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Hoje assinala-se o Dia Mundial da Saúde Mental. Ao longo do dia, ouvimos especialistas da área numa parceria com a Janssen. A doença mental é um problema de saúde e, como a dor, por exemplo, pode ser crônico. Doutor Gustavo Jesus, o que são patologias mentais crônicas?
Olá, antes de mais, muito obrigado pelo convite e saúdo a vossa iniciativa para falar de saúde mental num dia como este. E espero que falem mais vezes, mesmo quando não seja o Dia Mundial da Saúde Mental. Essa pergunta é interessante, mas é muito ampla a sua resposta. Se eu tivesse que dar uma resposta, estaríamos aqui a tarde toda só para vos dizer que existe uma grande diversidade de perturbações mentais. E algumas delas são sempre crônicas. É o caso, por exemplo, da esquizofrenia ou da doença bipolar, que são doenças que após a sua instalação passam a ser crônicas. Elas não têm cura, se é que podemos dizer. E outras doenças que, por natureza, não são crônicas, mas em virtude da sua evolução clínica, podem se tornar crônicas. Por exemplo, é o caso de algumas perturbações de ansiedade ou algumas perturbações depressivas. Outras, por exemplo, como as perturbações de neurodesenvolvimento, que são também crônicas. Por que eu estou a dizer isto tudo? Porque eu acho que às vezes se conota a palavra crônico a uma coisa muito negativa, como se fosse uma sentença. "Esta doença é crônica e a partir de agora isto é um problema." Mas muitas doenças podem ser crônicas e ainda assim as pessoas terem uma vida completamente normal enquanto as tratam. Outras doenças podem nunca vir a ser crônicas, ainda que potencialmente possam ser. Existem, no fundo, doenças que são sempre crônicas, a esquizofrenia, a doença bipolar e outras deste gênero. Outras doenças, como a depressão ou as perturbações de ansiedade, menos frequentemente tornam-se crônicas, embora também o possam ser. O que eu queria chamar a atenção é que uma doença crônica não é uma sentença de má vida ou de má qualidade de vida a partir do momento em que existe.
E qual é a origem das doenças mentais crônicas?
Mais uma vez, depende do tipo de doença. Na generalidade, nós podemos dizer que a doença mental tem múltiplas causas. São doenças multifatoriais e essas causas são, muitas delas, biológicas, genéticas. E atenção que, na realidade, as doenças mentais que são tendencialmente mais crônicas, como é o caso da esquizofrenia e da doença bipolar, são precisamente as doenças mentais com mais carga biológica, com mais carga genética. Que podem ir até aos 60, 70, 80% de hereditabilidade, de carga biológica genética. E depois os fatores ambientais. Os fatores de estresse ambiental, os consumos de substâncias, o estresse laboral, os poluentes, tantas outras coisas que podem contribuir. As relações familiares, as relações na infância. Nas doenças mentais, nós temos sempre um conjunto de fatores: os genéticos, biológicos e os ambientais. Eles pesam é de diferentes maneiras. Enquanto que nas doenças tendencialmente mais crônicas, como é o caso da esquizofrenia e doença bipolar, a carga biológica é maior, é uma proporção muito grande dos fatores, nas doenças mais comuns e que apesar de tudo têm menos tendência para cronificar, como é o caso das perturbações de ansiedade e depressão, a carga biológica existe na mesma, mas é proporcionalmente menor.
Disse há pouco que a doença mental crônica não era uma sentença. Têm cura as doenças mentais crônicas?
A resposta é não, porque uma doença para ser crônica é porque não tem cura, porque senão seria tratada e deixaria de ser crônica. Porque a doença crônica é uma doença que se mantém no tempo. Porém, eu aqui gostava até de chamar a atenção para isto: é que na generalidade da medicina e das especialidades médicas, as doenças não têm cura. À exceção de uma infecção que se cura com antibiótico ou de uma outra coisa qualquer, a generalidade das doenças não se cura. As doenças tratam-se. Por exemplo, a asma não tem propriamente cura. Existe uma hiperreatividade dos brônquios, existem medicamentos que se podem fazer para mitigar. A evolução ao longo da vida pode fazer com que os sintomas desapareçam, mas não se fala assim em cura. E o mesmo se passa com a doença mental. Nós não temos cura propriamente dita para a maior parte das doenças mentais, mas temos tratamentos hoje em dia muito eficazes. Nós temos doenças em que o tratamento deve ser mantido cronicamente. Claro que a doença crônica implica tratamento crônico, tratamento mantido no tempo, mas esse tratamento hoje em dia é um tratamento que, e faço aqui um pequeno parêntesis, há muito estigma relativamente aos medicamentos psiquiátricos, como sabe. E as pessoas acham que os medicamentos são horrorosos e as pessoas ficam drogadas, gordas e não se conseguem mexer. Isso hoje em dia não faz grande sentido, porque os medicamentos evoluíram muito a partir dos anos 90, 2000, e não são assim. Isto quer dizer que doença crônica implica tratamento crônico, mas o tratamento crônico é uma mais-valia, porque põe a pessoa a funcionar bem. Doenças como, por exemplo, a depressão, podem ser, se é que podemos dizer, eu acho que o termo não deve ser empregado, mas podem ser curadas, porque a pessoa trata a depressão, aquele episódio, e o problema, em princípio, está eliminado, embora possa sempre haver uma recaída futura.
Então vamos olhar para os tratamentos. Que tratamentos existem para as doenças mentais crônicas?
Muito bem. Para as doenças mentais crônicas, concretamente, ou melhor, eu até posso dizer para todas as doenças mentais. Os tratamentos são, principalmente e sobretudo, tratamento medicamentoso e tratamento psicoterapêutico. Depois depende da doença em particular. No caso das doenças mentais crônicas, como é o caso da esquizofrenia e da doença bipolar, o tratamento é eminentemente farmacológico, ou seja, para tratar a esquizofrenia ou a doença bipolar, é obrigatória a medicação, a medicação é necessária. A medicação é hoje em dia muito diferente do que era nos anos 60, nos anos 80, nos anos 90, e que criou esta imagem horrível dos medicamentos e que ainda hoje subsiste na cultura popular. Os medicamentos não são assim e é suposto a pessoa estar medicada, obter os benefícios de estar medicado e nem por isso ficar cheia de efeitos secundários. Não é isso que é suposto acontecer. Nas doenças como sendo a depressão, quando a depressão se torna crônica ou quando há sinais de se tornar crônica, também pode ser necessário fazer tratamento crônico com medicação. Claro que há múltiplos tipos de medicamentos psiquiátricos, como sabemos. Os antipsicóticos, os estabilizadores de humor, os antidepressivos, todos eles com suas indicações particulares e hoje em dia com um bom perfil de efeitos adversos e tolerabilidade. E depois temos a psicoterapia. A psicoterapia é mais importante para algumas doenças do que para outras. No caso, por exemplo, das doenças crônicas como a esquizofrenia, a psicoterapia tem um papel menor Mais como uma psicoeducação do que como uma psicoterapia no sentido que se utiliza para a depressão ou para a ansiedade. Uma psicoeducação no sentido de o doente reconhecer cada vez melhor o que é a sua doença, quais são os sintomas da sua doença, os sinais de alerta para uma descompensação, quando é que deve pedir ajuda e dizer: "Olha, a minha doença não está estável". Perceber a função dos medicamentos, por que os deve manter, etc.
E em que condições é que se deve propor a institucionalização de uma pessoa portadora de doença mental crónica?
A institucionalização é uma exceção, ou deve ser uma exceção. Que isso fique bem claro. Foquemo-nos, sobretudo, na doença crónica, ou seja, esquizofrenia, depois um pouco de doença bipolar, mas principalmente esquizofrenia, são doentes que, dependendo da evolução, podem ser doenças muito impactantes ou menos impactantes. Em alguma percentagem destes doentes crónicos, uma pequena percentagem, precisam de institucionalização porque podem não ser autónomos para viver em comunidade, mas isso deve ser uma pequena exceção.
Muito bem. Como é que o SNS trata a doença mental crónica?
Na sequência do que acabei de dizer sobre a institucionalização, posso dizer que tem havido uma mudança muito grande de paradigma ao longo dos últimos anos. Havia asilos psiquiátricos, como nós sabemos, hospitais psiquiátricos antigos dos anos 80, anos 90, que albergavam muitos doentes crónicos que se mantinham internados porque não havia opções para o seu tratamento e não era possível tratá-los suficientemente para que eles ficassem estáveis e estar na comunidade. Hoje em dia, isso não é assim. Hoje em dia, transitamos os nossos cuidados dos doentes crónicos para a comunidade. Ou seja, as pessoas têm uma doença crónica, por exemplo, como a esquizofrenia, se fizerem o tratamento adequado, podem ter uma vida muito normal ou próxima do normal e estar inseridos na comunidade. Obviamente, são cuidados que precisam de cuidados ambulatórios, consultas de psiquiatria, de psicologia, que são dadas no Serviço Nacional de Saúde e que o Serviço Nacional de Saúde, de facto, dá resposta. Apesar da sobrecarga que o Serviço Nacional de Saúde teve nos últimos tempos, a resposta a esse nível não é má. E depois temos os aspetos relacionados com o internamento. Os internamentos em termos de doença crónica, que é o que me está a perguntar, são um problema, porque nós temos, e bem, o encerramento progressivo de camas de doentes crónicos nos hospitais psiquiátricos, que supostamente devem ser substituídos por estruturas na comunidade. Atualmente, está prevista na política de saúde mental a criação de um número grande de camas na Rede Nacional de Cuidados Continuados para a Saúde Mental, mas infelizmente, os factos mostram que não tem havido um acompanhamento do encerramento das camas de crónicos com abertura de novas camas para esses doentes. Estamos numa situação um bocadinho complicada, atualmente, em que há que tomar atenção e há que pôr no foco da discussão também os cuidados destes doentes crónicos, porque quando se encerrarem as camas de doentes crónicos dos hospitais psiquiátricos que restam, que ainda existem. Existem no Porto e em Lisboa hospitais psiquiátricos com camas de doentes crónicos, que vão encerrar de acordo com o que está previsto. É muito importante que existam alternativas para estes doentes, porque essas alternativas neste momento não existem e as que existem são muito insuficientes.
Tal como as restantes doenças, é fundamental o diagnóstico precoce das doenças mentais crónicas?
Sim, toda a doença mental, quando diagnosticada precocemente, tem uma melhor evolução. Ou seja, o prognóstico é melhor se o diagnóstico for precoce, porque vamos focar-nos na esquizofrenia, por exemplo. O tratamento fundamental, como eu expliquei, é farmacológico. Nós iniciamos uma medicação para a esquizofrenia, está demonstradíssimo que a adesão terapêutica e uma boa continuidade do tratamento melhora a evolução clínica, diminui o número de recaídas, portanto, as pessoas ficam doentes menos vezes. Convém recordar que cada vez que uma pessoa adoece, deste ponto de vista, nomeadamente que fica com um episódio psicótico, o tratamento torna-se mais difícil. O cérebro sofre dano daquele episódio psicótico e, portanto, a adesão à terapêutica e a manutenção da estabilidade clínica vai melhorar o prognóstico a longo prazo, melhorar a resposta à terapêutica. Por isso, quanto mais cedo se fizer o diagnóstico, mais cedo se perceber que é necessária a terapêutica e a adesão à terapêutica, melhor vai ser a evolução clínica e vai ser melhor depois o funcionamento, porque o objetivo final é que o doente, mesmo com a doença crónica, viva uma vida normal ou o mais normal possível.
Doutor Gustavo Jesus, obrigado.
Obrigado eu pelo convite.
A saúde mental está hoje em destaque na Rádio Observador. Se quiser saber sobre o tema, procure por: "Quem vê caras, não vê saúde mental" no site do Observador.