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Vamos seguir com a análise. Conosco em linha está Rui Pedro Antunes, o editor de política do Observador. Rui Pedro, muito boa tarde. Costuma dizer-se que os portugueses votam muito com a carteira. Pedro Nuno Santos apresenta aqui muitas medidas que têm influência direta na carteira dos portugueses.
Sim, Miguel. Isso é de facto um bom ponto de partida, porque Pedro Nuno Santos faz uma radiografia do país que parece mais ou menos sensata, identifica aquilo que possam ser as principais preocupações a que o governo de Luís Montenegro não responde, ou seja, onde é que possa estar a falhar. E basta andar nos transportes públicos, nos cafés ou conversar com amigos em qualquer lado para se perceber que as pessoas se queixam de que está tudo muito caro. O que é que ele responde a isso? Responde a questão do IVA zero e, portanto, o cabaz alimentar e as pessoas queixam-se no supermercado, está tudo muito caro. Depois tenta ir a esses problemas do quotidiano das pessoas. Tenta baixar a eletricidade, vai ao ponto nessa questão de dizer que vai intervir, por exemplo, na questão da fatia do gás. E também tem um pendor nesse discurso ligeiramente ideológico. Eu não sei se é bem kirchnerista. Ele falou muito tempo, mas não é por isso que passou a ser o Fidel Castro. Nem quer nacionalizar as empresas, mas quer nacionalizar uma parte do lucro, porque naturalmente, a partir do momento que vai taxar e regular uma fatia de gás, vai fazer com que a empresa do gás, seja a Galp ou seja qual for, tenha menos lucro. E mesmo, por exemplo, na questão da Caixa Geral de Depósitos, ele disse claramente que os dividendos depois devem ser utilizados para a compra de habitações, consignando esse valor que já era distribuído ao Estado. E portanto, há aqui uma forma de Pedro Nuno Santos olhar para a sociedade e para as empresas em geral, que marca um pouco a diferença para aquela que é a posição da Aliança Democrática. E portanto, eu diria que ele aqui tenta, de alguma forma, centrar-se ideologicamente e ir à procura disso que tu dizias, que era o problema das pessoas. Não só nessa parte que tu dizias do bolso e da compra direta, que ele chega a dizer que as pessoas ganham mais, mas compram menos, mas depois também duas áreas que eu não sei se queres que fale mais especificamente, como a habitação, a saúde e o próprio trabalho.
Sim, só indo aqui por partes, no que toca à saúde, foi detalhada essa entrada de alguns serviços, como medicina dentária, que já estava também no programa anterior do Partido Socialista para as últimas legislativas, a questão da saúde mental também a entrar no SNS, mas no que toca à habitação, Pedro Nuno Santos diz que as medidas da Aliança Democrática já se esgotaram, que o PSD, o governo PSD/CDS, já aplicou tudo aquilo que poderia aplicar quanto à habitação. Essa é a leitura de Pedro Nuno Santos nesta apresentação. O Partido Socialista, no governo António Costa, também aplicou várias medidas. O que é que traz de novo, de facto, o Partido Socialista no que toca à habitação nesta apresentação de programa?
Acabamos de ouvir há pouco ele a falar de uma espécie de um apoio à renda que já existia, só que Pedro Nuno Santos quer dar parece-me um salto quantico. Já existia no tempo do governo do Partido Socialista, alguns contratos eram por cinco anos ou o apoio era por cinco anos e portanto ainda se mantém, uma vez que ainda estamos na vigência desse período. E o que me parece que ele quer, embora ele não tenha concretizado, eu não sei, ainda não consegui olhar para o documento para perceber se está lá detalhado, mas parece-me que o que o Pedro Nuno Santos destacou tem a ver com alargar isso à classe média, ou seja, pessoas que não têm dificuldades económicas particulares, mas têm uma taxa de esforço de habitação muito grande, portanto, alargar esse apoio à renda. Ele depois, a certa altura, ataca a proposta ou aquilo que a AD tem feito, não só a maneira como tem tratado, por exemplo, o programa Parta 65, mas dá a entender, por exemplo, que a compra de habitações por sub-35 não tem grande efeito ou grande impacto. O que é certo é que o governo anunciou há poucas semanas que já foram 20 mil jovens a comprar casa utilizando a isenção de IMT e de imposto de selo. Portanto, acho que aí Pedro Nuno Santos não está a ver bem as coisas. E eu creio que, sem dizer, e isso é uma fulguração, Pedro Nuno Santos naturalmente que na área da habitação não gosta dessa medida e, portanto, o que podemos assistir, caso Pedro Nuno Santos ganhe as eleições, é um pouco uma corrida à compra de casa por parte dessas pessoas, que passarão a ter pouco tempo para aproveitar, porque me parece que essa medida em particular ele irá reverter. E, por exemplo, se for lá na área da saúde, não estou a ver que possa manter, por exemplo, as PPPs ou pelo menos tenho a certeza que não. E deixa-me só dizer nessa área, é verdade que as duas propostas, e tu reparaste nisso e bem, já estavam no anterior programa dele, mas de facto são duas falhas do SNS, que ele sabe que estão em falha e que tenta capitalizar isso. Saúde mental tem sido uma preocupação constante e a própria saúde oral, eu costumo contar isto, que uma vez estava a falar com o pai do SNS, com António Arnaut, e perguntei-lhe o que é que falhou. E ele dizia: "Olha, a grande falha do SNS foi não terem investido na saúde oral, que depois previne muitas outras doenças." E portanto, isto é uma área que não se deve de alguma forma menorizar. E Pedro Nuno Santos já tinha até falando, creio eu, do seu filho Sebastião, etc, já tinha trazido esse ponto para a mesa ou tinha falado dessa relação e traz isso mais uma vez. No fundo, são áreas que estão a descoberto e, portanto, ele apostando nisso Quero obviamente capitalizar a voz.
Sim. Recordando aqui a última apresentação do Partido Socialista, foi também muito longa da última vez que foi apresentado um programa, hoje foi um pouco mais curta, apesar de continuar a ser longa. E para além de apresentar aqui muitas medidas e detalhar algumas medidas deste programa, Pedro Nuno Santos aproveita, claro, como sempre acontece neste tipo de discursos, para deixar alguns ataques também à oposição, neste caso, ao governo da Aliança Democrática e à candidatura do PSD. Quis utilizar essa expressão "falta de idoneidade" ao líder do governo, criticou também a utilização de ações do governo para fazer propaganda pelo PSD e voltou a apontar culpas a Montenegro por este desfecho da crise política, o cenário de eleições. Que leitura política podemos fazer daquilo que disse Pedro Nuno Santos também nesses ataques ao governo?
Isto é entre ele e Luís Montenegro, portanto é normal que ele ataque bastante Luís Montenegro. Mas uma coisa positiva é que em 45 minutos, sete ou oito foram mais para esse lado da idoneidade e da parte da spin viva, e portanto aproveitou o resto para falar de propostas concretas do Partido Socialista. Portanto, foi um discurso também muito construtivo. Mas claro, está lá sempre o ataque a Luís Montenegro. Tu falas, por exemplo, dessa questão das várias queixas que o PS tem feito na Comissão Nacional de Eleições, mas eu lembro-me, na última campanha, António Costa já estava de saída e antes da publicação do decreto fez 20 inaugurações em poucas semanas. Na altura, isso até foi noticiado. Os governos fazem isto, continuam a funcionar, até porque sabem que têm ganhos eleitorais. E houve outras críticas. Essa tu não referiste, mas foi uma curiosa que ele basicamente só faltou dizer, e ele que já disse uma vez que queria pôr as pernas dos banqueiros alemães a tremer, só faltou dizer que também punha as pernas de Donald Trump a tremer, criticando Luís Montenegro que não agiu rapidamente como Pedro Sánchez, que é socialista como ele, e que em Espanha deu uma resposta bastante dura àquilo que foram as tarifas de Donald Trump. Portanto, sim, acho que há essa dualidade, há esse ataque deliberado a Luís Montenegro. Felizmente para o Pedro Nuno Santos, não foi só isso e conseguiu desta vez também apresentar algumas propostas e aquilo que é o plano do Partido Socialista e as pessoas podem realmente ficar aqui com uma perspectiva ou votamos no um ou no outro. Deixa-me só dizer mais uma coisa, Daniel, sobre o estilo de apresentação. Ele fala longo, demora tempo, mas as coisas também demoram tempo para explicar. Mas houve ali algumas nuances. Ele chegou com Catarina Gamboa, a sua companheira, e ela geralmente não gostava dessas coisas. Luís Montenegro costuma gostar de estar ao lado de Carla Moura quando vai fazer campanha e Pedro Nuno Santos desta vez também chegou de mão dada. Parece estar ali a apostar numa imagem diferente e numa maneira de comunicar diferente ao nível viral. Eu acho que ele faz bem, tem que fazer qualquer coisa diferente, porque se o slogan está a trazer o futuro é já, de facto o futuro dele vai-se cumprir já e se a campanha online não resultou, ele tem que fazer qualquer coisa diferente. Efetivamente está a fazer com cartazes mais adocicados, menos adocicados, de mão dada com a mulher ou não, e tenho certo é que ele tem que tentar fazer diferente e está a tentar fazer. Depois pode resultar ou não, vamos ver.
Vamos ver. A 18 de maio, eleições legislativas antecipadas. Rui Pedro Antunes, a análise também à apresentação do programa do Partido Socialista, que aconteceu esta tarde no Parque das Nações, em Lisboa