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Hoje assinala-se o Dia Mundial da Saúde Mental. Ao longo do dia, ouvimos especialistas da área numa parceria com a Janssen, companhia farmacêutica do grupo Johnson & Johnson. O que vai na cabeça de cada um de nós afeta os outros. Por isso, é importante manter uma boa saúde mental ao longo da vida. Dra. Filipa Palha, psicóloga clínica, presidente da Associação Encontrar-Se, como é que cada um de nós pode fazer uma boa gestão da nossa saúde mental?

Obrigada pelo convite. Cada um de nós pode fazer uma boa gestão da nossa saúde mental, começando por reconhecer que ela existe, porque o grande problema é que nós não damos muita atenção à saúde mental e, portanto, quando somos confrontados com alguma questão desta natureza, somos todos muito incompetentes e muito ignorantes. De maneira que tudo isto começa por saber do que estamos a falar, saber o que é que se entende por saúde mental e estando informados para depois agir em conformidade. Esse é o primeiro passo.

É importante dar atenção à infância, uma vez que é aí que tudo começa?

Claro que sim. Se nós pensarmos que saúde mental é definido como um estado de bem-estar, em que cada uma das pessoas vai conseguir concretizar o seu potencial, vai conseguir lidar com os desafios da vida, trabalhar de forma produtiva, enfim, contribuir pra sua comunidade, isto é o conceito da OMS, claramente nós percebemos que a saúde mental é fundamental pra todos nós desenvolvermos o potencial que temos e nos tornarmos nas pessoas que podemos ser e ter uma vida com qualidade e com sentido. É muito importante que na infância nós consigamos promover a literacia psicológica, a literacia emocional, a literacia em saúde mental, que é dotar as pessoas das competências e dos conhecimentos, que depois as vão fazer agir de uma forma adequada.

O estigma associado ao medo é o pior inimigo no combate à doença mental, dra. Filipa Palha?

Eu anteriormente falei da literacia em saúde mental. Na verdade, é a ausência deste conhecimento e dessa literacia que faz com que, ao longo dos séculos, as pessoas fossem interpretando uma manifestação que desconheciam a sua razão e as suas causas, de forma tão negativa. E, portanto, todos os mitos, todos os preconceitos, todas as imagens negativas que nós temos associados à doença mental e que foram transmitidos de geração pra geração, fazem parte do nosso DNA. O que leva a que continuemos a partilhar dos preconceitos, das ideias erradas, em vez de estarmos informados adequadamente pra perceber que saúde mental é aquilo que eu já referi anteriormente, e que doença mental é uma experiência da vida como outra qualquer, no âmbito da saúde, e que nós temos que reagir da mesma forma que reagimos a qualquer outro problema de saúde.

Há ainda muito preconceito associado à doença mental.

Há muito preconceito. Continuamos a achar que ter um problema de saúde mental pode ser culpa de alguém, ou porque a pessoa é mais fraca, ou pode pôr em risco a visão que os outros têm de mim, ou porque continuamos a achar que se tiver que tomar a medicação é pro resto da vida e não quero ficar dependente da medicação, ou porque é o princípio de uma experiência muito negativa. Muitas pessoas com problemas desta natureza, o primeiro passo, e mais difícil que nós até encontramos na clínica, é aceitar. Com problemas de saúde mental, as pessoas têm a tendência a negar e adiar até poderem. E isto vai fazer com que os problemas que poderiam ser facilmente intervencionados, se calhar depois têm uma gravidade e uma dificuldade muito maior. Por outro lado, também é preciso nós percebermos, porque essa falta de literacia também leva a outro tipo de ideia: não é porque eu estou triste de vez em quando, ou porque estou ansiosa, que estou com problema de saúde mental.

O diagnóstico precoce é, nesse sentido, muito importante.

É, como pra qualquer outro problema de saúde. Quanto mais cedo nós identificarmos um problema de saúde, quanto mais cedo nós pudermos intervir, já se sabe que o prognóstico é melhor. E é evidente que nos problemas de saúde mental, às vezes, na dúvida, melhor perguntar. E muitas vezes até nas crianças e nos adolescentes, que não é uma área que eu domine, mas que tenha algumas noções, nós sabemos que muitos comportamentos ou muitas questões terão que aguentar até que o desenvolvimento vá acontecendo pra perceber o que é que possa ser normal ou não, mas em todo caso, esclarecimentos, procurar ajuda para ter algum aconselhamento e algum acompanhamento não faz mal.

Como é que se ultrapassa a barreira do medo e o tabu da doença mental, dra. Filipa Palha? Falava há pouco deles.

Há muito que nós sabemos que precisamos de uma intervenção multissetorial. Temos que levar o tema pro local de trabalho, nós temos que levar o tema pras escolas, nós temos que o tornar parte da nossa vida. Até agora, há muito silêncio em todo lado e, portanto, nós sabemos que as pessoas vão pro trabalho a tentar esconder este segredo que têm, como se fosse algo de que sejam responsabilizados ou de que tenham que se envergonhar, se tiverem um problema de saúde mental. Temos que abrir o debate em conversas normais, porque é como se nós, quando abordamos o tema da saúde mental, é como se estivéssemos a invadir a privacidade das pessoas, porque é algo que é tão escondido, tão silenciado, que na verdade, as pessoas têm muito pouca à vontade pra falar dele.

E onde é que reside o equilíbrio entre ser competitivo e isso não interferir com a boa saúde mental de cada um?

É como qualquer outra questão da nossa vida. É nós conhecermos os nossos limites e conhecermos os sinais de que algo está a ultrapassar aquilo que são as nossas capacidades e aquilo que é saudável para nós. Com certeza que ser-se competitivo, sim, senhor, cada um escolherá e dar-lhe-á o sentido que considerar ajustado à sua pessoa e ao seu sentido de vida. Mas mais uma vez, nós não somos nem super-homens, nem supermulheres, nem isso é o caminho que nós deveríamos desejar, porque isso volta a ser uma ilusão e volta a ser um caminho com grandes riscos.

Muito bem. Na reta final da nossa conversa, gostava de lhe perguntar qual é a missão da Encontrar-se, a associação a que preside e que hoje celebra 16 anos. Parabéns.

Obrigada pelos parabéns. Inicialmente, o nosso objetivo era contribuir para trazer para Portugal as melhores práticas naquilo que era a prestação de cuidados de saúde mental, sobretudo a pessoas com doença mental grave, que se confrontavam com grandes desafios naquilo que era o acesso a cuidados de saúde. E ao longo destes 16 anos fomos trabalhando em diferentes áreas. Trabalhamos na promoção da saúde mental, das competências socioemocionais e de combate ao estigma na escola, na promoção da saúde mental no contexto de trabalho, naquilo que é a formação de técnicos de saúde nas melhores práticas que existem, na advocacy, na luta pelo direito à saúde mental, no combate ao estigma. No fundo, procuramos contribuir em áreas onde o tema da saúde mental ainda não era muito presente e, na verdade, não era. A pandemia deu uma visibilidade à saúde mental que há dois anos começava a ter, mas não com a força que teve durante a pandemia, e que claramente nós temos que continuar a esforçar-nos para que isto não desapareça, agora que a pandemia já está controlada, e comece a ser claramente parte da nossa vida, como digo, de uma forma saudável e com a qual todos nós nos consigamos sentir confortáveis.

Doutora Filipa Palha, muito obrigado.

Obrigada eu.