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Bem-vindos ao Realpolitik, uma conversa sobre política e atualidade todas as semanas aqui na Rádio Observador e em podcast. Eu sou o Miguel Pinheiro.
Eu sou o Sérgio Sousa Pinto.
E hoje eu e o Sérgio vamos falar sobre a polêmica do SIRESP, que é uma das polêmicas políticas da semana. Vamos também falar sobre a primeira encíclica do Papa sobre a inteligência artificial. Mas antes, Sérgio, temos mesmo de conversar sobre a mais recente intervenção de Pedro Passos Coelho. Foi no lançamento de um livro. Primeiro, eles tiveram que conversar à frente dos jornalistas um pouco e depois, na intervenção que fez, Pedro Passos Coelho, a dada altura, criticou aqueles que tentam copiar os populistas, dizendo que os postiços, portanto, quem faz essa cópia, fica sem nada, fica sem integridade, fica, peço desculpa, mas fica como um prostituto sem caráter, sem reduto de pensamento. Isto é uma coisa que eu tive que ouvir várias vezes pra ter a certeza do que estava ouvindo. Mas isto só vem mostrar mais uma vez que há uma maioria aritmética da direita, mas não há uma liderança que consiga mobilizar a direita. E voltamos todos a falar sobre a eventual vontade de Passos Coelho de regressar à liderança do PSD e a primeiro-ministro. Enfim, há aqui muitas pontas por onde pegar. Para onde é que queres olhar primeiro?
Eu acho que Pedro Passos Coelho, além das referências que fizeste ao que ele disse, também disse outra coisa muito importante. Disse que é importante ganhar eleições, mas há coisas mais importantes do que ganhar uma eleição.
É verdade, também disse isso.
Ele disse isso. O que ele quis dizer com isso, do meu ponto de vista, não sei, não estou na cabeça dele, é que: "Eu, Pedro Passos Coelho, perdi uma eleição, mas governei o país de acordo com uma concepção e uma visão que era minha", era dele, enfim, patriótica, bem-intencionada, reformista, transformadora. Enfim, fez aquilo que ele considerava que era a sua obrigação perante o país. E nunca fez concessões no sentido, e os políticos todos têm que fazer concessões, mas procurou evitar fazer concessões que pudessem ser eleitoralmente vantajosas, a troco de enganar as pessoas sobre a realidade do país e sobre a urgência de certas transformações que ele via como necessárias. E, portanto, por outras palavras: "Não sacrifiquei ao populismo aquilo que considero que é a obrigação primeira e fundamental de um verdadeiro homem de Estado." Isto foi o que ele quis dizer. Julgo que é essa a interpretação que deve ser feita.
E não achas que isso é mais próprio de alguém que aspira à santidade do que de alguém que quer introduzir mudanças no país? Quer dizer, de que serve perder com aquilo que considera ser os princípios intactos? Quer dizer, acho que o objetivo de um político é governar, chegar ao poder pra introduzir mudanças, que podem ser mais rápidas ou mais lentas, podem implicar concessões mais dolorosas ou menos dolorosas, mas de que serve ao país que acredita nas mudanças que Pedro Passos Coelho poderia trazer, de que lhes serve tê-lo a fazer apresentações de livros, em vez de ter criado as condições pra estar no poder? Essa parte da intervenção dele me trouxe alguma confusão, esta coisa ascética.
Mas as pessoas têm direito à sua opinião, independentemente de quererem ou disporem das condições pra estarem no poder. Passos Coelho diz o que pensa. Aliás, seria um grande desapontamento se Pedro Passos Coelho fosse fazer a que a maior parte das pessoas fazem neste país, que é tecer loas, elogios, delicadezas, simpatias e juras de amor a quem quer que esteja no poder. Passos Coelho não participa nessa tradição nacional. Por isso é que as pessoas o ouvem. Ouvem porque diz o que pensa. E uns concordam, outros não concordam, mas o que é certo é que Pedro Passos Coelho tem um pensamento e considera ser o seu dever, até porque foi primeiro-ministro, e ele tem uma responsabilidade também perante a história e é um homem com características de estadista. Acho que podemos ser adversários políticos e conceder-lhe essas características de patriota e homem de Estado. A verdade é que ele considera que o populismo, ou seja, prometer o que não é possível, prometer dar o que não se tem, prometer oferecer o que não vamos ter, garantir que é possível o que não é viável, afasta-nos do debate sobre as questões nacionais importantes. E ele, aliás, na apresentação do livro, fez o enquadramento histórico sobre a situação de Portugal e do mundo, a propósito da apresentação de uma obra sobre direito constitucional, e enquadrou os seus pontos de vista. Não chegou lá e desatou.
Certo.
A dizer isto e aquilo sobre fulano ou beltrano, seja quem for o destinatário, quem quiser que meta a carapuça e que se considere visado. Ele explicou. Ele disse: "Nós estamos a viver uma época de profundas transformações. Não está a acontecer nada no nosso país que nos prepare para essas transformações e aqueles que querem iludir o país sobre certas reformas que vão acontecendo, mas que não têm a dimensão, o alcance e a ambição que se exigia para um país que quer realmente sair da sopa torta, que quer sair deste quotidiano difícil e sofrido." Porque o espaço mediático, embora os noticiários falem repetidamente do aumento do custo de vida, eu acho que nós, no nosso país, estamos há muitos anos, aliás, desde os tempos do doutor Pedro Passos Coelho, foram os anos evidentemente mais difíceis, a ter uma vida muito castigada. Estamos a sofrer um processo de erosão da classe média, que é a classe social que sustenta a democracia, é a classe social que exige viver em democracia. E nós estamos a assistir a um empobrecimento, numa altura em que se aproxima uma revolução tecnológica de consequências que são imprevisíveis no plano do trabalho, no plano da valorização do trabalho.
Ele falou muito de inteligência artificial também.
Da inteligência artificial também falou. E portanto, Pedro Passos Coelho o que vem dizer: bem, nós temos que tratar dos problemas reais e temos que resolver os problemas reais. Nós não podemos resolver problemas imaginários, nem criar problemas fáceis de resolver pra depois dizer que encontramos uma saída pra eles, nem tentar desviar as atenções do país das suas disfuncionalidades que têm que ser resolvidas. Portanto, eu acho que está no seu direito, é o que se espera dele. Ele não concretizou muito do que disse, mas como tenho a oportunidade de conversar muito com ele, tenho uma ideia de algumas das frustrações que lhe passam pela cabeça e são coisas inteiramente razoáveis e que o país não perdia nada se elas existissem no espaço público e na nossa conversa nacional.
Mas como é que se resolve, se é que se resolve, este impasse à direita? Nós historicamente tivemos duas grandes lideranças à direita e que conseguiram federar a direita de maneiras diferentes. Francisco Sá Carneiro conseguiu coligar a direita partidária com a AD. Cavaco Silva subjugou a direita. O que ele fez foi aniquilar o CDS e aniquilar mesmo aquelas tendências mais liberais que havia dentro do PSD, subjugou com a força dos números.
Essas tendências também foram subjugadas no CDS, que eram representadas pelo doutor Lucas Pires.
Certo. Mas quer dizer, Cavaco impôs à direita e domesticou a direita, foram duas maneiras diferentes de conseguir federar uma força sociológica que existia no eleitorado naqueles momentos. Hoje tu tens uma maioria eleitoral, mas não tens um projeto comum, nem uma liderança que consiga mobilizar um projeto comum. E portanto, é evidente que sempre houve muitas direitas, como é óbvio, mas há momentos históricos em que se consegue juntar toda a gente. E claramente, Montenegro não está a conseguir fazer isso. André Ventura também não, Mariana Leitão também não. Cotrim Figueiredo tentou isso nas presidenciais, tentou uma outra via pra isso e acabou por fracassar. E há esta ideia de que Passos talvez conseguisse fazer isso. Talvez se ele voltasse, conseguisse fazer isso. Mas também não se está a ver como é que se vão criar as condições pra ele regressar.
Não sei, eu acho que tu estás um bocadinho infetado pelo vírus da geringonça.
Ok.
Porque só vês isto em esquerda, direita, esquerda, direita, à direita, à esquerda pra aqui, à esquerda, direita. A esquerda, no período da geringonça, proclamou altissonante: "Nunca mais precisaremos da direita pra governar."
Certo.
O essencial é garantir aqui um bloco democrático, porque fora da esquerda não existe bloco democrático, o que existe é a direita, e a direita é esta miscelânea entre o PSD e o Chega, que é tudo a direita. A direita, a direita.
Eu não estava a dizer isso de forma inversa.
Como te lembrarás, sempre disse essa conversa da direita e da esquerda, não temos nada a ver com os partidos. O Partido Socialista não tem nada a ver com os partidos que estão à sua esquerda e o PSD, idealmente, também não tem nada a ver com o Chega. O PSD é um partido que representa em Portugal o centro-direita democrático e, portanto, não tem nada a ver com o Chega. E portanto, essa coisa da esquerda e da direita, esse espectro e essa ideia, a ideia que se calmentava na altura é: pra resolver os problemas nacionais, temos que derrotar a direita. A gente derrota a direita e os problemas nacionais, que no fundo são criados, mentidos, preservados pela direita maldosa, nós vamos vencer isto garantindo um futuro dominado por uma esquerda meritária/democrática. Eu não tenho essa concessão da vida democrática, nem do sistema político, nunca tive. E, portanto, agora também não vou pensar que só vai se muito cima, sendo eu como sou um homem de esquerdaSó me faltava agora ter esperanças que uma direita unida trouxesse um qualquer projeto. Imagino uma direita unida com a contribuição do doutor André Ventura. Isso é uma coisa de espantar.
Não, mas o meu ponto não é uma união partidária.
Tu queres é um projeto inspirador.
O meu ponto é uma união deste eleitorado que está descontente com o que existe, que está a votar nas várias direitas, maioritariamente, e que se está a dispersar, em vez de se juntar de alguma forma. Tu até poderias dizer: "Neste momento, não é possível a estratégia de Francisco Sá Carneiro, porque não é possível coligar esta direita". É possível tu coligares a direita do CDS de Freitas do Amaral e o PPM de Gonçalo Ribeiro Telles. É possível haver isso. Hoje em dia-
Foi há quase 50 anos.
Não, eu sei. Está bem, mas a história repete-se, como dizia o outro. Se não for em verso, é em prosa. Tu podes dizer: "Neste momento, o que é preciso é um líder como Cavaco Silva, que subjugue partidariamente a restante direita e que vá buscar aquele eleitorado". E Luís Montenegro, que tem essa aspiração cavaquista. Aliás, ele quando apresentou esta moção às eleições internas no PSD, que vão ser daqui a uns dias, ele repetiu que tem uma aspiração maioritária inspirada em Cavaco Silva. Portanto, o plano político de Montenegro é repetir Cavaco Silva, é ir buscar, seduzir o eleitorado que neste momento está disperso pela IL e pelo Chega para conseguir uma maioria absoluta que lhe permita apresentar um projeto. Tudo indica que ele não está a conseguir fazer isso. E por isso é que as pessoas realmente dão tanta importância a Passos Coelho.
Temos que chamar o nosso grande especialista em Sá Carneiro, que és tu. Tens que ir falar com o doutor Montenegro e tens de lhe explicar: "Doutor Montenegro, há certos shortcomings, certas limitações, que afastam Vossa Excelência da figura do doutor Francisco Sá Carneiro. O doutor Francisco Sá Carneiro governou, teve que aturar um presidente da República hostil, teve que aturar o Conselho da Revolução, teve que aturar um país politicamente polarizado, lidou com dificuldades colossais. Vossa Excelência, apesar de tudo, o que se lhe pede é que demonstre-
Comparado não é grande coisa.
Comparado não fica muito favorecido. Também não se espante que o projeto Sá Carneiro, que aliás ia claudicar nas presidenciais, porque o General Spiral achava que Sá Carneiro ia perder as eleições contra o Ramalho Eanes, mas Sá Carneiro, com aquela impetuosidade política dele, de certeza que batia com a porta. Lá está, mais um que dizia: não, poder pelo poder, se não é para ter condições políticas, para fazer nada, para mudar, para transformar, o poder pelo poder é uma depravação. Portanto, provavelmente Sá Carneiro teria cumprido o que disse e tinha batido com a porta.
Essa comparação é interessante, no fundo, sobre se Passos Coelho está a fazer agora o que Sá Carneiro disse que ia fazer, de facto, porque o ponto dele era: eu vou sair de primeiro-ministro se Ramalho Eanes voltar a ganhar as presidenciais, porque não há condições políticas para fazer nada. O presidente, na altura, tinha muitos poderes. Vou sair e vou deixar que eles se estampem. O PC não vai querer sair do governo, vou deixar que eles se estampem e depois logo voltarei. E pode haver quem faça um paralelismo com Passos Coelho estar a fazer aquilo que Sá Carneiro iria fazer e que não teve a oportunidade de fazer porque morreu, que é deixar que eles se estampem.
Foi aliás o que aconteceu. Estamparam-se de tal maneira que tivemos que pedir em 1983, ao fim de três ou quatro anos de governação AD, pedimos um resgate ao Fundo Monetário Internacional.
Sim, essa parte não correu bem. Sérgio, vamos ter que parar um bocadinho. Já cá voltamos para falar sobre SIRESP e Papa. Bem-vindos de volta ao Realpolitik. Sérgio, o SIRESP transformou-se aqui numa grande confusão. Só para tentar organizar aqui as coisas. O governo nomeou o general Viegas Nunes para a liderança do SIRESP. Isso levou à demissão de um dos secretários-gerais adjuntos do ministério, com acusações de ajustes diretos indevidos e outras tropelias. Luís Neves defendeu emocionadamente a escolha. Enfim, a verdade é que já andamos nisto há não sei quantos dias. Outra vez o SIRESP, não conseguimos sair disto e ainda nem sequer começou nada a arder e já estamos nisto. Ficaste inquieto com o que se está a passar? E se sim, porquê?
Fiquei inquieto porque evidentemente que o SIRESP é um sistema estratégico para o país. A diferença é que antigamente falávamos do SIRESP quando ele não funcionava e agora falamos do SIRESP quando ainda não é necessário que ele funcione sequer. Portanto, o SIRESP está a tornar-se um tema sempre presente, nunca pelas melhores razões. Eu devo dizer o seguinte: não percebo nada de comunicações, nem tenciono vir a perceber. Portanto, do que tenho podido ler e aquilo sobre que posso falar com alguma propriedade, minha opinião, meu ponto de vistaE a opinião de várias pessoas com quem eu procurei informar-me, o senhor general Viegas Nunes é um grande especialista em comunicações e alguém que exerceu com brilho e com distinção altas funções no Estado. É um servidor do Estado, um homem dedicado ao serviço da causa pública. E se o ministro da Administração Interna entendeu escolhê-lo para comandar os destinos do SIRESP, eu não vejo nenhuma razão para achar que a decisão do ministro não foi acertada. E portanto, cá estou eu a defender o governo e a desejar que tudo corra bem ao senhor ministro e ao general Viegas Nunes, e que o SIRESP seja capaz de um desempenho diferente daquele a que nos foi acostumando ao longo das diferentes calamidades que têm atingido o nosso país.
Eu também não sei quem é que tem razão. Tu não és especialista em comunicações, eu não sou especialista em investigações, por isso não faço a menor ideia se há ali problemas com ajustes diretos, se não há. Eu fiquei um bocadinho inquieto com um ponto nisto tudo, que foi na capacidade do novo ministro da Administração Interna de gerir um problema político. Para citar um grande pensador, que és tu.
Recomeça mal.
Ser político é, em certo sentido, uma profissão que exige capacidades próprias, qualidades próprias, e não é qualquer pessoa que pode ser um bom político. E o mesmo vale para um ministro.
Na minha qualidade de autoridade acima citada, tenho a dizer o seguinte: nós habituamo-nos a um tipo de políticos que são uma espécie de bonecos construídos pelos spin doctors. Eles nunca pisa em ramo verde. São todos muito parecidos. Aliás, são todos muito bem parecidos também. Além de parecidos, são bem parecidos, parecem uns Ken da Barbie. Falam impecavelmente, geralmente coisas que não escreveram e que idealmente percebem o que estão a dizer. São os políticos construídos pelas agências de comunicação. São uma espécie de produtos cientificamente concebidos para maximizar o resultado, que é agradar ao eleitorado e vencer eleições. Não me incomodo nada que nos tenhamos que habituar outra vez a pessoas que não foram formatadas pelos especialistas em comunicação. Pessoas de carne e osso, pessoas que ficam revoltadas, que nós sentimos nelas os sentimentos à flor da pele, que sentem que ouviram coisas injustas, que têm momentos em que estão zangadas, que estão fartas, outros momentos estão mais em paz com as suas funções e com as suas responsabilidades. Quer dizer, eu gosto dessa espontaneidade, eu gosto dessa genuinidade, eu gosto de, na expressão das pessoas, ver sentimentos verdadeiros e coisas que vêm cá dentro. E, portanto, não tenho nada a dizer ao ministro da Administração Interna.
Certo. E a acrescer a isso, nós em Portugal, isto está cheio de florzinhas de estufa. Na política, a avaliar a política, o jornalismo, tudo, qualquer palavra que apareça fora do sítio, ai Jesus.
Sabes que isso faz lembrar-me uma história? Era eu um jovem deputado e o presidente da Assembleia da República era o doutor Almeida Santos. Figura inspiradora de respeito. Os tempos eram outros, os deputados eram outros, mas na altura havia uns jovens deputados, ainda pouco habituados àquelas lides, que por tudo e por nada se sentiam ofendidos e pediam a palavra. Estavam ofendidos.
Defesa da honra.
Defesa da honra. E o Almeida Santos, farto daquilo: "Senhor deputado, não lhe vou dar a palavra. Os deputados não são flores de cheiro."
E muito bem, pronto, é isso mesmo. Eu nunca pensei, Sérgio, vir a concordar com o Almeida Santos, mas chegou esse dia. Apesar de tudo...
O Almeida Santos era um homem superiormente inteligente. Tinha muita graça. Às vezes, estava um deputado, umas vezes mais inspirado, outras vezes menos inspirado. Enfim, não se calava, não havia maneira de se calar. Umas coisas assim, sem ponta pé, sem pé. E o Almeida Santos diz assim: "Senhor deputado, por favor, abrevie o seu pensamento."
Podíamos transformar isso num toque de telemóvel. Eu acho que fazia falta. Mas então, vou abreviar o meu pensamento, até para irmos ao pensamento do Papa, que é mais importante. A mim parece-me, neste caso do SIRESP, o que me preocupou é que pareceu-me que o Luís Neves perdeu o controle da situação. Perdeu um bocadinho o controle da narrativa política, perdeu o controle dos tempos políticos. Eu ouvi-o ontem muito exaltado e muito irritado, com certeza que isso seria genuíno, mas acho que os políticos e os ministros têm de conseguir controlar aquilo que estão a fazer e dá-me ideia que ele está a entrar emEm espiral.
Mas também está a fazer o seu tirocinio nestas lides.
Claro, com certeza. Sem dúvida. É evidente que ele acabou de chegar e vai cometer erros, e toda a gente comete erros, sem dúvida nenhuma. Eu só gostaria que não tivéssemos que sofrer excessivamente com esse tirocinio.
Eu só gostaria que não perdêssemos um bom ministro por causa de coisas menores.
Muito bem. Vamos passar para coisas maiores.
E de que maneira.
E de que maneira. O Papa Leão fez um ano de papado, lançou esta semana a sua primeira encíclica e tomou o seu tempo. Há muito tempo que um novo papa não precisava de pouco mais de um ano para lançar uma encíclica. Se bem que ele também quis coincidir isto com as datas da "Rerum Novarum". É sobre inteligência artificial, mas não só. Toca muito mais pontos. O que tu tiraste daqui, Sérgio?
Toca muito mais pontos, mas nós não podemos ter ambição com o tempo que dispomos.
Mais uma vez, é o último tema do programa. Isto não dá, eu tenho que aprender a fazer isto diferente.
Vamos concentrar-nos numa questão que me parece fundamental, que é a seguinte: não é por acaso que o Papa Leão XIV decide fazer coincidir a sua encíclica com a "Rerum Novarum" de Leão XIII. 1891, não é verdade?
1895.
Porque a encíclica "Rerum Novarum" é uma encíclica fundamental. Significa a vontade e a determinação da Igreja de não ignorar o grande problema do século XIX, que ficou conhecido como a questão social, ou seja, as consequências sociais do processo de transformação brutal que foi a Revolução Industrial. A Revolução Industrial trouxe-nos bens, trouxe-nos a prosperidade, trouxe o nosso modo de vida. Foi uma coisa que nós hoje dizemos: a Inglaterra, no primeiro período do século XVIII, começou a Revolução Industrial, a fiação, o vapor, os caminhos de ferro, os canais, as enclosures, as ovelhas, a lã, os lanifícios. Enfim, tudo mudou. Mas a Revolução Industrial foi uma revolução tecnológica. E foi uma revolução tecnológica que trouxe consigo um sofrimento humano quase sem precedentes. Não direi na história da humanidade, que é demasiado grandiloquente, mas seguramente os miseráveis perderam a possibilidade de trabalhar no campo, com as enclosures, e que rumaram às grandes cidades industriais, sobretudo do norte de Inglaterra, para trabalharem em condições sub-humanas, com eles, as mulheres, as crianças, sem direitos, sem nada, explorados até ao limite. Problemas gravíssimos de nutrição, alcoolismo. O povo inglês que construiu a Revolução Industrial, e estamos a falar do país por excelência da Revolução Industrial, mas a Revolução Industrial trouxe por todo o lado sofrimento invisível. Houve uma desestruturação da vida das pessoas. As pessoas viviam nas suas terras, tinham as suas comunidades, tinham as suas referências, tinham a sua vida comunitária, a sua igreja, os seus centros de convívio. As pessoas tinham uma vida propriamente humana. E esse mundo foi abolido e substituído pela brutalidade da massificação do trabalho quase escravo. Os salários pouco mais permitiam do que a sobrevivência das pessoas. Havia um limiar da sobrevivência. E a Igreja Católica esteve demasiado tempo calada em relação a esta escravização do homem pelo homem. Sabes que há estudos que indicam que o tamanho dos ingleses diminuiu durante a Revolução Industrial. Isso é uma coisa extraordinária. O impacto da degradação das condições da existência foi de tal ordem que se observou o fenômeno oposto àquele, nós hoje somos testemunhas, que os nossos filhos parecem que são gigantes comparados connosco, e os nossos netos parecem o Cristo Rei. Não faço ideia. E vai ter que parar mais cedo ou mais tarde. Seja como for, foi um período de grande brutalidade e de violência social. E a Igreja responde através da encíclica "Rerum Novarum", que é a encíclica fundadora da chamada doutrina social da Igreja. É daí que vêm os partidos como o CDS, que não são partidos da Igreja Católica, mas são partidos que fazem o seu pensamento social da Igreja. Sobre a responsabilidade dos patrões, a dignidade dos trabalhadores. Dessa brutalidade toda da Revolução Industrial, vieram todos os ismos, todas as ideologias. E, por fim, veio a Primeira Guerra Mundial e depois veio a Segunda Guerra Mundial. O que o Papa vem dizer na sua nova encíclica é que nós estamos diante de outra revolução tecnológica, que já não tem nada a ver com a Revolução Industrial, mas é também ela uma revolução, que vai ter impactos sociais, que têm que continuar a ser controlados e submetidos aos fins fundamentais do homem. O homem tem que continuar a ser o centro de tudo. É este o humanismo da Igreja e da dignidade da pessoa. E quando nós hoje verificamos que se formam estas penduradas na revolução tecnológica em curso e na inteligência artificial, que ainda está a dar os primeiros passos. Estas fortunas colossais, sem precedentes na história, concentradas em poucos indivíduosO que é que nós estamos a fazer no plano político? Nós estamos a transferir outra vez a soberania, já não para um monarca, mas para um novo tipo de soberanos unipessoais.
Os tecnocratas. Os tecnocratas não, os oligarcas das novas tecnologias.
Os oligarcas não no sentido que nós damos àquela elite esquisita económica, mas oligarcas no sentido clássico, grego. Os oligarcas, os verdadeiros donos da humanidade, na prática, os verdadeiros soberanos. E o povo é outra vez privado da soberania que tanto trabalho deu a conquistar. Portanto, eu acho que esta encíclica é importantíssima e representa o desejo da Igreja de cumprir a sua função ética, moral e de guia espiritual de todos aqueles que fazem parte do povo cristão e católico, no caso vertente, de lembrar que a tecnologia não tem alma. A tecnologia pode melhorar as nossas vidas e pode ser usada para o mal. A tecnologia não tem alma e ela tem que ser submetida a uma ética. E a ética é algo sempre humano, sempre fundamentalmente humano. Não pode ser criado por nenhuma inteligência artificial.
Sem dúvida. Deixa-me só trazer uma coisa de baixa política depois do que tu disseste, e outra de alta poesia.
Todos aos abrigos.
Vocês já sabem, quando acabar a parte da baixa política, podem desligar e vão à vossa vida. A baixa política é, não quero cair no Trump Derangement Syndrome, das pessoas que veem Trump em todo lado, mas acho que houve aqui um sinal na apresentação da encíclica e não vou dizer se acho isso bem ou mal, vou só constatar. Acho que o facto de o Papa ter convidado para estar sentado, acho que era três lugares ao lado dele, um dos cofundadores da Anthropic, o Chris Olah, que aliás falou na cerimónia. A Anthropic é a empresa que tem o Claude, que é uma das principais, possivelmente uma das melhores, um dos melhores mecanismos de inteligência artificial que existem. É um sinal, só para lembrar às pessoas, a Anthropic teve um violento conflito com a administração Trump, porque o Pentágono usava o Claude na sua preparação para ações de guerra e houve uma grande divergência, porque a Anthropic não queria que ele fosse utilizado de uma série de maneiras, que não fosse utilizado para vigilância interna, não fosse usado com uma autonomia total para tomar decisões de matar ou não matar e de ações militares. O Pentágono cortou com a Anthropic por causa disso. Foi um dos grandes símbolos desta grande questão moral, que é: é possível deixar à solta num teatro de guerra um exército comandado por inteligência artificial ou não? E a Anthropic disse não, e pagou e está a pagar um preço por isso. E este cofundador da Anthropic foi convidado pelo Papa, esteve ao lado do Papa e tudo isto foi anunciado como o começo de um diálogo entre a Igreja e a Anthropic, claro, com todos os outros, mas a Anthropic. E eu fiquei um bocadinho com a sensação de que cada vez mais o papado de Leão XIV pode vir a definir em relação a Trump. Da mesma forma que João Paulo II foi o grande contraponto ao Império Soviético. Eu bem sei que a encíclica fala de muitas outras coisas, eu já sei.
Erra justo.
Fala muito.
Até aí podes alinhar este argumento, porque também ele afronta as políticas de Trump.
Mas dá-me a ideia que realmente este vai ser um dos pilares deste papado e conscientemente, porque o papa ao fazer isto, faz isto conscientemente. Esta é a parte da baixa política.
Achas que isto é baixa política?
Quer dizer, é política. Mas há uma parte da encíclica que é absolutamente impressionante. O Papa alerta contra esta tentação de julgarmos que podemos ser super-homens, esta coisa nietzschiana que de vez em quando volta, em que nós usando a inteligência artificial podemos superar todas as debilidades da natureza humana. E ele tem duas frases em que diz: "Eliminar o sofrimento por completo significaria, no fim de contas, extinguir também o amor e o desejo. Aqueles que amam e desejam não podem evitar passar pela provação e pelo sofrimento." Isto não tem nada a ver com política, não tem nada a ver com opções políticas.
Pura verdade.
Tem a ver com a vidinha.
Não tem a ver com a vidinha, tem a ver com a condição humana.
E esta noção de que-
Por isso é que tu, quando se diz: "Epá, que filme extraordinário, que livro extraordinário." Por quê? Porque são livros que trataram os temas intemporais, os que tu acabaste de dizer: o amor, o sofrimento, a morte.
Sim, e esta ideia de que não é possível ser humano sem sofrer.
Boas e más.
De facto. E o sofrer não é o sofrer numa fábrica, nem é isso, ele nem está a falar disso. Está a fazer uma coisa que afeta quem é rico, quem é pobre, quem vem de um lado, quem vem do outro, que é sempre que existe amor e desejo, inevitavelmente vai haver sofrimento. Enfim, pronto, as pessoas já desligaram, não interessa.
Já se foi tudo deitar.
Já se foi tudo deitar.
Agora que entraste nessa deriva teológica, com a qual eu, aliás, estou inteiramente de acordo com a tua descrição.
Mas pronto, as cinco pessoas que nos estão a ouvir, e olá, mãe, obrigado por teres ficado até ao fim.
Olá, Zelina.
Sabem que nós voltamos na próxima quarta-feira, sabem que nos podem encontrar em todas as plataformas de podcast e sabem, acima de tudo, que nessas plataformas podem carregar naquela tecla mágica que permite receberem alertas sempre que nós dissermos alguma coisa de novo. Pode não ser original, pode não ser interessante, mas pelo menos novo. Vão lá ouvir. Sérgio, até para a semana.
Um abraço, obrigado.