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Está de regresso o Quente e Frio à Rádio Observador, depois de umas merecidas férias da nossa Filomena Martins. Bem-vinda, Filomena.
Olá, João.
Com uma cor invejável, devo dizer para os nossos ouvintes que só nos ouvem, não conseguem ver, mas estou aqui eu para confirmar. Semana de regresso ao trabalho para muitos portugueses. E vamos passar do calor à chuva e da chuva ao calor. É isso?
É sempre para me habituar ao regresso ao trabalho também.
Para não custar tanto.
É, para não custar tanto, para não parecer. Mas também vou-te dizer o que se costuma dizer: "Sol de pouca dura", neste caso é chuva de pouca dura. Porque a mudança é já esta terça-feira, começa pelo norte, durante a tarde, entra ali pelo Minho esta frente de chuva e vai alargar gradualmente ao Douro, litoral e Trás-os-Montes. Braga e Bragança poderão acumular ali perto de 7 ml de chuva, o Porto cerca de cinco, Aveiro talvez quatro. Mas não são valores elevados, são uns chuviscos, e estamos a falar de um episódio de chuva que interrompe por algumas horas o tempo seco e quente e não vamos ter chuva o resto da semana, nem vai ser chuva extrema. A chuva vai prolongar-se apenas pela noite de terça pra quarta, consegue vir um pouquinho mais pra sul, cercando algumas regiões do centro. Durante a manhã de quarta-feira ainda haverá esta precipitação, sobretudo no norte e centro, mas depois perde força na quarta-feira à tarde e torna-se mais dispersa, até desaparecer na quinta. Na quinta já praticamente não haverá nada de nuvens, nem nada, e volta o sol e o calor.
Mas eu tenho família no norte e que este fim de semana foi afetado por esta trovoada e granizo. Vai ser assim ou nem por isso?
Não, chuva não significa necessariamente trovoada e muito menos granizo. Esta chuva está só associada à passagem de uma perturbação, uma frente, que vem acompanhada também de um pouco de ar mais fresco, mas não há qualquer indicação nem de trovoadas fortes, nem das granizadas que provocaram esses estragos no fim de semana, e que já vamos falar deles. Por isso esta frente, que é uma frente polar, vai sentir também nos termômetros, mas nada de relevante. Terça e quarta-feira trazem uma descida nas temperaturas, mais também evidentes no norte e centro. O Porto ficará ali pelos 24, Lisboa, onde a chuva provavelmente nem chegará, também vai ter um pouquinho de descida da temperatura, mas também muito pouco significativa. E a mudança, como eu disse no início, vai durar muito pouco. Na quinta-feira, a perturbação já terá ido pra leste e voltam as altas pressões, portanto a chuva desaparece, o tempo seco volta e as temperaturas começam imediatamente a recuperar. Na quinta, Lisboa já estará acima dos 30, o Porto ainda nos 20 e poucos, e no interior Centro e Sul, já estaremos com 32, 35. E na sexta-feira o calor reforça ainda mais, sobretudo no interior e no sul, no Alentejo, sobretudo, Beja já estará nos 38 e talvez 39. Não se pode dizer que estamos numa mudança definitiva pro tempo de outono, lá chegaremos, ou não, se calhar ainda não tão cedo, é apenas uma interrupçãozinha, para dizer: "Acabou aqui, cuidado que de vez em quando vai vir chuva", muito curta, de um dia, antes das temperaturas voltarem a subir. E é aquilo que esperamos para esta terça e quarta-feira, e que depois daquilo que aconteceu no fim de semana, é importante, é preciso dizer que não vai haver trovoadas. Pode chover sem haver trovoadas, pode haver trovoada também sem cair granizo, e para termos aquelas pedras de gelo com 2 ou 3 cm, como tivemos, é preciso uma combinação muito mais exigente de condições dentro de uma nuvem de tempestade. É preciso dizer isso.
E vamos ao fenômeno desta edição. Como é que se forma o granizo e como é que uma pedra de gelo, que nós vimos essas imagens, consegue crescer no céu até ter o tamanho suficiente para amolgar um carro ou até partir um telhado? Essas imagens eram, de facto, impressionantes.
E não eram, nem de perto, nem de longe, as maiores que já tivemos. Muita gente perguntou como é que pode cair granizo de 3 cm quando estão mais de 30 °C, e estava. E a pergunta vem, de facto, do que aconteceu no fim de semana na Branca, em Albergaria-a-Velha, onde caíram essas pedras com 2 e 3 cm, com chuva muito intensa e também muito vento. Houve árvores derrubadas, inundações, danos em casas, em carros. Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca também foram atingidos. 3 cm parecem muito ou pouco, mas já são suficientes para causar estragos. Na Europa, considera-se granizo grande a partir dos 2 cm. Nos Estados Unidos, 2,54, a esta precisão, de granizo é um dos critérios para classificar uma trovoada como severa.
Portanto, 3 cm já está aqui fora desse parâmetro, não é?
É.
Mas como é que aparece o gelo num dia quente? Porque estavas a falar de temperaturas de 30 °C.
Era o que estava. O granizo, é preciso explicar, nasce dentro de uma, vocês estão habituados a este palavrão, cumulonimbus, uma enorme nuvem de trovoada, que pode crescer mais de 10 km na vertical. Isto é importante, fixem-se os 10 km, porque mesmo com 30 °C cá embaixo, vários quilômetros acima nós temos temperaturas muito inferiores a zero. E dentro dessa nuvem, com esta altura toda, existem correntes ascendentes, o ar quente e úmido, que sobe muito violentamente. Esse ar transporta pequenas gotas d'água pra zonas geladas na nuvem. Algumas permanecem líquidas, mesmo abaixo de 0 °C, e são as chamadas gotas sobrerrefecidas. Quando encontram um pequeno cristal de gelo, essas gotas congelam sobre ele, vão líquidas e congelam-se. E assim se cria a primeira pedra. À medida que essa primeira pedra circula dentro da tempestade, onde há ventos fortíssimos, encontra mais desta água sobrerrefecida e vai acumulando novas camadas de gelo. As pedras formam-se e agigantam-se assim. Quando crescem demasiado, a corrente ascendente vai Obviamente, enfraquece, porque as pedras são pesadas e a pedra ou sai dela e a gravidade faz o seu papel, a pedra cai. É tão simples quanto isso, parece uma coisa complicada, mas não é. Três centímetros, como eu estava a dizer, estão muito longe do que se conhece. Existem registros europeus com pedras acima de 14 centímetros e no Dakota do Sul, uma pedra recolhida em 2010, atingiu 20,3 centímetros e tinha mais de 880 gramas, aproximadamente o diâmetro de uma bola de voleibol. Quanto maior a pedra, obviamente, maior o risco, embora os estragos também dependam do vento, da densidade e da quantidade de pedras que caem. O granizo obviamente tem um poder tremendo de destruir culturas, partir telhas e vidros, amolgar automóveis e, nas dimensões extremas, ferir gravemente uma pessoa.
Temos ainda um minuto para a curiosidade. Vais falar do filho do Krakatoa, é isso?
É isso. Sim, porque o Anak Krakatau, que significa literalmente "filho de Krakatau" ou Krakatoa, voltou a entrar em erupção na Indonésia na sexta-feira e desde aí, passou cerca de 25 horas de atividade eruptiva praticamente contínua. A cinza chegou aos 15 quilômetros de altitude no lado de Sumatra e obrigou a suspender operações em oito aeroportos da Indonésia. Foram mais de 1500 voos, cerca de 170 mil passageiros afetados e o vulcão continua no nível de alerta três. Mas o mais curioso é que este vulcão não existia quando o famoso Krakatoa explodiu em 1883, causando uma enorme catástrofe local e global. Houve milhares de mortos, tsunamis globais e alterações do clima durante anos por causa dessa explosão. Aquela erupção destruiu uma ilha, que partiu, e deixou uma enorme caldeira ocupada pelo mar. Décadas depois, começaram novas erupções submarinas nesse sistema, o material acumulou-se e surgiu uma nova ilha. Esta, o Anak Krakatau, o filho do Krakatoa. Em 2018, uma parte do próprio filho colapsou e provocou outro tsunami mortal, depois voltou a crescer. Ou seja, nós estamos a assistir a uma montanha que nasceu durante a vida dos nossos bisavós, perdeu grande parte do corpo e está novamente a reconstruir-se. E o pai tem uma história ainda mais extraordinária. Eu só contei um bocadinho e estou a produzir o artigo que explica tudo isso sobre o pai e sobre o filho para o site do Observador daqui a pouquinho.
Muito bem, então ainda hoje vamos poder ler mais sobre essa-
O Krakatoa.
Exato.
E o filho do Krakatoa.
Sobre essa história. Filomena Martins, que está de regresso amanhã para mais uma edição do "Quente e Frio". Até amanhã.
Até amanhã, João.