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Hoje assinala-se o Dia Mundial da Saúde Mental. Ao longo do dia, ouvimos especialistas da área numa parceria com a Janssen. A depressão é a doença mental mais comum, mas não deve ser desvalorizada. Doutor João Bessa, como é que se identifica uma pessoa com primeiros sinais de depressão?

O diagnóstico da depressão é feito com base em alterações psicopatológicas importantes a nível do humor, em que encontramos um estado de perda de energia, de interesse e prazer nas atividades do dia a dia, sentimentos de tristeza, de culpa e de baixa autoestima. Acontecem também alterações no sono e no apetite, que são muito variáveis, podem ir desde insônia até hipersônia, ou da anorexia até o aumento do apetite, e depois a diminuição da concentração, capacidade de executar tarefas e também pensamentos negativos e pessimistas, que às vezes cursam com ideias relacionadas com o fim de vida, com a morte. No entanto, não devemos confundir depressão com tristeza. A tristeza é uma emoção negativa, vivenciada sempre que temos algum episódio ou evento negativo na nossa vida. Estes sentimentos de tristeza na depressão são muito mais profundos e acompanham-se de um vazio vivencial, que é diferente da tristeza que sentimos todos os dias.

O diagnóstico precoce pode evitar uma depressão?

O diagnóstico precoce é muito importante. Portanto, quando identificamos, ou em nós próprios, ou em alguém que nos é próximo, este tipo de alterações, devemos imediatamente falar com a pessoa e procurar ajuda clínica, seja do médico de família, seja de um psicólogo, seja de um psiquiatra, um técnico de saúde mental, para detectar o problema. Há também formas de fazermos prevenção primária da depressão, isto é, induzimos alterações na vida da pessoa que possam prevenir estes estados. Por isso, o diagnóstico precoce é essencial para o tratamento, depois, a médio e longo prazo, dessas situações.

Doutor João Bessa, o que é que pode induzir um estado depressivo?

São muitas as causas que podem estar envolvidas nesta doença. E são causas complexas, que vão desde fatores individuais da própria pessoa, como as suas características da personalidade, fatores genéticos, há muitas vezes associação familiar neste tipo de perturbações, até fatores que nós caracterizamos como ambientais. Fatores como o estresse, o trabalho, os eventos negativos na vida, como por exemplo, as perdas afetivas, e que afetam bastante o nosso funcionamento psíquico e nos vulnerabilizam para podermos desenvolver uma perturbação depressiva.

A depressão é uma doença do primeiro mundo, onde as solicitações para a perfeição são maiores, ou não?

Eu acho que talvez não podemos chamar a depressão uma doença do primeiro mundo, no sentido em que sabemos que ela tem uma prevalência importante globalmente. Agora, é verdade que o aumento na prevalência desta doença se tem associado à pressão acrescida e à velocidade que passamos a funcionar hoje em dia. E, portanto, estas solicitações para a perfeição, como dizia, acabam por ser um dos fatores que nos vulnerabilizam para podermos desenvolver uma depressão.

E a depressão tem tratamento?

A depressão, felizmente, tem tratamento, embora seja uma patologia que induz muito sofrimento psíquico e que tem um forte impacto no próprio indivíduo, na sua família, na sua capacidade de trabalho. É uma doença que hoje em dia tem tratamento eficaz. E é um tratamento que passa, desde logo após o diagnóstico e intervenção, por diferentes metodologias. Por um lado, a psicoterapia, que pode ajudar a resolver alguns dos problemas que eu referi, desde logo relacionados com eventos de vida negativos, com a personalidade do indivíduo, até o desenvolvimento de estratégias mais funcionais para lidar com os problemas. E depois o tratamento médico, que hoje em dia, e já há mais de 50 anos, temos disponíveis fármacos seguros, seletivos, que não causam efeitos secundários significativos e que têm uma eficácia mais do que comprovada cientificamente para aliviar os sintomas da depressão.

Doutor João Bessa, o trabalho associado ao estresse é o principal indutor da depressão?

Excelente questão. Eu não sei se é o principal indutor, mas hoje em dia é um dos principais fatores que nós encontramos nos tais eventos de vida que são relevantes para o desenvolvimento de uma depressão. Portanto, muitas vezes, as questões relacionadas com questões de trabalho, a pressão no trabalho, a relação dentro das equipes de trabalho, acabam por ser fatores importantes. E que são alvo, lá está, da tal estratégia de intervenção mais psicoterapêutica e psicoeducativa nas situações de depressão.

E a depressão pós-parto, estamos a dar a devida atenção?

A depressão pós-parto é um contexto muito específico da depressão. Nós sabemos que após o nascimento de uma criança, a mãe vive um período de maior vulnerabilidade, e é um período longo, que pode durar até um ano após o nascimento da criança Em que há uma maior suscetibilidade para desenvolver uma depressão, que às vezes tem características até muito próprias, que decorrem do fato de haver uma interação com a criança e o cuidado à criança. Portanto, eu acho que é uma situação que, pela sua especificidade e pelo impacto que tem no estabelecimento dos laços afetivos entre a mãe e a criança, que nós devemos prestar cada vez mais atenção. E a verdade é que também aqui nesta área, em termos de tratamentos eficazes, tem havido desenvolvimentos científicos muito interessantes que vão permitir, num futuro próximo, intervir de forma específica nesta doença, no contexto pós-parto.

Como é que um indivíduo, e os que estão à sua volta, devem gerir um estado de depressão?

Um estado depressivo, tal como eu já referi, é um estado que para além de induzir um sofrimento pessoal muito significativo, falamos de sentimentos de tristeza, de vazio, de incapacidade de sentir prazer, que depois afetam o funcionamento da pessoa, seja na família, com os amigos, no trabalho, portanto, tem um impacto muito significativo. É essencial que tanto o próprio, quando identifica estes sintomas, como os familiares, os amigos que estão à sua volta, tenham a noção de que é preciso procurar ajuda. E esta mensagem é muito importante. Embora a depressão seja, na sua maioria, uma doença episódica. A verdade é que necessita de acompanhamento e tratamento, porque tem riscos associados. Portanto, aqueles que estão à volta da pessoa e a própria pessoa, devem ser motivados a procurar a ajuda clínica necessária para ultrapassar estes estados depressivos e diminuir os riscos que estão associados a esta doença.

Muito bem.

Aí o tratamento é essencial.

Doutor João Bessa, agradeço os seus ensinamentos e os seus conselhos.

Muito obrigado, eu é que agradeço a oportunidade.

A saúde mental está hoje em destaque na Rádio Observador. Se quiser saber sobre o tema, procure por "Quem vê caras, não vê saúde mental", no site do Observador.