no papel dos telespectadores, dos ouvintes e dos leitores, António Costa consegue transmitir uma imagem de emoção, que é toda ela preparada. É a mesma coisa que estamos a ver, por outras razões, obviamente, Clinton ao lado de Hillary quando foi o Comeback Kid. Há toda uma construção que vemos na política americana da forma como o primeiro-ministro comunica neste momento.

Começa por dizer que se sente envergonhado.

Exatamente, que está magoado, pede desculpa, que é um ponto fundamental. Toda a montagem cénica, a mulher senta-se no chão, eu não tenho amigos, o cargo de primeiro-ministro, como o presidente dos Estados Unidos, como o presidente de França, como todos os cargos executivos, é o cargo mais solitário do mundo, fui traído por todos, só tenho um único amigo, é a minha mulher. Do ponto de vista da comunicação, não sei se foi ou não aconselhado, mas quando até há pouco passávamos o som de por que foi ao sábado? Foi ao sábado porque domingo há um Sporting-Benfica e portanto há toda uma atenção mediática desviada a partir de certa hora do domingo e porque segunda-feira já é a véspera de demitir Galamba em Belém e portanto, para não arrastar mais tempo e impor esta linha, tinha que ser hoje. Do ponto de vista da comunicação, foi tudo bem pensado, mas se António Costa estiver a falar verdade, eu queria destacar esta parte mais política. Ele está a pensar que provavelmente o processo vai prolongar-se tanto tempo que já não consegue voltar à vida política.

Ele admitiu isso. Admitiu que o processo não estará resolvido a tempo de um eventual regresso.