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Hoje assinala-se o Dia Mundial da Saúde Mental e, por isso, numa parceria com a Janssen, companhia farmacêutica do grupo Johnson & Johnson, ao longo de todo o dia vamos estar à conversa com vários especialistas da área. Saber gerir a frustração e ter capacidade para lidar com as emoções são competências que devem ser cultivadas em idade precoce para uma boa saúde mental em adulto. Eu sou a Maria João Simões e para falar sobre este tema está comigo a pedopsiquiatra Dra. Margarida Cruz. Doutora, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Muito obrigada eu. É um gosto.
O gosto é nosso. Doutora, que situações, sinais e sintomas numa criança não devemos desvalorizar?
Eu diria que, acima de tudo, quando há uma alteração no padrão de funcionamento normal da criança, quando de repente o nosso filho passa a agir de uma forma não habitual e em persistência, eu acho que deve ser isso que nós não devemos desvalorizar. Um miúdo que brincava e deixou de o fazer, um miúdo que gostava de ir à música ou futebol e que também deixou de o fazer. Portanto, generalizando, diria que era isto. Se formos um bocadinho mais específicos, podemos pensar que sintomas como uma tristeza, uma ansiedade muito grande, alterações graves no comportamento, com impulsividade, agressividade, são sintomas que também não devemos desvalorizar.
Os infantários e os educadores têm um papel muito importante para alertar, mas também para ajudar na prevenção e no tratamento.
Sem dúvida. Os educadores, ao fim e ao cabo, estão muito tempo com as nossas crianças. E não temos que reparar nisto como um tom de crítica. De facto, é assim, é como é e muitas vezes é mesmo como pode ser. E, por outro lado, têm um olhar muito treinado para visualização de padrões. Eles sabem o que é o mais típico e o menos típico e, como tal, podem fazer a detecção de alguns sintomas ou de alguns comportamentos que nos possam deixar mais preocupados. Mas atenção, para além desta detecção, nós temos que nos lembrar que as famílias ou estas questões em saúde mental, são assuntos particulares. São assuntos sensíveis e, portanto, os educadores podem, de facto, detectar, mas esta transmissão feita aos pais, que por sua vez podem procurar ajuda, pode requerer o seu tempo.
Falou em assuntos sensíveis. Quando há problemas de saúde mental nos filhos, os pais sentem muitas vezes como um falhanço. Como é que a família deve lidar e ultrapassar o problema?
Cada situação é particular. E os sintomas ou a doença, quando surgem, têm que ser enquadrados. Ter uma doença mental não é uma escolha. Há sempre um balanço entre o que é a nossa herança genética e o que é o nosso contexto, o sítio onde nós vivemos, as influências que nós recebemos do meio. E dentro deste contexto, nós podemos também distinguir fatores que nos protegem e fatores que nos colocam em risco. E, portanto, perante um diagnóstico de saúde mental, feito o enquadramento e havendo uma diretiva terapêutica, eu acho que esta diretiva deve tentar incidir naquilo que são os fatores que nos podem proteger. Ao fim e ao cabo, o que é que nós podemos mudar no nosso dia a dia, que faça com que eu esteja mais protegido contra a eventualidade de uma doença ou contra esta doença que já se instalou. E falo, por exemplo, de coisas mais generalistas, como ter um ambiente estável em casa, haver regras estabelecidas, haver progenitores que entre si não se desautorizem, progenitores que valorizem os filhos, que estejam atentos, consigam ter tempo útil para eles, mesmo que esse tempo seja pouco, que seja um tempo útil, um tempo bom, um tempo proveitoso, e outros fatores que nos protegem. Sabemos que ter um melhor amigo é um fator protetor, termos uma qualidade ou um talento reconhecido pelas outras pessoas também é um fator protetor. Eu acho que, ao fim ao cabo, a doença mental ou se contorna, ou se vai conseguindo ir evitando aos poucos, quando há esta estabilidade garantida na família das pessoas. Agora, não é sinónimo de que havendo estabilidade, que sempre se consiga evitar que a doença mental possa surgir.
Doutora Margarida Cruz, falou em terapêutica, já lá vamos, mas muitas vezes os pais têm dúvidas se será demasiado cedo para recorrer a um profissional. Há uma altura certa para o fazer?
Não. A altura é quando os pais entenderem, basicamente. Nós, pedopsiquiatras, vemos desde crianças muito pequenas, desde bebés, até adolescentes de 18 anos. Eu diria que sempre que existir uma dúvida, uma inquietação, por parte dos pais, isso deve ser o impulso para procurar uma consulta de especialidade. No fundo, se pensarmos que há situações que podem requerer uma intervenção mais imediata e que não indo, estamos a atrasá-la. Por outro lado, para além de atrasar a intervenção, estamos a contribuir para que a patologia se instale de uma forma mais cristalizada, pode não ser benéfico. E podemos ainda pensar que a ida a um pedopsiquiatra, muitas vezes serve para o pedopsiquiatra assegurar os pais que até determinado momento, até aquela altura, está tudo a correr bem. Portanto, muitas vezes as dúvidas dos pais, as inquietações dos pais, não constituem ou não configuram verdadeiramente aquilo que virá a ser um problema em saúde mental. E, portanto, eu acho que sempre que há essa inquietação, deve-se ir ao pedopsiquiatra, nem que seja para ouvir que está tudo bem.
Doutora, e as terapêuticas passam sempre pela medicação e são seguras? É que há muito receio sobre a segurança da medicação e de outros tratamentos.
Não, não passa sempre pela medicação. No fundo, um pedopsiquiatra, como médico que é, colhe os sintomas, tenta enquadrar esses sintomas num diagnóstico, inseri-los numa dinâmica familiar específica e perante isso prescreve uma medicação, dá uma indicação terapêutica. E dentro dessas indicações terapêuticas, nós podemos recorrer a várias estratégias. Por exemplo, à terapia da fala, à psicoterapia, à psicomotricidade, terapia ocupacional, uma intervenção de cariz mais escolar. No fundo, os remédios são só uma das estratégias que nós temos à nossa mão. E habitualmente, quando é instituída, não é uma forma de intervenção isolada. E, portanto, eu acho que há muito essa fama de que os miúdos vêm ao psiquiatra ou pedopsiquiatra para serem medicados, mas esta não é assim tanto a nossa prática clínica.
A saúde mental está hoje em destaque na Rádio Observador. Eu sou a Maria João Simões. Deixo-lhe o convite para saber mais sobre o tema, procure por "Quem vê caras, não vê saúde mental" no site do Observador. Doutora Margarida Cruz, muito obrigada por ter feito parte desta iniciativa.
Muito obrigada eu.