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Hoje assinala-se o Dia Mundial da Saúde Mental. Ao longo do dia, ouvimos especialistas da área numa parceria com a Janssen, companhia farmacêutica do grupo Johnson & Johnson. A idade adulta está cheia de solicitações. Gerir elas pode provocar desequilíbrios. Dra. Joaquina Castelão, da Familiarmente, Federação Portuguesa das Associações das Famílias de Pessoas com Experiência de Doença Mental. Qual deve ser o papel da família junto de uma pessoa com doença mental?
Nesta situação, nunca é fácil o papel da família, porque a doença mental infelizmente afeta a mente, logo o comportamento e as atitudes das pessoas. E na maior parte das situações, a família lê ou apercebe-se dos sinais de alerta relativamente a um comportamento desajustado ou a uma forma de pensar que se alterou bruscamente, mas tem alguma dificuldade em ajudar o seu familiar com doença mental, porque pode não ter a preparação adequada. A literacia em saúde ainda é muito baixa em Portugal. Contudo, o papel da família é mais de acompanhar e auxiliar a pessoa na procura de ajuda. A procura de ajuda é fundamental. Ajuda especializada, neste caso. Normalmente, deve-se recorrer ou deveria recorrer-se aos serviços de saúde mental no âmbito do Serviço Nacional de Saúde para poder ser avaliada a situação por uma equipa multidisciplinar da área da saúde mental. Essa é a melhor forma que a família tem de poder ajudar. São pessoas que precisam de tratamento.
E era nesse sentido que ia a minha próxima pergunta, de que forma mais concreta que as famílias podem ajudar quem sofre de doença mental?
Por um lado, na procura de ajuda. Atempada. É muito importante a questão do tempo. Normalmente, nas questões da doença mental, por vezes o tempo vai passando e a pessoa não valoriza muito os sintomas que está a ter, sejam eles de uma depressão ou de outras situações mais graves. E a família também, muitas vezes, infelizmente, tende a desvalorizar no sentido "isto passa". Normalmente atribuem-se os sintomas a causas externas e, na realidade, isso muitas vezes não é bem assim. Portanto, a procura de ajuda é fundamental. E a família depois pode e deve ajudar, devidamente orientada pelas equipas de saúde mental, no sentido de ajudar a pessoa doente a cumprir o seu tratamento, seja ele farmacológico ou não, ou as duas coisas combinadas, a parte farmacológica com a parte psicoterapêutica. É fundamental este apoio que a família deve dar e é importante que dê e, no meu caso específico e no caso das famílias, aquilo que mais indicamos às pessoas é que ajudem nesse sentido, sejam um pilar junto da pessoa. No apoio moral, no apoio emocional e na necessidade de as fazer cumprir o plano de tratamento para mais rapidamente recuperarem.
Dra. Joaquina Castelão, e de que forma as famílias podem ser ajudadas, uma vez que conviver cotidianamente com uma pessoa com doença mental pode ser doloroso e duro?
É muito doloroso e duro. Enquanto familiar, costumo dizer muitas vezes que a família vive e convive com a doença mental 24 horas por dia, sete dias na semana, 365 dias no ano, ano após ano, sem descanso, sem acompanhamento adequado e sem sequer usufruir das parcas medidas que estão em vigor de apoio ao cuidador informal. Portanto, aqui é muito importante que a equipa de saúde mental que segue o seu familiar também esteja atenta aos sinais de burnout, principalmente do familiar cuidador, que é aquele que realmente mais tempo dedica ao seu familiar, porque toda a família sofre alterações. A própria dinâmica familiar, a estrutura familiar, toda a família, aquele agregado familiar que convive e vive com a pessoa com doença, acaba por ter que alterar todas as suas rotinas em função das necessidades do seu familiar. Portanto, isto causa um desgaste muito grande em toda a família, porque por vezes acontece que para darmos atenção ao elemento que está doente, não podemos acompanhar e dar a atenção devida ao resto dos elementos. Eu falo nisto principalmente em relação aos pais, que têm dois ou três filhos e que infelizmente um tem sintomas e precisa de tratamento na área da saúde mental. E portanto, é muito importante este apoio das equipas de saúde mental, que devem ser constituídas pelo psiquiatra ou pedopsiquiatra, consoante seja adulto ou criança, o psicólogo, o enfermeiro de saúde mental, o assistente social, o terapeuta ocupacional, a assistente social, portanto, um conjunto de profissionais que devem avaliar a situação do doente e da família no sentido de encontrar as respostas adequadas, nomeadamente junto das estruturas da comunidade. Isto é fundamental para aliviar um pouco a carga e até o custo da doença por parte que a família tem realmente a seu cargo.
Portanto, a comunidade também pode ajudar.
A comunidade é muito importante. O ideal será que a pessoa tenha acesso aos cuidados de saúde de proximidade, isto é, o mais próximo da sua casa, da sua residência, que não tenha que se deslocar apenas aos hospitais com serviços de saúde mental, mas que sejam as equipes locais de saúde mental agregadas a esses hospitais que venham mais próximo da comunidade, aos centros de saúde, às unidades de saúde familiar ou até outras estruturas físicas que possam ser disponibilizadas pelas autarquias. As autarquias têm um papel importante na questão dos cuidados de saúde mental. É importante que venham próximas. Por outro lado, é importante também que a comunidade esteja preparada para dar as respostas adequadas e necessárias, não só no âmbito dos serviços, por exemplo, da área social ou da área do emprego, mas também da área da educação e também nas respostas de reabilitação, que são normalmente prestadas por instituições do setor social que realizam protocolos, convenções e outros programas similares com o Ministério da Saúde e o Ministério da Segurança Social para esse efeito.
Diria que ainda há muito preconceito em relação à doença mental?
Infelizmente, há e perdura. E é real, porque a questão do preconceito, a que nós chamamos estigma, discriminação, não afeta só a pessoa que está a sofrer da doença, mas toda a sua família, pelo menos a família mais próxima. Daí também alguma dificuldade que as famílias têm em assumir que têm no seu seio uma pessoa com doença mental. E a própria pessoa que sofre doença mental também evita divulgar a situação, porque a partir desse momento é rotulada como alguém que sofre de loucura, como se efetivamente a doença mental não fosse como qualquer outra doença orgânica ou funcional, que tem a necessidade de ser devidamente diagnosticada e devidamente tratada. E o tempo aqui é fundamental, porque não podemos esquecer que, de acordo com os dados que nós temos da OMS e em Portugal também, dos vários observatórios, a doença mental, e ainda para mais com a questão da pandemia que começamos a viver há dois anos e meio, aumentou substancialmente os casos de doença mental e atinge pelo menos 25% da população. 25% da população é muita gente. De uma forma direta. E igual porcentagem de uma forma indireta, que é o familiar cuidador. Portanto, não estamos a falar de uma doença que abrange apenas um pequeno nicho da nossa população, mas a incidência da mesma atinge uma boa porcentagem da nossa população e é muito importante estarmos atentos a isso e compreender que é uma doença que afeta o comportamento e as atitudes das pessoas. Há que ter atenção a isso, há que haver compreensão, porque em qualquer momento da nossa vida, um em cada quatro portugueses pode vir a ter um problema de saúde mental e pode ser grave ou ligeiro. Portanto, temos que ter esta consciência relativamente ao próximo, que na altura está realmente com sofrimento a nível da sua saúde mental.
Claro. Dra. Joaquina Castilão, qual é o papel da associação a que preside, a Familiarmente?
A Familiarmente não é propriamente uma associação, é uma federação de âmbito nacional das associações de famílias, de pessoas com doença mental. Nós temos associadas na região Norte, região Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo. Infelizmente, ainda não temos no Algarve, porque é uma região do país bastante grande em si e a população vive de uma forma um tanto ao quanto dispersa. Nós temos Faro, Portimão, portanto, há uma distância muito grande entre estes dois polos e não tem sido fácil organizarmos uma associação de famílias. Mas o principal objetivo da Familiarmente, ela foi criada em 2015, precisamente pela mão de várias associadas, que entenderam ser necessário dar uma voz organizada às famílias. E foi através da federação que esse objetivo foi conseguido. Estatutariamente, a Familiarmente representa as associações de famílias e, por sua vez, as famílias, na defesa dos seus direitos e legítimos interesses, na melhoria das condições de vida das famílias e também dos seus familiares afetados por doenças do foro mental. E também representá-las a nível dos órgãos consultivos nacionais, regionais e locais, onde têm assento as famílias das pessoas com doença mental, precisamente também na defesa dos seus direitos e legítimos interesses e, sempre que possível e que chamada para tal, na definição das políticas de saúde mental é fundamental. Há uma nova legislação que saiu em dezembro de 2021, que é o Decreto-Lei 113, de 14 de dezembro, que prevê precisamente a inclusão e integração das famílias nos órgãos consultivos que estão a ser criados. Isto é fundamental, porque é importante que os utilizadores dos serviços de saúde mental possam ter uma palavra a dizer também na questão da avaliação dos próprios serviços e no desenvolvimento e implementação das políticas de saúde mental.
Muito bem, dra. Joaquina Castilão, muito obrigado.
Muito obrigado eu, bem-haja.
A saúde mental está hoje em destaque na Rádio Observador. Se quiser saber mais sobre o tema, procure por "Quem vê caras, não vê saúde mental", no site do Observador.